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FEMINISMO PARA OS 99%

Tithi Bhattacharya   NANCY FRASER   CINZIA ARRUZZA  

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Excerto

UM MANIFESTO

Encruzilhada

Na Primavera de 2018, Sheryl Sandberg, directora de Operações do Facebook, anunciou ao mundo que «tudo seria muito melhor se metade dos países e empresas fossem dirigidos por mulheres e metade dos lares por homens» e que «não deveríamos descansar até atingirmos esse objectivo». Expoente máximo do feminismo empresarial, Sandberg já tinha ganhado fama (e fortuna) ao instigar mulheres em cargos de chefia a lean in[1] nas reuniões de administração. A ex-chefe de gabinete do secretário do Tesouro Larry Summers – o homem que desregulou Wall Street – não tinha quaisquer dúvidas em dizer às mulheres que o sucesso alcançado através de uma postura dura e firme no mundo dos negócios era a única via para a igualdade de género.

Nessa mesma Primavera, uma greve de militantes feministas parou Espanha. Os organizadores da «huelga feminista» de vinte e quatro horas, a que se juntaram mais de cinco milhões de manifestantes, exigiam «uma sociedade livre da opressão sexista, de exploração e violência […] uma revolta e luta contra a aliança do patriarcado e do capitalismo, que nos quer obedientes, submissas e caladas». Quando o Sol se pôs em Madrid e Barcelona, as feministas em greve anunciaram ao mundo que, «no dia 8 de Março, cruzaremos os braços, interrompendo toda a actividade produtiva e reprodutiva», declarando que «não aceitariam piores condições de trabalho nem salários inferiores aos dos homens pelo mesmo trabalho».

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Estas duas vozes representam caminhos opostos para o movimento feminista. Por um lado, Sandberg e a classe a que pertence enca­ram o feminismo como um servo do capitalismo. Pretendem um mundo onde a função de gestão da exploração no local de trabalho e da opressão social seja partilhado por homens e mulheres da classe dominante. Esta é uma visão extraordinária do domínio da igualdade de oportunidades: pedir a pessoas comuns que, em nome do feminismo, fiquem gratas pelo facto de ser uma mulher, e não um homem, a sabotar o seu sindicato, a dar ordem a um drone para lhes matar os pais, ou a decidir o aprisionamento dos filhos numa jaula na fronteira. Em claro contraste com o feminismo liberal de Sandberg, as organizadoras da «huelga feminista» insistem em acabar com o capitalismo: o sistema que gera o patrão e que fabrica fronteiras nacionais e os drones que as vigiam.

Confrontados com estas duas perspectivas do feminismo, encontramo-nos numa encruzilhada e a escolha que fizermos acarreta consequências extraordinárias para a humanidade. Um caminho conduz a um planeta esgotado onde a vida humana, se ainda for viável, está de tal forma empobrecida que se tornou irreconhecível. O outro aponta para um mundo presente desde sempre nos sonhos mais nobres da humanidade: um mundo justo, cuja riqueza e recursos naturais são partilhados por todos e onde igualdade e liberdade são premissas, não aspirações.

O contraste não podia ser mais acentuado. No entanto, o que torna hoje a escolha tão premente para nós, é a ausência de um meio-termo viável. Devemos esta carência de alternativas ao neoliberalismo, essa forma excepcionalmente predatória e financeirizada de capitalismo que imperou nos últimos quarenta anos. Depois de ter envenenado a atmosfera, de ter ridicularizado toda e qualquer pretensão de governo democrático, levado ao limite as nossas capacidades sociais e piorado, na generalidade, as condições de vida para a larga maioria, esta iteração do capitalismo subiu a parada para todas as lutas sociais, transformando sérios esforços em alcançar algumas reformas numa batalha campal pela sobrevivência. Na presença de tais condições, a neutralidade deixou de ser uma hipótese e as feministas têm de assumir uma posição. Deveremos continuar a perseguir «o domínio da igualdade de oportunidades» enquanto o planeta arde? Ou deveremos repensar a justiça de género num formato anticapitalista, que nos ajude a atravessar a crise actual em direcção a uma nova sociedade?

Este Manifesto é um guia para esta segunda via, uma jornada que encaramos tão necessária quando exequível. Um feminismo anticapitalista é hoje concebível em parte devido ao colapso da credibilidade das elites políticas em todo o mundo. As baixas incluem não apenas os partidos de centro-esquerda e de centro-direita que promoveram o neoliberalismo – e que são, hoje, tristes sombras de si mesmos – mas também os seus aliados do feminismo empresarial ao estilo de Sandberg, cujo verniz «progressista» perdeu o brilho. O f ...