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E, DE REPENTE, A ALEGRIA

Manuel Vilas  

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Excerto

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Tudo aquilo que amámos e perdemos, que amámos imensamente, que amámos sem saber que um dia nos seria roubado, tudo aquilo que, após a sua perda, não conseguiu destruir-nos — embora tenha insistido com forças sobrenaturais e procurado a nossa ruína com crueldade e afinco — acaba, mais tarde ou mais cedo, transformado em alegria.

A alma humana não deveria ter descido à Terra.

Deveria ter ficado nas alturas, nos abismos celestiais, nas estrelas, no espaço profundo. Deveria ter permanecido afastada do tempo; a alma humana teria ficado melhor sem ser humana, porque a alma envelhece ao sol, derrete-se, afunda-se e combusta em milhões de perguntas que se disseminam sobre o passado, o presente e o futuro, que formam um só tempo, e esse é o tempo pessoal de cada um de nós, um tempo onde o amor é um desejo permanente, que não se cumpre, que nos avisa da beleza da vida e depois vai-se embora.

Vai-se embora.

Deixa-nos num silêncio poderoso, amargo e subtil.

Milhões de perguntas que foram seres humanos antes de se transformarem em perguntas. Milhões de corpos, milhões de pais, mães, filhos e filhas.

E ficamos sós e paralisados.

A alma humana somos nós, todos nós, à procura do amor, todos à procura de sermos amados todos os dias, todos os dias à espera da vinda da alegria, pois o que mais haveríamos de esperar?

Como desejaríamos todos nós que houvesse uma ordem e um sentido na vida, mas só há tempo e enigmáticos adeuses, e é nesses adeuses que vive o imenso amor que estou a sentir agora.

Este é o meu caos, esta, a minha desordem.

Eis-me aqui, desamparado e ao mesmo tempo a sentir a força da alegria, embora também com a raiva indefinida da vida dentro de mim.

Como todos os seres humanos.

Porque todos somos o mesmo.

E é nessa alegria faminta que se encontra toda a consciência da vida que fomos capazes de acumular.

No início do ano de 2018 publiquei um romance, um romance que era o relato da história da minha vida, e esse livro transformou-se num abismo.

Dentro desse livro morava a história da minha família.

O Bach e a Wagner, o meu pai e a minha mãe.

Meti a minha família num livro que tinha música e foi a coisa mais bonita que fiz na vida.

«Estás doido?», perguntou-me muita gente.

«Não, é só amor», respondi. Só amor, e necessidade, e esperança. Quando falamos da nossa família, essa família regressa à vida. Se escrevia sobre o meu pai e a minha mãe e o que fomos, o ontem voltava, e era poderoso e bom. Era só isso, foi isso que fiz.

Encontro-me neste momento num hotel de Barcelona.

Nunca pensei que voltasse a escrever com uma esferográfica e um caderno, como estou a fazer neste preciso instante. Tenho o computador à minha frente, mas já não me serve.

Mudei três vezes de quarto, neste hotel. Não gostei do primeiro porque era quente e a vista era horrível. Quando me deram o segundo, achei que poderia lá descansar: esse alívio, essa necessidade de encontrar a calma, de não continuar envolto num emaranhado de nervos, de idas e vindas.

Porém, estava havia um bocado deitado na cama quando me apercebi de que não acertara. O quarto dava para a avenida da Diagonal, uma das grandes artérias do trânsito de Barcelona, e o barulho que subia da rua era excessivo. De excessivo passou a infernal. Era o barulho produzido pelos desconhecidos, centenas de homens e mulheres a deambularem pela cidade, com os seus carros, ou as suas motas, ou as suas conversas. O barulho estava a transformar-se num inimigo. Comecei a ficar nervoso. Estupidez a minha ter desfeito a mala, impelido por essa primeira impressão positiva. Estava a ver a minha mala ali, aberta em cima da mesa. Calculei quanto tempo demoraria a voltar a meter tudo lá dentro.

Vejo as minhas coisas como se fossem as de um espírito sem corpo. As minhas camisolas pretas, o meu computador, a minha agenda, o meu nécessaire. Parecem coisas que o meu pai usava, parecem pertences do meu pai e não meus.

Era 1 de Julho em Barcelona. Senti a humidade que impregnava a cidade inteira. Não conseguiria habituar-me àquela humidade, que me fazia suar de uma forma humilhante. A minha vida e o calor irmanaram-se nalgum ponto do meu passado. Quando estiver morto e já não tiver calor, alcançarei o nada. O nada é já não sentir o calor espanhol, o calor que faz sempre em todas as cidades espanholas: calor húmido ou calor seco, mas calor.

O calor e a vida foram a mesma coisa, para mim.

Tenho cinquenta e cinco anos e dentro de dias farei cinquenta e seis. Não acredito nesta idade. Se acreditasse, se a aceitasse em toda a sua acerada verdade, teria de pensar na morte. Não se pode viver se a morte ocupar o nosso pensamento, mesmo que nada como ela emane de nós com tanta força. Ela está lá, no nosso coração. Ninguém quis amar a sua própria morte, ninguém quer falar com ela, mas eu quero, porque me pertence.

Olhei-me ao espelho. O envelhecimento dos homens camufla-se sempre, esconde-se. A sociedade mostra-se condescendente com o envelhecimento dos homens, já com o das mulheres é implacável.

Liguei para a recepção e pedi para me trocarem outra vez de quarto. Veio alguém ajudar-me. Pensei que seria motivo de falatório lá em baixo.

«Agora é a tua vez de levar com o chanfrado.»

«Não, que a mim calhou-me outro maluco a semana passada; e muito pior do que este, porque era casado e a mulher apoiava-o. Este pelo menos está sozinho.»

Imaginei este diálogo, mas não senti qualquer desconforto, antes uma quase reverência por os recepcionistas me dedicarem os seus pensamentos e as suas censuras. Tudo é vida e tudo serve à vida. Em tudo há uma homenagem à vida.

Foi-me dado contemplar essa homenagem em tudo o que ocupa um lugar sob o Sol.

No dia seguinte pedi nova troca. E fui testemunha de que a vida premeia os teimosos, os que não descansam enquanto não encontram o óptimo. A perseverança pode enlouquecer-nos.

Fartos de mim, porventura, deram-me um quarto espectacular no 15.º piso, o mais alto e provavelmente o melhor do hotel. Era o quarto perfeito: grande, luminoso, o mais elevado do edifício. Via-se o mar ao longe. E havia também uma janela no chuveiro, da qual se contemplava Barcelona de outro ângulo.

Senti-me senhor da cidade.

A cidade estava aos meus pés.

Liguei o ar condicionado e tudo ficou perfeito.

Lembrei-me então da primeira vez que vim a Barcelona. Foi em 1980. A minha namorada na altura tinha cá família e dormimos em sua casa; uma tia sua mostrou-nos a cidade. Esse namoro não prosperou. E estou a evocá-lo agora, trinta e oito anos depois. Um amor desvanecido e do qual resta apenas esta lembrança erigida por um homem memorioso. O que é que o tempo nos faz? Porém, aquele que fui, aquele que veio a Barcelona há trinta e oito anos com a namorada, está enterrado no meu corpo, na minha carne.

O meu quarto no 15.º piso deste hotel parece um local sagrado, sou eu quem está a transformá-lo em espírito.

Aos poucos vai caindo a tarde.

Olho de vez em quando pela janela: ali está Barcelona, cheia de cores azuis, nesta tarde de Verão, com as suas centenas de ruas e com os seus mortos a falarem aos vivos, nessa conversa permanente que as pessoas com mais de cinquenta anos mantêm com os seus entes queridos falecidos.

Daqui a pouco tenho um jantar com um clube de leitura em que se leu o meu romance, um livro em que falo de vocês os dois: de ti, mamã, de ti, papá, porque vocês os dois, e os vossos dois fantasmas, são tudo o que tenho, e tenho um reino, talvez um reino indecifrável, um reino de beleza.

Transformaram-se em beleza, e eu assisti a esse prodígio. E não posso estar mais agradecido à vida, porque vocês agora são beleza e alegria.

2

Dá-me uma enorme felicidade (receio, também) ir aos encontros com leitores. Costumo pensar que se sentirão decepcionados assim que virem o meu aspecto. E eu lamentaria imenso decepcioná-los. É tão triste decepcionar outro ser humano. Talvez seja por isso que muitos escritores optam por desaparecer. Não só os escritores, qualquer ser humano pode optar por desaparecer em vez de decepcionar.

Entro na livraria e muita gente vem cumprimentar-me. Mas está lá uma pessoa especial. Não a reconheço ao início. Olha para mim como se nos conhecêssemos, mas não sei quem é. Talvez suspeite de uma possibilidade.

Receio sempre essas possibilidades, esses acasos turbulentos da vida.

E, com duas palavras apenas, apercebo-me.

Não a via há trinta e cinco anos. A sua beleza partiu para sempre. O reaparecimento do passado é sempre devastador e estilhaça em mil pedaços o nosso sistema nervoso. E, no entanto, a minha memória conservou a sua lembrança sem corrupção, sem deterioração.

Sinto uma indizível ternura.

Tento extrair do seu rosto actual aquele que está no meu pensamento. E julgo que ela se apercebe. Confesso-lhe que sempre a admirei imenso. Foi o que me ocorreu dizer-lhe

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