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ALGUéM QUE ME CALE

Joana Gama  

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Excerto



SEXO

Assim que tive a ideia para este livro, imaginei que o princípio fosse o sexo. Dizem ser o verbo, mas nem tenho paciência para elaborar muito relativamente a isso. Está na Bíblia, ou lá o que é, mas ouvi-o numa música dos Da Weasel, pronto.

Este tema enche-me de medo. Talvez por ser algo que ainda está cheio de tabus, talvez por saber que pessoas que julgam conhecer-me irão ler este livro ou talvez por eu própria ainda não ter chegado a conclusões. Se é que alguma vez se chega…

Chamar sexo ao início da vida pode ser frio, mas acho que é factual. O que quer que seja para cada uma das pessoas envolvidas, é isso que se chama. Nem toda a gente nasce por amor, há quem nasça por acidente ou por culpa, ou por pressão.

No meu caso, foi-me dito que não fui planeada, mas muito desejada. Os meus pais divorciaram-se por volta dos meus seis anos e apenas um tomou a liberdade de me contar histórias sem que fizesse perguntas. Sei que talvez tenha havido amor em tempos, mas o que será o amor? Não me inclino para a reacção química, como o Rick da série animada Rick e Morty, mas tendo a sentir que o amor é o que precisarmos que seja e até onde acreditarmos que pode ir. Seja como for, há sexo ou ausência dele, mas estando, ainda assim, sempre presente. O sexo gera vida, ou pode gerar.

Que livro bom este, hã? Começar com uma verdade à Lili Caneças. «Fazer sexo pode gerar vida», mas as palavras pesam muito. Estou a tentar explicar o que sei.

Fiz sexo muitas vezes. Não falando das «muitas vezes» como sendo algo que se possa medir e ser comparado, mas sim comparando ao que possa ser chamado «amor». Em grande parte da minha vida até agora, o sexo tem sido sexo. E o que o sexo tem sido para mim é uma espécie de dano colateral para obter o que preciso, quase uma prostituição emocional. Já fui casada, também. O sexo, inclusivamente, já foi uma actividade necessária ou até uma espécie de confirmação de afastamento, uma dança de despedida cuja música se baixa ao mínimo quando acaba, para se continuar a sobreviver.

Dano colateral. Foi o que já foi muitas vezes. Faz parte do procedimento, do processo. Seduzir, sentir-me o centro da atenção, e, para que continue, há que alimentar o animal. Não o meu. Sempre julguei ou senti que a minha libido não era chamada para o caso. Como se não precisasse de sexo, mas fossem as outras pessoas a precisar e eu tivesse de dar. Caso não desse sexo, as pessoas não me dariam atenção.

Há esse sexo. Há o sexo que se faz assim. Ou que se dá. Que alguém dá e outro alguém recebe. É muito semelhante a um episódio de violação — credo, que chocante comparação nestes tempos —, mas em que somos igualmente o agressor e a vítima. Como se obrigássemos o nosso corpo a estar disponível e ao nosso serviço, ainda que não esteja preparado ou não esteja para aí virado. O sexo passa a ser uma moeda de troca. «Dá-me amor, dou-te sexo.» Até porque dar amor é algo que requer, talvez, um doutoramento, e, até se conseguir dar isso, talvez seja necessári

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