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BECOMING

Michelle Obama  

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Excerto

Prefácio

Março de 2017

Quando era pequena, tinha aspirações simples. Queria ter um cão. Queria uma casa onde houvesse uma escada — dois andares para uma só família. E, sabe-se lá porquê, queria uma carrinha de quatro portas em vez do Buick de duas portas que era a menina dos olhos do meu pai. Costumava dizer a toda a gente que quando crescesse seria pediatra. Porquê? Porque adorava estar rodeada de crianças pequenas e depressa percebi que era uma resposta que agradava aos adultos. Oh, Medicina! Que bela escolha! Naquela época, eu usava o cabelo apanhado dos dois lados, mandava no meu irmão mais velho e conseguia, sempre e em qualquer circunstância, ter a nota máxima na escola. Era ambiciosa, embora não soubesse exactamente o que me propunha atingir. Hoje em dia considero que se trata de uma das perguntas mais inúteis que um adulto pode fazer a uma criança: «O que queres ser quando fores grande?» Como se crescer fosse finito. Como se a dada altura nos tornássemos algo, e isso fosse o fim da conversa.

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Até agora, já fui advogada. Já fui vice-presidente de um hospital e directora de uma organização sem fins lucrativos que ajuda jovens a construírem carreiras que fazem a diferença. Já fui uma estudante negra de classe operária numa universidade chique com uma comunidade estudantil maioritariamente branca. Já fui a única mulher, a única afro-americana, em toda a espécie de sítios. Já fui a noiva, a ansiosa mãe de primeira viagem, a filha de coração despedaçado perante a dor da perda. E, até recentemente, fui a primeira-dama dos Estados Unidos da América — título que não é oficialmente um cargo, mas que, ainda assim, me proporcionou uma plataforma como nenhuma outra que alguma vez pudesse ter imaginado. Apresentou-me desafios e tornou-me mais humilde, levou-me aos píncaros e fez-me sentir minúscula, por vezes tudo isto ao mesmo tempo. Estou apenas a começar a processar o que aconteceu ao longo dos últimos anos — do momento, em 2006, em que o meu marido começou a falar sobre candidatar-se à Presidência à fria manhã neste Inverno em que entrei numa limusina com a Melania Trump para a acompanhar até à cerimónia de tomada de posse do marido. Tem sido uma viagem e tanto!

Quando se é a primeira-dama, a América revela-se-nos nos seus extremos. Já compareci a acções de angariação de fundos em casas particulares que mais parecem museus de arte, casas onde as banheiras são feitas de pedras preciosas. Já visitei famílias que perderam tudo devido ao furacão Katrina e encontrei-as em lágrimas e gratas simplesmente por terem um frigorífico e um fogão que funcionam. Já me deparei com pessoas que considerei fúteis e hipócritas e com outras — professores, cônjuges de oficiais das Forças Armadas e tantas mais — cujo carácter é tão forte e profundo que é impressionante. E já conheci crianças — muitas mesmo, por todo o mundo — que me fizeram rir a bandeiras despregadas e me encheram de esperança e que, abençoadamente, conseguem esquecer-se do meu título mal começamos a remexer a terra de um jardim.

Desde que, relutantemente, entrei na vida pública, já fui elevada à categoria de mulher mais poderosa do mundo e deitada abaixo como uma «mulher negra em fúria». Já me apeteceu perguntar aos meus detractores que parte nessa expressão é mais importante para eles: será «em fúria» ou «negra» ou «mulher»? Já posei com um sorriso para as câmaras fotográficas ao lado de indivíduos que proferem insultos terríveis contra o meu marido na televisão pública, mas depois querem ficar com uma recordação emoldurada para pôr em cima da lareira. Já ouvi falar de páginas pantanosas na Internet que põem em causa tudo sobre mim, até se serei uma mulher ou um homem. Um congressista ainda em funções troçou do meu traseiro. Já fiquei magoada. Já me senti furiosa. Mas, na maioria das vezes, o que tentei fazer foi encarar tudo isto com humor.

Ainda há muita coisa que desconheço sobre a América, sobre a vida, sobre o que o futuro poderá trazer. Mas conheço-me a mim. O meu pai, Fraser, ensinou-me a trabalhar arduamente, a rir muito e a honrar a minha palavra. A minha mãe, Marian, encorajou-me a pensar pela própria cabeça e a usar a minha voz. Juntos, no nosso pequeno apartamento no South Side, em Chicago[1], ajudaram-me a reconhecer o valor da nossa história, da minha história, da história do nosso país num sentido mais lato. Mesmo quando não é bonita ou perfeita. Mesmo quando é mais real do que gostaríamos que fosse. A nossa história é o que temos, o que teremos sempre. É algo que devemos assumir como nosso.

Durante oito anos vivi na Casa Branca, um lugar que tem escadas até se perder a conta — além de elevadores, uma pista de bólingue e uma florista própria. Dormia numa cama com lençóis feitos em Itália. As nossas refeições eram confeccionadas por uma equipa composta por chefs de renome mundial e servidas por profissionais mais bem treinados do que os funcionários de qualquer restaurante ou hotel de cinco estrelas. À nossa porta, fazendo o possível para não perturbar a nossa vida familiar, tínhamos agentes dos serviços secretos, com os seus auriculares e armas de fogo e expressões faciais propositadamente neutras. Acabámos por nos habituar, mais ou menos, a tudo isso — à estranha grandiosidade da nossa nova casa e também à constante e silenciosa presença de outras pessoas.

A Casa Branca é o lugar onde as nossas duas filhas jogaram à bola, nos corredores, e treparam às árvores no relvado sul. É o lugar onde o Barack passou noites em claro a trabalhar, analisando relatórios e revendo as primeiras versões de discursos na Sala do Tratado, e onde o Sunny, um dos nossos cães, ocasionalmente defecou em cima da carpete. Podia ir à Varanda Truman e observar os turistas a posarem para a fotografia munidos dos seus bastões de selfies e a espreitarem pelo gradeamento, tentando adivinhar o que se passava no interior. Houve dias em que me senti sufocada por as nossas janelas terem de permanecer fechadas por motivos de segurança, por não poder apanhar um pouco de ar puro sem que isso gerasse confusão. Houve outras alturas em que me senti maravilhada pelas magnólias em flor lá fora, pela azáfama diária da governação propriamente dita, pela magnificência de uma recepção militar. Houve dias, semanas e meses em que odiei o mundo da política. E houve momentos em que a beleza deste país e do seu povo me comoveu a ponto de ficar sem palavras.

Depois acabou. Ainda que saibamos que vai acontecer, ainda que as derradeiras semanas sejam preenchidas por despedidas emotivas, o dia em si não deixa de ser algo turvo. Uma mão pousa na Bíblia, repete-se um juramento. O mobiliário de um presidente é levado enquanto o do outro é transportado para o interior. Os armários são esvaziados e voltam a ficar cheios numa questão de horas. Num abrir e fechar de olhos, há novas cabeças a repousar sobre novas almofadas — novas personalidades, novos sonhos. E, quando tudo termina, quando transpomos pela última vez a porta da casa mais famosa do mundo, em muitos aspectos damos por nós a precisar de nos redescobrirmos.

Por isso, permitam-me que este seja o meu ponto de partida, um pequeno episódio que se deu há relativamente pouco tempo. Eu estava em casa, na moradia toda em tijolo para a qual a minha família se mudou recentemente. Esta nossa nova residência fica a uns três quilómetros da anterior, num bairro sossegado. Ainda nos estamos a instalar. Na sala, a nossa mobília encontra-se disposta conforme estava na Casa Branca. Temos pequenas lembranças espalhadas pela casa que não nos deixam esquecer de que o que vivemos foi real: fotografias de momentos em família em Camp David, vasos feitos à mão que me foram oferecidos por estudantes nativo-americanos, um livro autografado por Nelson Mandela. O que tornava aquela noite estranha era não estar mais ninguém presente. O Barack estava em viagem. A Sasha tinha saído com uns amigos. A Malia tem estado a viver e a trabalhar em Nova Iorque, na recta final do seu ano sabático antes de entrar na faculdade. Era só eu, os nossos dois cães, e uma casa vazia e silenciosa como já há oito anos eu não sabia o que isso era.

E tinha fome. Saí do quarto e desci as escadas com os cães no meu encalce. Chegada à cozinha, abri o frigorífico. Encontrei o pão, servi-me de duas fatias e pu-las na torradeira. Abri um armário e tirei um prato. Eu sei que soa estranho dizer isto, mas tirar um prato de um armário de cozinha sem antes alguém insistir em fazê-lo por mim e estar ali sozinha a ver o pão a torrar é o mais perto que já estive de um regresso à minha antiga vida. Ou talvez seja a minha nova vida a começar a fazer-se anunciar.

Acabei por não me ficar pelas torradas: preparei uma tosta de queijo, passando as minhas fatias de pão para o microondas para derreter o cheddar, bem gordo e pegajoso, que pus entre elas. Peguei então no prato e levei-o para o quintal. Não tinha de avisar ninguém de que ia. Limitei-me a ir. Estava descalça, de calções. O frio do Inverno finalmente acalmara. Nas floreiras ao longo da parede das traseiras, o açafrão tinha mesmo acabado de começar a brotar. O ar cheirava a Primavera. Sentei-me nos degraus do nosso alpendre, sentindo as lajes sob os meus pés ainda quentes do sol daquele dia. Um cão desatou a ladrar algures à distância, e os meus cães puseram-se à escuta, parecendo momentaneamente confusos. Ocorreu-me que se tratava de um som insólito para eles, tendo em conta que na Casa Branca não tínhamos vizinhos, muito menos cães de vizinhos. Para eles, tudo aquilo era uma novidade. Os cães partiram para ir explorar o perímetro, e comi a minha tosta no escuro, sentindo-me sozinha no melhor dos sentidos. Nos meus pensamentos não estava o grupo de seguranças armados a menos de 90 metros no posto de comando que fora instalado na nossa garagem, ou o facto de que continuo a não poder andar pelas ruas sem um destacamento de segurança. Não estava a pensar no novo presidente, nem sequer no antigo, para ser sincera.

Estava a pensar em como, dali a uns minutos, voltaria para dentro de casa, lavaria o prato no lava-louça e subiria até ao quarto para me deitar, abrindo talvez uma janela para poder sentir o ar da Primavera — o quão maravilhoso isso seria. Estava também a pensar que a tranquilidade me proporcionava uma verdadeira primeira oportunidade de reflectir. Enquanto primeira-dama, acontecia terminar uma semana atarefada e precisar que me relembrassem de como a mesma começara. Mas o tempo começa a parecer diferente. As minhas filhas, que chegaram à Casa Branca com as suas bonecas Polly Pockets, um cobertor chamado Blankie e um tigre de peluche, de nome Tiger, são hoje adolescentes, jovens com os seus planos e com vozes próprias. O meu marido está ele próprio a adaptar-se à vida pós-Casa Branca, a recuperar o fôlego. E eis-me aqui, neste lugar novo, a querer dizer tantas coisas.

Eu

1

Passei grande parte da minha infância a escutar o som do empenho, sob a forma da música de má qualidade, ou pelo menos amadora, que me chegava através do soalho do chão do meu quarto — o plinc plinc plinc dos alunos sentados ao piano da minha tia-avó Robbie no piso de baixo, aprendendo, lentamente e sem perfeição, a tocar escalas. A minha família vivia no bairro South Shore, em Chicago, numa irrepreensível moradia em tijolo que pertencia à Robbie e ao marido, o Terry. Os meus pais arrendavam um apartamento no segundo andar, e a Robbie e o Terry viviam no primeiro. A Robbie era tia da minha mãe, para quem fora generosa ao longo de muitos anos, mas a mim metia pavor. Aprumada e sisuda, dirigia o coro da nossa igreja e era também a professora de piano de serviço naquela comunidade. Usava calçado prático e confortável e andava sempre com os óculos pendurados ao pescoço por uma pequena corrente. Tinha um sorriso matreiro, mas não apreciava o sarcasmo como a minha mãe. Por vezes, ouvia-a a ralhar com os alunos por não terem praticado o suficiente ou com os pais deles por se atrasarem quando iam levá-los às lições.

«Boa noite!», costumava a Robbie exclamar a qualquer hora do dia no mesmo tom exasperado com que outra pessoa diria: «Oh, por amor de Deus!» Aparentemente, poucas pessoas eram suficientemente boas aos olhos dela.

O som de pessoas a empenharem-se, contudo, tornou-se a banda sonora da nossa vida. Ouvia-se o martelar das teclas durante a tarde, ouvia-se o martelar das teclas ao serão. Ocasionalmente, as senhoras da igreja apareciam para ensaiar os hinos, bradando a sua piedade através das nossas paredes. Segundo as regras da Robbie, as crianças que tinham lições de piano só podiam trabalhar numa canção de cada vez. Do meu quarto, podia ouvi-las a esforçarem-se, uma nota incerta após a outra, por obter a aprovação dela, evoluindo de uma canção infantil como «Hot Cross Buns» para «Brahms’ Lullaby», mas só ao fim de muitas tentativas. A música nunca era irritante, apenas persistente. Esgueirava-se pelas escadas que separavam o nosso espaço e o da Robbie. Entrava pelas janelas abertas durante o Verão, acompanhando os meus pensamentos enquanto eu brincava com as minhas Barbies ou construía pequenos reinos com legos. Só tínhamos tréguas quando o meu pai chegava a casa depois de ter feito o turno da manhã na estação de tratamento de águas e se punha a ver o jogo dos Cubs na televisão, aumentando o volume o suficiente para abafar tudo o resto.

Isto na recta final dos anos 60 no South Side, em Chicago. Os Cubs não eram uma má equipa, mas também não eram nada de especial. Eu sentava-me ao colo do meu pai, na sua poltrona, e escutava a sua explicação sobre como os Cubs estavam em pleno declínio no final da época ou o motivo por que Billy Williams, que vivia logo ao virar da esquina, na avenida Constance, batia tão bem à esquerda da caixa de batimento. Fora dos campos de beisebol, a América passava por um momento de transformação incerta e em larga escala. Os Kennedys tinham morrido. Martin Luther King Jr. tinha sido assassinado quando se encontrava numa varanda em Memphis, desencadeando motins por todo o país, incluindo em Chicago. A convenção nacional de 1968 do Partido Democrata acabara num banho de sangue quando a polícia dispersara os protestantes contra a Guerra do Vietname com bastões e gás lacrimogéneo no Parque Grant, a uns 15 quilómetros para norte de onde vivíamos. As famílias brancas, por sua vez, saíam da cidade aos magotes, atraídas para os subúrbios — a promessa de melhores escolas, mais espaço, e provavelmente mais brancura também.

Eu não me apercebia de nada disto, na verdade. Era apenas uma criança, uma menina com Barbies e legos, com dois pais e um irmão mais velho que todas as noites dormia com a cabeça a menos de um metro da minha. A minha família era o meu mundo, o centro de tudo. A minha mãe ensinou-me a ler mais cedo, levando-me à biblioteca a pé e sentando-se ao meu lado enquanto eu explorava o som das palavras nas páginas dos livros. O meu pai ia para o trabalho todos os dias vestido com a farda azul de um funcionário municipal, mas à noite mostrava-nos o que era adorar jazz e arte. Em miúdo, frequentara o Instituto de Artes de Chicago e no liceu dedicara-se à pintura e à escultura. Praticara também, ainda na escola, boxe e natação de competição e, chegado à idade adulta, era adepto de todos os desportos que passavam na televisão, do golfe profissional ao futebol americano. Gostava de ver pessoas fortes a destacarem-se. Quando o meu irmão, Craig, se interessou por basquetebol, o meu pai pôs moedas por cima da ombreira da porta da cozinha, incentivando-o a saltar para as alcançar.

Tudo o que era importante encontrava-se contido num raio de cinco quarteirões: os meus avós e primos, a igreja da esquina onde não íamos à catequese assim com tanta assiduidade, a bomba de gasolina onde a minha mãe às vezes me mandava ir comprar um maço de Newports e a loja de bebidas alcoólicas, onde também vendiam pão de forma, rebuçados e pacotes de leite. Nas noites quentes de Verão, eu e o Craig adormecíamos ao som dos gritos e aplausos dos espectadores dos jogos da liga de softebol que decorriam no parque perto de nossa casa, onde passávamos os dias a trepar aos equipamentos do parque infantil e a jogar à apanhada com as outras crianças.

Eu e o Craig não chegamos a ter dois anos de diferença. Ele tem os olhos meigos e o espírito optimista do nosso pai e é implacável como a nossa mãe. Sempre fomos muito chegados, em parte graças a uma lealdade inabalável e de certo modo inexplicável que ele parece ter sentido para com a sua irmã mais nova desde o primeiro momento. Há uma velha fotografia de família a preto e branco de nós os quatro sentados num sofá, a minha mãe, sorridente, comigo no seu regaço, o meu pai sério e orgulhoso, com o Craig sentado no colo. Estamos com as nossas roupas de domingo ou talvez arranjados para ir a um casamento. Tenho uns oito meses, uma reguila de primeira categoria de cara bolachuda e fralda num vestido branco acabado de engomar, parecia prestes a escapar-me das garras da minha mãe e fitava a câmara com ar de quem a vai comer. Ao meu lado, o Craig, autêntico cavalheiro de blazer e laço ao pescoço, a exibir uma expressão solene. Tem dois anos e já é a personificação do sentido de vigilância fraternal e responsabilidade — o braço esticado para alcançar o meu, os dedos a agarrar, de forma protectora, o meu pulso com refegos.

À época em que a fotografia foi tirada, vivíamos a um corredor de distância dos meus avós paternos em Parkway Gardens, num bairro de habitação social no South Side composto por edifícios de apartamentos ao estilo modernista que fora construído nos anos 50 numa cooperativa de habitação, com o objectivo de colmatar a falta de alojamento para famílias negras da classe operária no pós-Segunda Guerra Mundial. Posteriormente, viria a deteriorar-se em resultado da pobreza e da violência entre gangues, tornando-se uma das zonas mais perigosas da cidade para se viver. Bem antes disso, porém, quando eu ainda era uma criança de colo, os meus pais — que se tinham conhecido na adolescência e casado aos vinte e poucos anos — aceitaram o convite para se mudarem para a casa da Robbie e do Terry, alguns quilómetros para sul, que ficava num bairro melhor.

Na avenida Euclid, éramos dois agregados familiares a viver debaixo do mesmo tecto, que não tão grande assim. A julgar pela planta da casa, o segundo andar fora provavelmente projectado como um apartamento para receber os sogros, a ser ocupado por uma ou duas pessoas, mas nós os quatro arranjámos maneira de lá caber dentro. Os meus pais dormiam no único quarto, enquanto eu e o Craig partilhávamos uma área maior que penso que teria sido a sala. Depois, à medida que fomos crescendo, o meu avô — Purnell Shields, o pai da minha mãe, carpinteiro apaixonado, se não mesmo extremamente talentoso — trouxe-nos uns painéis de madeira rasca e improvisou uma divisória para separar aquela assoalhada em dois espaços semiprivados. Acrescentou uma porta de fole a cada um e criou uma pequena área de brincadeiras comum à entrada, onde podíamos guardar os nossos brinquedos e livros.

Eu adorava o meu quarto. A sua dimensão comportava apenas uma cama de solteiro e uma secretária exígua. Mantinha todos os meus peluches em cima da cama, tendo uma paciência incrível para os ajeitar à minha cabeceira todas as noites, num ritual que me reconfortava. Do outro lado da parede, o Craig vivia uma espécie de existência em espelho, com a sua própria cama encostada à divisória, paralela à minha. Os painéis eram tão finos que nos era possível ficar a conversar à noite, já deitados nas nossas camas, muitas vezes enquanto atirávamos um ao outro uma meia enrolada a formar uma bola através do intervalo de 25 centímetros entre a divisória e o tecto.

Enquanto isso, a tia Robbie mantinha a sua parte da casa como um mausoléu, com os sofás protegidos por plásticos que eram frios ao toque e se me colavam à pele das pernas quando me atrevia a sentar neles. As suas prateleiras estavam a abarrotar de bibelôs de porcelana nos quais estávamos proibidos de tocar. Eu deixava a minha mão pairar sobre um conjunto em vidro de uns caniches com um focinho amoroso — uma mãe de ar delicado e as suas três pequenas crias — e depois retirava-a, temendo a ira da Robbie. Quando não decorriam lições, reinava um silêncio sepulcral no primeiro andar. A televisão nunca era ligada, o rádio nunca tocava. Nem sequer sei se aqueles dois conversavam muito lá em baixo. O nome completo do marido da Robbie era William Victor Terry, mas por algum motivo só o tratávamos pelo sobrenome. O Terry era como uma sombra, um homem de ar distinto que envergava fatos de três peças todos os dias da semana e praticamente nunca abria a boca para falar.

Acabei por começar a encarar o andar de cima e o de baixo como dois universos diferentes, governados por sensibilidades antagónicas. Lá em cima, éramos barulhentos e não tínhamos remorsos por o sermos. Eu e o Craig brincávamos com bolas e corríamos um atrás do outro pelo apartamento. Pulverizávamos o soalho de madeira do corredor com o spray limpa-móveis para podermos deslizar de meias mais depressa e até mais longe, muitas vezes chocando com as paredes. Participávamos em combates de boxe na cozinha, irmão contra irmã, usando os respectivos conjuntos de luvas que o meu pai nos oferecera no Natal, juntamente com instruções personalizadas sobre como dar um murro como deve ser. À noite, em família, jogávamos jogos de tabuleiro, contávamos histórias e piadas, púnhamos os discos dos Jackson 5 a tocar. Quando já era de mais para a Robbie, lá em baixo, ela dava uso enfático ao interruptor da luz das escadas que partilhávamos, o qual também controlava a luz do nosso corredor, acendendo-a e apagando-a, uma e outra vez — a sua forma falsamente bem-educada de nos mandar ter mais cuidado com o barulho.

A Robbie e o Terry eram mais velhos. Haviam crescido noutra era, com outras preocupações. Haviam visto coisas que os nossos pais não tinham visto — coisas que eu e o Craig, na nossa algazarra infantil, não podíamos sequer imaginar. Esta é uma versão daquilo que a minha mãe diria se ficássemos demasiado irritados por causa da rezinguice vinda do piso de baixo. Mesmo que não conhecêssemos o contexto, éramos educados no sentido de não nos esquecermos de que existia um. Toda a gente neste mundo, diziam-nos eles, carrega consigo uma história invisível, e isso basta para merecer alguma tolerância. A Robbie, viria eu a saber muitos anos depois, tinha processado a Universidade do Noroeste por discriminação, tendo-se lá inscrito numa oficina de música coral em 1943 e visto ter-lhe sido negado um quarto na residência feminina. Fora instruída a ficar alojada numa residência na cidade, ao invés — um sítio para «os de cor», disseram-lhe. O Terry, por sua vez, trabalhara em tempos num comboio-hotel que fazia o serviço nocturno numa das linhas de transporte de passageiros com partidas e chegadas a Chicago. Era uma profissão respeitável, se não mesmo bem remunerada, desempenhada quase inteiramente por homens negros que conservavam os seus uniformes imaculados enquanto carregavam as bagagens, serviam as refeições e, de modo geral, asseguravam as necessidades dos passageiros, o que incluía engraxar-lhes os sapatos.

Reformado havia anos, o Terry ainda vivia num estado de formalidade entorpecida: impecavelmente vestido, ligeiramente servil, jamais fazendo valer a sua opinião fosse de que maneira fosse, tanto quanto me era possível perceber, pelo menos. Era como se tivesse abdicado de uma parte de si para conseguir sobreviver. Costumava observá-lo a cortar a relva do nosso quintal no pico do Verão calçando uns brogues e usando suspensórios e um chapéu fedora de aba curta, com as mangas da camisa cuidadosamente enroladas para cima. Permitia-se fumar precisamente um cigarro por dia e um cocktail por mês, e mesmo nessas ocasiões não se descontraía, como acontecia com o meu pai e a minha mãe depois de beberem um cocktail ou uma cerveja, o que faziam algumas vezes por mês. Parte de mim queria que o Terry falasse, que desembuchasse quaisquer segredos que guardasse. Calculava que ele sabia todo o tipo de histórias interessantes sobre as cidades que visitara ou como as pessoas ricas dos comboios se comportavam (ou não). Mas ele nem queria ouvir falar nisso. Por algum motivo, nunca chegou a contar nada.

*  *  *

Devia ter uns quatro anos quando decidi que queria aprender a tocar piano. O Craig, que andava na primeira classe, já fazia viagens ao piso de baixo para ter lições semanais no piano vertical da Robbie, regressando relativamente ileso, pelo que entendi que estava preparada. Aliás, sentia-me bastante convicta de que já aprendera a tocar piano, por osmose pura e dura — ao fim de todas aquelas horas a ouvir as outras crianças a executarem as suas músicas meio aos tropeções. Já tinha a música na cabeça. Agora queria simplesmente descer até lá abaixo e demonstrar à minha exigente tia-avó a menina dotada que eu era e como não seria necessário esforço algum para me tornar a sua melhor aluna.

O piano da Robbie encontrava-se numa pequena divisão quadrada nas traseiras de casa, perto de uma janela que dava para o quintal. Havia um vaso com uma planta a um canto e, no outro, uma mesa desdobrável onde os alunos podiam escrever nas pautas. Durante as lições, ela ficava sentada de costas muito direitas numa poltrona de estofo preto, a marcar o ritmo com um dedo e com a cabeça inclinada para o lado, muito atenta a todos os erros. Se eu tinha medo da Robbie? Não propriamente, mas havia algo de assustador nela; ela representava um tipo de autoridade severa com que eu ainda não me deparara noutro lugar. Ela reclamava excelência a todas as crianças que se sentavam ao seu piano. Eu via-a como alguém que tinha de convencer, ou talvez de alguma forma conquistar. Com ela, parecia sempre que havia algo a provar.

Na primeira lição, as minhas pernas baloiçavam-se da banqueta de piano, demasiado curtas para chegarem ao chão. A Robbie deu-me um livro de exercícios para iniciados só para mim, o que me deixou extasiada, e mostrou-me como posicionar devidamente as mãos sobre o teclado.

— Muito bem, presta atenção — disse ela, a ralhar comigo antes sequer de termos começado. — Encontra o Dó médio.

Para uma criança, um piano pode parecer ter mil teclas. Está-se diante de uma imensidão de preto e branco que se estende para lá do que dois braços pequenos conseguem alcançar. O Dó médio, depressa aprendi, é a âncora. Constitui a fronteira que separa as teclas por onde a mão direita e a mão esquerda viajam, entre a clave de Sol e a clave de Fá. Pondo o polegar no Dó médio, tudo o resto vai automaticamente ao lugar. As teclas do piano da Robbie apresentavam diferenças subtis na cor e na forma, partes onde pequenos pedaços de marfim tinham estalado com o tempo, fazendo lembrar uma má dentição. Nem de propósito, faltava um canto na tecla do Dó médio e aquela falha, que era mais ou menos do tamanho de uma unha das minhas, ajudava-me sempre a situar-me.

Veio a verificar-se que eu gostava de tocar piano. Sentar-me ao piano era-me natural, como se fosse algo que estava destinada a fazer. Na minha família não faltavam músicos e amantes de música, em particular no lado materno. Havia um tio que tocara numa banda profissional. Várias tias que cantavam em coros de igrejas. Havia a Robbie, que, além do coro e das aulas, dirigia uma coisa chamada Oficina de Operetas, um programa de teatro musical infantil de orçamento muito limitado, que eu e o Craig frequentávamos nas manhãs de sábado na cave da sua igreja. O epicentro musical da família, porém, era o meu avô Shields, o carpinteiro, que era o irmão mais novo da Robbie. Tratava-se de um homem barrigudo permanentemente descontraído com um riso contagiante e uma barba grisalha desalinhada. Quando eu era mais pequena, ele vivia no West Side, e eu e o Craig costumávamos tratá-lo por Westside, mas ele tinha-se mudado para o nosso bairro no ano em que comecei a ter aulas de piano, pelo que tivéramos de o rebaptizar de Southside.

O Southside separara-se da minha avó umas décadas antes, era a minha mãe adolescente. Ele vivia com a minha tia Carolynn, a irmã mais velha da minha mãe, e o meu tio Steve, o irmão mais novo, a apenas dois quarteirões de distância, numa casa acolhedora de um só piso onde ele tinha passado cablagem de alto a baixo para se poder ouvir música, dispondo colunas em todas as divisões, incluindo na casa de banho. Na sala de jantar, construíra um intricado sistema de arrumação para comportar o seu equipamento de som, grande parte do qual adquirira em vendas de garagem aqui e ali. Tinha dois gira-discos desirmanados e um leitor de bobinas raquítico e prateleiras a transbordar de discos que fora coleccionando no decurso de muitos anos.

Havia muita coisa neste mundo em que o Southside não confiava. Podia dizer-se que ele era um típico teórico da conspiração já entrado na idade. Não confiava em dentistas, o que o fizera perder quase todos os dentes. Não confiava na polícia, e também nem sempre confiava em brancos, ele que era neto de um escravo do estado da Geórgia e passara a primeira infância no Alabama do tempo das leis de segregação de Jim Crow, antes de ter rumado ao Norte, para Chicago, nos anos 20. Quando tivera filhos, não se poupara a esforços para os manter a salvo — contando-lhes histórias reais e imaginárias sobre o que podia acontecer a crianças negras que punham o pé no bairro errado, para os assustar, e dando-lhes sermões sobre evitarem encontros com a polícia.

A música parecia ser um antídoto para as suas preocupações, uma forma de as expulsar de dentro da sua cabeça e descontrair. Quando o Southside recebia um pagamento pelo seu trabalho como carpinteiro, às vezes perdia a cabeça e comprava um novo disco para si próprio. Organizava regularmente festas para a família, obrigando toda a gente a falar alto para se fazer ouvir acima do que quer que ele tivesse posto a tocar, porque a música predominava sempre. Celebrávamos a maioria dos grandes acontecimentos da vida na casa do Southside, o que significa que ao longo dos anos desembrulhámos os presentes de Natal ao som de Ella Fitzgerald e soprámos as velas do bolo de aniversário a escutar Coltrane. Segundo a minha mãe, quando era mais novo, o Southside fizera questão de encher os sete filhos de jazz, frequentemente acordando toda a gente ao nascer do dia quando punha um dos seus discos a tocar alto e bom som.

A sua paixão pela música era contagiosa. A partir do momento em que o Southside se mudou para o nosso bairro, comecei a passar tardes inteiras em sua casa, tirando discos ao calhas das prateleiras para os meter na aparelhagem, cada um uma nova aventura imersiva. Embora eu fosse uma criança, ele não impunha restrições quanto àquilo em que podia mexer. Mais tarde, comprar-me-ia o meu primeiro álbum, Talking Book, do Stevie Wonder, o qual eu deixava estar em sua casa, numa prateleira especial que ele destinara aos meus discos predilectos. Quando eu tinha fome, preparava-me um batido ou fritava uma galinha inteira para nós comermos enquanto escutávamos Aretha ou Miles ou Billie. Para mim, o Southside era tão grande quanto o céu. E o céu, conforme eu o imaginava, só podia ser um lugar cheio de jazz.

Em casa, continuei a trabalhar na minha própria evolução enquanto pianista. Sentada diante do piano vertical da Robbie, não demorei a aprender as escalas — o tal fenómeno de osmose era real — e dediquei-me a preencher as pautas com exercícios de leitura à primeira vista que ela me forneceu. Dado que não possuíamos um piano, tinha de praticar no dela no andar de baixo, aguardando até que ninguém estivesse a ter uma lição e muitas vezes arrastando a minha mãe comigo, para que ficasse sentada na poltrona a ouvir-me tocar. Aprendi uma música no livro de piano e depois outra. É provável que fosse como todos os seus outros alunos, igualmente trapalhona, mas não me faltava determinação. Para mim, havia magia na aprendizagem. Retirava daí uma espécie de satisfação embriagante. Para começar, tinha percebido que existia uma simples e motivadora correlação entre o quanto praticava e o quanto alcançava. E pressentia também algo na Robbie: demasiado reprimido para se poder considerar um prazer indiscutível, mas, ainda assim, um matiz de uma maior leveza e felicidade quando eu chegava ao fim de uma música sem me enganar, quando a minha mão direita extraía uma melodia enquanto a esquerda pousava num acorde. Apercebia-me disso pelo canto do olho: os lábios da Robbie ficavam ligeiramente menos comprimidos, o dedo com que ela marcava o ritmo ganhava um pouco mais de energia.

Esta revelar-se-ia como a nossa fase de lua-de-mel. É possível que assim tivesse continuado a ser entre nós as duas se eu tivesse sido menos curiosa e mais reverente quanto ao seu método de ensino. Mas o caderno de partituras era tão volumoso e o meu progresso nas poucas músicas iniciais tão lento que fiquei impaciente e comecei a espreitar o que vinha a seguir — e não apenas algumas páginas para diante, mas bem lá mais para o meio do caderno, investigando os títulos das músicas de nível avançado e começando a tentar tocá-las durante as minhas sessões de treino. Quando, orgulhosamente, me estreei a tocar uma das minhas músicas do final do livro para a Robbie, ela explodiu, desprezando a minha conquista com um cruel «boa noite!». Fui admoestada tal como a ouvira admoestar tantos alunos no passado. Não fizera mais que tentar aprender mais e mais depressa, mas a Robbie considerou-o um crime que roçava a traição. Não ficou impressionada, nem um bocadinho.

Mas eu também não me senti repreendida. Era o tipo de criança que gostava de obter respostas concretas às minhas perguntas, que gostava de debater as coisas até chegar a uma conclusão lógica, por muito cansativo que isso fosse. Fazia lembrar uma advogada e também tendia um pouco para ditadora, algo que o meu irmão, que se via amiúde expulso da nossa área de brincadeiras comum, podia atestar. Quando eu achava que tinha uma boa ideia sobre algo, não gostava de ouvir um «não» como resposta. E foi assim que eu e a minha tia-avó acabámos por nos envolver numa discussão acesa, ambas de cabeça quente e sem dar mostras de ceder.

— Como se pode zangar comigo por querer aprender uma música nova?

— Não estás preparada para ela. Não é assim que se aprende a tocar piano.

— Mas eu estou preparada. Acabei de a tocar.

— Não é assim que se faz.

— Mas porquê?

As lições de piano tornaram-se difíceis e épicas, muito graças à minha recusa em seguir o método prescrito e à recusa da Robbie em ver algo de bom na minha abordagem «sem rodinhas» ao seu caderno de partituras. Não saíamos disto, semana após semana, segundo aquilo de que me lembro. Eu era teimosa, e ela também o era. Eu tinha o meu ponto de vista, e ela tinha o dela. No intervalo das discussões, eu continuava a tocar piano e ela continuava a escutar-me, fazendo uma torrente de correcções. Eu não lhe dava muito crédito pela minha progressão. Ela não me dava muito crédito por ir progredindo. Ainda assim, as aulas continuaram.

No andar de cima, os meus pais e o Craig achavam muita graça à situação. Riam-se a bandeiras despregadas quando ao jantar lhes contava as minhas quezílias com a Robbie, ainda a espumar de raiva enquanto comia o meu prato de almôndegas com esparguete. O Craig, por sua vez, não tinha qualquer problema com a Robbie, sendo um miúdo bem-disposto e um aluno cumpridor de regras e relativamente pouco interessado. Os meus pais não expressavam qualquer simpatia nem pelos meus queixumes nem pelos da Robbie. Não eram, de modo geral, pessoas que interviessem em assuntos que não dissessem respeito à nossa escolaridade, assumindo desde cedo que eu e o meu irmão devíamos resolver os nossos próprios problemas. Pareciam achar que o seu papel era sobretudo o de nos ouvir e encorajar, conforme fosse necessário, entre as quatro paredes de nossa casa. E, se outros pais poderiam ter chamado o filho à atenção pela sua irreverência perante uma pessoa mais velha, como era o caso, os meus deixavam-me ficar impune. A minha mãe vivera intermitentemente com a Robbie desde que tinha uns 16 anos, obedecendo a todas as regras arcanas que a senhora impunha, e é possível que por dentro ficasse feliz por ver a autoridade da Robbie desafiada. Quando olho para trás, penso que os meus pais apreciavam o meu espírito combativo e sinto-me grata por isso. Tratava-se de uma chama dentro de mim que eles queriam manter acesa.

A Robbie organizava um elaborado recital anual para que os seus alunos pudessem actuar ao vivo perante uma plateia. Ainda hoje não sei como ela o conseguia, mas o certo é que tinha acesso a uma sala de ensaios na Universidade Roosevelt, na Baixa, decorrendo os seus recitais num majestoso edifício em pedra na avenida Michigan, muito perto de onde a Orquestra Sinfónica de Chicago tocava. Bastava-me pensar em lá ir para ficar nervosa. O nosso apartamento na Euclid ficava pouco mais de 14 quilómetros a sul do Loop, o centro de Chicago, o qual, com os seus arranha-céus resplandecentes e passeios apinhados, não me parecia deste mundo. A minha família fazia incursões ao centro da cidade apenas um punhado de vezes por ano, para visitar o Instituto de Artes ou assistir a uma peça de teatro, viajando os quatro como astronautas na cápsula que era o Buick do meu pai.

O meu pai adorava qualquer desculpa para conduzir. Tinha uma devoção pelo seu carro, um Buick Electra 225 bronze de duas portas, a que se referia com orgulho como Deuce and a Quarter[2]. Mantinha-o polido e encerado e cumpria religiosamente um calendário de manutenção, levando-o à Sears para trocar os pneus e fazer a mudança do óleo da mesma maneira que a minha mãe nos levava a nós ao pediatra para fazer um check-up. Nós também adorávamos o Deuce and a Quarter. Tinha umas linhas suaves e umas luzes traseiras estreitas que lhe davam um ar porreiro e futurístico. Era suficientemente espaçoso para parecer uma casa. Eu quase conseguia ficar de pé no seu interior, passando as mãos pelo forro do tejadilho. Naquela época, o uso de cinto de segurança era opcional, pelo que na maior parte do tempo eu e o Craig não parávamos quietos na parte de trás, debruçando-nos no banco da frente quando queríamos falar com os nossos pais. Eu passava metade do tempo pendurada no encosto de cabeça com o queixo espetado de maneira que a minha cara ficasse ao lado da do meu pai e pudéssemos ter exactamente a mesma vista.

O carro proporcionava à minha família mais uma forma de proximidade, uma oportunidade para conversarmos e viajarmos em simultâneo. Às vezes, ao serão, depois do jantar, eu e o Craig implorávamos ao nosso pai que nos levasse a dar uma volta de carro sem nenhum destino específico. Em jeito de agrado especial nas noites de Verão, íamos até ao drive-in que ficava a sudoeste do nosso bairro para assistir aos filmes da série «Planeta dos Macacos». Estacionávamos o Buick ao pôr-do-sol e instalávamo-nos confortavelmente para a sessão, a minha mãe distribuindo entre todos o frango frito e as batatas fritas que trouxera de casa para o nosso jantar, que eu e o Craig comíamos no colo no banco de trás, tendo o cuidado de limpar as mãos aos respectivos guardanapos e não ao assento.

Passar-se-iam anos até eu realmente compreender o que conduzir significava para o meu pai. Em criança, podia apenas intuí-lo: a liberdade que ele sentia ao volante, o prazer que ele retirava de ter a reverberar sob ele um motor a trabalhar na perfeição e quatro pneus impecavelmente calibrados. Encontrava-se na casa dos trinta quando um médico o informara de que a fraqueza ocasional que começara a sentir numa das pernas era apenas o início de um longo e quiçá doloroso declínio até à imobilização e que as probabilidades eram de que, um dia, devido a uma misteriosa lesão nas bainhas das células nervosas do cérebro e da medula espinal, daria por si totalmente incapaz de dar um passo sequer. Não tenho a certeza das datas, mas ao que parece o Buick entrou na vida do meu pai mais ou menos na mesma altura que a esclerose múltipla. E, embora ele nunca o tenha dito, de certeza que o carro lhe trouxe algum tipo de alívio secundário.

O diagnóstico não era algo que deixasse ele ou a minha mãe a cismar. Estávamos a décadas de distância da era em que uma simples pesquisa no Google traz à tona uma estonteante quantidade de tabelas, estatísticas e explicações médicas que ou dão esperança ou a deitam por terra. Seja como for, duvido que ele tivesse querido ver tudo isso. Apesar de ter sido criado no seio da religião, não teria rezado a Deus pedindo para ser poupado. Não teria pesquisado tratamentos alternativos ou procurado um guru ou apontado o dedo a algum gene defeituoso. Na minha família, temos um hábito que já vem de trás de bloquearmos as más notícias, de nos tentarmos esquecer delas quase no mesmo momento em que as recebemos. Ninguém sabia há quanto tempo o meu pai se andava a sentir mal antes de ele próprio ter ido consultar um médico, mas o meu palpite é que já se teriam passado meses, se não mesmo anos. Ele não gostava de consultas médicas. Não estava interessado em queixar-se. Era o tipo de pessoa que aceitava o que surgia e se limitava a seguir em frente.

O que sei é que no dia do meu grande recital de piano ele já coxeava ligeiramente, o pé esquerdo incapaz de acompanhar o direito. Todas as minhas memórias do meu pai incluem alguma manifestação da sua deficiência, embora ainda nenhum de nós tivesse propriamente vontade de empregar esse termo para a descrever. Na altura, eu apenas sabia que o meu pai se deslocava um pouco mais lentamente do que os outros pais. Às vezes, via-o hesitar antes de subir um lanço de escadas, como se precisasse de rever mentalmente a manobra antes de tentar pô-la realmente em prática. Quando íamos às compras ao centro comercial, instalava-se num banco, de bom grado vigiando os sacos ou aproveitando para dormitar enquanto o resto da família deambulava livremente.

No trajecto de carro até ao meu recital de piano na Baixa, eu seguia no banco de trás do Buick num vestido bonito e sapatos em pele com brilho, com o cabelo apanhado dos dois lados, a sentir suores frios pela primeira vez na vida. Estava ansiosa com a minha prestação, embora em casa, no apartamento da Robbie, tivesse praticado a minha música praticamente até à exaustão. Também o Craig vestia um fato, preparado para tocar a sua própria música. Mas essa perspectiva não o incomodava. Aliás, ele ia a dormir no banco de trás, completamente ferrado, de boca aberta, com uma expressão feliz e despreocupada. Assim era o Craig. Eu passara toda a minha vida a admirá-lo pelo seu à-vontade. Naqueles tempos já ele jogava numa liga de minibasquetebol com jogos todos os fins-de-semana e aparentemente aprendera a controlar o nervosismo nas actuações em público.

O meu pai costumava escolher um parque de estacionamento o mais perto possível do nosso destino, despendendo mais dinheiro para minimizar a distância que teria de caminhar nas suas pernas instáveis. Naquele dia, não tivemos dificuldades em encontrar a Universidade Roosevelt e dirigimo-nos para aquele que nos pareceu um enorme salão com eco, onde o recital se iria realizar. Uma vez lá dentro, senti-me minúscula. A divisão tinha umas janelas elegantes de alto a baixo através das quais eram visíveis os amplos relvados do Parque Grant e, mais à distância, a espuma branca das ondas do lago Michigan. As cadeiras de metal cinzentas estavam dispostas em filas ordenadas, sendo aos poucos ocupadas por crianças nervosas e pelos pais expectantes. E, lá à frente, em cima do palco, encontravam-se os dois primeiros pianos de um quarto de cauda que vi na vida, as suas gigantescas tampas de madeira abertas como as asas pretas de um pássaro. Também lá estava a Robbie, num vestido com padrão floral, atarefada de um lado para o outro, como se fosse a bela do baile — se bem que uma bela mais para o matrona —, garantindo que todos os seus alunos haviam chegado munidos das pautas. Quando chegou a hora de o espectáculo começar, mandou fazer silêncio na sala.

Não me recordo de quem tocou antes de quem naquele dia. Só sei que, chegada a minha vez, me levantei do lugar e me dirigi para a parte da frente da sala caminhando com a melhor postura de que era capaz. Subi as escadas e instalei-me diante de um dos resplandecentes pianos de um quarto de cauda. A verdade é que estava preparada. Por muito que achasse a Robbie ríspida e inflexível, também tinha interiorizado a sua devoção pelo rigor. Conhecia tão bem a minha música que quase nem precisava de pensar nela. Bastava-me começar a mexer as mãos.

E, contudo, havia um problema, um problema de que me apercebi no milésimo de segundo que demorei a levar os meus pequenos dedos até às teclas. Estava sentada diante de um piano perfeito, de facto, de superfícies cuidadosamente limpas, cordas afinadas com precisão e 88 teclas dispostas numa impecável tira de preto e branco. A questão é que não estava habituada à perfeição. Na verdade, ao longo da vida nunca me deparara com ela. A minha experiência ao piano resumia-se inteiramente à acanhada sala de música da Robbie, com o vaso com uma planta desmazelada e a vista para o nosso modesto quintal. O único instrumento em que alguma vez tocara fora o seu piano vertical, que era tudo menos perfeito, com o seu mosaico de teclas amareladas e desafinadas e o seu Dó médio oportunamente sem um dos cantos da tecla. Para mim, era isso que um piano era — da mesma maneira que o meu bairro era o meu bairro, o meu pai era o meu pai, a minha vida era a minha vida. Não conhecia outra coisa.

Agora, de repente, estava consciente das pessoas que me observavam dos seus lugares enquanto eu não tirava os olhos das teclas brilhantes do piano, a encontrar lá apenas mesmice. Não fazia ideia de onde posicionar as mãos. Com um nó na garganta e o coração a palpitar, olhei para a plateia, tentando não mostrar o meu pânico, à procura de encontrar refúgio no rosto da minha mãe. Ao invés, vi uma figura erguer-se na primeira fila e levitar lentamente na minha direcção. Era a Robbie. Por esta altura já nos tínhamos digladiado bastante, ao ponto de a considerar um pouco como uma inimiga. Mas ali naquele meu momento de mortificação, ela aproximou-se de mim por sobre o meu ombro, quase como um anjo. Talvez compreendesse o meu choque. Talvez soubesse que as disparidades do mundo tinham acabado de se revelar subtilmente a mim, pela primeira vez. É possível que apenas tivesse querido agilizar o andamento do espectáculo. Qualquer que tenha sido a sua motivação, a Robbie pousou suavemente um dedo no Dó médio, sem dizer uma palavra, para que eu soubesse onde começar. Então, regressando ao seu lugar com um minúsculo sorriso de encorajamento, deixou-me a executar a minha música.

2

Entrei para a pré-primária na Escola Primária Bryn Mawr no Outono de 1969, beneficiando desde o primeiro dia da dupla vantagem de já saber ler palavras básicas e de ser precedida por um irmão popular a frequentar a segunda classe. A escola, um edifício em tijolo com quatro andares e um pátio na parte da frente, ficava a apenas dois quarteirões de nossa casa. O percurso fazia-se em dois minutos a andar ou, se fosse feito à moda do Craig, um minuto a correr.

Gostei de imediato de andar na escola. Gostava da minha professora, uma mulher branca de pequena estatura chamada senhora Burroughs, que a mim me parecia idosa, mas que provavelmente tinha cinquenta e tal anos. A sala dela tinha umas grandes janelas por onde entrava o sol, uma colecção de bonecos bebés com os quais podíamos brincar e nas traseiras uma enorme casa feita de cartolina. Fiz amigos na minha turma, atraída para as crianças que, como eu, pareciam entusiasmadas por ali estar. Sentia-me confiante nas minhas capacidades de leitura. Em casa, tinha percorrido os livros da colecção «Dick and Jane», graças ao cartão de leitor da biblioteca que a minha mãe possuía, e por isso fiquei extasiada quando soube que a nossa primeira tarefa seria aprender a ler à vista novos conjuntos de palavras. Recebemos uma lista de cores para estudarmos, não a imagem, mas as palavras correspondentes — «vermelho», «azul», «verde», «preto», «laranja», «roxo», «branco». Na aula, a senhora Burroughs questionava um aluno de cada vez, erguendo umas cartolinas e pedindo para ler a palavra que se encontrasse escrita na parte da frente, em letras pretas. Observei certo dia as meninas e os meninos que tinha acabado de conhecer a levantarem-se à vez e a progredirem ao longo dos cartões com as cores, com diferentes graus de êxito, sendo instruídos a voltarem a sentar-se assim que ficavam perplexos. Devia ser uma espécie de jogo, suponho, da mesma forma que um concurso de soletração o é, mas dava para perceber que tinha lugar uma triagem subtil e notava-se um desânimo consciente, fruto da humilhação, nas crianças que não passavam do «vermelho». Obviamente, estávamos em 1969, numa escola pública no South Side, em Chicago — ninguém falava em amor-próprio ou atitude mental com o êxito. Se se viesse bem preparado de casa, colhiam-se os benefícios na escola, sendo-se considerado «inteligente» ou «dotado», o que, por sua vez, só reforçava a autoconfiança. As vantagens consolidavam-se rapidamente. As duas crianças mais espertas da minha turma do pré-escolar eram o Teddy, um rapaz americano de ascendência coreana, e a Chiaka, uma menina afro-americana, os quais continuariam a ocupar o topo da lista durante anos e anos.

Estava determinada a acompanhá-los. Quando chegou a minha vez de ler as palavras dos cartões da professora, ergui-me e dei o meu melhor, pronunciando «vermelho», «verde» e «azul» sem esforço. «Roxo» já me obrigou a pensar duas vezes, e «laranja» foi difícil. Mas foi quando as letras b-r-a-n-c-o surgiram que eu petrifiquei — a garganta instantaneamente seca, a boca hesitante e incapaz de articular o som correspondente, o meu cérebro a dar em doido de tão encravado que estava, a tentar descobrir a cor que se parecia com «be-rããã». Um bloqueio total. Senti uma estranha fraqueza nos joelhos, como se pudessem dar de si. Mas, antes de isso acontecer, a senhora Burroughs mandou-me voltar a sentar-me. E foi precisamente nesse momento que a palavra me ocorreu na sua total e fácil perfeição. Branco. Braaanco. A palavra era «branco».

Naquela noite, deitada na cama com os meus peluches amontoados à volta da cabeça, só conseguia pensar em «branco». Soletrava a palavra mentalmente, para trás e para a frente, recriminando-me pela minha própria estupidez. O constrangimento parecia-me um peso, como se fosse algo de que nunca me conseguiria ver livre, apesar de saber que os meus pais não se preocupavam com o facto de eu ter lido ou não todos os cartões correctamente. Eu só queria ter êxito. Ou talvez não quisesse ser considerada incapaz de ter êxito. Tinha a certeza de que agora a minha professora me rotulara como alguém que não sabia ler ou, pior, que nem tentava. Estava obcecada pelas estrelas douradas do tamanho de moedas e feitas de papel metalizado que a senhora Burroughs tinha dado ao Teddy e à Chiaka para usarem ao peito naquele dia como uma insígnia do seu êxito, ou talvez um sinal de que estavam destinados à grandeza, ao contrário dos restantes. Afinal de contas, ambos tinham lido todas as cores dos cartões sem qualquer dificuldade.

De volta à sala de aula na manhã seguinte, pedi uma oportunidade de repetir.

Quando a senhora Burroughs ma negou, acrescentando com boa disposição que nós, crianças, tínhamos outras coisas em que nos concentrarmos, eu exigia-a.

Coitadas das crianças que então tiveram de me ver enfrentar de novo os cartões com as cores, com mais calma dessa vez, deliberadamente parando para respirar depois de proferir cada palavra, recusando-me a deixar que o nervosismo fizesse o meu cérebro entrar em curto-circuito. E resultou, tanto com «preto» como com «laranja» e «roxo», e em particular «branco». Já estava praticamente a gritar a palavra «branco» antes de sequer ver as letras no cartão. Gosto de imaginar hoje em dia que a senhora Burroughs ficou impressionada com aquela pequena menina negra que encontrou coragem para se fazer valer a si própria. Não sabia se o Teddy e a Chiaka tinham reparado sequer. Não tardei a reclamar o meu troféu, todavia, regressando a casa naquela tarde de cabeça erguida e uma daquelas estrelas douradas colada à camisa.

Em casa, vivia num mundo cheio de dramas e de intrigas, perdendo-me na novela em constante evolução que era a vida das minhas bonecas. Havia nascimentos, rixas, traições. Havia esperança, ódio e ocasionalmente sexo. O meu entretém preferido entre a escola e a hora do jantar era instalar-me na área comum à porta do meu quarto e do do Craig e espalhar as minhas Barbies pelo chão, inventando cenários que me pareciam tão reais quanto a minha própria vida, incluindo por vezes as figuras de acção do GI Joe do Craig nos enredos. Guardava as roupas das minhas bonecas numa mala de viagem de tamanho de criança em vinil com um padrão floral. Atribuía uma personalidade a cada Barbie e GI Joe. Empregava também os já muito gastos cubos de madeira com letras nas faces que a nossa mãe usara anos antes para nos ensinar o alfabeto. Também aos cubos era atribuído um nome e uma vida interior.

Era raro optar por juntar-me às crianças da vizinhança que brincavam na rua depois das aulas, e também não convidava colegas da escola para irem lá a casa, em p ...