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CONTáGIO

David Quammen  

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Excerto

Ler para sobreviver

Quando abrimos Contágio — Uma História dos Vírus Que Estão a Mudar o Mundo, logo no início, David Quammen deixa-nos esta mensagem: os Sete Selos foram abertos pelo Leão de Judá; na abertura do Quarto Selo surge o último dos quatro cavaleiros, a Morte, seguido pelo Hades, que engole as vítimas da fome, da peste e da guerra (Apocalipse 6:7-8). Liberta-se adrenalina e gera-se em nós um impulso, subconsciente: ler o livro para sobreviver.

Cada capítulo conta uma história de detectives e de vilões. Estes vilões, microrganismos, têm o poder de saltar a barreira da espécie e infectar humanos. Cada uma destas infecções, tem em si o potencial para causar a próxima grande pandemia (N.B.O., Next Big One). E a N.B.O. é precisamente o que vivemos agora: um novo coronavírus, o SARS-CoV-2.

No universo em expansão, a diversidade aleatória impulsiona evolução. Existe competição pelo espaço. Quando um vírus entra num hospedeiro novo, a relação vírus-hospedeiro que se vai estabelecer resulta num de dois cenários: ou na eliminação do vírus, ou na conquista do espaço, conseguido através de um equilíbrio ecológico, dinâmico, mas que está constantemente a ser posto à prova. É este medir de forças permanente entre espécies, esta competição inata, que David Quammen descreve de forma extraordinária, tanto para não-cientistas como para cientistas, como eu.

Esta viagem começa na Austrália, com o vírus Hendra, mas passa um pouco por todo o mundo, sendo os continentes asiático, africano e americano os grandes palcos de acção. Cada capítulo começa com rumores de doenças mortais sem relação aparente entre si. Gradualmente, porém, os pontos são ligados e a origem da doença desmistificada, com a identificação do microrganismo e da espécie animal que a passou aos humanos. E David Quammen fá-lo de uma forma sublime. Visitamos os laboratórios dos cientistas e participamos nas suas missões no terreno, seja a capturar morcegos na China ou macacos histéricos no Bangladeche, a perseguir gorilas ou a tentar colher urina de chimpanzés em África. Também nas florestas da África Central ouvimos histórias contadas por locais, de rituais de iniciação com braços de chimpanzés mutilados. No Bornéu, considerada a terceira maior ilha do mundo, comemos um caril biryani com um epidemiologista que investiga a disseminação do parasita da malária. No Estado de Nova Iorque capturamos pequenos roedores, uma espécie reservatório da bactéria Borrelia que é transmitida para o homem através da picada da carraça e causadora da doença de Lyme. Todas estas viagens são descritas com enorme detalhe e rigorosa informação histórica e cultural.

O que mais impressiona, para um virologista como eu, é a forma subtil como David Quammen nos ensina microbiologia, de um modo natural e gradual, ao longo da narrativa, desde a definição das propriedades biológicas dos vírus à forma como estes se transmitem e causam doenças. Isto inclui a explicação de conceitos tão fundamentais na biologia como ADN e ARN, como se organiza a informação genética e o processo de selecção e evolução natural. E não fica por aí, pois descreve também com detalhe a metodologia científica e epidemiológica, e o modo como se prepara uma missão de investigação no terreno, listando, com pormenor, tanto o material necessário a levar nos jipes, como a quantidade de cadeiras de plástico e luvas cirúrgicas. E quase pede desculpa por ter de explicar conceitos fundamentais em epidemiologia, como a definição de taxa de reprodução básica (R0: número de novas infecções que, em média, um indivíduo infectado origina), massa crítica e imunidade de grupo (número de indivíduos não-susceptíveis necessários para refrear a transmissão de um microrganismo) e alta taxa de mutação de vírus ARN.

De todos os capítulos, aquele de que mais gostei foi o VIII: «O chimpanzé e o rio». É neste capítulo que David Quammen foge um pouco à realidade, misturando ficção e factos, levando-nos consigo na sua viagem ao longo do rio Congo à descoberta da origem do VIH. Do ponto de vista evolutivo, é fascinante, pois um vírus que estava confinado a uma sub-espécie particular de chimpanzés, Pan troglodytes troglodytes, numa das margens do rio, salta a barreira da espécie para os humanos. Ou seja, de cerca de 30 mil indivíduos em vias de extinção, passou para uma espécie com cerca de 7,8 mil milhões de indivíduos susceptíveis à infecção, fazendo-o de forma surpreendente. Actualmente, existem cerca de 42 milhões de infectados e houve 800 mil mortes, só em 2020. Em todo o mundo, cerca de 24 milhões de pessoas estão a ser medicadas para controlar a infecção. No total, registam-se cerca de 75 milhões de pessoas infectadas pelo VIH, das quais aproximadamente 32 milhões morreram da infecção. São números que impressionam e que tornam a pandemia do VIH a mais severa desde a pandemia de gripe pelo vírus influenza, em 1918. Este capítulo também revela a componente humana no mundo da ciência, exemplificada na corrida ao isolamento do VIH-1 por Luc Montagnier e Robert Gallo e refere a participação de uma cientista portuguesa: «Usando ferramentas de análise fornecidas pelo grupo de Harvard, Montagnier e os colegas testaram o sangue de um homem de 29 anos da Guiné-Bissau, um país minúsculo, ex-colónia portuguesa, situado na fronteira sul do Senegal. O homem exibia os sintomas da sida (diarreia, perda de peso, gânglios inchados), mas acusava negativo para o VIH. Foi internado num hospital de Portugal, e a sua amostra sanguínea foi entregue em mãos a Montagnier, por uma bióloga portuguesa em deslocação a Paris.» O nome desta ilustre cientista portuguesa é Odette Ferreira, farmacêutica, professora universitária e investigadora que, com Luc Montagnier, identificou o VIH-2.

Para mim, a mensagem que fica depois de lido este livro de David Quammen é que, para sobreviver, a espécie humana tem de conseguir viver em equilíbrio com a natureza.

PEDRO SIMAS, virologista

Junho de 2020

Nós criámos

a epidemia do coronavírus[*]

Ela pode ter começado com um morcego numa caverna,

mas foi a actividade humana que a desencadeou

O mais recente e assustador vírus que captou a atenção horrorizada do mundo, que causou o isolamento de 56 milhões de pessoas na China, que interrompeu planos de viagem e provocou uma corrida às máscaras de protecção é conhecido provisoriamente como «nCoV-2019». É um nome desgracioso para uma ameaça sinistra.

O nome escolhido pela equipa de cientistas chineses que isolaram e identificaram o vírus, depois de ele ter infectado seres humanos no final de 2019 num mercado de marisco e animais vivos de Wuhan, na província de Hubei, é uma abreviatura de «novo coronavírus de 2019». Isso significa que ele pertence à família dos coronavírus, um grupo conhecido pela sua má reputação. A epidemia de SARS de 2002-2003, que infectou 8098 pessoas em todo o mundo, matando 774, foi causada por um coronavírus, assim como o surto de MERS que começou na Península Arábica em 2012 e ainda está activo (2494 pessoas infectadas e 858 mortes até Novembro de 2019).

Apesar do nome do novo vírus, e como bem sabem as pessoas que o baptizaram, o nCoV-2019 não é tão novo quanto se possa imaginar. Foi encontrado há vários anos algo muito parecido com ele numa caverna de Yunnan, uma província distante cerca de 1,6 mil quilómetros de Wuhan, por uma equipa de investigadores perspicazes, que notaram a sua existência com preocupação. A disseminação rápida do nCoV-2019 — mais de 4500 casos confirmados, com pelo menos 106 mortes, até à manhã do dia 14 de Janeiro, e os números terão aumentado quando isto for lido — é espantosa, mas não imprevisível. Que o vírus tenha vindo de um animal — provavelmente um morcego, e possivelmente depois de ter passado por outro ser —, pode parecer estranho, mas não surpreende de forma nenhuma os cientistas que estudam estas coisas.

Uma dessas cientistas é Zheng-Li Shi, do Instituto de Virologia de Wuhan, principal autora do artigo (disponível até ao momento apenas numa versão preliminar, não revista pelos pares) que deu ao nCoV-2019 a sua identidade e nome. Foram Shi e os seus colaboradores que, em 2005, mostraram que o agente patogénico do SARS era um vírus de morcego que se transmitia aos seres humanos. Ela e os colegas têm rastreado o coronavírus em morcegos desde então, alertando para o facto de alguns deles serem particularmente adequados a causar pandemias humanas.

Num artigo de 2017, depois de quase cinco anos a recolher amostras fecais de morcegos na caverna de Yunnan, informaram que haviam encontrado coronavírus em vários indivíduos de quatro espécies diferentes de morcegos, entre eles um chamado morcego-de-ferradura-intermédio, devido à aba semioval de pele que se projecta como um pires em torno das suas narinas. Shi e os colegas anunciaram agora que o genoma desse vírus é 96 por cento idêntico ao vírus de Wuhan encontrado recentemente em seres humanos. E os dois constituem um par distinto de todos os outros coronavírus conhecidos, inclusive aquele que causa o SARS. Nesse sentido, o nCoV-2019 é novo, e possivelmente ainda mais perigoso para os seres humanos do que os outros coronavírus.

Digo «possivelmente» porque, até agora, não só não sabemos quão perigoso ele é, como também não temos como saber. Os surtos de doenças virais novas são como as esferas de aço de um flíper: podemos atingi-las com as palhetas, abanar a máquina e bater nas bolinhas para ouvir o tilintar do flíper, mas o sítio onde elas acabam por cair depende de muitas variáveis, bem como de qualquer coisa que façamos. Isso ocorre principalmente com os coronavírus: eles sofrem mutações frequentes à medida que se replicam, e podem evoluir tão rapidamente quanto um espírito maligno saído de um pesadelo.

Peter Daszak, presidente da EcoHealth Alliance, uma organização privada de investigação com sede em Nova Iorque que estuda as ligações entre saúde humana e vida selvagem, é um dos parceiros de longa data de Shi. «Há quinze anos que alertamos para estes vírus», disse-me ele na sexta-feira, 17 de Janeiro, com uma frustração tranquila. «Desde o SARS.» Foi co-autor do estudo sobre morcegos e SARS de 2005, e também do artigo de 2017 sobre os múltiplos coronavírus do tipo SARS da caverna de Yunnan.

Daszak contou-me que, durante o segundo estudo, a equipa de campo recolheu amostras de sangue de dois mil habitantes de Yunnan; cerca de quatrocentos viviam perto da caverna. Aproximadamente três por cento deles tinham anticorpos para coronavírus relacionados com a SARS. «Não sabemos se ficaram doentes. Não sabemos se foram expostos quando crianças ou adultos», disse Daszak. «Mas o que isso nos diz é que esses vírus estão a transmitir-se repetidamente de morcegos para seres humanos.» Por outras palavras, o surto em Wuhan não é novidade. Faz parte de uma sequência de contingências correlacionadas que remontam ao passado e avançam para o futuro, enquanto as actuais circunstâncias persistirem. Assim, quando o leitor tiver acabado de se preocupar com este surto, preocupe-se com o próximo. Ou então faça algo a respeito das actuais circunstâncias.

Entre as circunstâncias actuais está o perigoso comércio de animais selvagens para alimentação, com cadeias de abastecimento espalhadas pela Ásia, África e, em menor grau, Estados Unidos e outros locais. Esse comércio foi agora proibido na China, temporariamente, mas também foi proibido durante o SARS, e depois teve permissão para ser retomado, e morcegos, civetas, porcos-espinhos, tartarugas, ratos-do-bambu, muitos tipos de aves e outros animais voltaram a ser empilhados, juntos, em mercados como o de Wuhan.

As circunstâncias actuais também incluem 7,6 mil milhões de seres humanos famintos: alguns pobres e desesperados por proteínas; alguns abastados, perdulários e com recursos para viajar de avião para onde quiserem. Estes factores não têm precedentes no planeta Terra: sabemos pelo registo fóssil, pela ausência de evidências, que nenhum animal de grande porte alguma vez esteve perto de ser tão abundante quanto os seres humanos são agora, para não falar da sua eficácia em apropriar-se dos recursos naturais. E uma consequência dessa abundância, desse poder e das consequentes perturbações ecológicas é o aumento das trocas virais — primeiro de animal para ser humano, depois de humano para humano, às vezes à escala pandémica.

Invadimos florestas tropicais e outras paisagens selvagens que abrigam imensas espécies de animais e plantas — e dentro desses seres, imensos vírus desconhecidos. Derrubamos as árvores; matamos os animais ou engaiolamo-los e enviamo-los para os mercados. Destruímos os ecossistemas e libertamos os vírus dos seus hospedeiros naturais. Quando isso acontece, eles precisam de um novo hospedeiro. Muitas vezes, somos nós.

A lista dos vírus que surgem em seres humanos soa como um rufar fúnebre de tambor: vírus Machupo, Bolívia, 1961; vírus Marburgo, Alemanha, 1967; vírus Ébola, Zaire e Sudão, 1976; VIH, identificado em Nova Iorque e na Califórnia, 1981; uma forma de hantavírus (agora conhecida como Sin Nombre), sudoeste dos Estados Unidos, 1993; vírus Hendra, Austrália, 1994; gripe aviária, Hong Kong, 1997; vírus Nipah, Malásia, 1998; vírus do Nilo Ocidental, Nova Iorque, 1999; SARS, China, 2002-03; MERS, Arábia Saudita, 2012; Ébola novamente, África Ocidental, 2014. E isto é apenas uma amostra. Agora temos o nCoV-2019, o mais recente rufo do tambor.

As circunstâncias actuais também incluem burocratas que mentem e ocultam más notícias, além de autoridades eleitas que se gabam de derrubar florestas para criar empregos na indústria madeireira e na agricultura ou de reduzir orçamentos para a saúde pública e a investigação. A distância de Wuhan ou da Amazónia até Paris, Toronto ou Washington é curta para alguns vírus, medida em horas, tendo em conta que se dão muito bem a apanhar boleia em aviões de passageiros. E se acha que financiar a preparação para uma pandemia é caro, espere até ver o custo final do nCoV-2019.

Felizmente, as circunstâncias actuais também incluem cientistas brilhantes e dedicados e pessoal médico de resposta a surtos, como tantos no Instituto de Virologia de Wuhan, na EcoHealth Alliance, no Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, no CDC chinês e em inúmeras outras instituições. São pessoas que entram em cavernas de morcegos, pântanos e laboratórios de contenção de alta segurança, muitas vezes arriscando a vida, para extrair fezes, sangue e outros indícios preciosos de morcegos, a fim de estudar sequências genómicas e responder às principais perguntas.

Enquanto aumenta o número de casos de nCoV-2019 e de mortos, a taxa de mortalidade permanece bastante estável até agora: em torno ou abaixo de três por cento. Até 21 de Janeiro, menos de três em cada cem casos confirmados haviam morrido. Isto é uma boa sorte relativa — pior do que na maioria das estirpes de gripe, melhor do que na SARS. Mas a boa sorte pode não durar. Ninguém sabe aonde a esfera do flíper irá parar. Daqui a quatro dias, o número de casos pode estar na casa das dezenas de milhares. Daqui a seis meses, a pneumonia de Wuhan pode começar a desaparecer da nossa memória. Ou não.

Estamos diante de dois desafios mortais, a curto e longo prazos. Curto prazo: devemos fazer tudo o que pudermos, com inteligência, calma e total comprometimento de recursos, para conter e extinguir este surto de nCoV-2019 antes que ele se torne, como é possível, uma pandemia global devastadora. A longo prazo: devemos lembrar, quando a poeira assentar, que o nCoV-2019 não foi um acontecimento novo ou um infortúnio que nos aconteceu. Fez — e faz — parte de um padrão de escolhas que nós, os seres humanos, estamos a fazer.

CAPÍTULO I

O cavaleiro da morte

Uma investigação sobre as infecções

de origem animal

1

O vírus hoje conhecido como Hendra não foi o primeiro dos novos micróbios assustadores. Não foi o pior. Comparado com outros, parece relativamente pouco importante. O seu impacto letal, em termos numéricos, foi baixo de início e assim permanece; o alcance geográfico restringiu-se a uma área pequena e os episódios posteriores não o propagaram até muito mais longe. Fez a sua estreia em 1994 nas imediações de Brisbane, na Austrália. Começou com dois casos, um deles fatal. Não — na verdade, houve dois casos humanos, uma morte humana. Outras vítimas também sofreram e morreram, mais de uma dúzia — vítimas equinas —, e a história delas faz parte deste relato. O tema da doença animal e o tema da d

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