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EU SEREI A úLTIMA

Nadia Murad  

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Excerto

Prefácio

Nadia Murad não é só minha cliente, é também minha amiga. Quando fomos apresentadas, em Londres, perguntou-me se queria trabalhar como sua advogada. Explicou que não poderia oferecer fundos; que, provavelmente, o caso seria longo e sem sucesso. Mas, antes de decidir, pediu-me: ouça a minha história.

Em 2014, o ISIS atacou a aldeia de Nadia no Iraque, e a sua vida como estudante de 21 anos foi destruída. Depois de ser obrigada a ver a mãe e os irmãos serem conduzidos para a morte, a própria Nadia foi passada de um combatente do ISIS para o outro. Foi obrigada a rezar; obrigada a vestir-se e a maquilhar-se como preparação para a sua violação; e, uma noite, foi brutalmente abusada por um grupo de homens até ficar inconsciente. Mostrou-me as cicatrizes das queimaduras de cigarros e dos espancamentos. E disse-me que, ao longo das suas provações, os militantes do ISIS lhe chamavam «infiel suja» e se gabavam de estar a conquistar as mulheres yazidis e a varrer a sua religião da face da Terra.

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Nadia foi uma entre as milhares de yazidis que foram levadas pelo ISIS e vendidas em mercados e através do Facebook, por vezes por quantias tão irrisórias como vinte dólares. A mãe de Nadia foi uma das oitenta mulheres mais velhas que foram executadas e enterradas em sepulturas anónimas. Seis dos seus irmãos estavam entre as centenas de homens assassinados num único dia.

Aquilo que Nadia me estava a narrar era um genocídio. E um genocídio não acontece por acidente. Tem de ser planeado. Antes de o genocídio começar, o Departamento de Investigação e Fatwa do ISIS estudou os yazidis e concluiu que, como grupo falante de curdo que não possuía um livro sagrado, estes constituíam um grupo de não crentes cuja escravização era «um aspecto firmemente estabelecido da sharia». É por essa razão, de acordo com a distorcida moralidade do ISIS, que as yazidis — ao contrário de cristãs, xiitas e outras — podem ser sistematicamente violadas. De facto, esta era uma das formas mais eficazes de as destruir.

O que se seguiu foi o estabelecimento de uma burocracia do mal que atingiu escala industrial. O ISIS chegou ao ponto de publicar um panfleto intitulado «Perguntas e Respostas Sobre a Tomada de Prisioneiras e Escravas» para fornecer as suas linhas orientadoras. «Pergunta: É permitido ter relações sexuais com uma escrava que ainda não atingiu a puberdade? Resposta: É permitido ter relações sexuais com a escrava que não atingiu a puberdade se ela for adequada para o coito. Pergunta: É permitido vender uma prisioneira? Resposta: É permitido comprar, vender ou oferecer prisioneiras e escravas, pois elas são mera propriedade.»

Quando Nadia me contou, em Londres, a sua história, passavam quase dois anos desde o início do genocídio do ISIS contra os yazidis. Milhares de mulheres e crianças yazidis continuavam aprisionadas pelo ISIS, mas nenhum membro da organização fora julgado em tribunal, em nenhuma parte do mundo, por estes crimes. As provas iam sendo perdidas ou destruídas. E as perspectivas de justiça pareciam débeis.

Aceitei o caso, claro. E Nadia e eu passámos mais de um ano juntas numa campanha pela justiça. Reunimo-nos repetidamente com o Governo iraquiano, representantes das Nações Unidas, membros do Conselho de Segurança e vítimas do ISIS. Preparei relatórios, esbocei propostas e análises legais e fiz discursos a apelar à acção da ONU. A maior parte dos nossos interlocutores dizia-nos que isso seria impossível: havia anos que o Conselho de Segurança não tomava medidas em termos de justiça internacional.

Mas, no momento em que estou a escrever este Prefácio, o Conselho de Segurança das Nações Unidas adoptou uma resolução pioneira, criando uma equipa de investigação com o objectivo de reunir provas dos crimes cometidos pelo ISIS no Iraque. Esta é uma importante vitória para Nadia e para todas as vítimas do ISIS, porque significa que as provas serão preservadas e que os membros individuais do ISIS poderão ser levados a tribunal. Estava sentada ao lado de Nadia no Conselho de Segurança quando a resolução foi adoptada por unanimidade. E, quando vimos aquelas quinze mãos no ar, uma de cada estado membro, Nadia e eu olhámos uma para a outra e sorrimos.

Como advogada dos Direitos Humanos, o meu trabalho envolve com frequência ser a voz dos que foram silenciados: o jornalista atrás das grades; a vítima de crimes de guerra a lutar para que eles sejam levados a tribunal. Não há dúvidas de que o ISIS tentou silenciar Nadia, quando a raptou e escravizou, violou e torturou, quando matou sete membros da sua família num único dia.

Mas Nadia recusou-se a ficar calada. Desafiou todos os rótulos que a vida lhe oferecera: Órfã. Vítima de Violação. Escrava. Refugiada. E criou, no seu lugar, outros novos: Sobrevivente. Líder Yazidi. Defensora das Mulheres. Nomeada para Prémio Nobel da Paz. Embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas. E, agora, Autora.

Ao longo do tempo, Nadia não só encontrou a sua própria voz como se tornou a voz de todos os yazidis que são vítimas de genocídio, de todas as mulheres que são vítimas de abusos, de todos os refugiados que são deixados para trás.

Os que pensaram que a podiam calar com a sua crueldade estavam enganados. O ânimo de Nadia Murad não foi quebrado e a sua voz não será emudecida. Pelo contrário, com este livro, a sua voz está mais alta do que nunca.

Amal Clooney

Advogada

Setembro de 2017

PARTE I

Capítulo 1

No início do Verão de 2014, estava atarefada a preparar-me para o meu último ano no ensino secundário, quando desapareceram dois agricultores das suas terras mesmo às portas de Kocho, a pequena aldeia yazidi no Norte do Iraque onde nasci e onde, até recentemente, pensava que iria viver o resto da vida. De um momento para o outro, os homens, que descansavam pacificamente à sombra de uns velhos oleados improvisados, viram-se presos num pequeno quarto de uma aldeia vizinha, habitada maioritariamente por árabes sunitas. Além de levarem os agricultores, os sequestradores roubaram também uma galinha e vários pintos, o que nos confundiu.

— Talvez estivessem apenas com fome — comentámos, embora isso não bastasse para nos acalmar.

Kocho é, desde que me conheço, uma aldeia yazidi, fundada por agricultores nómadas e pastores que chegaram ao meio do nada e decidiram construir casas para proteger as suas esposas do calor desértico enquanto andavam com as ovelhas em busca de melhores pastos. Escolheram uma terra que seria boa para a agricultura, mas com uma localização arriscada, no extremo sul da região iraquiana de Sinjar, onde vive a maior parte dos yazidis do país e muito perto do Iraque não yazidi. Quando chegaram as primeiras famílias yazidi, em meados da década de 1950, Kocho era habitada por agricultores árabes sunitas que trabalhavam para proprietários de Mossul. Mas essas famílias yazidi tinham contratado um advogado para comprar as terras — o advogado, ele próprio muçulmano, ainda é considerado um herói — e, por altura do meu nascimento, já Kocho tinha cerca de duzentas famílias, todas yazidi, tão próximas como se fôssemos uma única grande família, e éramos quase.

A terra que nos tornava especiais também nos tornava vulneráveis. Há séculos que nós, yazidis, somos perseguidos por causa das nossas crenças religiosas, e, comparada com a maior parte das nossas cidades e aldeias, Kocho fica distante do Monte Sinjar, a montanha alta e estreita que nos tem abrigado ao longo de várias gerações. Há muito tempo que somos empurrados entre as forças rivais dos sunitas árabes e dos sunitas curdos; exigem-nos que reneguemos a nossa herança yazidi e nos conformemos à identidade curda ou árabe. Até 2013, ano em que a estrada entre Kocho e a montanha foi finalmente pavimentada, a nossa carrinha Datsun branca levava quase uma hora a percorrer as estradas poeirentas até à cidade de Sinjar, no sopé da montanha. Cresci mais perto da Síria do que dos nossos templos sagrados, mais perto de estranhos do que da segurança.

As viagens para a montanha eram momentos de alegria. Em Sinjar havia doces e uma sanduíche especial de cordeiro que não temos em Kocho, e o meu pai quase sempre parava para comprarmos o que quiséssemos. A nossa carrinha erguia nuvens de pó pelo caminho, mas sempre preferi viajar ao ar livre. Deitava-me no fundo da caixa aberta até sairmos da aldeia e ficarmos a salvo dos olhares dos vizinhos, altura em que me levantava para sentir o vento a vergastar-me o cabelo e ver os rebanhos que pastavam à beira da estrada. Entusiasmava-me facilmente, ficava cada vez mais tempo de pé na caixa da carrinha até o meu pai ou o meu irmão mais velho, Elias, me gritarem que, se não tivesse cuidado, sairia a voar por um dos lados.

Na direcção oposta, longe daquelas sanduíches de cordeiro e do conforto da montanha, estava o resto do Iraque. Em tempo de paz, e se não tinha pressa, um mercador yazidi demorava quinze minutos de carro para ir de Kocho à aldeia sunita mais próxima vender cereais ou leite. Tínhamos amigos nessas aldeias: raparigas que conhecera em casamentos, professores que dormiam na escola de Kocho durante o período lectivo, homens que eram convidados a segurar no colo os nosso bebés durante o ritual da circuncisão e que ficavam, a partir daí, ligados a essa família yazidi como kiriv, qualquer coisa como um padrinho. Médicos muçulmanos vinham até Kocho ou à cidade de Sinjar para nos tratar quando estávamos doentes, e havia mercadores muçulmanos pela cidade a vender vestidos e doces, coisas que não conseguíamos encontrar nas poucas lojas de Kocho, que ofereciam apenas os artigos mais básicos. Quando eu era pequena, os meus irmãos costumavam viajar até aldeias não yazidi para ganharem algum dinheiro com trabalhos esporádicos. As relações evidenciavam o peso de séculos de desconfiança — era difícil não nos sentirmos mal quando um convidado muçulmano num casamento se recusava a comer a nossa comida, por mais delicadamente que o fizesse — mas, ainda assim, havia amizade genuína. Eram ligações criadas ao longo de muitas gerações, passando pelo controlo otomano, a colonização britânica, Saddam Hussein e a ocupação americana. Em Kocho, éramos conhecidos pela nossa relação próxima com as aldeias sunitas.

Mas quando havia guerra no Iraque, e parecia haver sempre guerra no Iraque, aquelas aldeias pareciam agigantar-se sobre nós, o pequeno vizinho yazidi, e o velho preconceito endurecia facilmente ao ponto de se transformar em ódio. Muitas vezes, com esse ódio vinha a violência. Ao longo dos últimos dez anos, pelo menos, desde que os iraquianos foram empurrados para a guerra com os americanos, que começou em 2003 e que depois resvalou para conflitos locais ainda mais perversos até acabar em pleno terrorismo, a distância entre os nossos lares tornou-se enorme. Aldeias vizinhas começaram a dar abrigo a terroristas que denunciavam cristãos e muçulmanos não sunitas e, ainda pior, que consideravam os yazidis kuffar, infiéis merecedores da morte (kafir, no singular). Em 2007, alguns desses extremistas levaram um camião-cisterna e três carros para os centros apinhados de duas cidades yazidi, uns quinze quilómetros a noroeste de Kocho, e fizeram explodir os veículos, matando centenas de pessoas que tinham corrido na sua direcção, muitos a pensar que traziam produtos para vender no mercado.

O Yazidismo é uma antiga religião monoteísta, transmitida oralmente por homens santos a quem foram confiadas as nossas histórias. Embora tenha elementos comuns com as muitas religiões do Médio Oriente, desde o Mitraísmo e o Zoroastrianismo até ao Islamismo e o Judaísmo, é, na verdade, uma religião única, que até os homens santos que memorizam as nossas histórias têm dificuldade em explicar. Penso na minha religião como se fosse uma árvore antiga com milhares de anéis, cada um a contar uma história no longo percurso dos yazidis. Muitas dessas histórias, infelizmente, são tragédias.

Hoje em dia, há apenas um milhão de yazidis no mundo. Desde que me conheço — e sei que também muito antes de eu nascer — a nossa religião tem sido o que nos define e o que nos mantém unidos como comunidade. Mas também nos tem tornado alvo de perseguição por parte parte de grupos maiores, desde os otomanos aos baathistas de Saddam, que nos atacavam ou nos obrigavam a jurar-lhes lealdade. Denegriram a nossa religião, chamaram-nos adoradores do Diabo, sujos, e exigiram que renunciássemos à nossa fé. Os yazidis têm sobrevivido a gerações de ataques com o objectivo de nos dizimar; matavam-nos, obrigavam-nos a converter ou simplesmente expulsavam-nos da nossa terra e ficavam com tudo o que possuíamos. Antes de 2014, já tínhamos sofrido setenta e três tentativas de destruição por parte de poderes externos. Costumávamos chamar firman, uma palavra otomana, aos ataques contra yazidis, antes de aprendermos a palavra genocídio.

Quando ouvimos falar do pedido de resgate pelos dois agricultores, toda a aldeia entrou em pânico. «Quarenta mil dólares», disseram os sequestradores às mulheres dos agricultores, por telefone. «Ou venham para cá com os vossos filhos para se converterem ao Islão como família.» Caso contrário, disseram, os homens seriam mortos. Não foi o dinheiro que levou as esposas a romperem em lágrimas na frente do nosso mukhtar, ou líder da aldeia, Ahmed Jasso; quarenta mil dólares era uma soma do outro mundo, mas era apenas dinheiro. Todos sabíamos que os agricultores preferiam morrer a converter-se, por isso os aldeões choraram de alívio quando, uma noite, os homens escaparam por uma janela partida, fugiram pelos campos de cevada e apareceram em casa, vivos, com terra até aos joelhos e ofegantes de medo. Mas os raptos não pararam.

Pouco tempo depois, Dishan, um homem que trabalhava para a minha família, os Tahas, foi raptado de um campo perto do Monte Sinjar, onde estava a guardar as nossas ovelhas. A minha mãe e os meus irmãos levaram anos a comprar e a cruzar os nossos animais, cada um deles era uma vitória. Orgulhávamo-nos das nossas ovelhas, guardávamo-las no pátio da nossa casa quando não andavam a vaguear pela aldeia, tratávamo-las quase como animais de estimação. A tosquia anual era uma celebração. Eu adorava o ritual, a maneira como a lã macia caía no chão, como pilhas de nuvens, o cheiro almiscarado que tomava conta da casa, os balidos baixos e passivos das ovelhas. Adorava dormir debaixo dos grossos edredons que a minha mãe, Shami, fazia com a lã, enfiando-a entre peças de tecido colorido. Por vezes apegava-me de tal maneira a uma ovelha que tinha de sair de casa quando chegava a altura de abatê-la. Quando Dishan foi raptado, tínhamos mais de uma centena de ovelhas — para nós, uma pequena fortuna.

Lembrando-se da galinha e dos pintos roubados por altura do rapto dos agricultores, o meu irmão Saeed precipitou-se para a carrinha da família e dirigiu-se ao sopé do Monte Sinjar, a uns vinte minutos de distância, agora que a estrada estava pavimentada, para ver o que tinha acontecido às ovelhas.

— Levaram-nas, de certeza — lamentámo-nos. — Aquelas ovelhas eram tudo o que tínhamos.

Mais tarde, quando Saeed ligou à minha mãe, soava confuso.

— Só levaram duas — relatou, um velho carneiro lento e uma pequena borrega. As restantes estavam a pastar alegremente na erva verde-acastanhada e seguiram o meu irmão de volta a casa. Rimo-nos todos e ficámos muito aliviados. Mas Elias, o meu irmão mais velho, estava preocupado.

— Não percebo — disse. — Aqueles aldeões não são ricos. Porque deixaram as ovelhas para trás? — Ele pensava que isso tinha que ter algum significado.

No dia a seguir ao rapto de Dishan, Kocho estava um caos. Os aldeões juntavam-se à porta de casa e, juntamente com os homens que se revezavam no novo posto de controlo à entrada das muralhas da nossa aldeia, vigiavam todos os carros desconhecidos que passassem por Kocho. Hezni, um dos meus irmãos, regressou a casa do trabalho, era polícia em Sinjar, e juntou-se aos outros homens da aldeia que discutiam ruidosamente o que fazer. O tio de Dishan queria vingança e decidiu liderar uma missão a uma aldeia a leste que Kocho, liderada por uma conservadora tribo sunita.

— Vamos capturar dois dos pastores deles — declarou, enraivecido. — Assim vão ter de nos devolver Dishan!

Era um plano arriscado e nem toda a gente apoiava o tio de Dishan. Até os meus irmãos, que tinham herdado do nosso pai a coragem e a prontidão para a luta, estavam divididos quanto ao que fazer. Saeed, que era apenas um par de anos mais velho do que eu, passava muito do seu tempo a fantasiar com o dia em que provaria finalmente o seu heroísmo. Era a favor da vingança, enquanto Hezni, mais de uma década mais velho e o mais empático de todos nós, achava que era demasiado perigoso. Mesmo assim, o tio de Dishan levou todos os aliados que conseguiu reunir, raptou dois pastores árabes sunitas, levou-os para Kocho, fechou-os em casa e esperou.

A maior parte das disputas entre aldeias era resolvida por Ahmed Jasso, o prático e diplomático mukhtar, que alinhava com a opinião de Hezni.

— A nossa relação com os vizinhos sunitas já é complicada — disse ele. — Quem sabe o que irão fazer se tentarmos lutar com eles. — Além disso, avisava, a situação fora de Kocho era muito pior e muito mais complicada do que imaginávamos. Um grupo que se autodenominava Estado Islâmico, ou ISIS, que nascera sobretudo ali, no Iraque, e crescera ao longo dos últimos anos na Síria, ocupara outras aldeias tão perto de nós que conseguíamos ver as suas figuras vestidas de negro quando passavam nas carrinhas. Eram os responsáveis pelo rapto dos nossos pastores, disse-nos o mukhtar. — Só vão piorar as coisas — disse Ahmed Jasso ao tio de Dishan. E ainda mal tinha passado meio dia desde que os pastores sunitas tinham sido raptados quando os libertaram. Dishan, porém, continuou preso.

Ahmed Jasso era um homem inteligente, a família Jasso tinha décadas de experiência na negociação com as tribos árabes sunitas. Era a eles que toda a gente na aldeia recorria com os seus problemas e, mesmo fora de Kocho, eram conhecidos como diplomatas hábeis. Mesmo assim, alguns de nós perguntávamo-nos se, desta vez, Ahmed Jasso não estaria a ser demasiado cooperante, se não estaria a enviar aos terroristas a mensagem de que os yazidis não se protegiam. Nessa altura, a única coisa que se interpunha entre nós e o ISIS eram os combatentes curdos iraquianos, os chamados peshmergas, que tinham sido enviados da região autónoma curda para proteger Kocho quando Mossul caiu, quase dois meses antes. Tratámos os peshmergas como honoráveis visitantes. Dormiam sobre paletes na nossa escola e, todas as semanas, uma família diferente matava um cordeiro para os alimentar, um enorme sacrifício para os pobres aldeões. Eu também os admirava. Ouvira falar de mulheres curdas da Síria e da Turquia que lutavam contra os terroristas e andavam armadas, e a ideia fazia-me sentir corajosa.

Algumas pessoas, incluindo alguns dos meus irmãos, pensavam que deveríamos poder proteger-nos. Queriam criar postos de controlo e o irmão de Ahmed Jasso tentou convencer as autoridades curdas a deixá-lo formar uma unidade peshmerga yazidi, mas foi ignorado. Ninguém se ofereceu para treinar os homens yazidis nem os encorajou a juntarem-se à luta contra os terroristas. Os peshmergas garantiram-nos que, enquanto ali estivessem, não tínhamos que nos preocupar, e que estavam tão decididos a proteger os yazidis como a proteger a capital do Curdistão iraquiano. «Mais depressa deixamos cair Erbil do que Sinjar», diziam. Disseram-nos para confiar neles, e foi o que fizemos.

Mesmo assim, a maior parte das famílias em Kocho mantinha armas em casa — as débeis Kalashnikov, um ou dois facalhões usados normalmente para matar os animais nas festividades. A maior parte dos homens yazidis, incluindo os meus irmãos com idade suficiente para isso, tinham trabalhado nas patrulhas de fronteira ou na polícia após 2003, quando houve vagas, e nós tínhamos a certeza de que, desde que os profissionais vigiassem as fronteiras de Kocho, os nossos homens conseguiriam proteger as suas famílias. Afinal de contas, foram esses homens, não os peshmergas, que construíram com as próprias mãos uma barreira de terra em volta da aldeia, depois dos ataques de 2007, e foram os homens de Kocho que patrulharam essa barreira dia e noite durante um ano inteiro, detendo os carros em postos de controlo improvisados e vigiando os desconhecidos, até nos sentirmos suficientemente seguros para voltar à vida normal.

O rapto de Dishan deixou-nos a todos em pânico. Mas os peshmergas não fizeram nada para ajudar. Talvez julgassem que se tratava apenas de uma pequena questiúncula entre aldeias, não a razão por que Masoud Barzani, o presidente do Governo Regional curdo, os fizera sair da segurança do Curdistão para as áreas desprotegidas do Iraque. Talvez estivessem tão assustados como nós. Alguns dos soldados pareciam não ser muito mais velhos do que Saeed, o filho mais novo da minha mãe. Mas a guerra mudava as pessoas, em especial os homens. Não muito tempo antes, Saeed ainda brincava comigo e com a nossa sobrinha, Kathrine, no pátio, sem idade para saber que não era suposto os rapazes gostarem de bonecas. Mais tarde, porém, Saeed ficou obcecado pela violência que varria o Iraque e a Síria. Um dia, apanhei-o a ver vídeos de decapitações feitas pelo ISIS no telemóvel, as imagens a tremer na sua mão, e fiquei surpreendida quando ele ergueu o telefone para me deixar ver também. Quando o nosso irmão Massoud entrou na sala, ficou furioso.

— Como permites que a Nadia veja isso! — Gritou a Saeed, que se encolheu. Pediu desculpa, mas eu compreendi. Era difícil virar as costas às cenas macabras que se desenrolavam tão perto da nossa casa.

A imagem desse vídeo voltou-me à cabeça quando pensei no pobre do nosso pastor no cativeiro. Se os peshmergas não nos ajudam a recuperar Dishan, vou ter de fazer alguma coisa, pensei, e corri para a nossa casa. Era a bebé da família, a mais nova de onze filhos, e era uma rapariga. Mesmo assim, não tinha papas na língua e costumava ser ouvida, senti-me gigante na minha fúria.

A nossa casa ficava perto do extremo norte da aldeia; uma fileira de divisões térreas de tijolo de barro, alinhadas como contas de um colar e ligadas por umbrais sem portas, todas viradas para um grande pátio com uma horta, um forno de pão chamado tandoor e, muitas vezes, ovelhas e galinhas. Eu vivia ali com a minha mãe, seis dos meus oito irmãos e duas irmãs, mais duas cunhadas e os filhos deles, a pouca distância dos meus outros irmãos, meios-irmãos e irmãs, e da maior parte dos meus tios, tias e primos. O telhado deixava entrar água quando chovia no Inverno e o interior podia ser como um forno no Verão iraquiano, obrigando-nos a subir as escadas para o telhado para conseguirmos dormir. Quando uma parte do telhado desabou, remendámo-lo com pedaços de metal que tínhamos encontrado na oficina mecânica de Massoud, e quando precisávamos de mais espaço, construíamo-lo. Estávamos a poupar dinheiro para uma nova casa, mais permanente, feita de blocos de cimento, e estávamos mais perto a cada dia que passava.

Entrei em casa pela porta principal e corri para um quarto que partilhava com as outras raparigas onde havia um espelho. Enrolando um lenço pálido à volta da cabeça, que costumava usar para impedir que o cabelo me viesse para a cara quando me debruçava sobre as fileiras de legumes, tentei imaginar o que faria um combatente para se preparar para a batalha. Anos de trabalho na quinta tornaram-me mais forte do que a minha aparência poderia sugerir. Ainda assim, não fazia ideia do que faria se visse os raptores, ou se aparecessem em Kocho outras pessoas da sua aldeia. O que lhes diria? «Os terroristas capturaram o nosso pastor e foram para a vossa aldeia», ensaiei, de sobrolho franzido. «Deviam tê-los impedido. Pelo menos podem dizer-nos para onde o levaram.» Peguei num bordão de madeira, como os usados pelos pastores, que estava no canto do pátio, e dirigi-me de novo para a porta onde alguns dos meus irmãos estavam embrenhados numa conversa com a minha mãe. Mal repararam quando me juntei a eles.

Alguns minutos mais tarde, apareceu ao fundo da estrada principal uma carrinha branca da aldeia dos raptores, com dois homens à frente e outros dois atrás. Eram árabes que eu conhecia vagamente, da tribo sunita que levara Dishan. Ficámos a ver a carrinha descer a estrada de terra que serpenteava pela aldeia, devagar, como se não tivessem medo nenhum. Não tinham qualquer razão para passar por Kocho — havia estradas em volta da aldeia que ligavam cidades como Sinjar e Mossul — e a sua presença parecia uma provocação. Afastando-me da minha família, corri para o meio da estrada e parei na frente da carrinha.

— Parem! — Gritei, a acenar com o bordão por cima da cabeça, a tentar parecer maior. — Digam-nos onde está Dishan!

Foi preciso metade da minha família para me deter.

— O que pensaste que ias fazer? — Repreendeu-me Elias. — Atacá-los? Partir-lhes o pára-brisas? — Ele e alguns dos meus outros irmãos tinham acabado de chegar dos campos, estavam exaustos e a feder a cebolas que tinham estado a colher. Para eles, a minha tentativa de vingar Dishan não passava de uma explosão infantil. A minha mãe também ficou furiosa por eu ter corrido para a estrada. Em circunstâncias normais, costumava tolerar o meu temperamento, até se divertia com ele, mas por aqueles dias toda a gente andava nervosa. Parecia perigoso atrair as atenções, sobretudo uma jovem mulher, solteira.

— Vem para aqui e senta-te — disse ela severamente. — É uma vergonha fazeres isso, Nadia, não é da tua conta. Os homens tratam do assunto.

A vida continuou. Os iraquianos e, em particular, os yazidis e outras minorias, são bons a ajustar-se a novas ameaças. Não há outra hipótese, quando se quer tentar viver algo parecido com uma vida normal num país que parece estar a desmoronar-se. Por vezes, os ajustes eram relativamente pequenos. Reduzíamos os nossos sonhos — terminar a escola, desistir do trabalho agrícola e fazer outra coisa menos desgastante, um casamento na altura certa — e não era difícil convencermo-nos de que, de qualquer forma, aqueles sonhos sempre foram inatingíveis. Por vezes os ajustes aconteciam gradualmente, sem ninguém reparar. Deixávamos de falar com os alunos muçulmanos na escola, ou recolhíamos a casa com receio se um desconhecido entrava na aldeia. Víamos as notícias de ataques na televisão e começávamos a preocupar-nos mais com a política. Ou excluíamos a política por completo, sentindo que era mais seguro ficar em silêncio. Depois de cada ataque, os homens aumentavam a barreira de terra às portas de Kocho, começando pelo lado oriental, virado para a Síria, até que um dia acordámos e vimos que nos rodeava por completo. Depois, como ainda nos sentíamos inseguros, os homens cavaram também um fosso em volta da aldeia.

Habituámo-nos, ao longo de gerações, a suportar cada pequena dor ou injustiça até se tornar suficientemente normal para ser ignorada. Imagino ser por isso que nos habituámos a insultos, como o de ver a nossa comida ser recusada, coisas que provavelmente seriam sentidas como um crime para quem reparasse nelas pela primeira vez. Até a ameaça de outro firman era algo a que os yazidis se tinham habituado, embora esse ajuste fosse mais como uma contorção. Doía.

Com Dishan ainda prisioneiro, regressei com os meus irmãos aos campos de cebolas. Ali, nada tinha mudado. Os legumes que plantáramos meses antes estavam agora crescidos; se não os colhêssemos, ninguém o faria. Se não os vendêssemos, não teríamos dinheiro. Por isso, ajoelhámo-nos todos em fila, junto aos emaranhados de rebentos verdes, a puxar os bolbos da terra e a juntá-los em cestos de plástico entrançado onde ficavam a amadurecer até chegar a altura de levá-los para o mercado. Levamo-los às aldeias muçulmanas, este ano? perguntávamo-nos, mas não sabíamos responder. Quando um de nós arrancava a massa preta e malcheirosa de uma cebola podre, todos gemíamos, tapávamos o nariz, e continuávamos.

Porque era o que costumávamos fazer, contámos mexericos e provocámo-nos uns aos outros, contando histórias que já tínhamos ouvido um milhão de vezes. Askee, a minha irmã e a brincalhona da família, recordou a minha figura nesse dia: a tentar perseguir o carro, uma magricela miúda de aldeia, com o lenço a cair-lhe para os olhos, a agitar o bordão por cima da cabeça, e quase caímos no chão a rir. Fizemos do trabalho um jogo, tentando ver quem apanhava mais cebolas, tal como, meses antes, tínhamos feito uma corrida para ver quem plantava mais sementes. Quando o Sol começou a descer no horizonte, juntámo-nos à nossa mãe em casa para jantar no pátio e depois deitámo-nos, ombro com ombro, em colchões no telhado, a olhar a Lua e a conversar em surdina até a exaustão levar toda a família ao silêncio total.

Não descobrimos por que razão os raptores roubaram os animais — a galinha, os pintos e as nossas duas ovelhas — senão quase duas semanas mais tarde, depois de o ISIS ter tomado Kocho e a maior parte de Sinjar. Um militante, que ajudara a reunir todos os residentes de Kocho na escola secundária da aldeia, explicou mais tarde os raptos a algumas mulheres da aldeia.

— Vocês dizem que aparecemos do nada, mas nós enviámos mensagens — disse, com a espingarda a balouçar na mão. — Quando levámos a galinha e os pintos foi para vos dizer que íamos levar as vossas mulheres e crianças. Quando levámos o carneiro, foi como levar os vossos líderes tribais, e quando matámos o carneiro, isso significou que planeávamos matar esses líderes. A borrega, essa, representava as vossas raparigas.

Capítulo 2

A minha mãe amava-me, mas não quisera ter-me. Durante meses, antes de eu ser concebida, andou a poupar dinheiro onde quer que conseguisse — um dinar aqui e ali, o troco de uma viagem ao mercado ou uma porção de tomates vendida às escondidas — para comprar contraceptivos, já que não ousava pedir ao meu pai. Os yazidis não casam fora da religião nem autorizam a conversão ao Yazidismo, e as famílias grandes são a melhor garantia de que não morremos completamente. Além disso, quanto mais filhos se tinha, mais ajuda haveria nos campos. A minha mãe conseguiu comprar pílulas para três meses. Depois acabou-se o dinheiro e, quase de imediato, ficou grávida de mim, a sua décima primeira e última criança.

Ela era a segunda mulher do meu pai. A primeira morrera muito nova, deixando-o com quatro filhos que precisavam de uma mulher para ajudar a criá-los. A minha mãe era linda, vinha de uma família pobre e muito religiosa de Kocho, e o seu pai entregou-a alegremente ao meu pai como esposa. Ele já tinha alguma terra e animais e, comparado com o resto dos habitantes de Kocho, era abastado. Por isso, antes do seu vigésimo aniversário, antes de ter sequer aprendido a cozinhar, a minha mãe tornou-se esposa e madrasta de quatro crianças, e depois rapidamente engravidou também. Nunca tinha ido à escola, não sabia ler nem escrever. Como muitos outros yazidis, cuja língua materna é o curdo, quase não falava árabe e mal conseguia comunicar com os aldeões árabes que iam à cidade a casamentos ou para fazer comércio. Até as nossas histórias religiosas eram um mistério para ela. Mas trabalhava muito, assumindo as muitas tarefas inerentes à mulher de um agricultor. Não bastava ter dado à luz onze vezes — sempre, excepto no perigoso parto dos meus irmãos gémeos, Saoud e Massoud, em casa —, esperava-se que uma mulher yazidi grávida também cortasse lenha, plantasse sementeiras e conduzisse tractores até ao momento em que entrasse em trabalho de parto, e que depois levasse o bebé consigo enquanto trabalhava.

O meu pai era conhecido em Kocho como um homem muito tradicional e devoto. Usava o cabelo em longas tranças e cobria a cabeça com um manto branco. Quando os qawwals, mestres religiosos ambulantes que tocavam flauta e tambores e recitavam hinos, visitavam Kocho, o meu pai estava entre os homens que os recebiam. Era uma voz proeminente na jevat, ou casa de reunião, onde os homens da aldeia se juntavam para falar com o nosso mukhtar sobre assuntos relacionados com a comunidade.

A injustiça magoava mais o meu pai do que qualquer ferimento físico e o orgulho alimentava-lhe a força. Os aldeões que lhe eram mais próximos adoravam contar histórias do seu heroísmo, como a altura em que ele salvou Ahmed Jasso de uma tribo vizinha que estava decidida a matar o nosso mukhtar, ou quando os dispendiosos cavalos árabes de um líder tribal árabe sunita fugiram dos estábulos e o meu pai usou a pistola para defender Khalaf, um pobre lavrador de Kocho que foi descoberto a montar um deles nos campos próximos.

— O vosso pai queria sempre fazer o que era correcto — diziam-nos os seus amigos quando ele faleceu. — Uma vez deixou dormir na casa dele um rebelde curdo que vinha a fugir do exército iraquiano, embora o rebelde tenha conduzido a polícia até à sua porta. — Diz-se que, quando o rebelde foi descoberto, a polícia quis prender ambos os homens, mas o meu pai dissuadiu-o. «Eu não o ajudei por nenhum motivo político», disse. «Ajudei-o porque ele é um homem e eu sou um homem» alegou, e deixaram-no em liberdade. — E viemos a descobrir que aquele rebelde era amigo de Masoud Barzani! — Recordaram os amigos, ainda espantados, tantos anos depois.

O meu pai não era violento, mas lutava quando era preciso. Tinha perdido um olho num acidente no campo, e o que restava na órbita — uma pequena bola leitosa parecida com os berlindes com que eu brincava em criança — conseguia torná-lo ameaçador. Pensei muitas vezes que se o meu pai estivesse vivo quando o ISIS chegou a Kocho teria liderado uma insurreição armada contra os terroristas.

Por volta de 1993, o ano em que nasci, a relação dos meus pais estava a desfazer-se e a minha mãe sofria muito. O filho mais velho da primeira mulher do meu pai morrera alguns anos antes na guerra Irão-Iraque e, depois disso, disse-me a minha mãe, nada voltou a ser como antes. O meu pai também levara para casa outra mulher, Sara, com quem casou e com quem vivia agora com os seus filhos numa ponta da casa que há muito a minha mãe considerava sua. A poligamia não é proibida no Yazidismo, mas nem toda a gente em Kocho a teria podido praticar. Ninguém, no entanto, questionou o meu pai. Quando casou com Sara, possuía muitas terras e ovelhas, e, numa altura em que as sanções e a guerra com o Irão tornavam difícil a sobrevivência no Iraque, ele precisava de uma família grande para o ajudar, maior do que aquela que a minha mãe lhe poderia oferecer.

Ainda tenho dificuldade em criticar o meu pai por ter casado com Sara. Qualquer pessoa cuja sobrevivência esteja directamente ligada ao número de tomates que cultiva num ano, ou ao tempo que passa a conduzir as ovelhas a melhores pastos, pode compreender porque queria ele outra esposa e mais filhos. Estas coisas não eram pessoais. Mais tarde, porém, quando ele deixou oficialmente a minha mãe e mandou-nos a todos viver num pequeno edifício atrás da nossa casa, quase sem dinheiro nem terras, compreendi que a razão para ter tomado uma segunda mulher não era inteiramente de ordem práctica. Ele amava mais Sara do que amava a minha mãe. Aceitei isso, tal como aceitei que a minha mãe deve ter ficado de coração partido quando o meu pai levou a sua nova mulher para casa. Depois de ele nos deixar, a minha mãe costumava dizer-nos, a mim e às minhas duas irmãs, Dimal e Adkee: «Deus queira que nunca vos aconteça o que aconteceu comigo.» Eu queria ser igual a ela em tudo, mas também não queria ser abandonada.

Os meus irmãos não eram tão compreensivos.

— Deus vai fazê-lo pagar por isto! — gritou Massoud uma vez ao nosso pai, enraivecido. Mas até eles admitiram que a vida se tornou um pouco mais fácil quando a minha mãe e Sara deixaram de viver juntas e de co ...