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BERTA ISLA

Javier Marías  

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Excerto

O desagrado nem sempre possuíra o seu marido, simultaneamente espanhol e inglês, de seu nome Tom ou Tomás Nevinson. Nem sempre desprendera uma espécie de tédio invasor, um desgosto profundo que arrastava consigo por toda a casa e que por isso também vinha à superfície. Chegava com ele como uma emanação, à sala, ao quarto, à cozinha, ou como se fosse uma tempestade a pairar-lhe sobre a cabeça que o seguia para toda a parte e raramente se afastava dele. Isto levava-o a ser lacónico e a responder a poucas perguntas, às comprometedoras, como é óbvio, mas também às inofensivas. Para as primeiras desculpava-se não por estar autorizado a fazer revelações, e aproveitava para recordar à mulher, Berta Isla, que jamais a obteria: mesmo que passassem décadas e estivesse à beira da morte, nunca poderia contar-lhe quais eram as suas andanças presentes, ou as suas tarefas, ou as suas missões, a vida vivida quando não estava com ela. Berta tinha de o aceitar e aceitava: havia uma zona ou uma dimensão do seu marido que permaneceria sempre na escuridão, sempre fora do seu campo visual e dos seus ouvidos, o relato negado, o olho semicerrado ou míope ou mesmo cego; ela poderia apenas conjecturá-la ou imaginá-la.

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—E além disso mais vale que não saibas— disse-lhe nalgumas ocasiões, pois por vezes o hermetismo obrigatório não o impedia de discursar por instantes, em abstracto e sem fazer a mínima referência a lugares nem a indivíduos. — Costuma ser pouco agradável, contém histórias bastante tristes, condenadas a finais desgraçados, para uns ou para outros; de vez em quando é divertida, mas é quase sempre feia ou, ainda pior, deprimente. E é frequente sair dela de consciência pesada. Felizmente passa-me depressa, é transitória. Felizmente, esqueço-me daquilo que fiz, é o que têm de bom os episódios fingidos, não somos nós quem os experimenta, ou é só como se fôssemos um actor. Os actores retomam o seu ser depois de acabarem o filme ou a representação teatral, e estas acabam sempre por se dissipar. A longo prazo deixam apenas uma vaga recordação como de coisa sonhada e inverosímil, em todo o caso duvidosa. Inclusivamente imprópria de nós, e assim dizemos: «Não, eu não posso ter tido esse comportamento, a memória confunde-se, era outro eu e é um engano.» Ou é como se fôssemos sonâmbulos, que nem sequer nos inteirássemos das nossas acções nem dos nossos passos.

Berta Isla sabia que vivia parcialmente com um desconhecido. E alguém que está proibido de dar explicações sobre meses inteiros da sua existência acaba por sentir que tem autorização para não as dar sobre qualquer aspecto. Porém, Tom também era, parcialmente, uma pessoa de toda a vida, daquelas que se dão por certas como o ar. E nunca perscrutamos o ar.

Conheciam-se quase desde crianças, e nessa altura Tomás Nevinson era alegre e ligeiro e sem névoas nem sombras. O Instituto Britânico da rua Martínez Campos, junto ao Museu Sorolla, em que ele estudara desde o princípio, abandonava ou soltava os alunos aos treze ou catorze anos, após aquilo a que na época se chamava o quarto ano do liceu. Teriam de fazer o quinto, o sexto e o pré-universitário, os três anos restantes antes da universidade, noutro sítio, e eram muitos os que passavam para o colégio de Berta, o Estudio, mesmo que fosse apenas por também ser misto e laico, contra as normas em Espanha durante o franquismo, e porque assim não mudavam de bairro, pois a sede do Estudio ficava na vizinha rua de Miguel Ángel.

A menos que fossem horrorosos ou não tivessem graça alguma, os «novos» costumavam arrasar entre os do sexo oposto, precisamente por serem uma novidade, e Berta não tardou a apaixonar-se pelo jovem Nevinson, primitiva e obcecadamente. Estes amores que começam forçosamente com timidez, com olhares dissimulados, sorrisos e conversas superficiais que dissimulam a paixão que, no entanto, se enraíza logo de seguida e parece inabalável até ao fim dos tempos dependem muito de decisões elementares e arbitrárias, mas também estéticas ou presumidas (olhamos à nossa volta e dizemos: «Fico bem com este»). Claro que se trata de uma paixão teórica e completamente questionável, aprendida dos romances e dos filmes, uma projecção fantasiada em que predomina uma imagem estática: a rapariga imagina-se casada com o escolhido, e ele com ela, como um quadro sem desenvolvimento nem variação nem história; a visão fica-se por aí, nenhum dos dois tem capacidade para ir mais longe, para se verem numas idades remotas que nada lhes dizem e lhes parecem inalcançáveis, para representar outra coisa que não seja o culminar, a seguir ao qual é tudo impreciso e pára; ou é um dado adquirido, para os mais clarividentes ou obstinados. Numa época em que ainda era costume que, ao deixarem de ser solteiras, as mulheres acrescentassem um «de» ao seu apelido, seguido pelo do marido, na escolha de Berta até tiveram influência os efeitos visuais e sonoros do seu futuro nome longínquo: seria muito diferente passar a ser Berta Isla de Nevinson, que evocava aventuras ou paragens exóticas (um dia teria um cartão-de-visita no qual mandaria escrever exactamente estes nomes; e mais o quê logo se veria), do que Berta Isla de Suárez, para referir o apelido do colega de quem gostara até Tom ter aparecido no colégio.

Não foi a única rapariga da turma que se fixou nele desse modo veemente e decidido, e que teve esperanças. Com efeito, a chegada dele provocou um reboliço geral no microcosmo, que se prolongou por dois trimestres, até ter dona conhecida. Tomás Nevinson era bastante bem-parecido e um pouco mais alto que a maioria, com um cabelo alourado penteado para trás e antiquado (como os dos pilotos dos anos quarenta, ou de ferroviário quando o usava mais curto, ou de músico quando o tinha mais comprido, nunca muito contra a tendência que se ia impondo; fazia lembrar o do actor secundário Dan Duryea e assemelhava-se ao do actor principal Gérard Philipe, quando adquiria o seu volume máximo: para os que tiverem curiosidade visual ou memória), e toda a sua pessoa transmitia a solidez de quem é imune às modas e portanto às inseguranças, que tantas formas adoptam por volta dos quinze anos e que a quase ninguém escapam. Dava a impressão de não estar submetido à sua época, ou de a sobrevoar, como se não concedesse importância às circunstâncias do acaso, e é-o sempre isto o dia em que se nasce, mesmo o século. Na ­verdade, as suas feições mais não eram do que agradáveis, nem sequer era um exemplo de beleza juvenil inegável; rasavam a insipidez que ao cabo de umas décadas delas se apropriaria sem remédio. Mas, por enquanto, salvavam-na dela os lábios carnudos e bem desenhados (que convidavam a que os percorressem com o dedo e apalpassem, mais do que beijassem) e o olhar cinzento-mate ou brilhante atormentado, consoante a luz ou tormento incipiente que nele se estivesse a condensar: uns olhos penetrantes, inquietos e mais amendoados do que o habitual, que raramente descansavam e contradiziam o conjunto de serenidade da sua figura. Nesses olhos vislumbrava-se qualquer coisa de anómalo, ou talvez se anunciassem anomalias vindouras, então apenas à espreita ou escondidas, como se ainda não tivesse chegado a hora de despertarem e tivesse de amadurecer ou incubar para alcançarem a sua plena potência. Ao nariz faltava-lhe distinção, muito para o largo e como se não acabasse, ou pelo menos sem rubrica. O queixo era vigoroso, a puxar para o quadrado, ligeiramente saliente, e conferia-lhe um ar determinado. Era tudo o que possuía de atraente, ou de encanto, e nele imperava, mais do que o aspecto, o carácter irónico e leviano, propenso a piadas suaves e despreocupado, tanto em relação àquilo que acontecia no exterior como àquilo que se ventilava na sua cabeça, que não seria fácil de adivinhar nem sequer para ele próprio, quanto mais para os que o rodeavam: Nevinson evitava a introspecção e falava pouco da sua personalidade e das suas convicções, como se ambas as práticas lhe parecessem uma brincadeira de miúdos e uma perda de tempo.

Era o contrário do adolescente que se descobre e analisa e observa e procura decifrar-se, com impaciência para averiguar a que género de indivíduos pertence; sem perceber que a pesquisa é inútil porque ainda não está completamente formado, e além disso esse saber só chega — se é que chega e não se vai modificando e negando— quando se tomam decisões de peso e se actua sobre o caminho, e quando isto acontece já é tarde para rectificar e ser de outro género. Em todo o caso, Tomás Nevinson não estava muito interessado em dar-se a conhecer nem certamente em conhecer-se, ou então já teria completado o segundo processo, pois o primeiro considerava-o costume de narcisistas. Talvez fosse da metade inglesa da sua ascendência, mas ao fim e ao cabo ninguém sabia muito bem como era. Sob a sua aparência amistosa e diáfana, mesmo afável, havia uma fronteira de opacidade e reserva. E a maior opacidade consistia em os outros não terem consciência disso, e mal davam conta dessa camada impenetrável.

Era completamente bilingue, falava inglês como o pai e espanhol como a mãe, e o facto de ter vivido sobretudo em Madrid quando ainda nem sequer era capaz de arti­cular uma palavra, ou muito poucas, em nada prejudicava a sua fluência ou eloquência na primeira destas línguas: fora educado nela durante a infância, era a que dominava em sua casa, e desde que tinha memória passara todos os Verões em Inglaterra. A isto acrescentavam-se a sua facilidade em aprender terceiras ou quartas línguas e uma habilidade extraordinária para imitar falas e cadências e dicções e sotaques: bastava-lhe ouvir uma pessoa por breves instantes para conseguir imitá-la na perfeição, sem ensaio prévio nem esforço. Com isto conquistava simpatias e risos dos seus colegas, que acabavam por lhe solicitar as suas melhores interpretações. Também colocava a voz com eficácia e assim conseguia reproduzir as dos seus imitados, que naqueles anos do colégio eram sobretudo figuras da televisão, o mais do que conhecido Franco e um ou outro ministro que aparecia mais nas notícias do que os restantes. As piadas no idioma paterno, guardava-as para as suas estadas em Londres e na zona de Oxford, para os seus amigos e parentes de lá (o senhor Nevinson era natural da segunda cidade); no Estudio, no bairro de Chamberí, ninguém as teria compreendido nem aplaudido, à excepção de dois ex-colegas, tão bilingues como ele, do Instituto Britânico. Quando se expressava noutro idioma, não se lhe notava o menor vestígio de estrangeirismo, e falava ambos como um nativo, por isso nunca teve problemas em ser aceite em Madrid como mais um, apesar do seu apelido, conhecia o calão e o jargão todos, e se quisesse podia ser tão ordinário quanto o rapaz mais malcriado da capital inteira, excluindo arrabaldes. De facto, era mais um, mas em muito maior escala mais um espanhol qualquer do que mais um inglês qualquer. Não punha de parte a ideia de fazer o curso universitário no país do pai, e este procurava convencê-lo a tal, mas concebia a sua vida em Madrid, como sempre, e desde logo ao lado de Berta. Se o admitissem em Oxford talvez fosse, mas tinha a certeza de que ao terminar o curso voltaria e ficaria.

O progenitor, Jack Nevinson, estabelecera-se em Espanha havia longos anos, inicialmente por acaso e depois por evidente paixão e casamento. Tom não tinha memória da sua existência noutro sítio, sabia apenas que existira. Mas os filhos costumam ignorar aquilo que os pais viveram antes de eles terem nascido ou, mais ainda, não lhes diz respeito até que já são adultos plenos e, às vezes, já é demasiado tarde para fazerem perguntas. O senhor Nevinson acumulava cargos na embaixada britânica com afazeres no British Council, para o qual entrara pela mão do seu representante em Madrid durante quase três lustros, o irlandês Walter Starkie, também fundador do Instituto Britânico em 1940 e seu director durante muito tempo, hispanista entusiasta, andarilho e autor de vários livros sobre os ciganos, incluindo um intitulado um pouco ridiculamente Don Gypsy. Jack Nevinson tivera grande dificuldade em dominar a língua da mulher, e, apesar de ter acabado por o conseguir sintáctica e gramaticalmente, com um vocabulário amplo embora antiquado e livresco, nunca se libertou do seu sotaque muito marcado, o que fazia que os filhos o vissem parcialmente como um intruso lá em casa e se lhe dirigissem sempre em inglês, para evitarem risos tontos irreprimíveis e ­enrubescimentos de vergonha. Sentiam-se nervosos quando tinham visitas espanholas e não lhe restava outro remédio senão recorrer ao castelhano; na boca dele soava-lhes quase a piada, como se ouvissem as dobragens que Laurel e Hardy, o Bucha e o Estica, faziam com as suas próprias vozes e pronúncias para a exibição no domínio hispânico dos seus já velhos filmes (ao fim e ao cabo, Stan Laurel era inglês, não americano, muito diferentes os seus sotaques quando se aventuravam a sair do seu idioma). Talvez esta insegurança oral no país de adopção contribuísse para que, por vezes, Tom olhasse para o pai com paternalismo incongruente, como se os seus grandes dotes para a aprendizagem de outras línguas e a imitação de novos falares o induzissem a crer que poderia safar-se muito melhor no mundo — também abarcá-lo, ou tirar proveito dele— do que alguma vez conseguiria Jack Nevinson, homem pouco autoritário e resoluto em família, e supunha que bastante mais fora desta.

Não se autorizava a ter este olhar de superioridade prematura em relação à mãe, Mercedes, mulher carinhosa mas muito vigilante, a quem ainda por cima tivera de respeitar e aturar como professora durante dois anos no Britânico, a cujo corpo docente pertencia. Por isso, «Miss Mercedes», assim a tratavam os alunos, conhecia bem a língua do marido e falava com mais desenvoltura do que ele a dela, embora também com sotaque. Desta feita, os únicos que não tinham nenhum eram os quatro rebentos: Tom, um irmão e duas irmãs.

Em contrapartida, Berta Isla era nitidamente madrilena (de quarta ou quinta geração, algo pouco frequente na época), uma beleza morena, temperada ou suave e imperfeita. Se se lhe analisassem os traços, nenhum era deslumbrante, mas no conjunto o seu rosto e a sua figura eram desconcertantes, exerciam a atracção irresistível das mulheres alegres e sorridentes e com tendência para a gargalhada; parecia estar sempre contente, ou estar por coisa pouca ou procurar estar a todo o custo, e há muitos homens para quem isto se torna um elemento desejável: é como se quisessem apropriar-se desse riso — ou suprimi-lo, quando existem maus instintos— ou ver que lhe é dedicado ou que são eles que o provocam, sem se darem conta de que essa dentadura que ilumina permanentemente a cara e que atrai com força aqueles que a avistam, aparecerá em todo o caso, sem que seja convocada, como se fosse uma feição invariável, tanto como o nariz ou a testa ou as orelhas. Esta tendência risonha de Berta denotava um bom carácter, mesmo complacente, mas era ligeiramente enganadora: a sua alegria era natural, fácil e pronta, mas se não encontrasse motivo não se dedicava a desperdiçá-la nem a fingi-la; é verdade que encontrava múltiplos motivos; no entanto, se não os houvesse, podia ficar muito séria, ou triste, ou aborrecida. Nada disto durava muito, era como se se aborrecesse destes estados de espírito melancólicos ou intratáveis, como se não visse neles recompensa nem uma evolução interessante, e lhe parecesse que o seu prolongamento era monótono e não continha ensinamentos, um insistente gotejar que apenas elevava o nível do líquido, sem o transformar; mas não os repelia tontamente quando a assaltavam. Sob a sua aparência de assentimento, quase de bonomia, era uma jovem com ideias claras e até pertinaz. Se queria alguma coisa, lutava por ela; não frontalmente, não infundindo medo, nem se impondo, nem pressionando, mas com persuasão e habilidade e solicitude, tornando-se imprescindível e, isso sim, com uma determinação absoluta, como se nunca tivesse razão para dissimular os desejos desde que não fossem sujos nem malignos. Possuía a faculdade de transmitir uma ilusão entre os seus conhecidos, amigos e namorados, na medida em que pudéssemos chamar namorados aos seus eleitos dos tempos de adolescência: conseguia levá-los a acreditar que o pior que lhes poderia acontecer seria perdê-la, ou perder o seu apreço ou a sua companhia jovial; e, da mesma maneira, convencia-os de que não existia melhor bênção no mundo do que a sua proximidade, como partilhar com ela aulas, brincadeiras, projectos, diversão, conversas ou toda a existência. Não que fosse mal-intencionada nisto, uma espécie de Iago que comanda e manipula e engana com o sussurro persistente ao ouvido, de modo algum. Ela própria devia aceitar tal coisa com espontaneidade e ufania, e assim carregava a certeza consigo, pintada na testa ou no sorriso ou nas bochechas coradas, e contagiava-a sem o pretender. O seu êxito não se limitava aos rapazes, também o tinha com as amigas: conseguir ser amiga dela era como um sinal de glória, uma honra fazer parte da sua órbita; curiosamente, não provocava inveja nem ciúmes, ou poucos; era como se a sua afectuosidade sincera fizesse que quase todos a protegessem contra as injustiças e as desapiedadas malevolências dessa idade inconstante e arbitrária. Também Berta, tal como Tomás, parecia saber desde muito cedo a que género de indivíduos pertencia, a que tipo de rapariga e de mulher futura, como se nunca tivesse duvidado de que o seu papel era o de protagonista e não de secundária, pelo menos na sua própria vida. Em contrapartida, há pessoas que temem ver-se como secundárias, até da sua própria história, como se já tivesse nascido a saber que, por mais únicas que todas sejam, a sua não merecerá ser contada por ninguém, ou será apenas objecto de referências quando se conta a de outra, mais atribulada e chamativa. Nem sequer como passatempo de uma sobremesa prolongada, ou de uma noite de insónia junto à lareira.

Foi no terceiro trimestre do quinto ano do liceu que Berta e Tom se juntaram tão abertamente como é possível nessas idades e as restantes pretendentes dele acataram com um suspiro de aceitação e renúncia: se Berta estava interessada a sério, não era de estranhar que Tomás Nevinson a preferisse, pois, afinal de contas, a metade masculina do colégio Estudio virava a cabeça para a admirar intensamente, desde havia um ou dois anos, quando se cruzava com ela nas enormes escadarias de mármore, no pátio ou nos intervalos. Atraía a vista dos da sua turma, dos mais velhos e dos mais novos, e houve vários miúdos de dez ou onze anos cujo primeiro amor distante e maravilhado — aquele amor ainda sem esse nome— foi Berta Isla e por isso nunca a esqueceram, nem na juventude nem na maturidade nem na velhice, apesar de jamais terem trocado com ela uma frase e para ela nunca terem existido. Até rapazes de outros centros rondavam por ali para a verem à saída e a seguirem, e os do Estudio, com um sentido de pertença exacerbado, abespinhavam-se face aos intrusos e zelavam para que não caísse nas redes de alguém alheio aos «nossos».

Nem Tom nem Berta, que tinham nascido em Agosto e Setembro, respectivamente, haviam feito quinze anos quando concordaram em «sair» ou «serem namorados», como então se dizia, e comprometeram-se. Na verdade, ela comprometera-se muito antes, dera-se apenas ao incómodo de disfarçar a sua paixão primitiva e obcecada — ou em contê-la— o suficiente para não se tornar maçadora nem descarada, o suficiente para ser educada — com a educação de meados dos anos sessenta— e para que ele tivesse a sensação, quando se decidisse a dar o passo, de não ter sido meramente escolhido e conduzido, e de tomar alguma iniciativa.

Os pares tão precoces estão condenados a desenvolver um certo elemento de fraternidade, mesmo que seja apenas porque durante o seu primeiro período — o período inaugural, que às vezes tanto marca o rumo do vindouro— sabem que têm de esperar para concretizarem os seus amores e ardores. Naquela classe social e naquele tempo pelo menos, e apesar das urgências da sexualidade primitiva e geralmente explosiva, considerava-se imprudente e desrespeitoso forçar as coisas quando as coisas eram a sério, e Tomás e Berta souberam logo que com eles era a sério, que não se tratava de um devaneio que terminaria no fim do ano, nem sequer dois anos mais tarde, quando acabassem a escola e a abandonassem. Em Tom Nevinson havia algo de timidez e toda a inexperiência nesse campo, e ainda lhe sucedeu aquilo que sucede a tantos rapazes: respeitam demasiado aquela que escolheram como amor da sua vida presente, futura e eterna, evitam exceder-se com ela como não evitam com outras, e é frequente acabarem por exagerar a protecção e o cuidado, porque a vêem como um ideal, apesar de ser de interrogativa carne e saudável osso e intrigado sexo, por temerem profaná-la e tornarem-na quase intocável. E a Berta aconteceu aquilo que sucede a muitas raparigas: sabedoras de que, embora lhes possam tocar sem reservas e com curiosidade em serem profanadas, não querem passar por impacientes e menos ainda por ávidas. De tal maneira que não é raro que, de tanto se guardarem e serem admiradas com paixão e beijarem com cuidado, excluindo zonas do corpo; de tanto acariciarem com deferência e travarem quando sentem que a deferência sucumbe, a primeira vez que concretizam os seus amores o fazem em separado e vicariamente, ou seja, com terceiros ocasionais.

Perderam os dois a virgindade no seu primeiro ano na universidade, e nenhum deles contou ao outro. Nesse ano estiveram relativamente afastados, mas tal distanciamento acabou por ser muito relativo: Tom foi aceite em Oxford, em grande parte graças às diligências do pai e de Walter Starkie mas também pelas suas grandes aptidões linguísticas, e Berta começou Filosofia e Letras na Complutense. Os períodos de férias são extensos nessa universidade inglesa, pouco mais de um mês entre Michaelmas e Hilary, outro tanto entre Hilary e Trinity e três completos entre Trinity e o novo Michaelmas ou início do ano, como lá se chamam os três terms ou muito falsos trimestres, por isso Tomás regressava a Madrid ao cabo das suas oito ou nove semanas de estada e de estudo árduo e tinha tempo para retomar a sua vida madrilena, ou de não a perder completamente de vista, de não cortar de todo com esta nem de a substituir, de nunca se esquecer de nada. No entanto essas oito ou nove semanas também davam tempo, a ambos, para deixarem o outro à espera, isto é, entre parênteses. E ao mesmo tempo sabiam que aquilo que ficaria entre parênteses seria o período de separação e que quando voltassem a estar juntos tudo regressaria à normalidade. A distância reiterada permite isto, que nenhuma das etapas intermédias seja cabalmente real, que sejam ambas fantasmagóricas, que cada uma esborrate e negue a outra durante o seu reinado, que quase a apague; e, em suma, que nada do que ocorre nelas seja terreno nem vigília, conte realmente como acontecido nem tenha demasiada importância. Tom e Berta não sabiam que este iria ser o signo de grande parte da sua vida juntos, ou juntos mas com pouca presença e sem caminho, ou juntos e de costas um para o outro.

Em 1969, duas modas percorriam a Europa e diziam respeito sobretudo aos jovens: a política e o sexo. As revoltas parisienses de Maio de 1968 e a Primavera de Praga, esmagada pelos tanques soviéticos, deixaram em efervescência — ainda que breve— meio continente. Além disso, em Espanha perdurava uma ditadura instaurada já fazia mais de três décadas. As greves de operários e estudantes levaram o regime franquista a decretar o estado de excepção em todo o território nacional, o que foi apenas um eufemismo para limitar ainda mais uns direitos já de si tão pálidos, aumentar as prerrogativas e a impunidade da polícia e conceder-lhe carta-branca para fazer o que quisesse com quem quisesse. A 20 de Janeiro, o aluno de Direito Enrique Ruano, que três dias antes fora detido pela temida Brigada Político-Social por distribuir panfletos, morreu quando estava à guarda desta. A versão oficial, variada e cheia de contradições, foi que o jovem, de vinte e um anos, levado para um edifício da actual rua Príncipe de Vergara para efectuar um registo, se escapou dos três polícias que o vigiavam para cair ou se atirar por uma janela do sétimo andar em que se encontravam. O ministro Fraga e o jornal Abc esforçaram-se por apresentar o caso como um suicídio e por atribuir a Ruano uma mente fraca e desequilibrada, publicando na primeira página e em folhetim uma carta ao seu psiquiatra que cortaram e manipularam para que parecessem extractos de um suposto diário íntimo atormentado. No entanto, quase ninguém acreditou nessa versão, e o episódio foi visto como um assassinato político, pois o estudante era membro da Frente de Libertação Popular ou «Felipe», organização clandestina antifranquista de pouca monta, como o eram forçosamente quase todas (de pouca monta e clandestinas). A incredulidade geral estava justificada, e não só pelo arraigado costume de mentir de todos os governos da ditadura: vinte e sete anos depois comprovou-se, ao exumar-se o cadáver por ocasião do complicado processo contra os três polícias — já em democracia—, que lhe tinham serrado uma clavícula, osso pelo qual, sem margem para dúvidas, teria penetrado uma bala. Naquela época a autópsia foi falsificada, a família não teve autorização para ver o corpo e foi proibida de publicar uma nota na necrologia da imprensa; e Fraga, o ministro da Informação, convocou pessoalmente o pai para o intimidar a não protestar e a calar-se com uma frase semelhante a esta: «Lembre-se de que tem outra filha com que se ocupar», numa referência à irmã de Ruano Margot, que também andava metida na política. Embora passado tanto tempo depois não se conseguisse provar nada e os três «sociais» tivessem sido absolvidos da acusação de assassinato — Colino, Galván e Simón, os seus apelidos—, o jovem teria sido torturado provavelmente durante os dias da sua detenção, incluindo o último, quando por fim o levaram para o andar na Príncipe de Vergara, o balearam e atiraram pela janela. Já em 1969 tinha sido esta a versão em que acreditaram os colegas dele.

A indignação estudantil foi tão grande que nas mobilizações das datas seguintes participaram inclusivamente universitários que até então tinham sido sobretudo apolíticos ou preferiram não correr riscos nem arranjar problemas, como Berta Isla. Uns amigos da faculdade convenceram-na a ir com eles a uma manifestação convocada para um final de tarde na praça de Manuel Becerra, perto da praça de touros de Las Ventas. Estas concentrações duravam pouco e eram todas ilegais: a Polícia Armada, os chamados grises (cinzentos), devido à cor dos seus uniformes, costumavam saber de antemão, dispersavam qualquer grupo aos empurrões e, caso algum conseguisse formar-se, tornar-se compacto e marchar uns metros a gritar uma palavra de ordem, para não dizer se voavam pedras contra lojas ou bancos, em seguida carregavam a pé ou a cavalo com os seus cassetetes pretos, compridos e flexíveis (mais flexíveis e compridos os dos cavaleiros, quase como chicotes curtos e grossos), e havia sempre nas suas fileiras um rufia ou nervoso que empunhava a pistola para incutir mais medo ou senti-lo ele menos.

Assim que a refrega começou, Berta viu-se a correr à frente dos guardas, juntamente com um monte de colegas e desconhecidos. Cada qual fugiu para seu lado, confiantes de que os perseguidores não os escolheriam como alvo e de que se inclinariam por bater noutros. Ela era novata nestes motins e não sabia nada, se era melhor enfiar-se no metro ou refugiar-se num bar e misturar-se com os clientes ou permanecer na rua, na qual teria sempre a possibilidade de voltar a correr e não ficar encurralada num sítio. Sabia, isso sim, que ser detido numa algazarra política pressupunha uma noite e umas estaladas na Direcção-Geral de Segurança, no melhor dos casos, e no pior um processo e uma pena de meses ou mesmo de um ou dois anos, consoante a malevolência do juiz amestrado, além da expulsão imediata da universidade. Também sabia que ser rapariga e muito jovem (era o seu primeiro ano na universidade) não a livraria do castigo que lhe tocasse em sorte.

Não tardou a perder os amigos de vista, ficou em pânico na noite cerrada e mal iluminada pelos candeeiros fracos, correu de um lado para o outro sem saber para onde ir, de repente deixou de sentir todo o frio de Janeiro, notou o ardor de um perigo desconhecido, quis afastar-se do tumulto instintivamente e afastou-se da praça a correr por uma rua adjacente não muito larga e bastante vazia de manifestantes, a turba optara por outros caminhos ou tentava não se dispersar demasiado para se reagrupar e tentar de novo, em vão, o temor e a fúria crescentes, os ânimos exaltados, acelerados os pulsos e desterrados os cálculos. Ia como alma levada pelo diabo, aterrada, sem ver ninguém nem à direita nem à esquerda, pelos cantos dos olhos, enquanto voava com a ideia de nunca parar ou só quando estivesse a salvo, até deixar a cidade para trás ou chegar a sua casa, e então ocorreu-lhe virar a cabeça sem abrandar a velocidade — talvez tivesse ouvido um ruído estranho, o resfôlego ou o trote muito vivo, um ruído de veraneio, de aldeia, de campo, um ruído de infância— e viu atrás de si, quase em cima dela, a figura enorme de um gris a cavalo com o cassetete já levantado, prestes a descarregar-lhe uma chibatada na nuca ou nas nádegas ou nas costelas, que sem dúvida a teria atirado ao chão, que com certeza a teria deixado inconsciente ou atordoada, sem capacidade de reacção nem de mais fuga, destinada a receber uma segunda e uma terceira carga se o guarda fosse sanhoso, ou a ser arrastada, algemada e metida numa ramona se não caísse, e a ver torcido o seu presente e a perder todo o futuro nuns poucos minutos de irreflexão e azar. Viu o focinho ao cavalo preto e julgou também ver a do gris, embora este tivesse a testa tapada pelo capacete e o queixo pelo francalete, um tanto subido e reforçado. Berta não tropeçou nem ficou paralisada pelo susto, antes acelerou inutilmente a corrida com as últimas forças do desespero, é aquilo que uma pessoa faz sempre mesmo que esteja condenada, que podem umas pernas de rapariga contra as patas de um veloz quadrúpede, e mesmo assim estas pernas estugam o passo como as de um animal ignorante que ainda acredita que pode escapar. Foi então que surgiu um braço de uma ruela lateral, uma mão que a puxou com brio, a fez perder o equilíbrio e cair de bruços, mas que a livrou de cavalo e cavaleiro e do impacto mais que certo do cassetete. Estes seguiram em frente, pelo menos alguns metros devido à inércia, é difícil travar uma cavalgadura de repente, era de esperar que os ignorassem e fossem à procura de outros subversivos para os açoitarem, havia-os às centenas pelas redondezas. A mão pô-la de pé com outro puxão, e Berta viu um jovem bem-parecido e sem pinta alguma de ser estudante nem de participar em protestos: os revoltosos não usavam gravata nem chapéu, e aquele jovem sim, além de um sobretudo que pretendia ser elegante, comprido, azul-marinho e com a gola levantada. Era um tipo antiquado, o chapéu com a aba demasiado estreita, como se fosse herdado.

—Vamo-nos embora daqui, rapariga — disse-lhe. — Mas já, na gáspea! — E voltou a puxá-la, queria tirá-la dali, guiá-la, salvá-la.

No entanto, antes que pudessem perder-se por aquela ruela, reapareceu o guarda a cavalo, apressara-se a regressar pela sua presa. Fizera a montada dar meia-volta e retrocedera a galope, como se tivesse ficado furioso por não apanhar uma peça que já individualizara e que tinha no papo ou quase. Agora teria de optar por um dos dois, Berta e o jovem que ousara escondê-la, ou, se agisse com rapidez e com tino, poderia caçar ambos, sobretudo se em sua ajuda acorressem outros colegas da polícia, não se viam por ali, o grosso estaria ocupado na praça com ganas, costumavam bater a torto e a direito sem olhar, esperavam apenas por uma voz de comando e carregavam logo. O rapaz do chapéu apertou a mão de Berta, mas não pareceu sobressaltado, antes se endireitou, desafiador, um sangue-frio, a desdenhar o perigo ou não disposto a mostrar temor. O gris ainda brandia o cassetete comprido, mas a sua atitude não era ameaçadora, tinha-o cruzado sobre o pulso da mão que agarrava as rédeas, como se fosse uma cana de pesca ou um caniço de junco que fazia balançar. Também era muito jovem, com uns olhos azuis e umas sobrancelhas fartas e escuras, era o que mais saltava à vista sob o capacete justo, uns traços agradáveis com reminiscências rurais, meridionais, andaluzas provavelmente. Berta e o antiquado ficaram quietos a olhar para ele, não se atreveram a correr pela ruela, que talvez tivesse pouca ou má saída. Ou, na realidade, souberam logo que não tinham de fugir daquele cavaleiro.

—Não ia dar-te uma surra, rapariga, por quem me tomas? — disse o gris a Berta; tinham-na tratado os dois da mesma maneira, um vocativo nada frequente na Madrid dessa época, sobretudo entre rapazes. — Só queria afastar-te da confusão à força. És muito miúda para te meteres nestes apertos. Andor, desaparece! E tu — e dirigiu-se ao antiquado—, não voltes a atravessar-te no meu caminho ou vais dar-te muito mal: bordoada e uma temporada a veres o sol aos quadradinhos. Desta vez safas-te. Vá, desapareçam. Já perdi muito tempo convosco.

O jovem, com a sua gravata de nó bem dado e o seu sobretudo até meio da perna, não se amedrontou ante aquela ameaça futura. Manteve-se muito direito e com o olhar frio e alerta e bem fixado no do cavaleiro, como se dali lhe lesse as intenções e estivesse convencido de que, se ele acometesse, o saberia desmontar a partir do chão. E, contra aquilo que acabara de dizer, o guarda não se foi logo embora, como se esperasse que os seus perdoados o fizessem primeiro, ou quisesse prolongar ao máximo a visão da rapariga, não a perder de vista até que desaparecesse do seu campo visual e os seus olhos já não pudessem divisá-la, por muito que o tentassem. Nenhum dos dois lhe respondeu nada, e Berta Isla lamentou-o mais tarde, não lhe ter agradecido. Mas naqueles tempos não passava pela cabeça de ninguém agradecer a um gris, a um polícia de Franco, mesmo que disso fosse merecedor. Eram o inimigo de quase todos e desprezíveis, eram os que perseguiam e espancavam e detinham e arruinavam vidas recém-começadas.

Berta rasgara as meias, sangrava de um joelho e continuava muito atemorizada, ver o cavalo em cima e o cassetete no ar, prestes a abater-se sobre a sua nuca ou costas, deixara-a feita num molho de nervos, apesar do desenlace benévolo do incidente, desenlace este que por sua vez a deixara com uma estranha fraqueza física. A mistura esgotava-a momentaneamente, faltava-lhe sentido de orientação e de vontade, naquele instante não saberia para onde deveria caminhar. O jovem antiquado, levando-a sempre pela mão como se fosse uma garota, tirou-a da zona mais conflituosa a passos largos, conduziu-a para Las Ventas e disse-lhe:

—Eu vivo aqui perto. Sobe e curamos-te essa ferida e acalmas-te um pouco, vem. Não podes voltar assim para casa, mulher. É melhor que descanses e te componhas um pouco. — Agora já não a tratou por «rapariga». — Como te chamas? És estudante?

—Sim. Do primeiro ano. Berta. Berta Isla. E tu?

—Eu, Esteban. Esteban Yanes. E sou bandarilheiro.

Berta ficou surpreendida, nunca conhecera nenhum toureiro, nem imaginara os figurantes desse mundo fora da arena e vestidos à civil.

—Bandarilheiro de touros?

—Não, de rinocerontes, do que haveria de ser. Diz-me outro bicho no qual cravem bandarilhas.

Isso distraiu-a uns segundos da sua agitação e do seu enorme cansaço; teria sorrido se não estivesse atordoada. Deu-lhe tempo para pensar: «Está habituado a medir forças com um animal muito mais perigoso do que um pobre cavalo obediente; por isso não se assustou nem ficou alterado: teria sabido evitá-lo, talvez também desviá-lo de mim.» E observou-o, desconfiada, mas com curiosidade crescente.

—Esse chapéu não te fica bem, não sei se sabes— saiu-lhe, mesmo correndo o risco de parecer impertinente; aquilo ocorrera-lhe desde que o viu aparecer na ruela, uma daquelas observações supérfluas mas persistentes que ficam a pairar na cabeça à espera de encontrar o seu espaço, a meio de afazeres muito mais urgentes.

O jovem largou-lhe a mão, depois tirou-o, observou-o com interesse e deu-lhe voltas com as mãos; parado no meio da rua, decepcionado.

—Sim? Não me chateies. Que tem de mal? Não me fica bem? É o que julgas? É de boa qualidade, eh.

Tinha uma mata abundante de cabelo, penteado com risco alto à esquerda, de maneira que no lado direito formava quase uma franja, tanto cabelo havia ali que parecia difícil tê-lo metido todo debaixo do chapéu sem que sobressaísse nada. Assim achava-o mais atraente, o cabelo solto punha os traços no verdadeiro lugar ou definia-os melhor. Os olhos castanhos muito afastados, quase cor de ameixa, conferiam limpeza e candidez à sua cara, era um rosto sem hipocrisias, nada ensimesmado nem fugidio nem mortificado, desses que, como se dizia antes, se lêem como um livro aberto (embora haja livros impenetráveis e insuportáveis) e não parecem guardar nada diferente daquilo que expressam. O nariz era rectilíneo e grande, a dentadura poderosa e um pouco saliente, das que parecem ter vida própria ao mostrarem-se com generosidade, um sorriso africano iluminava-lhe as demais feições, e o conjunto convidava a que se depositasse confiança no seu proprietário assim que a mostrava. Uma daquelas dentaduras que leva algumas pessoas a pensar: «Quem me dera que ma pudesse emprestar, as coisas seriam muito diferentes. Sobretudo quando ando por aí no engate.»

—Não, não te fica nada bem. Falta aba para essa copa. Não te fica bem. Faz-te a cabeça pequena. Quase de pepino, e tu não a tens assim.

—Pois então não falemos mais disso. Bardamerda para o chapelito. Pepino não— afirmou o bandarilheiro Esteban Yanes, e atirou-o sem mais para um cesto de papéis que estava por ali perto. A seguir sorriu e esboçou uma saudação com a mão, como se acabasse de cravar um par de bandarilhas com êxito.

Berta estremeceu e sentiu-se culpada, não esperava condenar o chapéu à morte com os seus comentários. (Ou à guedelha de um mendigo, que com certeza o apanharia do lixo.) Talvez aquele chapéu não fosse herdado e tivesse custado caro ao jovem. Era alguns anos mais velho do que ela, andaria pelos vinte e três ou vinte e quatro, mas nessa idade o dinheiro também não costuma sobrar, e menos ainda naquela época.

—Ouve lá, também não tens de fazer caso daquilo que eu digo. Se tu gostavas, o que te importa a minha opinião? Nem sequer me conheces. Não podemos ser assim tão drásticos.

—Eu a ti, só de te ver, faço caso de tudo o que se discuta, e com drasticidade — Aquilo soou como um elogio, se se atendesse às palavras (duvidou que a última existisse, mas aqueles que não se preocupam com isso geralmente inventam com mais alegria e acerto do que os que sim). No entanto, nem o tom nem a atitude correspondiam aos de um galanteio. Ou quiçá esta fosse tão antiquada que Berta acabou por não a reconhecer: nenhum dos seus colegas, nem os que lhe arrastavam a asa, nem o próprio Tom, lhe teriam dito uma frase assim (começavam já os tempos da indisciplina, aqueles em que a boa educação era uma desonra e a má uma honra). — Anda, vamos, que esse joelho precisa de ser tratado, vamos lá a ver se não vai infectar.

Ao entrar em casa dele, Berta deduziu que não andava nada mal de dinheiro. Tinha móveis novos, sem marcas de uso (não demasiados, isso sim), e era bastante mais amplo do que aqueles que arrendavam os poucos estudantes que podiam dar-se a esse luxo. De facto, era raríssimo que não fossem partilhados, pelo menos por dois, quando não por quatro ou cinco. Aquela era uma casa organizada, embora indubitavelmente de solteiro, de homem só e não completamente instalado. Parecia tudo arrumado, mesmo estudado, mas com um ar provisório. Nas paredes viam-se umas quantas fotografias de touradas, três ou quatro cartazes a anunciar, num deles conseguiu mesmo ver os nomes, famosos até para ela, de Santiago Martín «El Viti» e Gregorio Sánchez. Felizmente não se via nenhum cabeça de touro pendurada e emoldurada como um exagerado alto-relevo, talvez só as concedessem aos matadores, não aos bandarilheiros, Berta ignorava tudo acerca da fiesta.

—Vives aqui sozinho?— perguntou-lhe. — Isto é tudo para ti?

—Sim, arrendei-a há uns meses. Durante a temporada não vou aproveitá-la muito, mal estarei por Madrid, e custa-me um balúrdio. Mas bem, ultimamente as coisas não me têm corrido mal como solto, e temos de arranjar um sítio onde ficar quando não há actividade. Para a América é que não me chamam. E a verdade é que um tipo acaba por ficar farto de pensões e hotéis.

—Como solto?

—Já te explico, enquanto te curo isso. Anda, senta-te ali — e apontou-lhe um cadeirão; tinha um tapete por baixo— e tira as meias. Estão para deitar fora. Se não tens umas para trocar, deito-as fora e depois vou comprar-te outras. Bom, terias de me dizer onde se compram, porque não faço a mínima ideia. Vou buscar o estojo dos primeiros socorros.

Saiu da sala e Berta ouviu-o remexer à distância, abrir e fechar armários e gavetas, supôs que da casa de banho. Despiu o casaco, pousou-o no sofá mais próximo, sentou-se no cadeirão indicado e ali descalçou as botas — botas de fecho de correr, até ao joelho— e a seguir as meias escuras, que na realidade eram meias inteiras, ou seja, chegavam até à cintura, coisa que naqueles anos era já habitual. Teve de subir bastante a saia para que saíssem, porque era saia a direito, quase estreita, algo curta — tapava dois terços da coxa, se calhar menos—, como também era frequente na moda de então. A sua decisão de ir à manifestação tinha sido tão improvisada que saíra de casa vestida como para ir às aulas, e de modo algum para fugir pelas ruas à frente de um gris numa cavalgadura. Enquanto as despia olhou por várias vezes para a porta por onde desaparecera o seu anfitrião, não fosse ele entrar de novo a meio do seu despimento parcial (sem parar para as contar, com naturalidade, despira quatro peças num instante, se se incluía o cachecol; isto é, metade: restavam-lhe a saia, um pulôver fino com decote em bico, as cuecas e o sutiã). Olhou por olhar, na verdade descobriu que não se importava que a visse com a saia subida uns segundos, um grande susto passado e um grande cansaço presente baixam a guarda das pessoas, toma-as uma espécie de indiferença quando não de complacência por terem saído a bem de uma embrulhada e poderem começar a relaxar. Além disso, o jovem Yanes inspirava-lhe confiança, era alguém com quem se estava bem. Uma vez concluída a rápida operação (as meias feitas num trapo no chão, sentiu-se sem forças para as tirar dali), refastelou-se no cadeirão, as pernas nuas, os pés descalços em cima do tapete, deitou uma vista de olhos despreocupada ao sangue, sentiu-se tomada por um sono instantâneo, mas não deu tempo a que tomasse conta dela e a pudesse vencer porque o bandarilheiro regressou, também ele despira o sobretudo, o casaco e a gravata e arregaçara as mangas da camisa. Numa mão trazia um copo de Coca-Cola com gelo, que lhe entregou, e na outra, com efeito, um pequeno estojo branco com asa, talvez todos os toureiros tivessem um em casa, para trocarem ligaduras, por precaução. Yanes puxou um tamborete baixo e sentou-se diante dela.

—Vamos lá a ver — disse-lhe—, primeiro lavo-te um pouco, isto não vai doer. — Berta cruzou instintivamente as pernas, em parte para facilitar, para lhe aproximar o joelho, e em parte para dificultar (para lhe dificultar uma visão). — Não, não me cruzes as pernas, assim é pior. Apoia a barriga da perna na minha coxa, assim será mais fácil. — Com esmero lavou-lhe a ferida com uma pequena esponja, água e sabão, e a seguir ­secou-a com toques leves de uma toalhita, como se a última coisa que quisesse fosse magoá-la e esfregar com força. Depois soprou, com ar frio, tentou. Agora, como estava mais baixo, Yanes tinha a visão bem visível, a saia era bastante curta e justa (com as pernas descruzadas ficava tensa, esticada) para que o fundo das cuecas entrasse no seu campo visual, e, se precisasse de mais ângulo, na verdade só teria de afastar a coxa para a esquerda e a barriga da perna de Berta, que estava por cima, obedeceria sem apelo. E assim fez o bandarilheiro, afastou a coxa imperceptivelmente para um lado, e a desejada imagem ampliou-se, ofereceram-se-lhe entreabertas as pernas inteiras, do tornozelo à virilha por assim dizer (mas os pés descalços também), eram fortes, cheias sem chegarem a ser grossas, como de norte-americana, firmes e bem musculadas e bastante compridas, pernas que convidavam ao entretenimento e ao afundamento, e é sempre perceptível ali um pouco de monte, no final (ou talvez seja mais suave lomba, elevação e palpitação). — Agora vou passar com álcool, isto sim, vai arder-te ao princípio, depois já menos. — Embebeu um pedaço de algodão e, quando ficou bem embebido para que não se pegassem fios à ferida, passou-o repetidas vezes por esta, com delicadeza e tento. E voltou a soprar, de facto soprou um pouco mais acima do joelho, como se a pontaria lhe tivesse falhado ou também quisesse aliviar onde não havia qualquer ardor.

Em seguida o ardor reflectiu-se na cara de Berta (cerrou os dentes, mordeu os lábios), mas na verdade durou pouco. Sentiu-se como quando era miúda e um adulto lhe tratava um corte ou um arranhão. Era bom voltar a estar nas mãos de alguém, que alguém lhe fizesse coisas úteis com as mãos, o quê pouco importava: em primeira instância não era uma sensação muito diferente daquela que o cabeleireiro provoca ao passar a navalha ou a máquina pela nuca de um homem que então chega a adormecer, ou mesmo da que provoca o dentista quando só raspa ou faz vibrar e não causa dor; e ainda mais parecida à do médico quando ausculta e palpa e tamborila só com um dedo, o médio, e faz pressão e pergunta: «Dói aqui? E aqui? E aqui?» Há um elemento agradável em deixarmo-nos levar e sermos manuseados, mesmo que não sejam coisas prazenteiras, mesmo que rocem o desconforto ou o temor (um barbeiro pode sempre cortar sem querer, um dentista tocar nas gengivas ou num nervo, um médico mudar de expressão e mostrar preocupação, um homem fazer mal a uma mulher, e se ela for inexperiente ainda mais). Berta Isla sentiu-se confortável e preguiçosa e cuidada, a moleza aumentou quando Yanes lhe pôs um penso de bom tamanho na ferida e deu por concluído o curativo. E depois de o colar não retirou as mãos imediatamente, como deveria ter feito, antes as apoiou, sempre com suavidade, as duas ao mesmo tempo, na parte exterior das coxas da jovem, como quem as apoia nos ombros com jeito protector, não mais do que isso, ou como um gesto que pretende dizer: «Pronto. Já está.» Mas as coxas não são ombros, nem mesmo a face exterior, nada a ver. Berta não reagiu de nenhuma maneira, ficou a olhar para ele com o olhar algo turvo por semiadormecida ou intrigada que estava, de olhos semiabertos, querendo alarmar-se mas sem o conseguir, evocando palidamente o rubor que de um modo geral com tanta facilidade lhe acorria, como quem espera ou não sabe se anseia que essas mãos não se retirem, e inclusivamente sente curiosidade em descobrir se mudarão de posição ou se deslocarão para outra zona, por exemplo para a face interna da coxa, que ainda é menos como os ombros, aí o gesto protector pode tornar-se ameaçador para quem é tocado ou disparar a sua impaciência, tudo depende do dia e de quem o faz. Durante um minuto inteiro — longo minuto de silêncio absoluto, porque ninguém falava—, Yanes não mexeu as mãos um milímetro, manteve-as ali quietas, sem sequer acariciar ou pressionar, apenas pousadas, quase inertes, as palmas deixariam uma marca vermelha se ali permanecessem muito mais, e talvez até custasse um pouco descolá-las da pele. O bandarilheiro aguentou o olhar dos olhos brumosos com os dele tão afastados que lhe conferiam um ar de pureza e ingenuidade. Não denunciavam nada em si mesmos, não antecipavam o passo seguinte, transmitiam apenas serenidade. No entanto, aquele rosto lia-se, e Berta soube aquilo que mais cedo ou mais tarde o desconhecido provaria — ah sim, era um desconhecido—, soube-o com tanta certeza que o contrário teria pressuposto uma decepção. Esforçou-se por pensar em Tomás Nevinson, a quem amava com tanta convicção, com incondicionalismo deliberado e teimosia; mas não lhe pareceu que aquela tarde ou já noite tivesse nada que ver com ele nem que o fosse pôr em questão, não conseguiu ver qualquer ligação entre o seu namorado longínquo meio inglês e aquela situação num andar perto da praça de Las Ventas com um jovem que seguramente actuava ou desejava actuar ali, não lhe explicara o que era isso de «solto». Pensou que ainda não recuperara nem o sentido de orientação nem a vontade; que continuava perturbada ou entorpecida pelo susto da aventura equina, ou clandestina, ou policial, ou tudo ao mesmo tempo. Não existe nada melhor do que acreditar que se perdeu a vontade, que se está à mercê da ondulação e do vaivém, que se pode balançar e deixar-se abandonar; ou se é melhor ainda crer que se entregou a vontade a outro, a quem agora caberá decidir o que vai acontecer.

Então Esteban Yanes, sem mudar de expressão, continuando a fitá-la como se quisesse estar atento a qualquer centelha de contrariedade ou recusa para fazer marcha-atrás, passado esse minuto atreveu-se demasiado, um homem decidido e audaz. Mas, mal fez o seu movimento arriscado, explodiu a gargalhada que tão frequente era em Berta e que tantas simpatias lhe granjeava, talvez como se achasse hilariante encontrar-se naquele ponto inimaginável uma hora antes, talvez por um contentamento imprevisto, o que costuma acompanhar a realização de um desejo ainda não formulado nem confessado, porque só se descobre tal desejo quando este já está a realizar-se. Por seu turno, o riso de Berta cativou o sorriso africano do bandarilheiro, que convidava à confiança imediata e parecia dissipar todo o perigo, e que de seguida também se transformou em gargalhada. Assim, riram os dois no momento em que Yanes, lentamente mas sem mais aviso do que essa mesma lentidão, avançou uma mão para a gentil elevação ou gentil lomba, ou seja, o fundo das cuecas já contemplado à vontade e que com um dedo afastou suavemente para depois o pousar debaixo do tecido húmido. Nunca Tom Nevinson chegara até ali, nas ocasiões mais ousadas o seu indicador detivera-se sobre o tecido sem indagar mais além e sem se mexer, por respeito ou por temor, ou por excessiva consciência da juventude dos dois, por adiamento e pavor da irreversibilidade. Mas Berta era de carne interrogativa e notou uma diferença, e deu as boas-vindas à novidade. Das quatro peças de roupa com que ficara, depressa a rapariga perdeu outras três, já no sofá; só uma conservou, aquela que não era preciso despir, nem tão-pouco tinha vontade de despir.

II

De vez em quando Berta Isla lembrava-se de Esteban Yanes, tanto durante o período previsível e normal do seu casamento como durante o anómalo, aquele em que não soube bem a que agarrar-se, durante o qual não sabia se o seu marido, Tom Nevinson, tinha sido admitido ou não ent ...