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ACREDITA EM MIM

J.P. Delaney  

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Excerto

UM

O meu amigo ainda não apareceu.

Seria isto que qualquer pessoa pensaria se me visse ali, empoleirada no banco do bar deste hotel de Nova Iorque, a tentar que o meu Virgin Mary dure toda a noite. Apenas mais uma dessas jovens executivas à espera do namorado. Um pouco mais bem vestida do que algumas das outras mulheres ali, talvez. Não pareço ter acabado de sair de um escritório.

Na outra ponta do bar está um grupo de homens novos a beber e a gracejar, esmurrando os ombros uns dos outros para dar ênfase. O olhar de um deles – com bom aspecto, roupa elegante, atlético – cruza-se com o meu. Sorri-me. Desvio a cara.

Pouco depois, uma mesa perto do fundo fica desocupada, levo para lá a minha bebida e sento-me. É onde, de repente, se desenrola esta pequena cena:

INT. BAR DO DELTON HOTEL, W. 44TH ST., NOVA IORQUE – NOITE

HOMEM

(tom beligerante)

Importa-se?

Está alguém parado à minha frente. Um empresário, cerca de quarenta e cinco anos, com um fato dispendioso de corte descontraído, o que sugere que ele é mais do que o habitual drone executivo, colarinho coberto por um cabelo que é um pouco comprido demais para Wall Street.

Seja o primeiro a receber histórias como esta

Está zangado. Muito zangado.

EU

Sim?

HOMEM

Essa mesa é minha. Fui só à casa de banho.

Aponta para o portátil, bebida e revista que, não sei como, me escaparam.

HOMEM

Esse é o meu copo. São as minhas coisas. É bastante óbvio que a mesa está ocupada.

Algumas cabeças viram-se na nossa direcção. Mas não vai haver nenhum confronto, nenhuma erupção do stress nova-iorquino. Já estou a levantar-me e a pendurar a mala ao ombro. Para neutralizar o drama.

EU

Desculpe… não me tinha apercebido. Vou para outro sítio.

Dou um passo para o lado e olho em volta, impotente, mas o espaço está apinhado e o meu lugar anterior desapareceu. Não há mais sítio nenhum.

Pelo canto do olho, vejo-o a avaliar-me, a passar os olhos sobre o casaco Donna Karan da Jess, o mais caro, que ela reserva apenas para as audições, a suave caxemira escura que realça a minha pele pálida e o cabelo escuro. E a perceber o estúpido erro que está a cometer.

HOMEM

Espere… talvez possamos dividir.

Aponta para a mesa.

HOMEM

Há espaço para os dois… eu estava só a pôr algum trabalho em dia.

EU

(com um sorriso agradecido)

Oh… obrigada.

Torno a pousar a mala e sento-me. Durante algum tempo, há um silêncio que tenho o cuidado de não quebrar. Isto tem de partir dele.

E, claro, quando fala, a voz dele mudou subtilmente – é mais rouca, mais ténue. Será que as vozes das mulheres mudam desta mesma maneira? Um dia devia testar isto.

HOMEM

Está à espera de alguém? Aposto que ele ficou retido pela neve. É por isso que tenho de ficar mais uma noite. LaGuardia está um caos.

E eu sorrio para mim mesma, porque até é bastante astuta a forma como ele tenta descobrir se esta pessoa de quem estou à espera é um homem ou uma mulher, e, ao mesmo tempo, faz-me saber que está aqui sozinho.

EU

Estou a ver que vou ter de ficar aqui algum tempo, então.

Ele acena com a cabeça na direcção do copo agora vazio.

HOMEM

Nesse caso, posso ir buscar-lhe outra? Chamo-me Rick, já agora.

Com tantos bares no mundo e ela aparece no meu.

EU

Obrigada, Rick. Pode ser um martíni. Eu chamo-me Claire.

RICK

Muito prazer, Claire. E, hum, desculpe lá aquilo.

EU

Não, tudo bem, a sério, a culpa foi minha.

Digo-o com tão espontânea descontracção, com tanta gratidão, que até eu própria fico surpreendida ao descobrir que é mentira.

Mas, por outro lado, isto não é mentir. É agir de forma verdadeira em circunstâncias imaginárias. O que, como vai ter oportunidade de descobrir, é bastante diferente.

A empregada anota o nosso pedido. Quando se está a ir embora, um homem na mesa seguinte dá-lhe na cabeça por causa de uma bebida em falta. Vejo-a puxar com um ar amuado uma caneta atrás da orelha, quase como se pudesse arrancar as palavras do cliente e atirá-las para o chão.

Aquilo pode dar-me jeito, penso. Depois arrumo o pensamento algures ao fundo do meu sistema de arquivo e volto a concentrar a minha atenção no homem que tenho pela frente.

EU

O que o traz a Nova Iorque, Rick?

RICK

Trabalho. Sou advogado.

EU

Não acredito.

Rick parece desconcertado.

RICK

Porquê?

EU

Todos os advogados que já conheci eram feios e aborrecidos.

Ele corresponde ao meu sorriso.

RICK

Bem, eu sou especialista na área da música. Em Seattle. Gosto de pensar que somos um pouco mais excitantes do que o vulgar advogado criminal. E a Claire?

EU

O que é que faço na vida? Ou se me considero excitante?

Para nossa surpresa mútua, estamos agora, um pouco, em modo sedução.

RICK

As duas coisas.

Aceno para as costas da empregada de mesa.

EU

Bem, antes fazia o mesmo que ela.

RICK

Antes de quê?

EU

Antes de perceber que há maneiras mais excitantes de pagar a renda.

Está sempre nos olhos – aquela ligeira, quase imperceptível, imobilização no momento em que uma ideia se forma atrás deles. Quase o vejo revirar na sua mente as possibilidades do que acabei de dizer. Decide que está a ler ali demasiado.

RICK

E de onde é a Claire? Estou a tentar identificar essa pronúncia.

Da Virgínia, raios. Não deu para perceber pelas minhas vogais?

EU

Eu sou de… de onde quiser que eu seja.

Ele sorri. Um sorriso feroz, ávido, que diz Afinal tinha razão.

RICK

Nunca tinha conhecido uma rapariga desse sítio.

EU

E conhece muitas raparigas, não?

RICK

Costumo combinar as minhas viagens de negócios com uma certa dose de prazer.

EU

Antes de voltar para a mulher e os filhos em Seattle.

Rick franze o sobrolho.

RICK

O que é que a faz pensar que sou casado?

EU

(num tom tranquilizador)

Os meus preferidos normalmente são. Os que sabem divertir-se.

Por mais certo que se encontre agora, Rick não se apressa. Vamos bebericando as nossas bebidas e ele fala-me de alguns dos seus clientes em Seattle – o famoso ídolo adolescente que o advogado diz gostar de raparigas menores e a máscula estrela do heavy metal que é homossexual mas não se atreve a admiti-lo. Diz-me, com uma ponta de ênfase, quanto dinheiro se pode ganhar a fazer o que ele faz, a esboçar contratos para pessoas que são temperamentalmente incapazes de os cumprir e necessitam de gente como ele para os ajudar nos dois momentos, quando assinavam o contrato e quando, passado algum tempo, o resolviam. E, por fim, quando pareço suficientemente impressionada com tudo isto, ele sugere que, uma vez que o meu amigo claramente não vai aparecer, vamos para outro sítio qualquer, um restaurante ou uma discoteca, o que eu preferir.

RICK

(suavemente)

Ou então podíamos só chamar o serviço de quartos. Eu estou mesmo aqui em cima.

EU

O serviço de quartos pode ser caro.

RICK

Tudo o que quiser. Pode escolher. Uma garrafa de Cristal, caviar…

EU

Eu queria dizer que o serviço de quartos pode ser caro… quando sou eu que o forneço.

Pronto. Já está tudo na mesa. Mas não reajas ao que acabaste de dizer, não sorrias nem desvies o olhar. Não é nada de especial. Fazes isto o tempo todo.

Só tens de ignorar o martelar no teu peito, a sensação de náusea na boca do teu estômago. Rick anui, satisfeito.

RICK

Não sou o único que estou aqui em trabalho, certo?

EU

É isso mesmo, Rick.

RICK

Não leves a mal o que vou dizer, Claire, mas não pareces esse tipo.

Hora da confissão.

EU

Isso é porque… não sou esse tipo.

RICK

Então, qual é o teu tipo?

EU

Do tipo que vem para cá para ter aulas de Teatro e se atrasa no pagamento das propinas. De vez em quando venho sair, divirto-me um pouco… e o problema desaparece.

No outro lado do átrio, uma família está a fazer o check in. Uma rapariguinha com cerca de seis anos, bem vestida com casaco, gorro e cachecol de tricô para a viagem à cidade, quer ver o que há por detrás do balcão. O pai ergue-a, pousa-lhe os pés em cima da sua mala gigantesca e ela encosta-se ao balcão, excitada, enquanto o recepcionista trata dos cartões, passando-lhe um com um sorriso. O pai mantém uma mão protectora sobre o fundo das suas costas, garantindo que a filha não escorrega. Sinto um baque já conhecido de inveja e dor.

Expulso-o da mente e volto à conversa com Rick, que está a inclinar-se para a frente, a voz baixa, os olhos brilhantes…

RICK

E até que ponto te queres divertir esta noite, Claire?

EU

Acho que isso está aberto a negociação.

Ele sorri. É advogado. As negociações fazem parte do jogo.

RICK

Talvez uns trezentos?

EU

É isso que cobram em Seattle?

RICK

Por esse dinheiro consegue-se bastante em Seattle, acredita.

EU

Qual foi o máximo que já pagaste por uma mulher, Rick?

RICK

Quinhentos. Mas isso foi…

EU

(interrompendo-o)

Multiplica por dois.

RICK

(atónito)

Estás a falar a sério?

EU

Não, não estou. Sou uma rapariga normal que só saiu para se divertir – e é por isso que valho mil dólares. Mas se mudaste de ideias…

Pego na minha mala, com um ar propositadamente indiferente, à espera de que ele não veja como tenho as mãos a tremer.

RICK

Não, espera. Mil… tudo bem.

EU

Qual é o número do teu quarto?

RICK

Oitocentos e catorze.

EU

Vou lá ter contigo dentro de cinco minutos. Não olhes para o recepcionista.

Ele levanta-se.

RICK

(num tom admirado)

Aquele truque com a mesa funcionou mesmo bem. A engatar-me mesmo debaixo do nariz do pessoal do bar.

EU

Vamos aprendendo estas coisas. Quando nos queremos divertir.

Ao chegar ao elevador, Rick olha para trás. Faço-lhe um aceno com a cabeça e um minúsculo sorriso secreto. Que se desvanece assim que as portas se fecham, obscurecendo-lhe a visão. Pego na minha mala e dirijo-me para a saída.

Fim de cena.

Lá fora, parou finalmente de nevar, e as bocas de incêndio ao longo do passeio ostentam cabeleiras brancas de neve. A uma curta distância, aguarda-me um carro preto, de luzes apagadas, o motor em ponto morto. Abro a porta de trás e entro.

Tem cerca de quarenta e cinco anos, a mulher de Rick, e um aspecto do tipo gasto mas dispendioso, que sugere que, provavelmente, também fez parte do mundo da música antes de começar a organizar os jantares de negócios do Rick e a parir os seus filhos. Está sentada ao lado do Henry no banco traseiro, a tremer apesar do ar quente que jorra dos ventiladores.

– Tudo bem? – pergunta Henry baixinho.

– Tudo – digo, retirando a pequena câmara de vídeo da minha mala. Já abandonei a pronúncia da Virgínia. Com a minha voz britânica normal, digo à mulher:

– Ouça, vou-lhe dizer o mesmo que digo sempre nestas situações, que é: não tem necessidade de ver isto. Pode limitar-se a voltar para casa e tentar resolver as coisas.

E ela diz, como dizem sempre:

– Prefiro saber.

Passo-lhe a câmara.

– O ponto principal é que ele usa prostitutas com regularidade. E nem sequer é apenas quando está fora. Ele mencionou ter pago quinhentos dólares em Seattle. E acabou de me oferecer mil.

Os olhos da mulher enchem-se de lágrimas.

Oh, meu Deus. Meu Deus.

– Tenho mesmo muita pena – digo, pouco à-vontade. – Ele está à minha espera no quarto oitocentos e catorze, se quiser lá ir.

Os olhos da mulher estão cheios de lágrimas, mas também de fúria. Lembra-te disso.

– Sim, claro, vou falar com um advogado. Mas vai ser com um de divórcios, não com ele.

Vira-se para Henry.

– Podemos ir embora?

– Claro – responde ele suavemente. Enquanto saímos do carro, Henry para se sentar ao volante, eu para me ir embora, passa-me discretamente um envelope.

Quatrocentos dólares. Nada mau por uma noite de trabalho.

E, afinal de contas, Rick era um sacana. Provocou-me arrepios na espinha. Era arrogante e agressivo, para além de um traidor. Merece tudo o que a mulher lhe fizer agora.

Então, por que razão, quando o carro arranca por entre a neve cinzenta, me fico a sentir tão nauseada e enojada com o que acabei de fazer?

DOIS

Neste momento, deve estar a perguntar-se quem sou na realidade e o que estou a fazer aqui em Nova Iorque. A minha história de vida, por outras palavras.

Nome: Claire Wright

Idade: 25 (posso representar entre 20-30)

Altura: 1,70m

Nacionalidade: britânica

Cor dos olhos: castanhos

Cor do cabelo: flexível

Os factos são estes. Mas não são, seguramente, os factos que lhe interessam. O que quer saber é o que eu quero. Porque essa é a regra número um, no primeiro dia, a primeira coisa que se aprende: É aquilo que desejas que te define como per­sonagem.

Estava a dizer a verdade a Rick – essa parte, pelo menos. Quero ser outras pessoas. Nunca quis outra coisa.

Em qualquer lista das dez melhores escolas de Teatro no mundo, cerca de metade estará em Nova Iorque. A Juilliard, a Tisch, a Neighborhood Playhouse, só para mencionar algumas. Todas ensinam variações da mesma abordagem, enraizada no trabalho de um grande actor russo chamado Constantin Stanislavski. Consiste basicamente em mergulhar na verdade emocional de um papel até ele fazer parte de nós.

Nas escolas de Teatro de Nova Iorque não nos ensinam a representar. Ensinam a tornarmo-nos.

Se alguém tem a sorte de passar a fase inicial e receber um convite para ir a Nova Iorque fazer uma audição; se tem a sorte de lhe ser oferecido um lugar; se representar foi toda a sua vida, desde os onze anos, quando era uma menina que escapava da insipidez de sucessivos lares de acolhimento a fingir ser outra pessoa e estar noutro sítio qualquer… não só se é uma entre mil como seria loucura não aceitar.

Candidatei-me ao Actors Studio num impulso – foi ali que a Marilyn Monroe estudou, e ela também cresceu num lar de acolhimento –, fiz a audição com a estranha convicção de que aquilo tinha mesmo de acontecer e fui aceite de imediato.

Até me deram uma bolsa de estudo, que cobria algum do valor das propinas. Não pagava os custos de se viver numa das cidades mais caras do mundo.

De acordo com as condições do meu visto de estudante, podia trabalhar… desde que o meu emprego fosse no campus. O campus era a Pace University, um bloco moderno atulhado, adjacente à City Hall e à ponte de Brooklyn. Não havia por ali muitas oportunidades de emprego em part-time.

Consegui trabalho a servir às mesas num bar em Hell’s Kitchen, a correr para lá três noites por semana, depois das aulas. Mas o dono tinha um fornecimento infinito de mulheres jovens por onde escolher e não fazia sentido deixá-las lá ficar por muito tempo. Assim, se as finanças ou a imigração aparecessem, ele podia sempre alegar que já tinha enviado os seus documentos. Ao fim de dois meses, disse-me afavelmente que estava na altura de me ir embora.

Um dos meus professores, o Paul, sugeriu que eu falasse com uma agente sua conhecida. Encontrei a morada – uma entrada estreita num bloco de prédios anteriores à guerra, ziguezagueados com saídas de incêndio, mesmo ao fundo da 43rd Street – e subi os três lanços de escadas até chegar ao escritório mais pequeno onde alguma vez tinha entrado. Todas as superfícies pareciam cobertas com pilhas de fotografias, guiões e contratos. Na primeira sala, duas assistentes estavam sentadas frente a frente numa única secretária atulhada. Ouvi o meu nome ser chamado da segunda sala. Instalada atrás de outra secretária estava uma mulher baixa, com uma bijuteria gigantesca de plástico a chocalhar. Tinha na mão o meu CV, que estava a ler em voz alta ao mesmo tempo que fazia um gesto para me sentar no outro lado da secretária.

INT. GABINETE DA AGENTE EM NOVA IORQUE – DIA

MARCIE MATTHEWS, uma agente rigorosa de Nova Iorque, está a ler o meu CV.

MARCIE

Escola de Teatro. Escola de Arte Dramática de L­ondres – durante um ano. Uma figuração em tele­visão. Um par de filmes independentes que nunca chegaram a sair.

Atira o CV para o lado, pouco impressionada, e olha para mim com uma expressão avaliadora.

MARCIE

Mas és razoavelmente bonita. Não és bela, mas podes fazer papel de bela. E o Paul Lewis diz-me que tens talento.

EU

(satisfeita, mas a tentar ser modesta)

Ele é mesmo um óptimo professor e…

MARCIE

(interrompendo-me)

Mesmo assim, não te posso representar.

EU

Porquê?

MARCIE

Não tens visto de residência permanente, para começar. O que significa que não podes pertencer ao sindicato. O que significa que não podes trabalhar.

EU

Tem de haver alguma coisa que eu possa fazer.

MARCIE

Claro que sim. Podes voltar para Inglaterra e candidatar-te a um visto de residência permanente.

EU

Não posso… fazer isso.

MARCIE

Porquê?

EU

É complicado.

MARCIE

Não, não é. É deprimentemente banal.

Pega num cigarro electrónico e acende-o.

MARCIE

Pedi informações a uns colegas em Londres, Claire. Queres saber o que eles me disseram de ti?

EU

(infeliz)

Acho que consigo adivinhar.

MARCIE

O mais simpático foi «um pouco intensa». O que mais ouvi foi «não te metas nisso». E, quando insisti, a palavra tumulto estava sempre a aparecer.

Arqueia as sobrancelhas.

MARCIE

Importas-te de explicar?

Respiro fundo.

EU

Tumulto… Era o título do meu primeiro filme de autor. A minha grande oportunidade. Contracenar com… Bem, acho que já sabe o nome dele. É famoso, atraente e toda a gente sabe que tem um dos casamentos mais felizes do mundo do espectáculo.

Deito-lhe um olhar de desafio.

EU

Por isso, quando ele se apaixonou por mim, soube que era a sério.

MARCIE

(com um pequeno ronco de troça)

Pois, pois.

EU

Isso foi antes de eu conhecer a frase que se costuma dizer. Nas Filmagens Não Conta, querida.

MARCIE

E?

EU

E, ao fim de quatro semanas, a sua bela e famosa mulher apareceu no local com os seus belos e famosos filhos pela trela. De repente, os produtores só arranjavam desculpas para me manter escondida. Enfiavam-me em cabinas de som, a regravar deixas que já tinha feito na perfeição na primeira vez.

MARCIE

(acenando com a cabeça)

Continua.

EU

Foi nessa altura que comecei a ouvir os boatos. Que eu era uma louca, uma tarada. Que tinha ameaçado a mulher dele. A mesma máquina de RP que trabalhava os filmes dele estava agora a trabalhar-me a mim.

Estou a esforçar-me para conter as lágrimas. Sei como devo parecer ingénua. Mas a verdade é que eu não era inexperiente. Não se sai do sistema de famílias de acolhimento como uma perfeita inocente.

Mas sai-se desesperado por amar e ser amado. Ele era o homem mais bonito que alguma vez tinha conhecido; o mais apaixonado; o mais poético. Podia recitar cada verso de amor em Shakespeare como se tivesse sido escrito por ele.

Moral da história: nunca nos devemos apaixonar por quem prefere dizer as palavras dos outros.

E não contei a Marcie a outra coisa, embora desconfie de que ela já a soubesse. Que, enlouquecida de desespero adolescente com a injustiça daquilo tudo, fui à roulotte dele e cortei os pulsos na mesma cama onde tínhamos feito amor entre cenas. Que quisera provar-lhe que não tinha sido fingido. Que tinha sido real.

Pelo menos, para mim.

EU

E foi o fim. De um momento para o outro, os castings acabaram. Tinha cometido o pecado número um. Tinha sido pouco profissional. Aconteceu uma semana antes de fazer dezoito anos.

Marcie acena com a cabeça, pensativa.

MARCIE

Sabes uma coisa, acho que o Paul tem razão: és muito boa. Houve aí um momento em que quase me fizeste ter pena de ti. Em vez de pensar: esta tipa é marada, burra e autodestrutiva.

Aponta para mim com o cigarro electrónico.

MARCIE

Os produtores tinham razão. Procura outra carreira.

EU

Tive esperança de encontrar uma segunda oportunidade nos Estados Unidos.

MARCIE

Isso foi muito ingénuo da tua parte. Os tempos em que acolhíamos as massas ansiosas por ser livres já passaram.

EU

Esta é a única carreira que sempre quis. Mas não posso continuar a estudar sem ter trabalho…

Marcie franze o sobrolho e suspira ao mesmo tempo. Farrapos de vapor escapam-se das suas narinas. Depois, como que contrariada…

MARCIE

Tudo bem. Deixa-me os teus dados na recepção. Vamos ter aí alguns videoclipes rascas. Mas não prometo nada.

EU

Obrigada! Muito obrigada!

Levanto-me de um salto e aperto-lhe a mão com um excesso de entusiasmo. Enquanto se solta, escusando-se aos meus agradecimentos com a ponta do cigarro electrónico, Marcie baixa, por acaso, o olhar. Alguma coisa na confusão de papéis sobre a sua secretária lhe atrai a atenção.

Pega num papel, relê-o, olha para mim…

MARCIE

O que é que acharias da ideia de trabalhar para uma firma de advogados de divórcios, Claire?

EU

Como secretária?

MARCIE

Não propriamente… Olha, vou ser muito honesta. O trabalho não é grande coisa. Mas eles precisam de uma pessoa como tu e estão preparados para pagar bem. Muito bem. Sem sindicato. E em dinheiro vivo.

TRÊS

Quando o carro com a mulher de Rick se afasta, viro-me e sigo na direcção oposta. As ruas estão cobertas de gelo lamacento e não tenho sobretudo. A neve vai-se infiltrando no meu sapato direito.

Times Square é um motim de electricidade e cor. Um mimo, enfrentando o frio, entretém uma fila numa bilheteira. Cartazes propagandeiam excertos de críticas: «fascinante», «brilhante», «extraordinário». Passo por baixo de uma placa de rua que diz teatrolândia.

Teatrolândia… Se as pessoas pudessem escolher a sua pátria, esta seria a minha.

Depois saio da Broadway e desço uma rua mal iluminada até chegar a uma placa velha e com a tinta a descascar que diz the compass theater. Algumas pessoas – casais de estudantes, maioritariamente, a aproveitar os bilhetes de última hora a metade do preço – estão a entrar no foyer. Avanço mais alguns metros e passo pela porta dos artistas.

Assistentes de produção, estafetas e moços de recados dos trabalhos de bastidores apressam-se de um lado para o outro com adereços e blocos de notas. Encontro o camarim. Foi dividido com um painel para criar dois vestiários improvisados, raparigas de um lado, rapazes do outro. No primeiro, Jess está a maquilhar-se a um espelho que partilha com mais três raparigas, todas a tentar fazer o mesmo.

– Olá – digo alegremente.

– Olá, Claire. – Os olhos dela projectam-se na minha direcção e depois voltam à sua tarefa. – Como é que correu?

Estendo-lhe o envelope do Henry.

– Foram quatrocentos dólares. Já só te devo outros trezentos.

O pai de Jess, que é super-rico, comprou-lhe um apartamento em Manhattan. Eu devia pagar-lhe uma renda todos os meses, mas por vezes atraso-me um pouco.

– Fixe – diz ela distraidamente. – Olha, podes dar-me o dinheiro mais logo? Vamos sair a seguir e posso perdê-lo.

Devo ter feito um ar esperançoso, porque ela acrescenta:

– Porque é que não assistes à peça e vens connosco? Podes dizer-me se consegui transmitir aquela inquietação feminina de que o Jack tanto fala.

– Okay, pode ser – digo num tom casual.

Porque até a companhia de actores num bar é melhor do que nada.

– Três minutos – anuncia o director de cena, batendo no painel com a mão.

– Deseja-me sorte – diz Jess, alisando o vestido enquanto se levanta, os olhos ainda no espelho. – Parte uma perna e essa merda toda.

– Boa sorte. Não que precises dela. E faz a cena da floresta mais devagar. Não interessa o que diz o idiota do teu director.

Em poucos segundos, o camarim esvazia-se. Encaminho-me para o lado do palco. Quando as luzes se apagam, avanço com cuidado e espreito o público por uma abertura no cenário, inspirando o potente e viciante odor do teatro: tinta fresca dos cenários, o pó velho do palco, tecido comido pelas traças e muito carisma. Aquele momento de poder quando a escuridão se instala e, com ela, desaparece todo o barulho e azáfama do quotidiano.

Durante um momento, estamos todos ali, à espera. Depois, as luzes do palco acendem-se, com as suas cores ricas, e dou um passo atrás. Neve paira no ar, brilhante e macia – neve falsa, mas o público contém audivelmente a respiração.

A grande ideia do director é que este Sonho de Uma Noite de Verão tenha lugar no Inverno. Uma trapaça, pensei quando Jess me contou, mas agora, ao ver aqueles flocos de neve gordos a deslizarem pelo ar e a instalarem-se como lantejoulas no cabelo dos actores enquanto eles entram ruidosamente no palco, vejo que o homem captou, com uma única imagem, a qualidade mágica e sobrenatural da peça.

TESEU

Agora, bela Hipólita, a hora das nossas núpcias aproxima-se…

Sinto um súbito baque de infelicidade. É este o reino proibido, o sonho do qual fui banida pela falta de um visto de residência permanente e os meus problemas em Inglaterra. É quase uma avidez física, uma ânsia tão profunda que me provoca um nó no estômago e me comprime a garganta. As lágrimas ardem-me nos olhos.

Mas, mesmo enquanto o palco dança à minha frente, dou por mim a pensar: da próxima vez que precisares de sentir alguma coisa na aula, usa isto. É ouro em pó.

QUATRO

Quatro horas mais tarde, estamos todos no Harley Bar. Não sei como, acabamos sempre no Harley Bar, uma sauna numa cave, com motas vintage penduradas do tecto e empregadas que usam fardas que consistem em sutiãs pretos por baixo de blusões de ganga sem mangas. Springsteeen canta aos gritos na jukebox, por isso temos de berrar – vinte vozes treinadas a tentar acalmar da adrenalina pós-representação, mais namoradas, namorados e penduras como eu.

Eu, Jess e um grupinho trocamos histórias. Histórias sobre representação, claro. É a única coisa de que sabemos falar.

JESS

Então e o Christian Bale no Maquinista? Deve ter perdido para aí um terço do peso, para esse papel.

ACTRIZ 2

Ou a Chloë Sevigny quando faz um broche a sério em The Brown Bunny.

ACTOR

Define a sério neste contexto. Não, só para saber.

ACTRIZ 3

E o Adrien Brody em O Pianista. Primeiro perdeu quinze quilos e aprendeu a tocar piano. Depois, para saber qual era a sensação de se perder tudo, livrou-se do carro, do apartamento e até do telefone. Isto, meu amigo, é que é empenho.

ACTRIZ 2

Ei, também consigo fazer isso! Ah, não, espera. É que neste momento estou a fazer o papel de um rato que canta e dança num musical da Broadway.

Faz um pequeno passo inebriado de dança de rato.

ACTRIZ 2

Ratinho, ratinho, bem-vindo à minha casa de ratinho…

Do outro lado da sala, o empregado do bar olha para mim. Um olhar que se demora apenas um pouco mais do que o necessário.

A última vez que vi aquele olhar foi quando Rick, o advogado sacana, me convidou para me sentar à sua mesa.

Mas este tipo é da minha idade, tem tatuagens e é giro e magro. Apesar do vento gelado que entra pela sala de cada vez que a porta se abre, está apenas de T-shirt, e o pano que enfiou no cós das calças afaga-lhe o rabo de cada vez que ele se vira para a fila de garrafas atrás do bar.

De repente, estou lá. No bar.

EMPREGADO GIRO

Olá!

É australiano. Adoro australianos.

EU

Olá!

E, por alguma razão, falo com a minha pronúncia da Virgínia, aquela que usei há pouco para falar com o Rick.

EMPREGADO GIRO

O que é que queres beber?

EU

(a gritar para me fazer ouvir sobre todo o ruído)

Pode ser um martíni.

EMPREGADO GIRO

É para já.

Enche um copo de shots com Jack Daniel’s e passa-mo sobre o balcão.

EU

Eu pedi um martíni.

EMPREGADO GIRO

É assim que fazemos os martínis neste bar.

Faz-me um sorriso, desafiando-me a protestar. Sorriso bonito.

Por isso pego no copo e esvazio-o.

EU

Nesse caso, dá-me uma piña colada.

EMPREGADO GIRO

Uma piña colada…

Verte uma medida de Jack Daniel’s num copo, junta outra medida de Jack Daniel’s e termina com uma terceira medida de Jack Daniel’s.

Engulo aquilo tudo num único gole demorado. As pessoas aglomeradas em volta do bar irrompem em assobios e aplausos espontâneos.

Aplausos. Ora aí está um som que não ouvia há bastante tempo.

Pelo menos, que me fossem dirigidos.

EU

Já agora, podes fazer-me um Long Island Iced Tea.

… o que deveria corresponder ao final deste filme que está sempre a passar na minha cabeça.

Mas não é. É uma cena que salta, ou uma sequência de montagem, ou uma daquelas outras coisas técnicas, porque depo ...