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FELICIDADE

João Tordo  

4


Excerto

A vida começou com Felicidade. Embora as três frequentassem a mesma turma e fossem em tudo idênticas (as mesmas roupas, o mesmo corte de cabelo, a mesma distância que mantinham dos outros), eu sentia-me atraído pela irmã que andava sempre no meio, encaixada entre as outras duas, uma espécie de líder daquela pequena seita. Felicidade caminhava com a leveza de uma nuvem e a segurança de um pêndulo. Havia um sorriso quase permanente nos seus lábios — não de troça, mas de bonomia —, nos seus olhos castanho-mel (grandes, redondos) reflectia-se um universo a que eu aspirava. Cheirava a limão; sempre que passava por mim, eu inspirava com mais força, para reter o seu perfume.

As trigémeas eram inseparáveis. Caminhavam com os livros apertados contra o peito, usavam saias axadrezadas pelo joelho, casacos de malha da mesma cor, camisas brancas, cada uma com uma gravata diferente, que a mãe as obrigava a usar; por vezes, uma ou duas usavam bandolete, o que tornava a destrinça mais confusa. Qual delas era Esperança, qual era Angélica? Conspirava-se nos corredores do Liceu Passos Manuel sobre o que as distinguia. Os rapazes, nas suas infindáveis tricas e obsessões sexuais, diziam que, embora Felicidade fosse (ou parecesse) a mais madura, na realidade, era Angélica a mais desenvolvida sexualmente. Diziam que se masturbava furiosamente, que dentro das suas cuecas de adolescente habitava um monstro insaciável.

Um dos rapazes, António, clamava ter beijado Angélica nas traseiras da escola, perto do ginásio, encostados a um muro esfarelado onde habitava uma única e comprida salamandra, amarela e preta, que mostrava as suas cores nos meses de calor. Enfiei-lhe a mão debaixo da saia, jurava António, estava toda molhada. Cedo as trigémeas entraram no universo popular das coisas proibidas, dos objectos de desejo. Não se tratava apenas de serem iguais, eram as três de altura superior à média das raparigas portuguesas desse tempo (um metro e setenta) e, sendo um triunvirato, infundiam receio nos rapazes e ciúmes nas raparigas. Quem se metia com uma, metia-se com todas, parecia ser essa a mensagem que passavam, sempre que, unidas nos corredores ou nas salas de aula, observavam atentamente todos os gestos alheios e tentativas de corrupção da sua sólida irmandade.

Uma vez, na cantina da escola, assisti à humilhação pública de um aluno às mãos delas. Enquanto aguardávamos na fila pela nossa dose diária de pratos transbordando de comida, um dos rapazes do décimo ou do décimo primeiro atreveu-se a beliscar o rabo de Angélica. Em que ano estaríamos? Não tenho a certeza; talvez tivéssemos quinze anos, por aí. Sei quem foi o corajoso, recordo muito bem o seu nome: Júlio Faisão. O Faisão, como era conhecido no liceu, era um repetente crónico, e não me admirava que, na tarde em que se atreveu a tocar numa das irmãs, já tivesse vinte anos ou mais. Houve um burburinho de comoção, uns gritos, uns quantos insultos educados e, depois, assisti a Felicidade dar um passo à esquerda, separando-se da fila de alunos que aguardava o repasto, e pregar uma sonora estalada no rosto de Faisão, que era dos rapazes mais altos do liceu. Caiu um silêncio brutal na cantina, até as próprias contínuas que serviam as refeições fizeram uma pausa no serviço. A única coisa que importava, naquele instante, era o rosto vermelho do rapaz e o olhar desafiador de Felicidade.

Envergonhado, tomado de raiva, Júlio atreveu-se a chamar-lhe um palavrão que, por uma questão de decoro, não reproduzirei aqui. E foi então que o repetente sofreu o ataque concertado das trigémeas, foi nesse instante que compreendeu o poder do triunvirato: embora magrinhas e aparentemente inofensivas, quando agiam juntas eram um ciclone que devorava tudo à sua passagem. Angélica, a ofendida, pontapeou, sem piedade, a canela de Faisão, que ficou a saltar ao pé-coxinho; Esperança empurrou-o com força; e Felicidade deitou a mão ao cabelo do repetente caído no chão e puxou-o com tal ímpeto, que Faisão nada mais pôde fazer senão agarrá-lo para que a rapariga não o arrancasse com o poder da sua fúria.

Na cantina, todos explodiram a rir. Não porque a cena fosse particularmente cómica, mas porque Faisão, ao longo dos anos que perdurava no Passos Manuel, construíra uma reputação infeliz e fizera muitos inimigos; era um brutamontes de quem poucos gostavam, tratava mal os miúdos mais novos, ofendia as raparigas e destruía o amor-próprio dos professores com as suas atitudes consistentemente desagradáveis e provocadoras. Nesse dia, o director da escola foi chamado de urgência à cantina e, de portas fechadas no seu gabinete, selou o destino de Júlio Faisão na presença das trigémeas. Saíram vitoriosas: foi decidido que, ao apalpar Angélica (o rapaz era tão burro, que nem sequer negou essa acusação, vangloriando-se do gesto), ultrapassara a fronteira da decência e dos bons costumes, e foi expulso da escola por mau comportamento reincidente.

Lembro-me muito bem desses últimos anos no Passos Manuel. Embora Faisão já não pertencesse ao liceu, continuou a rondar o edifício, e era costume encontrá-lo pela manhã, de fato de treino e ténis, a fumar cigarros, sentado nas escadas da Igreja da Nossa Senhora de Jesus, observando a chegada dos alunos, a cumprimentar os poucos que reconheciam a sua presença. Por vezes, creio que passava o dia inteiro nas escadas, a contemplar o infinito ou encalhado nos becos sem saída da sua cabeça, provavelmente, à espera de um futuro que não havia maneira de chegar.

Uma tarde, correu no liceu o boato de que Faisão ia vingar-se das trigémeas, que ia fazer-lhes uma espera e, com a famosa navalha com que marcara muitas das carteiras de madeira da escola, ameaçá-las de morte por terem feito o director expulsá-lo. Quando a hora chegou, uma pequena multidão acercou-se do portão. Toda a gente queria assistir àquele momento que prometia ser épico. As irmãs saíram da última aula e, por entre os alunos, abriu-se um caminho, o espaço necessário para que as três caminhassem à vontade. Felicidade ia ao meio, como sempre. Nunca se chegou a saber se, de facto, Faisão tinha montado aquele plano ou se fora apenas boato de um aluno maldoso. O facto é que, quando a hora chegou, Júlio desceu as escadas da igreja e, com as mãos enfiadas bem fundo nos bolsos das calças, foi plantar-se à saída da escola, a cabeça baixa, os olhos pregados nos ténis. Talvez o boato tivesse chegado até ele, e Faisão não era homem de recuar perante um desafio.

Eu estava encostado ao portão, perto do Sr. Américo, o contínuo responsável por vigiar as entradas e saídas e zelar pela abertura e pelo encerramento da escola. Não pude deixar de admirar a figura de Faisão, cujo famoso pénis (dizia-se que era um colosso) formava um respeitoso monte na parte fronteira das calças de nylon. Quando as três irmãs saíram da escola e avistaram Júlio, o passo das raparigas abrandou. Por essa altura, já se formara atrás delas uma considerável audiência. Ainda vi o director da escola correr na nossa direcção — provavelmente, alertado, demasiado tarde, de que ia haver sarilho —, mas a sua intervenção não foi necessária. Quando todos pensavam que o ex-aluno ia sacar da navalha e ameaçar as raparigas, elas retomaram o passo e passaram por ele como uma brisa, seguindo o seu caminho, nenhuma das três prestando mais atenção a Faisão do que a uma pedra da calçada fora do lugar. E ele ficou imóvel, as mãos afundadas nos bolsos, o rosto a enrubescer de incredulidade, como se existisse algum poder mágico naquelas três rapar

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