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ANOITECER NO PARAíSO

Lucia Berlin  

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Excerto

Prefácio: A história é que conta

por Mark Berlin

A Lucia, Deus a valha, era uma rebelde e uma artesã notável, e como dançou, nos seus tempos. Quem me dera poder contar todas as histórias, como quando ela deu boleia a Smokey Robinson na Central Avenue, em Albuquerque, a fumar uma ganza, enquanto se dirigiam para o concerto dele no Tiki-Kai Lounge. Chegou a casa tarde, ainda com vestígios do Chanel por baixo do cheiro a suor e fumo. Fomos a uma dança sagrada em Santo Domingo Pueblo, no Novo México, a convite de um ancião menor. Quando um dançarino caiu, a Lucia julgou que a culpa era dela. Infelizmente, o mesmo pensou o pueblo inteiro, tendo em conta que éramos os únicos forasteiros. Durante anos, isto foi o nosso totem da má sorte. A família inteira aprendeu a dançar em praias, em museus, em restaurantes e clubes, como se fôssemos donos desses lugares, ao longo de reabilitações e cadeias e cerimónias de entrega de prémios, com drogados, chulos, príncipes e inocentes. O ponto é: se eu a contasse, mesmo da minha perspectiva (objectiva ou não), a história da Lucia seria proclamada como realismo mágico. Nunca ninguém acreditaria nesta merda.

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A minha primeira memória é de a voz da Lucia a ler para mim e para o meu irmão Jeff. Não importava a história, porque cada noite reservava um conto naquela sua suave mistura cantada de Texas e Santiago do Chile. Canções como «Red River Valley». Culta mas tradicional — felizmente, sem o sotaque de El Paso da mãe dela. Sou, talvez, a última pessoa a ter falado com ela, e, mais uma vez, a minha mãe leu para mim. Não me lembro do que leu (a crítica de um livro, um excerto das centenas de manuscritos que as pessoas lhe pediam para ler, um postal?), lembro-me da sua querida voz límpida, cornucópias de incenso, farripas de pôr-do-sol, nós os dois sentados, depois, em silêncio, a olhar a sua estante. Sabendo apenas o poder e a beleza das palavras naquelas prateleiras. Algo para saborear e ponderar.

Além do humor e da escrita, herdei os seus problemas de costas, e costumávamos resmungar e rir em uníssono ou harmonia quando tentávamos estender a mão para mais cambozola, uma bolacha ou uma uva. Queixávamo-nos da medicação e dos efeitos secundários. Ríamo-nos do primeiro preceito do budismo: a vida é sofrimento. E a atitude mexicana de que a vida sai barata, mas pode ser divertida.

Ainda jovem mãe, a Lucia empurrava o nosso carrinho pelas ruas de Nova Iorque: para nos levar a museus ou a conhecer outros escritores, para ver uma tipografia em acção ou pintores a trabalhar, para ouvir jazz. E depois, de repente, estávamos em Acapulco, e a seguir em Albuquerque. Primeiras paragens numa vida de uma média de nove meses em qualquer morada. E, no entanto, o lar era sempre ela.

Viver no México deixava-a apavorada. Escorpiões, vermes intestinais, cocos que caíam, polícia corrupta e traficantes de droga ávidos; mas, tal como recordámos na véspera do seu aniversário, conseguimos, de alguma forma, sobreviver. E a Lucia sobreviveu a três maridos e sabe Deus quantos mais amantes; aos catorze anos, os médicos disseram-lhe que nunca teria filhos e não passaria dos trinta! Ela teve quatro filhos, dos quais sou o mais velho e mais problemático, e todos fomos um inferno de criar. Mas ela conseguiu. E bem.

Muito tem sido dito do seu alcoolismo, e a Lucia teve de lutar contra a vergonha que ele lhe trouxe, mas, no fim, acabou por viver quase vinte anos sóbria, produzindo o seu melhor trabalho e inspirando parte da nova geração, por via do ensino. Não surpreende, tendo em conta que já dava aulas, intermitentemente, desde os vinte anos. Houve tempos duros, perigosos, até. De vez em quando, a minha mãe perguntava-se porque não vinha ninguém levar-lhe os filhos, quando as coisas estavam mesmo más para ela. Não sei, saímo-nos bem. Todos teríamos definhado nos subúrbios; éramos o Bando Berlin.

Muita da nossa experiência é inacreditável. As histórias que ela podia ter contado. Como a altura em que, sob efeito de uns cogumelos, foi nadar nua em Oaxaca com um amigo pintor. Quando emergiram da água, verdes da cabeça aos pés, por causa do cobre na corrente, passaram-se. Só posso imaginar como aquilo combinava com o seu rebozo cor-de-rosa! Nem sequer vou tentar descrever a colónia de recuperação de toxicodependentes às portas de Albuquerque (ver a sua história «Strays»), mas imagino Buñuel e Tarantino a fazer um filme dentro de um filme envolvendo sessenta ex-presidiários peri­gosos, Angie Dickinson, Leslie Nielsen, uma dúzia de mortos-vivos de ficção científica e o mencionado Bando Berlin.

A minha recordação preferida é a de um pôr-do-sol em Yelapa, o reflexo do saxofone de Buddy Berlin, redemoinhos de bebop e fumo de lenha, enquanto a mãe fazia o jantar num comal, o rosto radiante à luz coral, flamingos a pescar, de pernas flectidas, na lagoa em frente, o som das ondas e de rãs a saltar, o ruído dos nossos pés sobre o áspero solo de areia. Fazer os trabalhos de casa à luz da lanterna e a ouvir uma Billie Holiday riscada.

A mãe escrevia histórias verdadeiras; não necessariamente autobiográficas, mas bastante perto disso. As histórias e memórias da nossa família têm sido lentamente moldadas, embelezadas e editadas ao ponto de eu já não ter a certeza do que aconteceu realmente o tempo todo. A Lucia dizia que isso não interessava: a história é que conta.

Mark Berlin, o primeiro filho de Lucia, foi escritor, chef, artista, um espírito livre, amante dos animais e de tudo o que levasse alho. Faleceu em 2005.

As Caixas de Maquilhagem com Música

—Ouve, meu filho, as instruções de teu pai e não desprezes os ensinamentos de tua mãe, pois serão uma coroa de adorno para a tua cabeça e um colar para o teu pescoço. Meu filho, se os malfeitores te qui­serem seduzir, não condescendas com eles!

A Mamie, a minha avó, leu aquilo duas vezes. Tentei lembrar-me dos ensinamentos que tinha recebido. Não ponhas o dedo no nariz. Mas eu queria um colar, um daqueles que tilintassem quando me risse, como o do Sammy…

Comprei um colar e fui para a central dos autocarros, onde uma máquina imprimia coisas em discos de metal… uma estrela no centro. Escrevi LUCHA e pendurei-o ao pescoço.

Era fim de Junho de 1943, e foi nessa altura que o Sammy e o Jack nos deixaram participar, a mim e à Hope. Estavam a conversar com o Ben Padilla e, ao princípio, mandaram-nos embora. Mas, quando o Ben se foi embora, o Sammy chamou-nos de debaixo do alpendre.

—Sentem-se, vamos deixar-vos participar numa coisa.

Sessenta cartões. Na parte de cima de cada cartão, havia uma imagem a cores de uma «Caixa de Maquilhagem com Música». Ao lado, havia um selo vermelho que dizia NÃO ABRIR. Por baixo do selo, estava um dos nomes no cartão. Trinta nomes de três letras com uma linha por baixo. AMY, MAE, JOE, BEA, etc.

—Cada aposta num nome custa um níquel. Escreve-se o nome da pessoa que apostou ao lado. Quando todos os nomes estiverem vendidos, abrimos o selo vermelho. A pessoa que tiver escolhido esse nome ganha a Caixa de Maquilhagem.

—Montes de Caixas de Maquilhagem! — riu o Jake.

—Cala-te, Jake. Estes cartões vêm de Chicago. Cada um faz um dólar e meio. Eu envio-lhes um dólar por cada e eles mandam-me as caixas. Percebeste?

—Sim — disse a Hope. — E então?

—Então, vocês ficam com vinte e cinco cêntimos por cada cartão que venderem, e nós ficamos com os outros vinte e cinco. Somos sócios, cinquenta-cinquenta.

—Elas não conseguem vender esses cartões todos — disse o Jake.

—Claro que conseguimos — retorqui. Eu odiava o Jake. Rufia adolescente.

—Claro que conseguem — disse o Sammy. Entregou os cartões à Hope. — A Lucha encarrega-se do dinheiro. São onze e meia… Agora vão… vamos ver o tempo que demoram.

—Boa sorte! — gritaram. Empurravam-se um ao outro sobre a erva, a rir.

—Estão-se a rir de nós… acham que não conseguimos!

Batemos à primeira porta… veio uma senhora e pôs os óculos. Comprou o primeiro nome. ABE. Escreveu o seu nome e morada ao lado, deu-nos cinco pennies e o seu lápis. Meninas amorosas, chamou-nos.

Parámos em todas as casas daquele lado da Upson. Quando chegámos ao parque, tínhamos vendido vinte nomes. Sentámo-nos no muro do jardim de cactos, ofegantes, triunfantes.

As pessoas achavam-nos uns amores. Éramos ambas demasiado pequenas para a nossa idade. Sete anos. Quando era uma mulher a vir à porta, era eu que vendia a aposta. O meu cabelo louro crescera para o dobro do tamanho da minha cabeça, parecia um daqueles rolos de erva seca que rolam no deserto. «Um halo dourado!» Como me tinham caído os dentes, eu enfiava a língua no buraco quando sorria, como se fosse tímida. As senhoras faziam-me festinhas e baixavam-se para ouvir… «Diz lá, meu anjinho. Oh, com todo o gosto!»

Se fosse um homem, era a Hope que fazia a venda. «Cinco cêntimos… Escolha um nome», anunciava na sua fala arrastada, entregando-lhes o cartão e o lápis antes que eles fechassem a porta. Os homens diziam-lhe que tinha genica e beliscavam-lhe as bochechas morenas e ossudas. Os olhos dela faiscavam por detrás do pesado véu de cabelo negro.

A única coisa que nos preocupava agora era o tempo. Era difícil perceber quando as pessoas estavam em casa ou não. Tocar às campainhas, esperar. O pior de tudo era quando éramos as únicas visitas «ao fim de tanto tempo». Todas aquelas pessoas eram muito idosas. A maior parte delas deve ter morrido poucos anos depois.

Para além dos solitários e das pessoas que nos achavam uns amores, havia outras… duas, naquele dia… que sentiam mesmo que era um presságio abrirem a porta e ser-lhes oferecida uma aposta, uma escolha. Demoravam imenso tempo, mas não nos importávamos… e esperávamos, também a conter a respiração, enquanto elas iam falando para si mesmas. Tom? Aquele malvado do Tom. Sal. A minha irmã chamava-me Sal. Tom. Sim, vou ficar com o Tom. E se ganhar??

Nem sequer fomos às casas do lado de lá da Upson. Vendemos o resto nos apartamentos na outra ponta do parque.

Uma da tarde. A Hope entregou o cartão ao Sammy e eu despejei-lhe o dinheiro no peito.

—Caramba! — exclamou o Jake.

O Sammy beijou-nos. Estávamos afogueadas, a sorrir sobre o relvado.

—Quem ganhou? — O Sammy sentou-se. Tinha os joelhos das Levi’s verdes e molhados, os cotovelos verdes da relva.

—O que é que diz? — A Hope não sabia ler. Tinha chumbado no primeiro ano.

ZOE.

—Quem é? — Olhámos uma para a outra. — Qual era esse?

—É o último do cartão.

—Oh. — O homem com a pomada nas mãos. Psoríase. Ficámos desiludidas, tínhamos desejado que ganhassem duas outras pessoas, mesmo muito simpáticas.

O Sammy disse que podíamos ficar com os cartões e o dinheiro até os termos vendido todos. Procurámos do outro lado da vedação e por baixo do alpendre. Encontrei uma caixa de pão velha para os guardar.

Pegámos em três cartões e fomo-nos embora pela viela. Não queríamos que o Sammy e o Jake pensassem que estávamos demasiado ansiosas por fazer aquilo. Atravessámos a rua e corremos de casa em casa, a bater às portas, fazendo todo o outro lado da Upson. Percorremos um dos lados da Mundy, até à mercearia Sunshine.

Já tínhamos vendido dois cartões inteiros… e sentámo-nos no passeio a beber refrigerante de uva. O Sr. Haddad guardava-nos umas garrafas na arca congeladora, para as deixar meio congeladas… como sorvetes derretidos. Os autocarros tinham de fazer uma curva apertada à esquina, quase nos acertando, e buzinavam. Atrás de nós, o pó e o fumo erguiam-se em volta do monte Cristo Rey, espuma amarela à luz da tarde do Texas.

Eu lia os nomes em voz alta — vez após vez. Púnhamos um X junto àqueles que esperávamos que ganhassem… um O ao lado dos maus.

O soldado descalço… «Eu PRECISO de uma Caixa de Maquilhagem com Música!» A Sr.ª Tarpia… «Ora, entrem! Que boa surpresa!» Uma rapariga de dezasseis anos, recém-casada, que nos tinha mostrado como pintara, sem ajuda, a sua cozinha de cor-de-rosa. O Sr. Raleigh: assustador. Tinha dois grand danois, e chamara à Hope uma minorca sexy.

—Sabes uma coisa… podíamos vender mil nomes por dia… se tivéssemos patins.

—Pois é, precisamos de patins.

—Sabes o que é que está mal?

—O quê?

—Nós dizemos sempre: «Quer comprar uma aposta?» Devíamos dizer «apostas».

—E se dissermos… «Quer comprar um cartão inteiro?»

Rimo-nos, felizes, sentadas no passeio.

—Vamos vender o último.

Contornámos a esquina para a rua abaixo de Mundy. A rua estava escura, ensombrada por eucaliptos, figueiras e romãzeiras, jardins mexicanos, fetos, loendros e zínias. As mulheres idosas não falavam inglês. «No, gracias», e fechavam-nos as portas.

O padre da Sagrada Família comprou dois nomes. JOE e FAN.

A seguir, havia um quarteirão de mulheres alemãs, de mãos enfarinhadas. Batiam-nos as portas na cara. Tum!

—Vamos para casa… isto não é bom.

—Não, ali para cima, ao pé da Vilas School, há montes de soldados.

Ela tinha razão. Os homens andavam na rua de calças de caqui e T-shirt, a regar o escalracho e a beber cerveja. Foi a Hope que vendeu. Ficou com o cabelo todo empastado sobre o seu moreno rosto sírio, como uma cortina de contas negra.

Um homem deu-nos vinte e cinco cêntimos e a mulher chamou-o antes de lhe passarmos o troco. «Dêem-me cinco!», gritou ainda pela porta de rede. Comecei a escrever o nome dele.

—Não — disse a Hope. — Podemos vendê-los outra vez.

O Sammy abriu os selos.

Foi a Sr.ª Tarpia que ganhou, com SUE, o nome da filha. Tínhamo-la marcado com um X, por ser muito simpática. A Sr.ª Overland venceu no cartão seguinte. Nenhuma de nós se conseguia lembrar dela. O terceiro vencedor foi um homem que comprou LOU, quando quem devia ter ganho era o soldado que nos deu os vinte e cinco cêntimos.

—Devia ter ido para o soldado — comentei.

A Hope ergueu o cabelo para olhar para mim, quase a sorrir…

—Tudo bem.

Saltei a vedação para o nosso jardim. A Mamie estava a regar. A minha mãe jogava bridge, com o meu jantar guardado no forno. Tive de ler os lábios da Mamie, o noticiário de H. V. Kalterborn que vinha de dentro da casa abafava tudo. O avô não era surdo, mas punha o rádio muito alto.

—Posso regar por ti, Mamie? — Não, obrigada.

Bati com a porta de vitrais contra a parede.

—Anda cá já! — gritou ele sobre o som do rádio. Surpreendida, entrei a correr, sorridente, e comecei a subir-lhe para o colo, mas ele enxotou-me com um jornal todo recortado.

—Estiveste com aqueles árabes sujos?

—Sírios — respondi. O cinzeiro do avô emitia um brilho vermelho, como a porta de vitral.

Naquela noite… Fiber McGee, Amos e Andy na rádio. Não sei por que razão ele gostava tanto de os ouvir. Dizia sempre que detestava pessoas de cor.

A Mamie e eu sentámo-nos com a Bíblia na sala de jantar. Ainda estávamos nos Provérbios. — «Melhor é a correcção franca do que uma amizade não declarada.»

—Porquê?

—Esquece.

Adormeci e ela levou-me para a cama.

Acordei quando a minha mãe chegou a casa… Fiquei deitada ao seu lado, sem dormir, enquanto ela comia Cheese Tid-Bits e lia um policial. Anos mais tarde, percebi que, só durante a Segunda Guerra Mundial, a minha mãe comeu mais de 950 caixas de Cheese Tid-Bits.

Queria conversar com ela, falar-lhe da Sr.ª Tarbia, do tipo dos cães, de como o Sammy nos tinha tornado sócias-cinquenta-cinquenta. Encostei a cabeça ao seu ombro cheio de migalhas de Cheese Tid-Bits e adormeci.

No dia seguinte, a Hope e eu começámos por ir aos apartamentos na Yandell Avenue. Jovens viúvas do exército, com rolos no cabelo, roupões de chenille, furiosas por as termos acordado. Nenhuma delas comprou uma aposta.

—Não, não tenho um níquel.

Apanhámos um autocarro para a Plaza, onde trocámos para um autocarro da Mesa, para chegar a Kern Place. Pessoas ricas… jardins cuidados, sinos nas portas. Era ainda melhor do que as velhinhas. Junior League[1] texana, peles bronzeadas, bermudas, batom e penteados à June Allyson. Acho que nunca tinham visto crianças como nós, crianças vestidas com as velhas blusas de crepe das mães.

Crianças com cabelos como os nossos. Enquanto o da Hope lhe escorria pela cara como alcatrão preto espesso, o meu erguia-se e espetava-se como uma bola de praia amarela, a crepitar ao sol.

Riam-se sempre, quando descobriam o que estávamos a vender, e iam procurar uns «trocos». Ouvimos uma delas a falar com o marido…

—Anda cá vê-las. Verdadeiras crianças de rua!

Ele apareceu mesmo à porta, e foi o único a comprar-nos uma aposta. As mulheres limitavam-se a dar-nos dinheiro. Os filhos ficavam a olhar para nós, pálidos, dos seus baloiços.

—Vamos à central dos autocarros.

Costumávamos lá ir ainda antes dos cartões… para passear, ver toda aquela gente a beijar-se e a chorar, apanhar moedas caídas debaixo da saliência do quiosque dos jornais. Assim que lá chegámos, cutucámo-nos uma à outra, a rir. Porque é que nunca tínhamos pensado naquilo? Milhões de pessoas com moedas e sem nada para fazer senão esperar. Milhões de soldados e marinheiros que teriam uma namorada ou uma mulher ou um filho com um nome de três letras.

Estabelecemos um horário. De manhã, íamos à estação dos comboios. Marinheiros estendidos nos bancos de madeira, as boinas dobradas por cima dos olhos, como parênteses.

—Hã? Oh, bom dia, queridas! Claro.

Velhos sentados. Pagavam um níquel para falar sobre a outra guerra, sobre uma pessoa morta com um nome de três letras.

Fomos à sala de espera para NEGROS e vendemos três nomes, antes de um motorista branco nos puxar dali para fora pelos cotovelos. Passámos tardes na USO[2] do outro lado da rua. Os soldados davam-nos o almoço de graça, velhas sanduíches de queijo e fiambre embrulhadas, Coca-Colas, Milky Ways. Jogávamos pingue-pongue e flippers, enquanto os soldados preenchiam os nossos cartões. Um dia, ganhámos uma moeda cada, a carregar no pequeno contador que registava quantos homens entravam, enquanto a mulher que tinha essa tarefa ia a qualquer lado com um marinheiro.

E estavam sempre a entrar novos soldados e marinheiros, a cada comboio que chegava. Os que já lá estavam diziam-lhes para comprar as nossas apostas. Chamavam-me Céu e à Hope, Inferno.

Tínhamos planeado ficar com os sessenta cartões até estarem todos vendidos, mas estávamos sempre a ganhar mais e mais dinheiro, e ainda mais gorjetas, e já não o conseguíamos contar.

Mal podíamos esperar por saber quem tinha ganho, de qualquer maneira, embora só faltassem dez cartões. Levámos as três caixas de charutos com o dinheiro e os cartões ao Sammy.

—Setenta dólares? — Jesus Cristo. Sentaram-se ambos na relva. — Miúdas malucas dum raio. Elas conseguiram.

Deram-nos beijos e abraços. O Jake não parava de rebolar pelo chão, agarrado à barriga, a guinchar:

—Jesus… Sammy, és um génio, um cérebro!

O Sammy abraçou-nos.

—Eu sabia que vocês conseguiam.

Examinou todos os cartões, enquanto passava a mão pelo cabelo comprido e tão preto que parecia sempre molhado. Riu-se dos nomes que tinham vencido.

Primeiro-cabo Octavius Oliver… Fort Sill, Oklahoma.

—Ei, onde é que descobriram estes tipos? — Samuel Henry Throper, Algures, EUA. Era um homem idoso da parte dos NEGROS que dissera que podíamos ficar com a Caixa de Maquilhagem, se ele ganhasse.

O Jake foi à mercearia Sunshine e comprou-nos gelados de banana meio derretidos. O Sammy fez-nos perguntas sobre os nomes, sobre como tínhamos feito. Falámos-lhe de Kern Place e das donas de casa bonitas com vestidos de cambraia, falámos-lhe da USO, dos flippers, do homem sujo com os grand danois.

Ele deu-nos dezassete dólares… mais do que cinquenta-cinquenta. Nem sequer apanhámos um autocarro, limitámo-nos a correr até à Penney’s. Era longe. Comprámos patins e chaves para os prender aos sapatos, pulseiras da sorte no Kress e um saco de pistácios vermelhos salgados. Sentámo-nos ao lado dos jacarés na Plaza… Soldados, mexicanos, bêbados.

A Hope olhou em volta.

—Podíamos vender aqui.

—Não, aqui ninguém tem dinheiro.

—Só nós!

—A pior parte vai ser entregar as Caixas de Maquilhagem com Música.

—Não, porque agora temos patins.

—Amanhã vamos aprender a patinar… Ei, até podemos descer o viaduto de patins e ir ver a escória da fundição.

—Se as pessoas não estiverem em casa, podemos abrir a porta de rede e deixá-las lá.

—Os átrios dos hotéis devem ser um bom sítio para vender.

Comprámos cachorros-quentes Coney Islands e root beer floats[3] para levar. Foi o fim do nosso dinheiro. Esperámos até chegarmos ao terreno baldio no início da Upson para comer.

O terreno ficava no alto de uma colina murada, bem acima do passeio e cheio de umas densas ervas cinzentas, muito altas, que tinham flores roxas. Entre as plantas, por todo o terreno, havia vidro partido, tingido em diferentes tons de alfazema pelo sol. Àquela hora do dia, final da tarde, o sol atingia o terreno num ângulo que fazia com que a luz parecesse vir de baixo, do interior das flores, das pedras ametistas.

O Sammy e o Jake estavam a lavar um carro. Uma carripana azul sem tejadilho e sem portas. Fizemos o último quarteirão a correr, com os patins a chocalhar dentro das caixas.

—De quem é?

—Nosso, querem vir dar uma voltinha?

—Onde é que o arranjaram?

Eles estavam a lavar os pneus.

—Era de um tipo nosso conhecido — disse o Jake. — Querem vir dar uma voltinha?

—Sammy!

A Hope estava de pé no assento. Parecia louca. Eu ainda não tinha percebido.

—Sammy… onde é que arranjaste dinheiro para este carro?

—Oh, por aqui e por ali… — O Sammy sorriu-lhe, bebeu da mangueira e limpou o queixo com a camisa.

—Onde é que arranjaste o dinheiro?

A Hope parecia uma velha bruxa pálida.

—Seu filho da mãe traidor! — gritou.

Então percebi. Segui-a sobre a vedação e por baixo do alpendre.

—Lucha! — chamou-me o Sammy, o meu primeiro herói, mas eu segui-a até ao lugar onde ela estava agachada, junto à caixa do pão.

Passou-me os montes de cartões preenchidos.

—Conta-os. — Levei muito tempo.

Mais de quinhentas pessoas. Procurámos as que tínhamos marcado com X, esperando que ganhassem.

—Podíamos comprar Caixas de Maquilhagem com Música para algumas delas…

Ela fez um trejeito trocista.

—Com que dinheiro? E as Caixas de Maquilhagem com Música nem sequer existem. Alguma vez tinhas ouvido falar de uma Caixa de Maquilhagem com Música?

Abriu a caixa do pão e tirou os dez cartões por vender. Estava como louca, a esgaravatar no pó por baixo do alpendre como uma galinha moribunda.

—O que estás a fazer, Hope?

Ofegante, ela agachou-se na abertura para o pátio. Ergueu os cartões, como o leque de uma rainha louca.

—Agora são meus. Podes vir. Cinquenta-cinquenta. Ou podes ficar. Se vieres, significa que és minha sócia e não podes falar com o Sammy nunca mais no resto da tua vida, senão assassino-te com uma faca.

Foi-se embora. Eu deitei-me na terra húmida. Estava cansada. Só queria ficar ali deitada para sempre e nunca mais fazer absolutamente nada.

Fiquei deitada muito tempo e, depois, saltei por cima da vedação de madeira para a viela. A Hope estava sentada no passeio na esquina, o cabelo como um balde preto por cima da cabeça. Dobrada como uma Pietà.

—Vamos — disse-lhe.

Subimos a colina para a Prospect. Anoitecia… todas as famílias estavam nos jardins, a regar a relva, a falar em murmúrios nos baloiços dos alpendres, que guinchavam tão ritmicamente como as cigarras.

A Hope bateu com o portão atrás de nós. Subimos o caminho de cimento molhado na direcção da família sentada nos degraus a beber chá gelado. Ela estendeu ...