Loading...

BECOMING

Michelle Obama  

0


Excerto

Prefácio

Março de 2017

Quando era pequena, tinha aspirações simples. Queria ter um cão. Queria uma casa onde houvesse uma escada — dois andares para uma só família. E, sabe-se lá porquê, queria uma carrinha de quatro portas em vez do Buick de duas portas que era a menina dos olhos do meu pai. Costumava dizer a toda a gente que quando crescesse seria pediatra. Porquê? Porque adorava estar rodeada de crianças pequenas e depressa percebi que era uma resposta que agradava aos adultos. Oh, Medicina! Que bela escolha! Naquela época, eu usava o cabelo apanhado dos dois lados, mandava no meu irmão mais velho e conseguia, sempre e em qualquer circunstância, ter a nota máxima na escola. Era ambiciosa, embora não soubesse exactamente o que me propunha atingir. Hoje em dia considero que se trata de uma das perguntas mais inúteis que um adulto pode fazer a uma criança: «O que queres ser quando fores grande?» Como se crescer fosse finito. Como se a dada altura nos tornássemos algo, e isso fosse o fim da conversa.

Até agora, já fui advogada. Já fui vice-presidente de um hospital e directora de uma organização sem fins lucrativos que ajuda jovens a construírem carreiras que fazem a diferença. Já fui uma estudante negra de classe operária numa universidade chique com uma comunidade estudantil maioritariamente branca. Já fui a única mulher, a única afro-americana, em toda a espécie de sítios. Já fui a noiva, a ansiosa mãe de primeira viagem, a filha de coração despedaçado perante a dor da perda. E, até recentemente, fui a primeira-dama dos Estados Unidos da América — título que não é oficialmente um cargo, mas que, ainda assim, me proporcionou uma plataforma como nenhuma outra que alguma vez pudesse ter imaginado. Apresentou-me desafios e tornou-me mais humilde, levou-me aos píncaros e fez-me sentir minúscula, por vezes tudo isto ao mesmo tempo. Estou apenas a começar a processar o que aconteceu ao longo dos últimos anos — do momento, em 2006, em que o meu marido começou a falar sobre candidatar-se à Presidência à fria manhã neste Inverno em que entrei numa limusina com a Melania Trump para a acompanhar até à cerimónia de tomada de posse do marido. Tem sido uma viagem e tanto!

Quando se é a primeira-dama, a América revela-se-nos nos seus extremos. Já compareci a acções de angariação de fundos em casas particulares que mais parecem museus de arte, casas onde as banheiras são feitas de pedras preciosas. Já visitei famílias que perderam tudo devido ao furacão Katrina e encontrei-as em lágrimas e gratas simplesmente por terem um frigorífico e um fogão que funcionam. Já me deparei com pessoas que considerei fúteis e hipócritas e com outras — professores, cônjuges de oficiais das Forças Armadas e tantas mais — cujo carácter é tão forte e profundo que é impressionante. E já conheci crianças — muitas mesmo, por todo o mundo — que me fizeram rir a bandeiras despregadas e me encheram de esperança e que, abençoadamente, conseguem esquecer-se do meu título mal começamos a remexer a terra de um jardim.

Desde que, relutantemente, entrei na vida pública, já fui elevada à categoria de mulher mais poderosa do mundo e deitada abaixo como uma «mulher negra em fúria». Já me apeteceu perguntar aos meus detractores que parte nessa expressão é mais importante para eles: será «em fúria» ou «negra» ou «mulher»? Já posei com um sorriso para as câmaras fotográficas ao lado de indivíduos que proferem insultos terríveis contra o meu marido na televisão pública, mas depois querem ficar com uma recordação emoldurada para pôr em cima da lareira. Já ouvi falar de páginas pantanosas na Internet que põem em causa tudo sobre mim, até se serei uma mulher ou um homem. Um congressista ainda em funções troçou do meu traseiro. Já fiquei magoada. Já me senti furiosa. Mas, na maioria das vezes, o que tentei fazer foi encarar tudo isto com humor.

Ainda há muita coisa que desconheço sobre a América, sobre a vida, sobre o que o futuro poderá trazer. Mas conheço-me a mim. O meu pai, Fraser, ensinou-me a trabalhar arduamente, a rir muito e a honrar a minha palavra. A minha mãe, Marian, encorajou-me a pensar pela própria cabeça e a usar a minha voz. Juntos, no nosso pequeno apartamento no South Side, em Chicago[1], ajudaram-me a reconhecer o valor da nossa história, da minha história, da história do nosso país num sentido mais lato. Mesmo quando não é bonita ou perfeita. Mesmo quando é mais real do que gostaríamos que fosse. A nossa história é o que temos, o que teremos sempre. É algo que devemos assumir como nosso.

Durante oito anos vivi na Casa Branca, um lugar que tem escadas até se perder a conta — além de elevadores, uma pista de bólingue e uma florista própria. Dormia numa cama com lençóis feitos em Itália. As nossas refeições eram confeccionadas por uma equipa composta por chefs de renome mundial e servidas por profissionais mais bem treinados do que os funcionários de qualquer restaurante ou hotel de cinco estrelas. À nossa porta, fazendo o possível para não perturbar a nossa vida familiar, tínhamos agentes dos serviços secretos, com os seus auriculares e armas de fogo e expressões faciais propositadamente neutras. Acabámos por nos habituar, mais ou menos, a tudo isso — à estranha grandiosidade da nossa nova casa e também à constante e silenciosa presença de outras pessoas.

A Casa Branca é o lugar onde as nossas duas filhas jogaram à bola, nos corredores, e treparam às árvores no relvado sul. É o lugar onde o Barack passou noites em claro a trabalhar, analisando relatórios e revendo as primeiras versões de discursos na Sala do Tratado, e onde o Sunny, um dos nossos cães, ocasionalmente defecou em cima da carpete. Podia ir à Varanda Truman e observar os turistas a posarem para a fotografia munidos dos seus bastões de selfies e a espreitarem pelo gradeamento, tentando adivinhar o que se passava no interior. Houve dias em que me senti sufocada por as nossas janelas terem de permanecer fechadas por motivos de segurança, por não poder apanhar um pouco de ar puro sem que isso gerasse confusão. Houve outras alturas em que me senti maravilhada pelas magnólias em flor lá fora, pela azáfama diária da governação propriamente dita, pela magnificência de uma recepção militar. Houve dias, semanas e meses em que odiei o mundo da política. E houve momentos em que a beleza deste país e do seu povo me comoveu a ponto de ficar sem palavras.

Depois acabou. Ainda que saibamos que vai acontecer, ainda que as derradeiras semanas sejam preenchidas por despedidas emotivas, o dia em si não deixa de ser algo turvo. Uma mão pousa na Bíblia, repete-se um juramento. O mobiliário de um presidente é levado enquanto o do outro é transportado para o interior. Os armários são esvaziados e voltam a ficar cheios numa questão de horas. Num abrir e fechar de olhos, há novas cabeças a repousar sobre novas almofadas — novas personalidades, novos sonhos. E, quando tudo termina, quando transpomos pela última vez a porta da casa mais famosa do mundo, em muitos aspectos damos por nós a precisar de nos redescobrirmos.

Por isso, permitam-me que este seja o meu ponto de partida, um pequeno episódio que se deu há relativamente pouco tempo. Eu estava em casa, na moradia toda em tijolo para a qual a minha família se mudou recentemente. Esta nossa nova residência fica a uns três quilómetros da anterior, num bairro sossegado. Ainda nos estamos a instalar. Na sala, a nossa mobília encontra-se disposta conforme estava na Casa Branca. Temos pequenas lembranças espalhadas pela casa que não nos deixam esquecer de que o que vivemos foi real: fotografias de momentos em família em Camp David, vasos feitos à mão que me foram oferecidos por estudantes nativo-americanos, um livro autografado por Nelson Mandela. O que tornava aquela noite estranha era não estar mais ninguém presente. O Barack estava em viagem. A Sasha tinha saído com uns amigos. A Malia tem estado a viver e a trabalhar em Nova Iorque, na recta final do seu ano sabático antes de entrar na faculdade. Era só eu, os nossos dois cães, e uma casa vazia e silenciosa como já há oito anos eu não sabia o que isso era.

E tinha fome. Saí do quarto e desci as escadas com os cães no meu encalce. Chegada à cozinha, abri o frigorífico. Encontrei o pão, servi-me de duas fatias e pu-las na torradeira. Abri um armário e tirei um prato. Eu sei que soa estranho dizer isto, mas tirar um prato de um armário de cozinha sem antes alguém insistir em fazê-lo por mim e estar ali sozinha a ver o pão a torrar é o mais perto que já estive de um regresso à minha antiga vida. Ou talvez seja a minha nova vida a começar a fazer-se anunciar.

Acabei por não me ficar pelas torradas: preparei uma tosta de queijo, passando as minhas fatias de pão para o microondas para derreter o cheddar, bem gordo e pegajoso, que pus entre elas. Peguei então no prato e levei-o para o quintal. Não tinha de avisar ninguém de que ia. Limitei-me a ir. Estava descalça, de calções. O frio do Inverno finalmente acalmara. Nas floreiras ao longo da parede das traseiras, o açafrão tinha mesmo acabado de começar a brotar. O ar cheirava a Primavera. Sentei-me nos degraus do nosso alpendre, sentindo as lajes sob os meus pés ainda quentes do sol daquele dia. Um cão desatou a ladrar algures à distância, e os meus cães puseram-se à escuta, parecendo momentaneamente confusos. Ocorreu-me que se tratava de um som insólito para eles, tendo em conta que na Casa Branca não tínhamos vizinhos, muito menos cães de vizinhos. Para eles, tudo aquilo era uma novidade. Os cães partiram para ir explorar o perímetro, e comi a minha tosta no escuro, sentindo-me sozinha no melhor dos sentidos. Nos meus pensamentos não estava o grupo de seguranças armados a menos de 90 metros no posto de comando que fora instalado na nossa garagem, ou o facto de que continuo a não poder andar pelas ruas sem um destacamento de segurança. Não estava a pensar no novo presidente, nem sequer no antigo, para ser sincera.

Estava a pensar em como, dali a uns minutos, voltaria para dentro de casa, lavaria o prato no lava-louça e subiria até ao quarto para me deitar, abrindo talvez uma janela para poder sentir o ar da Primavera — o quão maravilhoso isso seria. Estava também a pensar que a tranquilidade me proporcionava uma verdadeira primeira oportunidade de reflectir. Enquanto primeira-dama, acontecia terminar uma semana atarefada e precisar que me relembrassem de como a mesma começara. Mas o tempo começa a parecer diferente. As minhas filhas, que chegaram à Casa Branca com as suas bonecas Polly Pockets, um cobertor chamado Blankie e um tigre de peluche, de nome Tiger, são hoje adolescentes, jovens com os seus planos e com vozes próprias. O meu marido está ele próprio a adaptar-se à vida pós-Casa Branca, a recuperar o fôlego. E eis-me aqui, neste lugar novo, a querer dizer tantas coisas.

Eu

1

Passei grande parte da minha infância a escutar o som do empenho, sob a forma da música de má qualidade, ou pelo menos amadora, que me chegava através do soalho do chão do meu quarto — o plinc plinc plinc dos alunos sentados ao piano da minha tia-avó Robbie no piso de baixo, aprendendo, lentamente e sem perfeição, a tocar escalas. A minha família vivia no bairro South Shore, em Chicago, numa irrepreensível moradia em tijolo que pertencia à Robbie e ao marido, o Terry. Os meus pais arrendavam um apartamento no segundo andar, e a Robbie e o Terry viviam no primeiro. A Robbie era tia da minha mãe, para quem fora generosa ao longo de muitos anos, mas a mim metia pavor. Aprumada e sisuda, dirigia o coro da nossa igreja e era também a professora de piano de serviço naquela comunidade. Usava calçado prático e confortável e andava sempre com os óculos pendurados ao pescoço por uma pequena corrente. Tinha um sorriso matreiro, mas não apreciava o sarcasmo como a minha mãe. Por vezes, ouvia-a a ralhar com os alunos por não terem praticado o suficiente ou com os pais deles por se atrasarem quando iam levá-los às lições.

«Boa noite!», costumava a Robbie exclamar a qualquer hora do dia no mesmo tom exasperado com que outra pessoa diria: «Oh, por amor de Deus!» Aparentemente, poucas pessoas eram suficientemente boas aos olhos dela.

O som de pessoas a empenharem-se, contudo, tornou-se a banda sonora da nossa vida. Ouvia-se o martelar das teclas durante a tarde, ouvia-se o martelar das teclas ao serão. Ocasionalmente, as senhoras da igreja apareciam para ensaiar os hinos, bradando a sua piedade através das nossas paredes. Segundo as regras da Robbie, as crianças que tinham lições de piano só podiam trabalhar numa canção de cada vez. Do meu quarto, podia ouvi-las a esforçarem-se, uma nota incerta após a outra, por obter a aprovação dela, evoluindo de uma canção infantil como «Hot Cross Buns» para «Brahms’ Lullaby», mas só ao fim de muitas tentativas. A música nunca era irritante, apenas persistente. Esgueirava-se pelas escadas que separavam o nosso espaço e o da Robbie. Entrava pelas janelas abertas durante o Verão, acompanhando os meus pensamentos enquanto eu brincava com as minhas Barbies ou construía pequenos reinos com legos. Só tínhamos tréguas quando o meu pai chegava a casa depois de ter feito o turno da manhã na estação de tratamento de águas e se punha a ver o jogo dos Cubs na televisão

Seja o primeiro a receber histórias como esta