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CAI A NOITE EM CARACAS

Karina Sainz Borgo  

5


Excerto

Enterrámos a minha mãe com as suas coisas: o vestido azul, os sapatos pretos sem cunha e os óculos bifocais. Não podíamos despedir-nos de outra maneira. Não podíamos separar aqueles artigos dos seus gestos. Teria sido como devolvê-la incompleta à terra. Sepultámos tudo, porque depois da sua morte já nada nos restava. Nem sequer nos tínhamos uma à outra. Nesse dia, tombámos abatidas pelo cansaço. Ela, no seu caixão de madeira, eu, na cadeira sem braços de uma capela arruinada, a única disponível das cinco ou seis que procurei para realizar o velório e que só pude contratar por três horas. Mais do que funerárias, a cidade tinha fornos. As pessoas entravam e saíam delas como os pães que escasseavam nas prateleiras e choviam duros sobre a nossa memória, quando nos recordávamos da fome.

Se ainda falo no plural sobre aquele dia, ao hábito se deve, porque a goma dos anos nos soldou como às partes de uma espada com que nos defendêssemos uma à outra. Enquanto redigia a inscrição para o seu túmulo, percebi que a primeira morte acontece na linguagem, nesse acto de arrancar os sujeitos do presente para os fixar no passado. Transformá-los em acções acabadas. Coisas que começaram e terminaram num tempo extinto. Aquilo que foi e não voltará a ser. A verdade era essa: a minha mãe já só existiria conjugada de outra forma. Ao sepultá-la, encerrava a minha infância de filha sem filhos. Naquela cidade, no momento crítico da morte, perdêramos tudo, até as palavras no tempo presente.

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Seis pessoas compareceram no velório da minha mãe. A Ana foi a primeira. Chegou a arrastar os pés, com o Julio, o marido, a ampará-la por um braço. A Ana parecia atravessar um túnel escuro que desembocava no mundo que nós, os outros, habitávamos. Meses antes, submetera-se a um tratamento com benzodiazepina. O efeito começava a dissipar-se. Restavam-lhe comprimidos suficientes apenas para a dose diária. Tal como o pão, o Alprazolam escasseava, e o desânimo abria caminho com a mesma força do desespero de quem via desaparecer tudo aquilo de que precisava: as pessoas, os lugares, os amigos, as lembranças, a comida, a calma, a paz, a sensatez. «Perder» transformou-se num verbo equalizador que os Filhos da Revolução usaram contra nós.

A Ana e eu conhecemo-nos na Faculdade de Letras. Desde então, partilhamos um sincronismo nos nossos próprios infernos. Desta vez, também. Quando a minha mãe deu entrada na Unidade de Cuidados Paliativos, os Filhos da Revolução detiveram o Santiago, irmão da Ana. Nesse dia, prenderam dezenas de estudantes, que acabaram com as costas em carne viva por causa dos chumbos, espancados numa esquina ou violados com o cano de uma espingarda. Ao Santiago calhou em sorte La Tumba, uma combinação das três coisas, doseadas no tempo.

Passou mais de um mês naquele cárcere escavado cinco pisos abaixo do solo. Não havia sons nem janelas, nem sequer luz natural ou ventilação. Ouviam-se apenas, por cima da cabeça, a passagem do metro e os solavancos dos carris. O Santiago ocupava uma das sete celas alinhadas, umas a seguir às outras, não sendo assim capaz de ver nem de saber quem estava detido perto de si. Cada calabouço media dois metros por três. As paredes e o chão eram brancos, tal como as camas e as grades através das quais faziam passar um tabuleiro com alimentos. Nunca lhes davam talheres; se queriam comer, tinham de o fazer com as mãos.

Há algumas semanas, a Ana deixara de ter notícias do Santiago. Já nem recebia o telefonema, sempre a partir de um número diferente, pelo qual pagavam semanadas em dinheiro, nem tão-pouco a deturpada prova de vida que lhe chegava sob a forma de fotografias.

Não sabemos se está vivo ou morto. «Não sabemos nada dele», contou-me o Julio, em voz muito baixa, afastando-se da cadeira na qual a Ana passou trinta minutos a olhar para os pés. Durante todo esse tempo, levantou os olhos para fazer três perguntas.

— A que horas vão enterrar a Adelaida?

— Às duas e meia.

— Sim — murmurou. — Onde?

— No cemitério de La Guairita, na parte antiga. A minha mãe comprou o talhão há muito tempo. Tem uma bela vista.

— Sim… — A Ana parecia fazer um esforço adicional, como se pronunciar aquelas palavras se revelasse uma tarefa titânica. — Queres ficar connosco hoje, enquanto passam as horas mais difíceis?

— Sairei para Ocumare logo pela manhã, para visitar as minhas tias e deixar-lhes algumas coisas — menti. — Agradeço-te. Tu também não estás lá muito bem.

— Sim. — A Ana deu-me um beijo na face e foi-se embora. Quem quer velar um morto alheio, quando pressente o seu?

Apareceram duas professoras reformadas com quem a minha mãe ainda mantinha contacto: María Jesús e ­Florencia. Apresentaram as condolências e também se retiraram depressa, cientes de que nada do que dissessem repararia a morte de uma mulher demasiado nova para desaparecer. Saíram a passo estugado, como se tentassem ganhar vantagem sobre a parca, antes que esta também fosse buscá-las. À funerária não chegou uma única coroa de flores para além da minha: uma circunferência de cravos brancos que mal cobria a metade superior do féretro.

As duas irmãs da minha mãe, as minhas tias Amelia e Clara, não estiveram presentes. Eram gémeas. Uma era gorda e a outra, magríssima. Uma comia sem parar e a outra, ao pequeno-almoço, tomava uma tigelinha de feijão preto enquanto dava passas num cigarro de enrolar. Viviam em Ocumare de la Costa, uma aldeia do estado de Aragua, perto da baía de Cata e Choroní. Esse lugar onde as águas azuis lambem a areia branca e separado de Caracas por estradas intransitáveis a cair aos pedaços.

Aos oitenta anos de vida, as tias Amelia e Clara teriam feito, quando muito, uma viagem a Caracas. Não tinham saído daquela aldeola, sequer para ir à cerimónia de licenciatura da minha mãe, a primeira estudante universitária da família Falcón. Aparecia linda naquelas fotografias, de pé, na Aula Magna da Universidade Central da Venezuela, com os olhos muito maquilhados, o cabelo ripado, achatado debaixo do barrete, a segurar no título honorífico com as mãos rígidas e um sorriso mais solitário, como o de uma mulher encolerizada. A minha mãe guardava essa fotografia junto ao seu processo académico de licenciada em Educação e do anúncio que as minhas tias tinham posto no jornal regional El Aragüeño, para que toda a gente soubesse que as Falcón já tinham uma profissional na família.

Víamos pouco as minhas tias. Uma ou duas vezes por ano. Viajávamos à aldeia nos meses de Julho e Agosto e, por vezes, no Carnaval ou na Semana Santa. Dávamos-lhes uma mãozinha na pensão e ainda ajudávamos a aliviar o fardo económico. A minha mãe deixava-lhes algum dinheiro e aproveitava para as picar: a uma para que deixasse de comer e à outra para que comesse. Elas acolhiam-nos com pequenos-almoços que me davam náuseas: carne desfiada, torresmos fritos, tomate, abacate e café de guarapo, uma beberagem com canela e açúcar mascavado, que coavam com uma meia de renda e com a qual me perseguiam por toda a casa. A poção provocou-me alguns desmaios, dos quais me despertavam com as suas lamúrias de matronas loucas.

— Adelaida, rapariga, se a minha mãe visse esta miúda, tão escanzelada e débil, dava-lhe três arepas com manteiga! — dizia a minha tia Amelia, a gorda. — O que é que tu fazes a esta criatura? Parece um arenque frito. Espera aqui, filhinha. Já venho… Não te mexas, catraia!

— Amelia, deixa a miúda: lá por estares sempre com fome não significa que as outras pessoas todas também estejam — respondia do pátio a minha tia Clara, enquanto vigiava as suas mangueiras e fumava um cigarro.

— Tia, o que estás a fazer aí fora? Entra, já vamos comer.

— Espera, estou a ver se os desavergonhados do terreno do lado vêm deitar abaixo as mangas com uma vara. No outro dia, levaram três sacos cheios delas.

— Aqui tens; come só uma se quiseres, mas há mais três — dizia a minha tia Amelia, saindo da cozinha com um prato de dois pastéis de farinha recheados com picado de carne de porco frita. — Estás a precisar. Come, come, filhinha, olha que arrefece!

Depois de lavarem a louça, sentavam-se as três no pátio a jogar bingo até que abrandasse a infestação, aquelas nuvens de mosquitos que apareciam, pontuais, às seis da tarde e afugentávamos com o fumo exalado pelas folhas secas em contacto com o fogo. Fazíamos uma fogueira e juntávamo-nos para a ver arder sob o sol extinto do dia. Uma delas, às vezes Clara e outras Amelia, remexia-se então no seu cadeirão de palhinha e, resmungando, dizia a palavra mágica: «falecido».

Era assim que se referiam ao meu pai, um estudante de Engenharia a quem os planos de casamento se lhe apagaram da ideia, mal a minha mãe lhe disse que estava à espera de bebé. A avaliar pela raiva que as minhas tias destilavam, dir-se-ia que também as deixou plantadas. Lembravam-se muito mais dele do que a minha mãe, a quem nunca ouvi pronunciar o seu nome. Porque nunca mais se soube do meu pai. Foi, pelo menos, o que ela me contou. Pareceu-me uma explicação mais do que razoável para não estranhar a sua ausência. Se ele nunca quisera saber de nós, porque havíamos de esperar alguma coisa dele?

Nunca entendi a nossa família como grande. Éramos a minha mãe e eu. A nossa árvore genealógica começava e acabava em nós. Juntas, formávamos um junco, uma espécie de planta de aloé, dessas que conseguem crescer em qualquer lugar. Éramos pequenas e venosas, quase nervadas, porventura para que não nos doesse, se nos arrancassem um pedaço ou até as raízes todas. Fôramos feitas para resistir. O nosso mundo sustinha-se no equilíbrio que ambas fôssemos capazes de manter. O resto era algo excepcional, acrescentado, logo, prescindível: não estávamos à espera de ninguém, bastávamo-nos uma à outra.

Demolição. Foi essa a sensação que tive, no dia do velório da minha mãe, ao marcar o número de telefone da pensão das Falcón. Demoraram a atender. Duas mulheres achacadiças naquele casarão dificilmente conseguiam vencer a distância que ia do pátio à sala de estar, onde conservavam um pequeno telefone de moedas, que já ninguém usava, mas que ainda fazia a ligação e recebia chamadas. Havia trinta anos que as minhas tias geriam a sua estalagem. Durante todo esse tempo, não tinham mudado um quadro sequer. Assim eram elas, inverosímeis, como os ipês-rosas pintados em telas cheias de pó que decoravam as paredes cobertas de gordura e terra.

Após várias tentativas, finalmente atenderam. Receberam a notícia da morte da minha mãe com um alento sombrio e poucas palavras. Puseram-se as duas ao telefone. Primeiro, Clara, a magra, depois, Amelia, a gorda. Mandaram-me adiar o enterro, ao menos o tempo que demorassem a comprar um bilhete para o autocarro seguinte que partisse de Ocumare para Caracas. Separavam-nas da capital três horas de viagem, por um caminho cheio de buracos e delinquentes. Tais condições, somadas à velhice e às doenças — diabetes, uma, artrite, a outra —, teriam dado cabo delas. Pareceu-me motivo suficiente para as dissuadir daquela viagem. Despedi-me com a promessa de ir vê-las — menti — e, juntas, mandarmos celebrar uma novena na capela da aldeia. Acederam a contragosto. Desliguei o telefone com uma certeza: o mundo, tal como eu o conhecia, começara a desmoronar-se.

Já quase ao final da manhã, aproximaram-se duas vizinhas do prédio para me dar as condolências e, pelo meio, desfraldar o repertório de consolos. Algo tão inútil como atirar pão aos pombos. À María, a enfermeira do sexto, deu-lhe para falar da vida eterna. Gloria, a da penthouse, parecia mais interessada em saber o que seria de mim, agora, que me encontrava «sozinha». Pois, naturalmente, aquele apartamento era demasiado grande para uma mulher sem filhos. Pois, naturalmente, como estavam as coisas, eu já teria pensado em alugar pelo menos um dos quartos. Hoje paga-se em dólares, e, enfim, isso se se tiver sorte com um conhecido. A gente decente é boa a pagar. Pois há por aí muito malandro, dizia a Gloria. E, como a solidão não faz bem e tu agora estás sozinha, convém ter gente por perto, pelo menos, para o caso de acontecer alguma emergência, não é? Deves ter conhecidos a quem alugar, não é verdade, rapariga? E, claro que, se não tivesse, ela tinha uma prima afastada que havia muito tempo tentava mudar-se para a cidade. Melhor oportunidade não havia, não é? Ela muda-se para tua casa e tu ganhas um dinheiro extra. Não é uma grande ideia?, lançou-me de chofre diante do caixão fechado da minha mãe acabada de morrer. Pois, repare-se, com esta inflação pagar os médicos, o funeral e o talhão do cemitério. É que isso tudo deve ter-te custado um dinheirão, não é? Alguma poupança deves ter feito, certamente, mas, com as tuas tias já tão idosas e tão longe, vais precisar de rendimentos adicionais. Por isso, vou pôr-te em contacto com a minha prima, para que dês uso ao quarto.

A Gloria não parou de falar de dinheiro, nem por um instante. Algo nos seus olhinhos roedores insistia em sondar o proveito que poderia retirar da minha situação, ou, pelo menos, perceber como melhorar a sua a partir da minha. Era assim que toda a gente vivia naquela altura: a olhar para o que ia no saco de compras alheio e a farejar se o vizinho levava algo que escasseasse, para procurar onde consegui-lo. Todos nos transformámos em desconfiados e vigilantes, travestimos a solidariedade em depredação.

As mulheres foram-se embora às duas horas, uma, farta de ouvir as indiscrições da outra, e esta, cansada de não conseguir apurar o que seria das minhas finanças, agora que a minha mãe faltava.

Viver transformara-se em sair para caçar e regressar vivo. Era nisso que consistiam os nossos actos mais elementares, inclusivamente o de sepultar os nossos mortos.

— O aluguer da capela vai custar-lhe cinco mil bolívares fortes.

— Cinco milhões de bolívares de antigamente, é isso que quer dizer.

— Sim, exacto. — O funcionário da funerária aprumou a vozinha. — Como já traz a certidão de óbito, sai-lhe mais barato. De outro modo, a emissão do documento custaria sete mil bolívares fortes.

— Sete milhões de bolívares de antigamente, certo?

— Sim, exacto.

— Pois.

— Quer contratar o serviço, ou não? — lançou, com alguma exasperação.

— Parece-lhe que estou em condições de escolher?

— Isso é lá consigo.

Pagar o velório foi ainda mais complicado do que ...