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ASAS DE PRATA

Camilla Läckberg  

4


Excerto

Faye ligou a máquina da Nespresso. Enquanto esperava pelo seu café, olhou pela enorme janela da cozinha. Como sempre, ficou fascinada pela vista.

A casa em Ravi transformara-se no seu paraíso na Terra. A localidade em si não era particularmente grande, tinha cerca de duzentos habitantes permanentes. Demorava-se qualquer coisa como cinco minutos a percorrer toda a aldeia a pé, se se andasse devagar. Mas no meio da pequena praça havia um restaurante que fazia as melhores pizzas e pratos de massa que Faye alguma vez tinha comido. E estava lotado todas as noites. Por vezes, apareciam alguns turistas, e, principalmente por volta do final de Maio, começavam a ser cada vez mais. Entusiasmados ciclistas franceses ou reformados americanos que tinham alugado uma autocaravana e agora realizavam o sonho de ver Itália enquanto os filhos adultos se perguntavam desesperadamente por que motivo os pais insistiam em ter vida própria em vez de serem os babysitters de serviço dos netos.

Mas nenhum sueco.

Faye nunca ali vira um sueco desde que comprara a casa, e isso, por si só, fora um factor decisivo na escolha do local. Na Suécia, tornara-se uma celebridade nacional. Em Itália, não só queria como também precisava de ser anónima.

A bela e antiga propriedade que comprara não ficava dentro da vila, mas a uma distância de vinte minutos a pé, situada no cimo de uma colina, com vinhas que trepavam pela encosta até à casa. Faye adorava subir e descer aqueles montes, ir comprar pão à padaria, queijo e presunto locais. Era um verdadeiro lugar-comum de uma vida no interior italiano, e Faye apreciava-o ao máximo. Assim como a sua mãe, Ingrid, e também Kerstin e Julienne. Tinham-se tornado um quarteto completamente consolidado, ao longo dos dois anos que tinham passado desde que o ex-marido de Faye, Jack, fora condenado a uma pena de prisão por homicídio.

Kerstin e Ingrid competiam pela tarefa de mimar Julienne e, agora que Kerstin passava cada vez mais tempo longe delas, Ingrid assumira a responsabilidade de lhe enviar fotografias e actualizações diárias sobre Julienne.

O café ficou pronto. Faye pegou na chávena e atravessou a sala de estar em direcção às traseiras da casa, onde o chapinhar e gritos alegres de criança revelavam a existência de uma piscina, ainda antes de ela se tornar visível. Faye adorava aquela sala de estar. Levara algum tempo a decorar a casa, mas alguma paciência e um dos designers de interiores mais qualificados de Itália permitiram-lhe conseguir exactamente aquilo que queria. A casa tinha grossas paredes de pedra, que isolavam o espaço do calor extremo e deixavam o ambiente fresco mesmo nos meses mais quentes de Verão, tornando também o interior ligeiramente escuro. Esse facto fora resolvido com grandes móveis claros e muita iluminação embutida. As enormes janelas para a parte de trás da casa também permitiam a entrada de mais luz natural. Faye adorava a forma como a sala se fundia, quase imperceptivelmente, com o terraço.

Os cortinados brancos esvoaçantes acariciaram-na quando saiu para o exterior. Bebeu um pouco do café e observou a filha e a mãe, que, de início, não repararam nela. Julienne estava tão grande, o cabelo quase branco de tão clareado pelo sol. Ganhava novas sardas no nariz e no rosto praticamente todos os dias e estava linda, saudável, feliz. Tudo o que Faye desejara para ela. Tudo o que uma vida sem Jack tornara possível.

— Mãe, mãe! Olha, já consigo nadar sem as braçadeiras!

Faye sorriu e fez uma expressão de surpresa para mostrar à filha a enormidade que aquela conquista lhe parecia. Julienne nadou para a parte mais profunda da piscina, com braçadas um pouco desajeitadas e penosas, mas, efectivamente, sem qualquer auxílio das braçadeiras com bonecos, que repousavam à beira da piscina. Nervosa, Ingrid olhava para a neta, meio sentada, meio de pé para poder mergulhar rapidamente na água, em caso de necessidade.

— Acalma-te, mãe. Ela consegue.

Faye continuou a beber o seu café, que estava a acabar rapidamente, e deu alguns passos pelo terraço. Arrependeu-se de não ter preparado antes um cappuccino.

— Ela insiste em ficar na parte mais funda… — comentou a mãe de Faye com um ar algo inconsolável.

— Sai à mãe.

— Pois, isso sei eu, obrigada!

Ingrid riu-se e Faye sentiu-se impressionada, como tantas outras vezes ao longo daqueles dois últimos anos, pela beleza da mãe… apesar de tudo a que vida a sujeitara.

As únicas pessoas que sabiam que Ingrid e Julienne estavam vivas eram Faye e Kerstin. Para o resto do mundo, ambas tinham morrido. Julienne, assassinada pelo pai, um crime pelo qual Jack agora cumpria uma pena de prisão perpétua na Suécia. Ele estivera tão próximo de aniquilar Faye. O seu amor pelo marido fizera dela uma vítima. Não obstante, no final, fora a ele que lhe calhara a fava.

Faye foi ter com a mãe e sentou-se ao seu lado num dos sofás de verga. Ingrid continuou a olhar fixamente para Julienne, o corpo tenso da cabeça aos pés.

— Tens de ir embora outra vez? — perguntou-lhe, sem desviar os olhos da neta.

— A expansão para os Estados Unidos está a aproximar-se a passos largos e ainda temos todo o trabalho a fazer com a nova emissão de acções. Se conseguir assegurar a compra em Roma, essa empresa vai ser um forte complemento para a Revenge. O Giovanni, o proprietário, quer vender, só tenho de o fazer perceber que o preço que lhe propus é a melhor oferta que ele vai conseguir. Mas, como todos os homens, ele sobrevaloriza muito o seu próprio valor.

A sua mãe olhou ansiosamente de Faye para Julienne.

— Não percebo porque é que continuas a trabalhar tanto. Já só tens dez por cento da Revenge e, com aquilo que conseguiste pelas tuas acções, nunca mais precisas de levantar um dedo na vida.

Faye encolheu os ombros, bebeu o que restava do café e pousou a chávena na mesa redonda de vidro.

— Claro que uma parte de mim gostava de ficar aqui a passar mais tempo com vocês. Mas tu conheces-me, acho que morreria de tédio ao fim de uma semana. Não importa quantas acções ainda tenho, a Revenge é o meu bebé. E ainda sou a presidente do Conselho de Administração. Além de sentir uma responsabilidade enorme para com todas as mulheres que investiram ao início e que agora são accionistas da Revenge. Elas arriscaram comigo, com a empresa, e quero continuar a administrar isso. Ultimamente, até tenho andado a pensar em voltar a adquirir uma participação maior, se algumas delas estiverem dispostas a vender. Seja como for, todas terão excelentes retornos.

Ingrid ergueu-se ligeiramente quando Julienne chegou à outra ponta da piscina e deu a volta.

— Sim, pois, irmandade e essas coisas — comentou. — Eu talvez não tenha a mesma visão que tu da lealdade das mulheres.

— Novos tempos, mãe. As mulheres estão unidas. Seja como for, a Julienne não se importa que eu vá rapidamente a Roma. Falámos sobre isso ontem.

— Sabes que eu acho que fazes um óptimo trabalho, não sabes? Que estou orgulhosa de ti?

Faye agarrou a mão de Ingrid.

— Sim, sei disso, mãe. Agora toma lá conta da miúda e certifica-te de que não se afoga. Num abrir e fechar de olhos, estou em casa outra vez.

Faye foi até à borda da piscina, onde uma Julienne resfolegante alternava braçadas com golos de água involuntários.

— Adeus, meu amor, vou-me embora agora!

— Adeus, ma…

Uma boca cheia de água abafou o resto da frase quando Julienne tentou acenar à mãe ao mesmo tempo que nadava. Pelo canto do olho, Faye viu Ingrid apressar-se na direcção da piscina.

Na sala, pegou na mala de viagem pronta. A limusin

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