O desagrado nem sempre possuíra o seu marido, simultaneamente espanhol e inglês, de seu nome Tom ou Tomás Nevinson. Nem sempre desprendera uma espécie de tédio invasor, um desgosto profundo que arrastava consigo por toda a casa e que por isso também vinha à superfície. Chegava com ele como uma emanação, à sala, ao quarto, à cozinha, ou como se fosse uma tempestade a pairar-lhe sobre a cabeça que o seguia para toda a parte e raramente se afastava dele. Isto levava-o a ser lacónico e a responder a poucas perguntas, às comprometedoras, como é óbvio, mas também às inofensivas. Para as primeiras desculpava-se não por estar autorizado a fazer revelações, e aproveitava para recordar à mulher, Berta Isla, que jamais a obteria: mesmo que passassem décadas e estivesse à beira da morte, nunca poderia contar-lhe quais eram as suas andanças presentes, ou as suas tarefas, ou as suas missões, a vida vivida quando não estava com ela. Berta tinha de o aceitar e aceitava: havia uma zona ou uma dimensão do seu marido que permaneceria sempre na escuridão, sempre fora do seu campo visual e dos seus ouvidos, o relato negado, o olho semicerrado ou míope ou mesmo cego; ela poderia apenas conjecturá-la ou imaginá-la.
—E além disso mais vale que não saibas— disse-lhe nalgumas ocasiões, pois por vezes o hermetismo obrigatório não o impedia de discursar por instantes, em abstracto e sem fazer a mínima referência a lugares nem a indivíduos. — Costuma ser pouco agradável, contém histórias bastante tristes, condenadas a finais desgraçados, para uns ou para outros; de vez em quando é divertida, mas é quase sempre feia ou, ainda pior, deprimente. E é frequente sair dela de consciência pesada. Felizmente passa-me depressa, é transitória. Felizmente, esqueço-me daquilo que fiz, é o que têm de bom os episódios fingidos, não somos nós quem os experimenta, ou é só como se fôssemos um actor. Os actores retomam o seu ser depois de acabarem o filme ou a representação teatral, e estas acabam sempre por se dissipar. A longo prazo deixam apenas uma vaga recordação como de coisa sonhada e inverosímil, em todo o caso duvidosa. Inclusivamente imprópria de nós, e assim dizemos: «Não, eu não posso ter tido esse comportamento, a memória confunde-se, era outro eu e é um engano.» Ou é como se fôssemos sonâmbulos, que nem sequer nos inteirássemos das nossas acções nem dos nossos passos.
Berta Isla sabia que vivia parcialmente com um desconhecido. E alguém que está proibido de dar explicações sobre meses inteiros da sua existência acaba por sentir que tem autorização para não as dar sobre qualquer aspecto. Porém, Tom também era, parcialmente, uma pessoa de toda a vida, daquelas que se dão por certas como o ar. E nunca perscrutamos o ar.
Conheciam-se quase desde crianças, e nessa altura Tomás Nevinson era alegre e ligeiro e sem névoas nem sombras. O Instituto Britânico da rua Martínez Campos, junto ao Museu Sorolla, em que ele estudara desde o princípio, abandonava ou soltava os alunos aos treze ou catorze anos, após aquilo a que na época se chamava o quarto ano do liceu. Teriam de fazer o quinto, o sexto e o pré-universitário, os três anos restantes antes da universidade, noutro sítio, e eram muitos os que passavam para o colégio de Berta, o Estudio, mesmo que fosse apenas por também ser misto e laico, contra as normas em Espanha durante o franquismo, e porque assim não mudavam de bairro, pois a sede do Estudio ficava na vizinha rua de Miguel Ángel.
A menos que fossem horrorosos ou não tivessem graça alguma, os «novos» costumavam arrasar entre os do sexo oposto, precisamente por serem uma novidade, e Berta não tardou a apaixonar-se pelo jovem Nevinson, primitiva e obcecadamente. Estes amores que começam forçosamente com timidez, com olhares dissimulados, sorrisos e conversas superficiais que dissimulam a paixão que, no entanto, se enraíza logo de seguida e parece inabalável até ao fim dos tempos dependem muito de decisões elementares e arbitrárias, mas também estéticas ou presumidas (olhamos à nossa volta e dizemos: «Fico bem com este»). Claro que se trata de uma paixão teórica e completamente questionável, aprendida dos romances e dos filmes, uma projecção fantasiada em que predomina uma imagem estática: a rapariga imagina-se casada com o escolhido, e ele com ela, como um quadro sem desenvolvimento nem variação nem história; a visão fica-se por aí, nenhum dos dois tem capacidade para ir mais longe, para se verem numas idades remotas que nada lhes dizem e lhes parecem inalcançáveis, para representar outra coisa que não seja o culminar, a seguir ao qual é tudo impreciso e pára; ou é um dado adquirido, para os mais clarividentes ou obstinados. Numa época em que ainda era costume que, ao deixarem de ser solteiras, as mulheres acrescentassem um «de» ao seu apelido, seguido pelo do marido, na escolha de Berta até tiveram influência os efeitos visuais e sonoros do seu futuro nome longínquo: seria muito diferente passar a ser Berta Isla de Nevinson, que evocava aventuras ou paragens exóticas (um dia teria um cartão-de-visita no qual mandaria escrever exactamente estes nomes; e mais o quê logo se veria), do que Berta Isla de Suárez, para referir o apelido do colega de quem gostara até Tom ter aparecido no colégio.
Não foi a única rapariga da turma que se fixou nele desse modo veemente e decidido, e que teve esperanças. Com efeito, a chegada dele provocou um reboliço geral no microcosmo, que se prolongou por dois trimestres, até ter dona conhecida. Tomás Nevinson era bastante bem-parecido e um pouco mais alto que a maioria, com um cabelo alourado penteado para trás e antiquado (como os dos pilotos dos anos quarenta, ou de ferroviário quando o usava mais curto, ou de músico quando o tinha mais comprido, nunca muito contra a tendência que se ia impondo; fazia lembrar o do actor secundário Dan Duryea e assemelhava-se ao do actor principal Gérard Philipe, quando adquiria o seu volume máximo: para os que tiverem curiosidade visual ou memória), e toda a sua pessoa transmitia a solidez de quem é imune às modas e portanto às inseguranças, que tantas formas adoptam por volta dos quinze anos e que a quase ninguém escapam. Dava a impressão de não estar submetido à sua época, ou de a sobrevoar, como se não concedesse importância às circunstâncias do acaso, e é-o sempre isto o dia em que se nasce, mesmo o século. Na verdade, as suas feições mais não eram do que agradáveis, nem sequer era um exemplo de beleza juvenil inegável; rasavam a insipidez que ao cabo de umas décadas delas se apropriaria sem remédio. Mas, por enquanto, salvavam-na dela os lábios carnudos e bem desenhados (que convidavam a que os percorressem com o dedo e apalpassem, mais do que beijassem) e o olhar cinzento-mate ou brilhante atormentado, consoante a luz ou tormento incipiente que nele se estivesse a condensar: uns olhos penetrantes, inquietos e mais amendoados do que o habitual, que raramente descansavam e contradiziam o conjunto de serenidade da sua figura. Nesses olhos vislumbrava-se qualquer coisa de anómalo, ou talvez se anunciassem anomalias vindouras, então apenas à espreita ou escondidas, como se ainda não tivesse chegado a hora de despertarem e tivesse de amadurecer ou incubar para alcançarem a sua plena potência. Ao nariz faltava-lhe distinção, muito para o largo e como se não acabasse, ou pelo menos sem rubrica. O queixo era vigoroso, a puxar para o quadrado, ligeiramente saliente, e conferia-lhe um ar determinado. Era tudo o que possuía de atraente, ou de encanto, e nele imperava, mais do que o aspecto, o carácter irónico e leviano, propenso a piadas suaves e despreocupado, tanto em relação àquilo que acontecia no exterior como àquilo que se ventilava na sua cabeça, que não seria fácil de adivinhar nem sequer para ele próprio, quanto mais para os que o rodeavam: Nevinson evitava a introspecção e falava pouco da sua personalidade e das suas convicções, como se ambas as práticas lhe parecessem uma brincadeira de miúdos e uma perda de tempo.
Era o contrário do adolescente que se descobre e analisa e observa e procura decifrar-se, com impaciência para averiguar a que género de indivíduos pertence; sem perceber que a pesquisa é inútil porque ainda não está completamente formado, e além disso esse saber só chega — se é que chega e não se vai modificando e negando— quando se tomam decisões de peso e se actua sobre o caminho, e quando isto acontece já é tarde para rectificar e ser de outro género. Em todo o caso, Tomás Nevinson não estava muito interessado em dar-se a conhecer nem certamente em conhecer-se, ou então já teria completado o segundo processo, pois o primeiro considerava-o costume de narcisistas. Talvez fosse da metade inglesa da sua ascendência, mas ao fim e ao cabo ninguém sabia muito bem como era. Sob a sua aparência amistosa e diáfana, mesmo afável, havia uma fronteira de opacidade e reserva. E a maior opacidade consistia em os outros não terem consciência disso, e mal davam conta dessa camada impenetrável.
Era completamente bilingue, falava inglês como o pai e espanhol como a mãe, e o facto de ter vivido sobretudo em Madrid quando ainda nem sequer era capaz de articular uma palavra, ou muito poucas, em nada prejudicava a sua fluência ou eloquência na primeira destas línguas: fora educado nela durante a infância, era a que dominava em sua casa, e desde que tinha memória passara todos os Verões em Inglaterra. A isto acrescentavam-se a sua facilidade em aprender terceiras ou quartas línguas e uma habilidade extraordinária para imitar falas e cadências e dicções e sotaques: bastava-lhe ouvir uma pessoa por breves instantes para conseguir imitá-la na perfeição, sem ensaio prévio nem esforço. Com isto conquistava simpatias e risos dos seus colegas, que acabavam por lhe solicitar as suas melhores interpretações. Também colocava a voz com eficácia e assim conseguia reproduzir as dos seus imitados, que naqueles anos do colégio eram sobretudo figuras da televisão, o mais do que conhecido Franco e um ou outro ministro que aparecia mais nas notícias do que os restantes. As piadas no idioma paterno, guardava-as para as suas estadas em Londres e na zona de Oxford, para os seus amigos e parentes de lá (o senhor Nevinson era natural da segunda cidade); no Estudio, no bairro de Chamberí, ninguém as teria compreendido nem aplaudido, à excepção de dois ex-colegas, tão bilingues como ele, do Instituto Britânico. Quando se expressava noutro idioma, não se lhe notava o menor vestígio de estrangeirismo, e falava ambos como um nativo, por isso nunca teve problemas em ser aceite em Madrid como mais um, apesar do seu apelido, conhecia o calão e o jargão todos, e se quisesse podia ser tão ordinário quanto o rapaz mais malcriado da capital inteira, excluindo arrabaldes. De facto, era mais um, mas em muito maior escala mais um espanhol qualquer do que mais um inglês qualquer. Não punha de parte a ideia de fazer o curso universitário no país do pai, e este procurava convencê-lo a tal, mas concebia a sua vida em Madrid, como sempre, e desde logo ao lado de Berta. Se o admitissem em Oxford talvez fosse, mas tinha a certeza de que ao terminar o curso voltaria e ficaria.
O progenitor, Jack Nevinson, estabelecera-se em Espanha havia longos anos, inicialmente por acaso e depois por evidente paixão e casamento. Tom não tinha memória da sua existência noutro sítio, sabia apenas que existira. Mas os filhos costumam ignorar aquilo que os pais viveram antes de eles terem nascido ou, mais ainda, não lhes diz respeito até que já são adultos plenos e, às vezes, já é demasiado tarde para fazerem perguntas. O senhor Nevinson acumulava cargos na embaixada britânica com afazeres no British Council, para o qual entrara pela mão do seu representante em Madrid durante quase três lustros, o irlandês Walter Starkie, também fundador do Instituto Britânico em 1940 e seu director durante muito tempo, hispanista entusiasta, andarilho e autor de vários livros sobre os ciganos, incluindo um intitulado um pouco ridiculamente Don Gypsy. Jack Nevinson tivera grande dificuldade em dominar a língua da mulher, e, apesar de ter acabado por o conseguir sintáctica e gramaticalmente, com um vocabulário amplo embora antiquado e livresco, nunca se libertou do seu sotaque muito marcado, o que fazia que os filhos o vissem parcialmente como um intruso lá em casa e se lhe dirigissem sempre em inglês, para evitarem risos tontos irreprimíveis e enrubescimentos de vergonha. Sentiam-se nervosos quando tinham visitas espanholas e não lhe restava outro remédio senão recorrer ao castelhano; na boca dele soava-lhes quase a piada, como se ouvissem as dobragens que Laurel e Hardy, o Bucha e o Estica, faziam com as suas próprias vozes e pronúncias para a exibição no domínio hispânico dos seus já velhos filmes (ao fim e ao cabo, Stan Laurel era inglês, não americano, muito diferentes os
