Loading...

ENSINA-ME A VOAR SOBRE OS TELHADOS

João Tordo  

0


Excerto

1. Os Prolegómenos

(ou Uma História Banal)

No Inverno desse ano longínquo, abandonei toda a esperança e entreguei-me nos braços dos meus semelhantes, cansado e grato, como todos os sobreviventes. Juntei-me a uma irmandade cujo nome permanecerá na sombra. Não é difícil adivinhar qual. Sofria de alcoolismo e de outras dependências, assumira finalmente a derrota. Os meus companheiros trouxeram-me de regresso à vida; a boa vontade, o tempo e uma força misteriosa que intercede em nosso favor, qualquer coisa que não tem nome, repararam aquilo que eu julgara para sempre arruinado.

No final do primeiro ano de abstinência, por sugestão de Alexandre, um alcoólico mais experiente, dei voz à a minha rendição. Numa noite de lua cheia (ou quase cheia: três quartos de lua, por assim dizer), pus-me de joelhos junto da cama. Fechei os olhos, a frescura do Verão colou-me as lágrimas ao rosto, e rezei, sem saber o que fazia. Uni as mãos defronte do rosto, os dedos aninhados uns nos outros, as pernas a tremer; pronunciei em voz baixa, tolhido pelo medo, a oração sugerida. Algumas pessoas rezam porque acreditam, outras porque chegaram ao fim de um caminho pedregoso, obstinado. Eu pertencia a esta segunda categoria. Os anos que se seguiram foram extremamente dolorosos. O meu companheiro não me avisou de que, quando um homem se rende, é como se entregasse o corpo para ser esquartejado numa arena. Ninguém nos garante que há um plano infalível, nenhuma alma caridosa nos passa uma certidão de absoluta certeza. Reconquistamos o direito de voltar a lutar. Rendemo-nos novamente. É cíclico, faz parte da natureza humana – ou é a natureza humana. E assim foi. Nos anos seguintes, o meu mundo sofreu um abalo sísmico de ampla magnitude. Em três anos perdi cinco empregos. Divorciei-me. Apaixonei-me, e fui abandonado. O meu filho foi levado pela minha ex-mulher para outro país. Passei o final da década de oitenta do século XX, e o princípio da de noventa, a viver como uma criatura abandonada, num apartamento minúsculo na Rua de São Marçal, um quarto andar que gelava no Inverno e sobreaquecia no Verão, onde me deitei sozinho muito mais noites do que desejaria, mas onde também aprendi a conviver com quem eu era – um trintão solitário e forçadamente abstémio, praticante da nobre estratégia da fuga, perito na exímia e refinada arte da mentira. Havia outros como eu, e isso consolava-me. Não estava sozinho na tentativa de descobrir o que se encontra do outro lado desta insondável cortina de separação.

O meu filho nasceu surdo. Chama-se João e vive hoje com uma mulher italiana que ensina língua gestual. À nascença, durante o parto, ele não chorou, mas os médicos disseram-me que as duas coisas não estão relacionadas –nascer surdo, não chorar–, pois uma criança surda também sofre do choque de separação quando é despegada do lugar morno que é a barriga da mãe, trazida para um mundo onde à primeira golfada de ar é invadida de pathos. Nascer é o inferno, concluí, quando assisti ao parto do meu único filho.

Semanas depois, em casa, olhando-o deitado no berço, de olhos arregalados, aqueles olhos enormes, esverdeados, que João tinha à nascença, o cabelo estranhamente arruivado (tanto eu como a mãe somos morenos, com aborrecidos olhos castanhos), tive a certeza de que trocaria de bom grado a minha vida pela dele; ou todas as vidas que eu tivesse tido e pudesse vir a ter pela dele, ou a capacidade que eu tinha de ouvir –e de me irritar e zangar com o que ouvia, mais do que amar os sons deste planeta– pela sua incapacidade. Era apenas um bebé, ali deitado, vestido de azul-turquesa, os braços a moverem-se como se ainda não lhe pertencessem, os tentáculos de um polvo desorientado no fundo do mar, e aquele ar tão atento de uma criança que vive como se estivesse mergulhada num aquário, ainda submergida no líquido amniótico, infinitamente aparvalhada com o espectáculo do mundo, e eu a chorar e a pensar: o meu filho é surdo, que dor ver um bebé que não é capaz de ouvir, como é que o deus em que eu não acredito o castiga desta maneira, o renega para o mundo dos incapazes, dos proscritos?

Lembro-me de lhe pegar ao colo lavado em lágrimas, de lhe sussurrar ao ouvido algo doce; umas quantas palavras que desceram aos trambolhões, trôpegas, sem qualquer serventia. Aqueles ouvidos eram impenetráveis. Afaguei-o nos meus braços durante uns momentos. Também eu precisava de ser afagado por um gigante que chegasse e me tomasse nos seus braços enquanto eu embalava o meu filho surdo.

floritura

Digamos que seis anos não é uma eternidade. Há seis anos, contudo, o meu entendimento das coisas era outro, quando o japonês se sentou naquela cadeira de ferro e plástico cor-de-laranja na velha sala de Ciências Naturais, cujo chão de madeira se queixava, rangendo, das dores de velhice, e cujas paredes ostentavam ainda os antigos armários de mogno vergados de livros, tubos de ensaio, mapas, ossadas poeirentas e arcanos manuais de anatomia. Digamos que, quando o vi sentar-se, nunca desconfiaria do peso existencial que carregava; da medida ou amplitude da sua loucura. Estava tomado de uma desilusão sem tamanho, um colapso gravitacional de que então não me apercebi. Não me lembro de o ver entrar na sala, julgo que só reparei nele quando já se encontrava entre nós, infiltrado entre os desalentados, os queixosos. Mas adianto-me enormemente. Seis anos não é uma eternidade, decerto, mas parece-me uma montanha intransponível de dias, de meses, de páginas – o suficiente para me provocar urgência, levar a ignorar os pormenores importantes.

É preciso, primeiro, contar uma história banal.

Recuemos, então. Comecei a trabalhar no Liceu Camões em 1994, e por aqui continuo. Com o passar dos anos, fui subindo na carreira, passei de professor substituto de Português a bibliotecário. Descontando um semestre de interregno em que me dediquei, sem sucesso, a aventuras literárias, acabei por ingressar no caminho íngreme da burocracia. Primeiro trabalhei no departamento administrativo e, mais tarde, assumi a coordenação pedagógica da escola. Aborreço-me de morte com o que faço, é a verdade; mas foi sempre essa a sensação que tive a respeito das coisas demasiado repetidas: causavam-me um perigoso tédio que me deixava na urgência de o aniquilar – um dos cami-nhos que me levava ao álcool. Talvez porque a recordação dos primeiros tempos de abstinência (desse ano longínquo de 1987, dos empregos que era incapaz de manter) ainda estivesse demasiado presente, acabei por ficar no Liceu Camões, embora tenha abdicado de ensinar e até de escrever. Apesar daquilo que perdi, foi a melhor decisão. Abdicamos da vida para podermos vivê-la, abdicamos dela a toda a hora, a todos os minutos, em cada gesto, é esta a crueldade contra a qual justamente nos revoltamos, uma luta desde sempre perdida, capitulada.

Começámos as reuniões depois da morte do professor Tavares. Foi uma necessidade, um grito que brotou de dentro do liceu, dos corredores, das salas de aula, da velha cal que cobria as paredes, dos canos por onde corria a água gelada das manhãs de chuva. Foi o senhor Inácio, o zelador, quem o encontrou na sala dos professores. Ao chegar à escola, ainda antes das sete da manhã, deparou-se com o corpo pendurado da ventoinha, a corda retesada em volta do pescoço. O cadáver balouçante. Ainda existe uma fotografia do professor Tavares na vitrina que está a meio do corredor, entre a Secretaria e a antiga salinha do PBX, onde a dona Armanda costumava sentar-se, o cabelo cheio de rolos, a trocar, com a perícia dos anos, os cabos e as fichas, enfiando-os nas insondáveis ranhuras. A fotografia, tirada no pátio do liceu durante o Outono, é dos anos oitenta, as árvores despidas em primeiro plano contra as grandes portas e balaustradas azuis. Tavares está de pé, ao lado de outros professores da escola, mas ligeiramente para a esquerda, abrindo uma pequena brecha entre ele e o grupo. É um homem ossudo e magrinho, com óculos e cara de rato. Quase todas as pessoas o adoravam, excepto ele mesmo. Lembro-me das nossas conversas no meu gabinete e dos passeios que, nos dias de Primavera, costumávamos dar pela Praça José Fontana. Às vezes íamos, à hora de almoço, ao relvado da Gulbenkian, e ficávamos sentados no verde a ver os patos submergirem as cabeças dentro de água e as raparigas novas, bonitas estudantes, a passearem com os namorados pela orla do lago. Dos meus colegas de ensino, ele era o único (Guida chegou mais tarde) que sabia do meu problema. Por isso, e embora gostasse muito de vinho, quando almoçávamos juntos só bebia água – embora eu lhe tivesse garantido inúmeras vezes que não me incomodava. Tavares vivia com a mãe, uma senhora muito velha e resmungona que continuava a tratá-lo como se fosse uma criança, dando-lhe ordens e obrigando-o a estar em casa a horas de jantar. Por causa da mãe (de quem dizia que era «doente»), Tavares nunca casou; também nunca o vi com uma mulher. Era um homem discreto, tão discreto que quase não se dava por ele. Se fizesse parte dos sobreviventes de um naufrágio, seria aquele que ajudaria os outros, que todos esqueceriam no barco insuflável durante as manobras de salvamento e que acabaria como Crusoe, encalhado numa ilha durante vinte e sete anos, dois meses e dezanove dias, para depois o encontrarem a dormir ao relento, selvagem e feliz.

Tavares era terno, e os alunos sentiam-no. As suas aulas de Geografia (disciplina inglória num liceu, ninguém se interessa muito por ela) eram um lugar onde os estudantes se sentiam confortáveis, e ele dispunha-se a tratá-los como os filhos que não tinha. Uma vez, à saída do cinema –fomos um par de vezes ao cinema, julgo que, dessa vez, vimos um filme inesperadamente violento–, contei-lhe de Jo

Seja o primeiro a receber histórias como esta