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CUIDAR DE QUEM CUIDA

José Soeiro    Mafalda Araújo    Sofia Figueiredo   

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Excerto

Introdução

«A casa é onde o coração está», diz um conhecido provérbio inglês. A casa: um refúgio dos ritmos do emprego, da azáfama diária, um abrigo que permite delimitar as fronteiras securizantes do «isolamento social». Não faltaram, nos tempos de quarentena que se viveram no início de 2020 à conta da pandemia, interpretações românticas do espaço doméstico. Estar em casa seria como um retorno a si mesmo, a oportunidade de mergulhar na subjetividade, na recriação dos tempos livres e na reinvenção da personalidade. Mas, se é certo que as casas nos permitem firmar as distâncias físicas em relação ao mundo exterior, que dizer do confinamento em casas onde o espaço escasseia, da situação das famílias subitamente sobrecarregadas com os cuidados a pessoas com deficiência ou idosos que deixaram de ter apoios externos, do ajuste necessário para responder às exigências do teletrabalho enquanto «se deita um olho» ao trabalho de casa das crianças? A casa não é, assim, apenas um local de recriação, descanso ou de recuperação emocional. Dizia-o já Mariarosa Dalla Costa, a ativista italiana que, no início da década de 1970, fundou o Coletivo Feminista Internacional: a esfera doméstica é também um espaço de trabalho e de compulsão. Ou seja, uma verdadeira «fábrica social» onde, às mulheres, sobretudo a elas, são prescritas diversas tarefas essenciais sem lugar a remuneração. Uma «fábrica», afinal, onde se produzem, intensificam e raramente se desfazem as assimetrias das relações de classe, de género ou raciais.

A economia nunca parou

«A economia não está “parada”. Toda a gente está a trabalhar diligentemente em casa, a cozinhar refeições, a fazer limpezas, a tratar dos seus entes queridos… Só não tem valor para os economistas porque costuma ser trabalho feminino não pago. Um bom dia no trabalho a todos.» Publicada numa rede social em abril de 2020 (quando, devido à pandemia que se disseminou pelo planeta, uma parte importante das empresas e dos serviços públicos se encontrava fechada), esta frase teve milhares de partilhas. Vera Rubin, a sua autora, deixava assim a descoberto uma das ficções mais enraizadas da nossa sociedade: a que separa a economia considerada produtiva, que associamos à esfera pública, das tarefas relacionadas com os cuidados, historicamente silenciados e remetidos para o espaço doméstico e para o universo feminino, mas essenciais à manutenção da vida — e, portanto, da própria «economia».

Ao mesmo tempo, quem lesse a frase poderia ser levado a pensar que, nos períodos de confinamento que muitos países decretaram em 2020 para combater o vírus, «toda a gente» pôde abandonar os seus empregos para se dedicar a essas tarefas que sustentam o nosso quotidiano: preparar refeições, tratar da roupa e das limpezas, cuidar de quem precisa de nós e nos está próximo. Na realidade, sabemos bem que não foi assim. Se o trabalho doméstico e dos cuidados informais não tiveram descanso, o mesmo aconteceu com o emprego de todas essas pessoas que desempenham as tarefas das quais a nossa vida depende. Profissionais de saúde, auxiliares de ação direta nos lares, trabalhadores dos armazéns e das caixas de supermercado, trabalhadoras da limpeza nos hospitais e nos transportes públicos, educadores e entregadores de comida, entre tantos outros, nunca deixaram de se encarregar desses ofícios que, de repente, parecem ter merecido o reconhecimento público de «profissões essenciais», confrontados que fomos com a escolha entre o que verdadeiramente conta para que a nossa vida continue. De facto, parece que fomos t

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