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ACREDITA EM MIM

J.P. Delaney  

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Excerto

UM

O meu amigo ainda não apareceu.

Seria isto que qualquer pessoa pensaria se me visse ali, empoleirada no banco do bar deste hotel de Nova Iorque, a tentar que o meu Virgin Mary dure toda a noite. Apenas mais uma dessas jovens executivas à espera do namorado. Um pouco mais bem vestida do que algumas das outras mulheres ali, talvez. Não pareço ter acabado de sair de um escritório.

Na outra ponta do bar está um grupo de homens novos a beber e a gracejar, esmurrando os ombros uns dos outros para dar ênfase. O olhar de um deles – com bom aspecto, roupa elegante, atlético – cruza-se com o meu. Sorri-me. Desvio a cara.

Pouco depois, uma mesa perto do fundo fica desocupada, levo para lá a minha bebida e sento-me. É onde, de repente, se desenrola esta pequena cena:

INT. BAR DO DELTON HOTEL, W. 44TH ST., NOVA IORQUE – NOITE

HOMEM

(tom beligerante)

Importa-se?

Está alguém parado à minha frente. Um empresário, cerca de quarenta e cinco anos, com um fato dispendioso de corte descontraído, o que sugere que ele é mais do que o habitual drone executivo, colarinho coberto por um cabelo que é um pouco comprido demais para Wall Street.

Está zangado. Muito zangado.

EU

Sim?

HOMEM

Essa mesa é minha. Fui só à casa de banho.

Aponta para o portátil, bebida e revista que, não sei como, me escaparam.

HOMEM

Esse é o meu copo. São as minhas coisas. É bastante óbvio que a mesa está ocupada.

Algumas cabeças viram-se na nossa direcção. Mas não vai haver nenhum confronto, nenhuma erupção do stress nova-iorquino. Já estou a levantar-me e a pendurar a mala ao ombro. Para neutralizar o drama.

EU

Desculpe… não me tinha apercebido. Vou para outro sítio.

Dou um passo para o lado e olho em volta, impotente, mas o espaço está apinhado e o meu lugar anterior desapareceu. Não há mais sítio nenhum.

Pelo canto do olho, vejo-o a avaliar-me, a passar os olhos sobre o casaco Donna Karan da Jess, o mais caro, que ela reserva apenas para as audições, a suave caxemira escura que realça a minha pele pálida e o cabelo escuro. E a perceber o estúpido erro que está a cometer.

HOMEM

Espere… talvez possamos dividir.

Aponta para a mesa.

HOMEM

Há espaço para os dois… eu estava só a pôr algum trabalho em dia.

EU

(com um sorriso agradecido)

Oh… obrigada.

Torno a pousar a mala e sento-me. Durante algum tempo, há um silêncio que tenho o cuidado de não quebrar. Isto tem de partir dele.

E, claro, quando fala, a voz dele mudou subtilmente – é mais rouca, mais ténue. Será que as vozes das mulheres mudam desta mesma maneira? Um dia devia testar isto.

HOMEM

Está à espera de alguém? Aposto que ele ficou retido pela neve. É por isso que tenho de ficar mais uma noite. LaGuardia está um caos.

E eu sorrio para mim mesma, porque até é bastante astuta a forma como ele tenta descobrir se esta pessoa de quem estou à espera é um homem ou uma mulher, e, ao mesmo tempo, faz-me saber que está aqui sozinho.

EU

Estou a ver que vou ter de ficar aqui algum tempo, então.

Ele acena com a cabeça na direcção do copo agora vazio.

HOMEM

Nesse caso, posso ir buscar-lhe outra? Chamo-me Rick, já agora.

Com tantos bares no mundo e ela aparece no meu.

EU

Obrigada, Rick. Pode ser um martíni. Eu chamo-me Claire.

RICK

Muito prazer, Claire. E, hum, desculpe lá aquilo.

EU

Não, tudo bem, a sério, a culpa foi minha.

Digo-o com tão espontânea descontracção, com tanta gratidão, que até eu própria fico surpreendida ao descobrir que é mentira.

Mas, por outro lado, isto não é mentir. É agir de forma verdadeira em circunstâncias imaginárias. O que, como vai ter oportunidade de descobrir, é bastante diferente.

A empregada anota o nosso pedido. Quando se está a ir embora, um homem na mesa seguinte dá-lhe na cabeça por causa de uma bebida em falta. Vejo-a puxar com um ar amuado uma caneta atrás da orelha, quase como se pudesse arrancar as palavras do cliente e atirá-las para o chão.

Aquilo pode dar-me jeito, penso. Depois arrumo o pensamento algures ao fundo do meu sistema de arquivo e volto a concentrar a minha atenção no homem que tenho pela frente.

EU

O que o traz a Nova Iorque, Rick?

RICK

Trabalho. Sou advogado.

EU

Não acredito.

Rick parece desconcertado.

RICK

Porquê?

EU

Todos os advogados que já conheci eram feios e aborrecidos.

Ele corresponde ao meu sorriso.

RICK

Bem, eu sou especialista na área da música. Em Seattle. Gosto de pensar que somos um pouco mais excitantes do que o vulgar advogado criminal. E a Claire?

EU

O que é que faço na vida? Ou se me considero excitante?

Para nossa surpresa mútua, estamos agora, um pouco, em modo sedução.

RICK

As duas coisas.

Aceno para as costas da empregada de mesa.

EU

Bem, antes fazia o mesmo que ela.

RICK

Antes de quê?

EU

Antes de perceber que há maneiras mais excitantes de pagar a renda.

Está sempre nos olhos – aquela ligeira, quase imperceptível, imobilização no momento em que uma ideia se forma atrás deles. Quase o vejo revirar na sua mente as possibilidades do que acabei de dizer. Decide que está a ler ali demasiado.

RICK

E de onde é a Claire? Estou a tentar identificar essa pronúncia.

Da Virgínia, raios. Não deu para perceber pelas minhas vogais?

EU

Eu sou de… de onde quiser que eu seja.

Ele sorri. Um sorriso feroz, ávido, que diz Afinal tinha razão.

RICK

Nunca tinha conhecido uma rapariga desse sítio.

EU

E conhece muitas raparigas, não?

RICK

Costumo combinar as minhas viagens de negócios com uma certa dose de prazer.

EU

Antes de voltar para a mulher e os filhos em Seattle.

Rick franze o sobrolho.

RICK

O que é que a faz pensar que sou casado?

EU

(num tom tranquilizador)

Os meus preferidos normalmente são. Os que sabem divertir-se.

Por mais certo que se encontre agora, Rick não se apressa. Vamos bebericando as nossas bebidas e ele fala-me de alguns dos seus clientes em Seattle – o famoso ídolo adolescente que o advogado diz gostar de raparigas menores e a máscula estrela do heavy metal que é homossexual mas não se atreve a admiti-lo. Diz-me, com uma ponta de ênfase, quanto dinheiro se pode ganhar a fazer o que ele faz, a esboçar contratos para pessoas que são temperamentalmente incapazes de os cumprir e necessitam de gente como ele para os ajudar nos dois momentos, quando assinavam o contrato e quando, passado algum tempo, o resolviam. E, por fim, quando pareço suficientemente impressionada com tudo isto, ele sugere que, uma vez que o meu amigo claramente não vai aparecer, vamos para outro sítio qualquer, um restaurante ou uma discoteca, o que eu preferir.

RICK

(suavemente)

Ou então podíamos só chamar o serviço de quartos. Eu estou mesmo aqui em cima.

EU

O serviço de quartos pode ser caro.

RICK

Tudo o que quiser. Pode escolher. Uma garrafa de Cristal, caviar…

EU

Eu queria dizer que o serviço de quartos pode ser caro… quando sou eu que o forneço.

Pr

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