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FILHO DA MãE

Hugo Gonçalves  

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Excerto

Em 2015, a minha avó materna entregou-me o testamento do meu avô dentro de um saco de plástico. Estávamos na cozinha de sua casa, onde tantas vezes almoçáramos em família, mas agora éramos apenas a viúva e o órfão que faziam a transferência das agruras e dos subterfúgios que passam de geração em geração.

Imaginei que a entrega daquela pasta com documentos era uma espécie de ritual de crescimento que, além de assinalar as mudanças recentes na minha vida — o regresso a Lisboa, após vários anos a morar no Brasil, e o fim do meu casamento —, impunha também uma constatação inadiável: com trinta e nove anos, eu passara o arco da existência em que já não fantasiamos exclusivamente com o futuro e somos compe­lidos a entender o passado.

Naquele gesto da avó Margarida, além do simbolismo que eu lhe atribuía, havia também algo de corriqueiro, como se eu fosse ainda a criança a quem ela mandava fazer recados. O alívio com que os seus dedos se soltaram do saco de plástico, tal como o cabelo despenteado e o copo da dentadura em cima da bancada da cozinha, fez-me suspeitar que ela nunca olhara sequer para os papéis. Com oitenta e um anos, tendo já passado pela morte do marido e de dois filhos, era possível que se atribuísse o direito de delegar nos mais novos os deveres burocráticos da família. Conheceu o meu avô quando tinha dezasseis anos. Em mais de seis décadas de vida em comum, descobriu-lhe uma amante de longa duração, falsificou a sua assinatura em cheques e empurrou-o numa cadeira de rodas. Mas agora o drama esgotara-se. E o que tinha de acontecer já acontecera. O avô Daniel tinha morrido três anos antes. Para a minha avó, não havia nenhum volte-face dentro daquele saco. Para mim, tão-pouco. Não esperava encontrar revelações, heranças ou pistas sobre um enigma genealógico. Ainda assim, sabia que a viagem de regresso ao dia 13 de março de 1985 começaria quando abrisse aquele saco de plástico.

Foi o que fiz hoje, um ano depois de o ter recebido. No interior, além do testamento, está a certidão de nascimento do meu tio Jorge, irmão mais novo da minha mãe, na qual consta que ele nasceu no primeiro dia de 1965. Há dois averbamentos a registar nesse papel:

1) O seu casamento, em 1990,

e:

2) «Faleceu em 25 de janeiro de 1997, na freguesia de Faro.»

Encontro ainda dentro do saco:

1) A escritura da casa onde vive a minha avó.

2) Em vez da caligrafia do meu avô, demasiado doente para escrever o seu nome no testamento, está uma impressão digital e a frase, escrita pela notária: «O testador disse não conseguir assinar.»

3) Fotocópias do cartão de cidadão — do meu, do meu irmão Pedro — onde alguém escreveu a lápis: «Netos (a mãe, filha do falecido, já faleceu).»

Nenhuma novidade, há mais de trinta anos que somos os filhos da «mãe que já faleceu».

Fico a saber que a minha avó nasceu na freguesia de Nevogilde, concelho do Porto, em 1934, e o meu avô na fre­guesia de Salir, concelho de Loulé, em 1930.

Mortes e nascimentos. A vida em papéis de cartório sem que se pos

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