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COMO CRIAR CRIANçAS GENTIS

Thomas Lickona  

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Excerto

Introdução

Este é um livro sobre a bondade — como ensinar a bondade aos seus filhos, como cultivá-la em casa e propagá-la para lá da sua família próxima. Talvez tenha escolhido este livro porque é pai ou mãe há pouco tempo e quer fazer tudo o que puder, desde o início, para cultivar a bondade no seu filho. Ou talvez sinta que tem um filho que não é bondoso — ou que não é tão bondoso quanto gostaria que fosse — e quer tentar mudar isso. Talvez sinta que, muitas vezes, as interacções na vossa família — entre adultos, entre pais e filhos e entre as próprias crianças — não são tão respeitosas como gostaria. Talvez queira ter mais cooperação e menos queixas.

Qualquer pessoa que dê conselhos sobre educar crianças tem de o fazer com uma humildade profunda. Talvez conheça a história daquele homem que dava um curso sobre como educar crianças, chamado Os Dez Mandamentos para Pais. Vinham pessoas de muito longe assistir às suas aulas, para aprenderem a ser melhores pais. Depois, esse homem casou-se e ele e a mulher tiveram um filho. Passados poucos anos, mudou o nome do curso para Cinco Sugestões para Pais. Passado algum tempo tiveram outro filho e não tardou a que ele mudasse o nome do curso, desta vez para Três Dicas Hesitantes para Pais. Quando nasceu o seu terceiro filho, desistiu de dar aulas.[1]

Uma história humorística mas com uma moral pertinente: não existe uma fórmula secreta para educar crianças, não há dez medidas fáceis que possam garantir um bom resultado. Criar seres humanos não é como fazer um bolo ou reparar um pneu furado. Certa vez, ao observar um pai consciencioso que tentava corajosamente manter a calma enquanto lidava com mais um conflito entre os seus filhos, pareceu-me que um título mais adequado para este livro seria algo do género: Como, Num Dia Bom, Tentar Tornar-se Um Pouco Melhor a Ajudar os Seus Filhos a Serem Um Pouco Mais Bondosos. Mas não iria caber na capa.

Dito isto, acredito que há princípios e práticas importantes — alguns vindos da sabedoria do passado, outros dos avanços contemporâneos no desenvolvimento moral e na investigação sobre o cérebro — que podem guiar-nos na educação dos nossos filhos para que eles se tornem pessoas com um bom carácter. Sabemos que as crianças precisam de uma combinação de apoio (muito amor) e desafio (expectativas elevadas e responsabilização). Sabemos que o bom carácter implica termos noção do que está certo, importarmo-nos com o que está certo e fazermos o que está certo — e que fazer é a parte mais difícil. A psicologia moral moderna confirma o que Aristóteles nos ensinou há séculos: tornamo-nos bons praticando o bem. Por essa razão, os pais têm de ser «treinadores de carácter», têm de ensinar deliberadamente competências de carácter, como o autocontrolo e a bondade, e de ajudar os filhos a praticá-las uma e outra vez, nas situações do dia-a-dia, até que esses comportamentos se tornem mais fáceis e habituais.

Ser um treinador do carácter significa dar aos seus filhos oportunidades para desenvolverem acção moral na vida da família, como realizar tarefas domésticas, tomar conta de um irmão mais novo, brincar com ele ou ler-lhe uma história, ajudar sem que tal seja pedido, redimir-se depois de fazer algo errado e participar em reuniões para a resolução de problemas, onde todas as pessoas têm a oportunidade de falar e a responsabilidade de contribuir para que a família seja mais feliz e mais tranquila. Também significa ajudar os seus filhos a aprenderem com os erros e a reconhecerem os momentos em que não resistiram à tentação ou à pressão dos seus pares. Quer que eles saibam que ser uma boa pessoa e fazer o que está certo nem sempre é fácil, mas que é a única maneira de nos respeitarmos e de sermos verdadeiramente felizes.

A parte mais difícil de ser um bom treinador do carácter é agir no calor do momento, quando está cansado, frustrado ou com pressa e os seus filhos não fazem o que lhes pede ou parecem à beira de uma crise. Na confusão da vida familiar, em geral tem de fazer algo no momento para lidar com o problema em mãos. Ao mesmo tempo, quer que a sua resposta imediata tenha benefícios a longo prazo, de modo a prevenir variantes futuras do mesmo cenário. Quer reagir ao comportamento indesejável de um modo que ajude os seus filhos a ganharem maturidade. Quer ajudá-los a fazerem progressos para se tornarem pessoas com um bom carácter — pessoas dotadas de autocontrolo, que gostam de ser úteis, pessoas respeitosas e amáveis e corajosas o bastante para fazerem o que está certo, independentemente do que os outros fazem.

Muito do que aprendi acerca de educar crianças vem das minhas experiências no terreno como pai de dois rapazes e, agora, avô atento e participativo de quinze crianças, com idades compreendidas entre os cinco e os vinte e dois anos. Sou, por formação, psicólogo do desenvolvimento, com uma especialização no desenvolvimento moral de crianças e adolescentes. O meu primeiro livro para pais, Raising Good Children, era um guia para ajudar as crianças no seu desenvolvimento ao longo dos estádios de raciocínio moral, o processo de compreender por que razão algumas acções estão certas e outras erradas. Contudo, o raciocínio moral é apenas uma parte do carácter — a parte que diz respeito à «cabeça». O bom carácter também envolve «o coração» (preocuparmo-nos com o que está certo) e «a mão» (pôr em prática aquilo que sabemos estar certo). No meu trabalho com pais ao longo dos últimos cinquenta anos, centrei-me no carácter no sentido pleno: cabeça, coração e mão — conhecer o bem, desejar o bem e fazer o bem.

Durante esse período leccionei educação na Universidade do Estado de Nova Iorque em Cortland, no Estado de Nova Iorque, onde ajudei a preparar a geração seguinte de professores. Uma parte essencial da minha carreira consistiu em formar professores para se tornarem educadores do carácter, e continuo a dirigir o centro para a educação do carácter que ali fundei. A maioria das pessoas que segue a via do ensino quer fazer a diferença na vida de uma criança. Não há melhor maneira de o conseguir do que ajudar os mais novos a desenvolverem um bom carácter.

A educação do carácter não é uma ideia nova — é, na verdade, uma das missões mais antigas das escolas americanas. Nos primeiros tempos da República, todos os miúdos iam para a escola aprender duas coisas: literacia e virtude. Se a governação cabia ao povo, então o povo tinha de estar empenhado nos fundamentos morais da democracia: respeito pelos direitos dos indivíduos, cumprimento voluntário da lei, participação na vida pública e preocupação com o bem comum. Benjamin Franklin disse: «Nada é mais importante para o bem público do que formar a juventude na sabedoria e na virtude.»

Ben Franklin talvez se sentisse desencorajado se estivesse por cá hoje. Não quero com isto dizer que não havia problemas no seu tempo, mas neste ponto do percurso moral da nossa nação por vezes parece que estamos a regredir. Nas sondagens de opinião pública, a maioria dos adultos diz que os Americanos têm hoje menos valores morais do que no passado. Muitas pessoas sentem que o nosso sistema político está desintegrado e que o governo não escuta nem se preocupa com elas.

No entanto, mesmo na nossa actual cultura vemos sinais de um movimento no sentido de mudar a situação. É certo que continua a ser um caminho repleto

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