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ENSINA-ME A VOAR SOBRE OS TELHADOS

João Tordo  

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Excerto

1. Os Prolegómenos

(ou Uma História Banal)

No Inverno desse ano longínquo, abandonei toda a esperança e entreguei-me nos braços dos meus semelhantes, cansado e grato, como todos os sobreviventes. Juntei-me a uma irmandade cujo nome permanecerá na sombra. Não é difícil adivinhar qual. Sofria de alcoolismo e de outras dependências, assumira finalmente a derrota. Os meus companheiros trouxeram-me de regresso à vida; a boa vontade, o tempo e uma força misteriosa que intercede em nosso favor, qualquer coisa que não tem nome, repararam aquilo que eu julgara para sempre arruinado.

No final do primeiro ano de abstinência, por sugestão de Alexandre, um alcoólico mais experiente, dei voz à a minha rendição. Numa noite de lua cheia (ou quase cheia: três quartos de lua, por assim dizer), pus-me de joelhos junto da cama. Fechei os olhos, a frescura do Verão colou-me as lágrimas ao rosto, e rezei, sem saber o que fazia. Uni as mãos defronte do rosto, os dedos aninhados uns nos outros, as pernas a tremer; pronunciei em voz baixa, tolhido pelo medo, a oração sugerida. Algumas pessoas rezam porque acreditam, outras porque chegaram ao fim de um caminho pedregoso, obstinado. Eu pertencia a esta segunda categoria. Os anos que se seguiram foram extremamente dolorosos. O meu companheiro não me avisou de que, quando um homem se rende, é como se entregasse o corpo para ser esquartejado numa arena. Ninguém nos garante que há um plano infalível, nenhuma alma caridosa nos passa uma certidão de absoluta certeza. Reconquistamos o direito de voltar a lutar. Rendemo-nos novamente. É cíclico, faz parte da natureza humana – ou é a natureza humana. E assim foi. Nos anos seguintes, o meu mundo sofreu um abalo sísmico de ampla magnitude. Em três anos perdi cinco empregos. Divorciei-me. Apaixonei-me, e fui abandonado. O meu filho foi levado pela minha ex-mulher para outro país. Passei o final da década de oitenta do século XX, e o princípio da de noventa, a viver como uma criatura abandonada, num apartamento minúsculo na Rua de São Marçal, um quarto andar que gelava no Inverno e sobreaquecia no Verão, onde me deitei sozinho muito mais noites do que desejaria, mas onde também aprendi a conviver com quem eu era – um trintão solitário e forçadamente abstémio, praticante da nobre estratégia da fuga, perito na exímia e refinada arte da mentira. Havia outros como eu, e isso consolava-me. Não estava sozinho na tentativa de descobrir o que se encontra do outro lado desta insondável cortina de separação.

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O meu filho nasceu surdo. Chama-se João e vive hoje com uma mulher italiana que ensina língua gestual. À nascença, durante o parto, ele não chorou, mas os médicos disseram-me que as duas coisas não estão relacionadas –nascer surdo, não chorar–, pois uma criança surda também sofre do choque de separação quando é despegada do lugar morno que é a barriga da mãe, trazida para um mundo onde à primeira golfada de ar é invadida de pathos. Nascer é o inferno, concluí, quando assisti ao parto do meu único filho.

Semanas depois, em casa, olhando-o deitado no berço, de olhos arregalados, aqueles olhos enormes, esverdeados, que João tinha à nascença, o cabelo estranhamente arruivado (tanto eu como a mãe somos morenos, com aborrecidos olhos castanhos), tive a certeza de que trocaria de bom grado a minha vida pela dele; ou todas as vidas que eu tivesse tido e pudesse vir a ter pela dele, ou a capacidade que eu tinha de ouvir –e de me irritar e zangar com o que ouvia, mais do que amar os sons deste planeta– pela sua incapacidade. Era apenas um bebé, ali deitado, vestido de azul-turquesa, os braços a moverem-se como se ainda não lhe pertencessem, os tentáculos de um polvo desorientado no fundo do mar, e aquele ar tão atento de uma criança que vive como se estivesse mergulhada num aquário, ainda submergida no líquido amniótico, infinitamente aparvalhada com o espectáculo do mundo, e eu a chorar e a pensar: o meu filho é surdo, que dor ver um bebé que não é capaz de ouvir, como é que o deus em que eu não acredito o castiga desta maneira, o renega para o mundo dos incapazes, dos proscritos?

Lembro-me de lhe pegar ao colo lavado em lágrimas, de lhe sussurrar ao ouvido algo doce; umas quantas palavras que desceram aos trambolhões, trôpegas, sem qualquer serventia. Aqueles ouvidos eram impenetráveis. Afaguei-o nos meus braços durante uns momentos. Também eu precisava de ser afagado por um gigante que chegasse e me tomasse nos seus braços enquanto eu embalava o meu filho surdo.

floritura

Digamos que seis anos não é uma eternidade. Há seis anos, contudo, o meu entendimento das coisas era outro, quando o japonês se sentou naquela cadeira de ferro e plástico cor-de-laranja na velha sala de Ciências Naturais, cujo chão de madeira se queixava, rangendo, das dores de velhice, e cujas paredes ostentavam ainda os antigos armários de mogno vergados de livros, tubos de ensaio, mapas, ossadas poeirentas e arcanos manuais de anatomia. Digamos que, quando o vi sentar-se, nunca desconfiaria do peso existencial que carregava; da medida ou amplitude da sua loucura. Estava tomado de uma desilusão sem tamanho, um colapso gravitacional de que então não me apercebi. Não me lembro de o ver entrar na sala, julgo que só reparei nele quando já se encontrava entre nós, infiltrado entre os desalentados, os queixosos. Mas adianto-me enormemente. Seis anos não é uma eternidade, decerto, mas parece-me uma montanha intransponível de dias, de meses, de páginas – o suficiente para me provocar urgência, levar a ignorar os pormenores importantes.

É preciso, primeiro, contar uma história banal.

Recuemos, então. Comecei a trabalhar no Liceu Camões em 1994, e por aqui continuo. Com o passar dos anos, fui subindo na carreira, passei de professor substituto de Português a bibliotecário. Descontando um semestre de interregno em que me dediquei, sem sucesso, a aventuras literárias, acabei por ingressar no caminho íngreme da burocracia. Primeiro trabalhei no departamento administrativo e, mais tarde, assumi a coordenação pedagógica da escola. Aborreço-me de morte com o que faço, é a verdade; mas foi sempre essa a sensação que tive a respeito das coisas demasiado repetidas: causavam-me um perigoso tédio que me deixava na urgência de o aniquilar – um dos cami-nhos que me levava ao álcool. Talvez porque a recordação dos primeiros tempos de abstinência (desse ano longínquo de 1987, dos empregos que era incapaz de manter) ainda estivesse demasiado presente, acabei por ficar no Liceu Camões, embora tenha abdicado de ensinar e até de escrever. Apesar daquilo que perdi, foi a melhor decisão. Abdicamos da vida para podermos vivê-la, abdicamos dela a toda a hora, a todos os minutos, em cada gesto, é esta a crueldade contra a qual justamente nos revoltamos, uma luta desde sempre perdida, capitulada.

Começámos as reuniões depois da morte do professor Tavares. Foi uma necessidade, um grito que brotou de dentro do liceu, dos corredores, das salas de aula, da velha cal que cobria as paredes, dos canos por onde corria a água gelada das manhãs de chuva. Foi o senhor Inácio, o zelador, quem o encontrou na sala dos professores. Ao chegar à escola, ainda antes das sete da manhã, deparou-se com o corpo pendurado da ventoinha, a corda retesada em volta do pescoço. O cadáver balouçante. Ainda existe uma fotografia do professor Tavares na vitrina que está a meio do corredor, entre a Secretaria e a antiga salinha do PBX, onde a dona Armanda costumava sentar-se, o cabelo cheio de rolos, a trocar, com a perícia dos anos, os cabos e as fichas, enfiando-os nas insondáveis ranhuras. A fotografia, tirada no pátio do liceu durante o Outono, é dos anos oitenta, as árvores despidas em primeiro plano contra as grandes portas e balaustradas azuis. Tavares está de pé, ao lado de outros professores da escola, mas ligeiramente para a esquerda, abrindo uma pequena brecha entre ele e o grupo. É um homem ossudo e magrinho, com óculos e cara de rato. Quase todas as pessoas o adoravam, excepto ele mesmo. Lembro-me das nossas conversas no meu gabinete e dos passeios que, nos dias de Primavera, costumávamos dar pela Praça José Fontana. Às vezes íamos, à hora de almoço, ao relvado da Gulbenkian, e ficávamos sentados no verde a ver os patos submergirem as cabeças dentro de água e as raparigas novas, bonitas estudantes, a passearem com os namorados pela orla do lago. Dos meus colegas de ensino, ele era o único (Guida chegou mais tarde) que sabia do meu problema. Por isso, e embora gostasse muito de vinho, quando almoçávamos juntos só bebia água – embora eu lhe tivesse garantido inúmeras vezes que não me incomodava. Tavares vivia com a mãe, uma senhora muito velha e resmungona que continuava a tratá-lo como se fosse uma criança, dando-lhe ordens e obrigando-o a estar em casa a horas de jantar. Por causa da mãe (de quem dizia que era «doente»), Tavares nunca casou; também nunca o vi com uma mulher. Era um homem discreto, tão discreto que quase não se dava por ele. Se fizesse parte dos sobreviventes de um naufrágio, seria aquele que ajudaria os outros, que todos esqueceriam no barco insuflável durante as manobras de salvamento e que acabaria como Crusoe, encalhado numa ilha durante vinte e sete anos, dois meses e dezanove dias, para depois o encontrarem a dormir ao relento, selvagem e feliz.

Tavares era terno, e os alunos sentiam-no. As suas aulas de Geografia (disciplina inglória num liceu, ninguém se interessa muito por ela) eram um lugar onde os estudantes se sentiam confortáveis, e ele dispunha-se a tratá-los como os filhos que não tinha. Uma vez, à saída do cinema –fomos um par de vezes ao cinema, julgo que, dessa vez, vimos um filme inesperadamente violento–, contei-lhe de João, que na altura teria oito anos, e da sua deficiência auditiva. Tavares pareceu comover-se com a história, os lábios tremeram-lhe ligeiramente, como que fungava, um ratinho a farejar o ar à saída da sua toca, e recomendou-me que esfregasse as orelhas do meu filho com azeite e gengibre, por dentro e por fora – disse-o enquanto fazia os gestos de lambuzar alguma coisa com os dedos, uma cabeça invisível de criança. Azeite e gengibre, repeti, e ele confirmou, eram bálsamos universais, todos os males podiam ser erradicados se as pessoas, enquanto crianças, os recebessem na dose certa, besuntados nas partes enfermas. Fui para casa nessa noite a perguntar-me se Tavares acreditaria mesmo naquilo – ou se a mãe o convencera, com a sua obstinada obsessão pelo filho, da validade das crendices e mezinhas populares. Ao chegar à porta de casa, na Rua de São Marçal, comecei a chorar. Incapaz de subir para a cafua que era o meu apartamento nesses tempos, olhei para o relógio, dei meia-volta e fui a uma reunião da irmandade. Apanhei-a a meio, mas os abraços dos meus companheiros, no final, recompuseram-me. Voltei para casa a pensar no meu filho, na distância que nos desunia, no seu corpo de bebé surdo e na impotência dos meus braços nas noites em que ainda podia embalá-lo.

Mas distraio-me: falava da fotografia do professor Tavares. Ali permanece, intocada, a meio do corredor, onde quem passa nem desconfia de que o morto mais famoso do liceu continua presente. Um rosto no meio de outros rostos, dos professores antigos, dos que entraram na reforma ou abandonaram a profissão ou tiveram o mesmo destino de todos os homens– embora nenhum deles o tenha cumprido numa manhã gelada de Janeiro, com corda e disciplina. A que se deveu o suicídio? A causa é polémica, e nas semanas que se seguiram falou-se um pouco de tudo o que pode levar uma pessoa a saltar do precipício onde já se encontra, ponderando, na balança existencial, o difícil binómio do sofrimento e do alívio que, a partir de certa altura, e reunidas as condições, se transforma na roda dentada sobre a qual se sustenta a vida. Essa roda corrói lentamente o próprio eixo até que, um dia, a estrutura implode. Culparam-se as mudanças no sistema educativo que afectaram todas as escolas. De um dia para o outro, o professor Tavares, pacato geógrafo, viu-se obrigado a dobrar o número de alunos e a ensinar Geologia e Economia, e a participar nos encontros do conselho pedagógico (a que eu presidia) com o intuito de evitar a desagregação e o descontentamento geral face à sobrecarga horária. Via-se-lhe no rosto a desilusão, o cansaço. Também foi nesse ano que a mãe de Tavares morreu. Compareci ao velório na capela da Praça de Londres, onde não encontrei mais do que sete ou oito pessoas, incluindo dois colegas do liceu. Pela escassez de gente, e a maneira como o cadáver, exposto no caixão, preparado para arder numa pira, exsudava ainda um odor maligno, pernicioso (imaginado, embora real), era possível compreender que o exílio de Tavares era irrevogável. Que, ainda que tivesse sido um homem afável e até bondoso, dentro de si havia um buraco de tal maneira profundo que uma equipa de espeleólogos sobejamente preparados para perscrutar a alma humana não teria sido capaz de navegar aquele mapa emocional. E, portanto, menos de um mês depois da morte da mãe, Tavares enforcou-se na sala dos professores. O senhor Inácio comentou, nessa tarde, perante o estado de choque do corpo docente e discente, que nunca tinha visto rosto tão apaziguado como aquele, nem expressão tão cândida, as linhas do rosto suaves, suavíssimas, finalmente tranquilas. Declarou-o um «morto feliz», e assim ficámos, com essa imagem mórbida a vaguear pelos corredores, o espectro de um homem que não conseguiria ter-se suicidado em casa, porque em casa (onde ainda imperavam as memórias da mãe, compostas da autoridade das bolas de naftalina no armário e da piedade dos naperões sobre as mesinhas) ele era menos do que era ali, na sala dos professores, lugar eleito para deixar a sua marca.

Ocorreu-me muitas vezes que Tavares, que me perguntava sempre pelo meu filho João, teria beneficiado do apoio da irmandade a que, na altura da sua morte, eu pertencia havia tantos anos. Sempre que via uma pessoa chegar à beira desse precipício, pondo-se a olhar lá para baixo, para a matéria vazia, inodora e insubstancial de que a morte é feita – ou, pelo menos, o fim disto, a que damos um nome para justificar a ausência dos outros, já que a nossa vez não terá nome –, eu presumia que, perante o desespero, só a fé podia resgatar-nos. Era arrogância minha, claro: e se um homem desejar mesmo morrer? E se, em certas circunstâncias, irremediavelmente afastado da fé (ou negando-a, que é o mais natural perante a ignomínia do mundo), um homem decidir pôr fim àquilo que aleatoriamente lhe foi dado? Nascer não é, afinal, produto do livre-arbítrio, mas de uma outra liberdade, biológica ou celestial, como lhe queiram chamar, a liberdade mais arrogante de todas porque é promotora de escravidão, obrigando-nos a estar aqui, encurralados. Em suma: não tivemos escolha neste «estar». Como tudo aquilo que não depende de nós, é uma dádiva, e uma ferida. Entender que uma não existe sem a outra é a tarefa da eternidade, e podemos decidir que essa dádiva é demasiado onerosa, que a ferida nos rasga demasiado a carne. Podemos ser um Sísifo que desiste, que se cansa de empurrar a rocha montanha acima. Mesmo escravos, somos livres de o fazer – mesmo um servo acabará, um dia, com a sua sevícia. A humildade para aceitar esta condição está escrita na parede, em pequenos cartazes, espalhados por algumas das reuniões que frequento. «Vive e Deixa Viver.» Ou, neste caso, melhor dizendo: «Vive e Deixa Morrer.» O nosso deus, na maneira que o concebemos, deve saber o que faz.

A morte do professor Tavares abalou a estrutura do liceu. A dona Eduarda, a contínua mais velha, benzeu a sala dos professores, onde o enforcamento sucedera, com água-benta comprada em Fátima e depois, sub-repticiamente, deixou a pequena estátua de uma santinha numa das prateleiras do armário, que descobri no final de uma reunião do conselho pedagógico, quando um professor novo, recém-transferido, me perguntou se éramos religiosos, apontando para a santa. A estatuazinha parecia abarcar a sala e os presentes, destacando-se da banalidade dos outros objectos nas prateleiras (livros escolares, dossiês, arquivos). A pergunta fez-me corar; não fazia ideia de que aquele objecto ali estava. Enquanto a reunião terminava e todos arrumavam as suas pastas, o director da escola inclinou-se para mim e sussurrou-me: Tire-me aquilo dali, isto é uma instituição laica. Respondi-lhe que desconhecia a existência daquele objecto, afirmação que Euclides Eufrates ignorou, murmurando entre dentes que eu, além de beato, era men­tiroso.

Na escola, sobretudo entre os alunos, o director era conhecido como «o monhé». Embora tivesse a pele tisnada, as feições eram mais portuguesas do que indianas. Mas não existe grande espaço para misericórdia entre os alunos e, com um nome daqueles, teria sido impossível escapar à alcunha. Também era frequente ouvir um dos professores dizer, à socapa, que ia «falar com o monhé» ou que «o monhé estava com a fúria»: os dias em que Euclides mandava chamar os docentes, aleatoriamente, ao gabinete para os meter na ordem, ainda que os professores trabalhassem o dobro das horas do que seria aceitável e digno.

Quando confrontei a dona Eduarda com a santinha, descobri que era uma representação em louça de Santa Quitéria, padroeira (segundo ela) das pessoas com grandes tristezas e depressões, como era o caso do professor Tavares (segundo ela), e olhe que a santa, depois de lhe terem cortado o pescoço, ainda andou pelas ruas de Lisboa com a própria cabeça nas mãos, disse-me, e aqueles que a prenderam, deve ter sido os Romanos, ou assim, ficaram cegos e tudo. Fiquei a saber disto quase seis meses depois do suicídio de Tavares e, apesar de ter devolvido a santa à dona Eduarda –fazendo-a prometer que a guardaria em sua casa–, Quitéria continuou a aparecer nos lugares menos prováveis: dentro de uma gaveta no laboratório de Química, no cacifo de um aluno malcomportado. Uma vez, na inauguração de um ano lectivo, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa visitou a escola e, na mesa de honra, na qual eu iria proferir um breve discurso, apareceu Quitéria, mais ou menos escondida por um enorme ramo de flores. Mas eu vi-a, e Euclides também, e fui obrigado a repreender a velha contínua no final da cerimónia, sob o olhar autoritário do director, ao que esta respondeu: Despeçam-me, mandem-me embora, façam como quiserem, mas a santa é dona do seu nariz.

Recuando um pouco: a morte. Sim, aquele final trágico reverberou pelos corredores. Nos primeiros dias após o enterro, a que o corpo docente compareceu quase por inteiro, houve um silêncio repentino a respeito do que sucedera. Os rostos cruzavam-se numa espécie de acordo tácito de que esqueceríamos com a brevidade possível (ou seja, imediatamente) que um dos nossos se enforcara. A polícia veio à escola, mas não havia nada para investigar– o homem escondera-se algures dentro da escola, nesse final de tarde, suicidara-se à hora de jantar e passara a noite suspenso da corda. Pedi a Inácio que tirasse a ventoinha do tecto e a substituísse por outra coisa qualquer, e ainda hoje ali temos um candeeiro no qual os mais altos batem com a cabeça ao atravessar o espaço: uma espécie de lembrete diário, sonoro, do lugar onde o professor Tavares esteve.

Tudo teria sido mais fácil se essa substituição trouxesse consolo emocional, ou tivesse sido capaz de permutar os sentimentos que começaram a surgir entre os docentes. Por alguma razão inexplicável (ou talvez porque estas coisas não carecem de razões, mas simplesmente acontecem quando têm de acontecer), aquele suicídio trouxe à tona o medo, a tristeza, a insegurança, a revolta e o desespero em alguns de nós. Em demasiados de nós para que pudéssemos ignorar o que estava a acontecer. De um dia para o outro, Guida, a professora de Matemática, começou a embirrar com o professor de História, e chegaram a ter discussões violentas no pátio da escola, que só não acabaram da pior maneira porque, nessa altura, andávamos todos de sobreaviso. O senhor Mário, funcionário ­responsável pela segurança (os portões, os cacifos, as rixas), apresentou um atestado médico e anunciou que iria meter uma baixa de três meses por esgotamento, ou depressão, de que eu o demovi a muito custo. A professora de Filosofia, uma mulher chamada Rosa, altíssima e morena, de cabelo desgrenhado, que se vestia como uma hippie e tinha os dentes amarelos, começou a ter ataques de choro espontâneos durante os almoços sempre que, na sala dos professores, alguém batia com a cabeça no candeeiro de metal, o que acontecia quase diariamente. E, como um aviso que chega tarde de mais, uma remessa de coisas urgentes esquecidas num armazém, dei por mim a parar defronte dos bares, olhando com inveja dissimulada para os homens sentados ao balcão. Secretamente, à noite, deitado na cama ao lado de Aurora (que ressonava baixinho, como a engrenagem defeituosa de uma ventoinha), assisti impávido, perplexo, ao regresso do medo. De súbito, como se voltasse a um lugar que há muito deixara de habitar, vi-me às voltas nos lençóis, suado, a temer o futuro, angustiado pelo passado. E foi depois de uma noite em que, varrido por uma violenta insónia, enquanto assistia ao lento desfilar da madrugada pela janela da sala, encostei o rosto à janela, o frio do vidro aquietando-me por um momento, fechei os olhos e perguntei a deus que merda era aquela, que monstro ia emergir agora das águas, que Tritão zangado ascendia do fundo dos mares.

E então lembrei-me, ao ver a fagulha de luz que, sobre o Tejo, abria uma brecha na escuridão, da parábola do Amigo Importuno. Um homem aproxima-se da casa de um vizinho à meia-noite, bate-lhe à porta, pede duas côdeas de pão. Não são para ele, são para um outro amigo, cansado e faminto, que percorreu meio mundo. Move-o a compaixão. Mas o vizinho diz-lhe que não o chateie, que já está deitado, os filhos dormem. Jesus explica aos discípulos que, embora o homem não se levante da cama por amizade, acabará por se levantar da cama para dar os pães ao vizinho pela persistência e pelo incómodo. Comecei a orar. Não acreditava em deus, mas a oração ajudara-me quando o mundo ruíra. E lembrei-me de como orar era tão parecido com o bater à porta desse vizinho cansado, adormecido e rabugento, rogando côdeas de pão para um amigo faminto; de como a oração era, por vezes, um raspar de dedos ensanguentados numa madeira tão densa e opaca. O medo tinha esta mania de criar homens de fé. Orei baixinho para que não houvesse um monstro, para que o Tritão fosse afinal uma sereia, e pelo professor Tavares, que descansasse em paz e o seu sossego fosse também o nosso, querendo acreditar que a porta irá abrir-se para aquele que bate apesar do medo, dissipando a dúvida.

Há quem diga que o suicídio é a forma suprema de egoísmo; que o suicida deixa, na sua esteira, um rasto indelével de dor. A verdade é que, para os que partem, as perguntas cessam. Não se prefiguram mais dramas nem angústias; igualmente nenhuma alegria ou exaltação. O Reino dos Céus é deveras silencioso. Para os que ficam, nem tanto. Se o professor Tavares não se tivesse matado assim, pendurado da corda, eu não teria podido assistir ao pequeno inferno que a sua impertinente despedida gerou, infundindo no inconsciente colectivo da escola a ideia de fim, a suspeita de que, longe de ser um lugar de refúgio, aquele podia ser o lugar mais cruel de todos, por onde passeava uma ceifeira à espreita, perguntando-nos ao ouvido quem seria o próximo. O suicídio fora mais um presságio do que uma conclusão.

Estávamos no final de Janeiro e, apesar do acordo tácito dentro do liceu, no exterior as ondas de choque, misturadas com ondas de indignação, fabricaram alguns artigos nos jornais, que se escandalizavam com a difícil situação dos professores. Um diário menos escrupuloso escreveu sobre a suposta depressão do professor Tavares, sobre a morte da mãe doente, sobre as relações conflituosas com os outros professores– se as tivera, eu nunca soubera. Na semana em que essa notícia saiu, o docente de Educação Física, um cinquentão careca e barrigudo chamado Jorge, apresentou um pedido de transferência. Chamei-o ao gabinete e conversámos. Não consegui saber nada, porque Jorge limitou-se a repetir que precisava de mudar de ares. (Houve, por esses dias, rumores inauditos de que o professor de Educação Física e o professor Tavares tinham sido amantes. Foram os alunos a inventar isto, mas, como é sabido, um rumor é mais poderoso do que uma notícia, da mesma maneira que uma história tem mais poder do que um facto, pois permite a interferência da imaginação. Poucos dias depois, na fila da cantina, ouvi, sem querer, a conversa entre um aluno e uma aluna, em que descreviam a vida sentimental de Tavares com enorme minúcia, do momento em que acordava ao lado do professor de Educação Física até à maneira como, às escondidas, davam as mãos no cinema, e como o professor de Educação Física era agora incapaz de continuar a leccionar no mesmo sítio onde morrera o namorado defunto, porque a causa do suicídio tinha sido o estigma social.) Consegui, sem saber bem como, convencer Jorge a ficar outro semestre. Talvez eu também parecesse desesperado. Lembro-me de lhe ter dito que ele era indispensável; mais ainda, que era o pilar em torno do qual toda a educação daqueles miúdos se fazia, mens sana in corpore sano, etc.

Uma tarde, Euclides chamou-me ao seu pomposo gabinete e advertiu-me de que, perante tudo o que estava a acontecer, era preciso tomar sérias medidas. O caso chegara longe de mais e parecia ter despejado sobre o Liceu Camões uma pestilência parecida com crude, pegajosa, impossível de eliminar, e que eu era responsável pela saúde mental daquela instituição centenária. Estava ao meu alcance demover os professores de fazerem greve, de se demitirem, de se revoltarem ou amotinarem.

E que ninguém mais se suicide na escola, rematou Euclides: se querem fazê-lo, façam-no nas vossas casas, por amor de Deus.

Foi depois desse breve encontro que fui falar com Guida. Além de Tavares, agora morto, era a única colega que sabia do meu passado. Guida também era alcoólica, e tínhamo-nos conhecido numa reunião ainda antes de eu começar a trabalhar no ensino; foi com um alegre incómodo (estranha combinação) que, em 1994, a avistei a caminhar corredor abaixo atrás de um aluno para lhe dar um puxão de orelhas, o corpo roliço, os tacões dos sapatos a encherem-se de eco. Guida falava pelos cotovelos, tinha mau hálito e insistia em recordar, sempre que me apanhava a sós, os tempos áureos da sua primeira idade adulta, quando o álcool fora combustível de festejos. Amiúde também rememorava a catástrofe que se seguira (o divórcio, os hospitais, as instituições). Embora tivesse vontade de a ignorar, porque a achava uma chata, nunca fui capaz de o fazer. A irmandade unia-nos. E, por isso mesmo, foi com ela que falei quando me ocorreu que talvez soubesse como tirar a escola do fundo do poço.

floritura

Imaginemos que uma pessoa entra no liceu e percorre discretamente o corredor de ladrilhos, as solas dos sapatos a ressoarem no chão frio. Ainda chove, são sete e meia ou quase um quarto para as oito da noite; a essa hora, seria lógico que as salas estivessem mergulhadas na quietude. Contudo, ao aproximar-se da sala de Ciências Naturais, essa pessoa escutaria, vinda do interior, uma voz apenas, homem ou mulher, um só a falar, coisa incomum num espaço onde estão sete ou oito seres humanos e não existe qualquer aula, nenhuma palestra a decorrer. Essa pessoa julgar-nos-ia bizarros: estranhos de longa data sentados em círculo, naquela sala antiga e poeirenta, desusada, armazém de coisas inúteis, cadeiras de plástico e ferro, as três senhoras presentes agasalhando-se como podem, e os quatro homens a tremerem de frio, porque o Liceu Camões é um lugar que não está preparado para a noite, onde quem fica depois do entardecer são as contínuas e, quando estas partem, restam os espíritos, os murmúrios das ardósias, o rumor das correntes de ar, os estalidos das mesas carcomidas que arrefecem, das portas degradadas, das janelas desengonçadas, da reverberação que atravessa décadas de gente, viva e morta (mais mortos do que vivos, demasiados, legiões).

A primeira vez que fizemos uma reunião, no dia 1 de Fevereiro, treze dias após a morte do professor Tavares, movidos pela dor, nenhum de nós sabia o que estava a fazer. Não guardo uma recordação muito presente dessas horas, porque muitas outras se seguiram, semanalmente, no mesmo lugar. Lembro-me de ter tido de dizer a Guida que se calasse duas ou três vezes (e logo ela, que conhecia o efeito terapêutico da partilha quando não é interrompida). Lembro-me que o senhor Mário chorou, enquanto Jorge, que ainda ponderava se ficar, se deixar o liceu, tentava consolá-lo oferecendo-lhe um lenço que transportava no bolso e que garantia estar limpo. Lembro-me das suas palavras: Não há direito, disse o senhor Mário, interrompendo o silêncio que caiu sobre a sala quando anunciei que estávamos ali reunidos com o propósito de falar sobre a ­tragédia que acontecera, e repetiu: Não há direito. Via-se que guardava dentro de si aquela mágoa há muito tempo, que a extraía da terra. Lá fora, o vento enchia as copas das árvores, despidas de folhas, de suspiros e ameaçadores uivos.

Chegou-se à frente na cadeira, pousou os cotovelos nos joelhos, as mãos entrelaçadas uma na outra, e disse que, nos anos todos em que ali trabalhara, eram mais de trinta, nunca tinha assistido a uma coisa semelhante. Ele que já vira partir alunos e professores e funcionários e directores, ele que acompanhara hordas de alunos que haviam crescido sob a sua égide, ele que fora convidado para baptizados, casamentos e funerais, ele que vira desfilar milhares de almas, que velara incansavelmente pela segurança dos alunos, que separara intermináveis bulhas, que acompanhara incontáveis rapazes à enfermaria e raparigas chorosas ao colo compassivo das mães depois dos bailes, ele que se esquecera de si quando mais importava ter-se lembrado (não disse estas palavras, mas acrescento-as eu: solteiro, abnegado, solitário), assistira agora àquilo que considerava inaceitável: que um bom amigo tivesse cometido aquele acto de desespero e, mais do que isso, que os outros, com quem convivia diariamente, com quem falava diariamente, com quem partilhava diariamente as vicissitudes do emprego, o demitissem da própria morte, da nobreza do adeus, tratando-o como um incómodo ou um vizinho importuno que vem bater à porta a desoras. Mário, vigilante, chefe de segurança da escola (embora não houvesse mais ninguém, ele apreciava o título oficial), não podia aceitar a situação, e então começou a chorar, e Jorge, que estava sentado na cadeira à sua esquerda, ofereceu-lhe o lenço branco com uma risquinha roxa, e Guida, sentada à sua direita, consolou-o com palmadinhas nas costas.

A pessoa que nos visse de fora, encostada à ombreira da porta, espreitando para o interior da sala onde a noite só encontrava alívio numa solitária e titubeante lâmpada de tecto e na luz difusa de um candeeiro de rua que, do lado de lá da janela, iluminava a praça cruzada por gente, autocarros e chuva, pensaria: Ninguém diz nada, deixam-no chorar em silêncio; pobre coitado. Mas a ideia era essa. No princípio, apenas eu e Guida entendíamos o propósito terapêutico desse silêncio, tão habituados estávamos às reuniões da irmandade. Cedo também os nossos colegas se habituaram e, sem precisarem de reprimenda, acostumaram-se a deixar cada um falar à vez – ou a permanecer em silêncio, se assim o quisesse, como aconteceu a Jorge nessa primeira reunião. Inquebrável nos sentimentos, limitou-se a cru-zar e a descruzar as pernas, de braços cerrados junto ao peito, e a esconder, atrás de uma máscara de serenidade, um profundo desconforto por ali estar, rodeado de gente que não sabia o que fazer com a presença recente da morte que nos visitara, e ainda menos com o sinistro silêncio do liceu fora de horas.

Queres partilhar?, perguntou-lhe Guida na primeira sessão, ao que Jorge acabou por responder que não tinha nada para partilhar, que aquela história não lhe dizia respeito, que conhecera superficialmente o professor Tavares e que só acedera a estar ali por solidariedade. Então Guida ia começar a falar, mas lancei-lhe um olhar mais severo, que dizia: Não te atrevas. Ela conteve-se, recostou-se na cadeira.

Respeitemos o Jorge, disse eu, e foi nos minutos seguintes que os que ali nos encontrávamos – também compareceu Rosa, a professora de Filosofia, e Luís, o professor de Línguas Estrangeiras – finalmente sossegámos. Uma serenidade benfazeja caiu sobre o grupo, parecida com o desacelerar de um eixo, ou uma nuvem que se recolhe num céu subitamente limpo. Olhei para os sapatos e sorri. Conhecia bem aquele momento: o instante mágico em que a dor se ausenta de nós por um instante, se esconde numa trincheira, e o campo de guerra se ilumina de qualquer coisa que não é paz, mas é menos do que luta; que não é a felicidade, mas é menos do que tortura. As cinzas depois do fogo; o restolho a seguir à colheita.

Que estranho, pensei, nessa mesma noite, a caminho de casa, descendo a Duque de Loulé de chapéu de chuva na mão, comprado nos chineses, as gotas a ressoarem no tecido barato, as ruas meio desertas de Fevereiro: que estranho alguém que nunca chegámos verdadeiramente a conhecer pudesse, de repente, ocupar um espaço central nas nossas vidas; não por aquilo que fizera, mas pela sua ausência. Pela ausência. Remove-se uma peça do tabuleiro, e depois? Lembrei-me de Steinitz e da sua conhecida teoria sobre o jogo: no começo de uma partida, as forças estão em equilíbrio, dizia ele (parece uma constatação do óbvio, mas nunca é). Logo, o jogador só pode ganhar em consequência do erro do adversário, e o jogo ideal consiste em perturbar esse equilíbrio a seu favor. Os peões ao centro, os cavalos nas margens. Eu não percebia nada de xadrez, embora Alexandre, ao longo dos anos, tivesse tentado ensinar-me. Naquela noite, de repente, a ideia de Steinitz sobre o jogo –por mais elementar que se tornasse quando eu a racionalizava– fazia-me sentido: o jogo ideal é perturbar o equilíbrio a nosso favor. O universo comera-nos uma peça, levara o professor Tavares. Desequilibrara o tabuleiro. Era a nossa vez de jogar, e a única possibilidade (como na guerra) era convencer as tropas de que o objectivo se mantinha, de que era possível alcançá-lo, de que existia um amanhã mas, sobretudo, que existia um hoje; que, assimilando aquela pequena derrota, aceitando-a, no final sairíamos vitoriosos.

A chuva adensou-se, em poucos minutos eu estava ensopado, e estuguei o passo pela Rua de Santa Marta. Pouco depois já não via nada, só uma cortina de chuva, e adivinhei o resto do caminho até à Rua de São José, o chapéu inclinado para a frente para me proteger do vento. Peões ao centro, cavalos nas margens. Foi a primeira noite em que dormi decentemente desde o suicídio de Tavares. A minha mulher estranhou que eu não me tivesse levantado de madrugada, nem para beber água, nem para suspirar, nem para ir à sala ver a noite desdobrar-se numa coroa de espinhos.

Durante os primeiros dois anos de sobriedade, Alexandre falou-me repetidamente de uma experiência com ratos, engendrada na década de 1970, pela qual se demonstrava que o mecanismo de dependência de uma substância não passa pela substância em si, mas pela repetição do comportamento em circunstâncias que o favorecem– a solidão, o isolamento. Contrapunha-lhe que nós não éramos ratos, que os seres humanos não se comportavam como experiências de um laboratório no Canadá, ao que ele respondia: Se não és como os ratos, diz-me quantas vezes é que foste capaz de refrear o impulso. Referia-se à dependência, claro; quantas vezes eu saíra de casa com o intuito de beber e, afinal, dera meia-volta, regressando pelo mesmo caminho de onde viera, e me sentara no sofá a ver televisão ou a ler um livro. A resposta era desnecessária. Uma vez instalada a obsessão, tornava-se impossível contrariá-la sozinho. Qualquer pessoa que sofra de um distúrbio semelhante conhece os meandros da doença– chamamos-lhe assim porque deixa um pesado lastro, não somente físico, mas de desespero, de culpa.

É uma doença espiritual porque não tem solução humana, disse Alexandre, da primeira vez que conversámos.

Nesse momento, cerrei os punhos e estive prestes a atirar ao ar a mesa à qual nos encontrávamos sentados. Mandá-lo à merda. Eu podia engolir a história dos ratos; «doença espiritual», contudo, era de mais. Mas permaneci sentado, sob o escrutínio dos olhos aguados de Alexandre. Éramos muito mais novos nessa altura, eu ainda não fizera trinta anos, e ele tinha menos de quarenta. Dividia-nos um abismo que a tal força misteriosa me ajudaria a atravessar.

A solução, respondeu ele, está nos Doze Passos.

Doze!, barafustei. Porque não trinta e dois, ou oitenta e nove?

A minha raiva era imensa. O trabalho que se prefigurava, de uma dimensão mítica. Estrangular o Leão de Nemeia, matar a Hidra de Lerna, capturar a Corça de Cerineia, matar o gigante Gerião, trazer Cérbero do reino dos mortos. Eu não era Hér­cules, lamentei-me; era um homem, e dos fracos. Alexandre limitou-se a sorrir e disse: Um dia de cada vez. Um passo de cada vez. Levei muito tempo a acreditar que aquela era a melhor aposta de sobrevivência neste mundo. Continuei, porém, a ir a reuniões. Na irmandade, precisávamos uns dos outros– e todos precisávamos de deus, fosse ele qual fosse, mesmo que não existisse. Os outros mostravam-nos que não estávamos sozinhos na ratoeira. Deus mostrava-nos a todos (se fôssemos humildes, criaturas de boa vontade) que a ratoeira era uma ilusão. Um dia iríamos rir-nos da prisão que construíramos.

Entretanto, havia que lidar com o inevitável. Para alguém que habita, anos a fio, uma situação intolerável, os ressentimentos são enormes, parecem intransponíveis. Como reparar o mal causado? Como endireitar aquilo que parece irremediavelmente inquinado? Como pode o alcoólico encarar a vida normal, sem anestesia, quando a pessoa que ele mais ressente é encontrada, diariamente, no reflexo de uma janela, no espelho retrovisor do carro, na montra chuvosa de uma loja? Perguntem-lhe qual foi a pior altura da sua vida e ele provavelmente responderá que foi quando esteve sóbrio. Enquanto a maioria das pessoas aprende a viver – as vidas ensinam-lhes, através dos erros, onde é melhor não estar–, um alcoólico mente, ilude, fabrica, engendra, manipula e comete repetidamente as mesmas asneiras, como um ratinho enlouquecido numa experiência de laboratório, escorregando uma e outra vez para o mesmo lugar de desamparo.

Muitos anos depois dessa conversa com Alexandre, quando o meu filho João fez catorze anos, levei-o a almoçar ao restaurante de que ele mais gostava, um estabelecimento de hambúrgueres e batidos de leite com empregadas vestidas à americana. Sentámo-nos numa mesa que dava para a avenida, cruzada por carros, gente e muitas nuvens, um dia algo tristonho, e contei ao meu filho quem eu era e o caminho que encontrara. A conversa foi breve. Fiz-lhe um resumo prático e circunstancial, sem entrar em pormenores, expliquei-lhe o que ...