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A VIDA SONHADA DAS BOAS ESPOSAS

Possidónio Cachapa  

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Excerto

O DESTINO MARCA A HORA

Madalena despediu-se de Evaristo e Aldemira, o casal de únicos amigos, na entrada do prédio, com dois beijinhos, desviando os olhos. Tinham ainda as faces frias, apesar de Março já ir avançado. O cemitério perto não lhes dera tempo de aquecer.

A outra mulher, Aldemira, tirou dois pêlos de gato do casaco escuro do marido e ajeitou os seus próprios óculos. Tentou ignorar a comichão causada pela tinta barata para o cabelo que lhe tinham aplicado no dia anterior. Admitia, agora, que pagar seis euros por pintar, mais secar e pentear, tinha sido um erro. Mesmo num sítio de gente de pele escura, o que, na opinião dela, só por si, já justificaria ser muito mais barato. Via-se como uma pessoa sem sorte em nada, muito longe do destino confortável desta amiga que tinha levado a enterrar um homem sem defeitos. Nem na morte dera trabalho. Um aperto no coração, um telefonema para o 112 e fora-se. O dela, frouxo em tudo menos em aguentar anos a fio fosse o que fosse, era mais do que certo que haveria, um dia, de cair numa cama para lhe dar trabalho muitos anos. Deu um último toque na mão de Madalena que, pálida da noite sem dormir, já abrira a porta da entrada.

«Pois, e nem é preciso dizer-te, menina: qualquer aflição que tenhas, é só apitares lá para casa.»

O marido concordou e, levantando a mão num último aceno, acrescentou, em tom compungido, por detrás dos óculos de massa:

«Deve ser tão duro ficar assim sem um esposo…» Olhou com alguma emoção para a mulher. «Nem sei como é que esta aqui se safava se estivesse no seu lugar, minha amiga. Nem sei…»

Por momentos, pareceu que Aldemira ia contrariar esta teoria do sofrimento por perda marital, mas, depois, calou-se. Desiludi-lo para quê, coitado, se ele queria acreditar naquilo?

«Ao menos tens os netinhos… »

«Netas. Gémeas.»

«Pois é, pois é, são da filha não é? Já com uns quê? Uns dez ou doze anos, não?»

«Fizeram cinco.»

Meteu a chave à porta e Evaristo começou a afastar-se, puxando o braço da mulher para o carro.

«Qualquer coisa, liga», rematou Aldemira, um pé dentro e um pé fora da viatura. «Um de nós — provavelmente o Evaristo, que nunca tem grande coisa para fazer — passa por cá», limitou-se a acrescentar, antes de voltar ao assento e de ele lhe fechar a porta, com cuidado para não lhe entalar o casaco.

O carro arrancou e Madalena entrou no prédio, segurando a porta de entrada para que não se fechasse com estrondo. Sempre odiara que dessem pela sua chegada.

«Pronto, já lá está.»

O apartamento permanecia numa atmosfera silenciosa e húmida. Madalena passou os olhos do tapete de Arraiolos da entrada para a trepadeira que saía do vaso empoleirado num banco de pé alto e lembrou-se de que, mais tarde ou mais cedo, teria de dar o primeiro a alguém e pôr a segunda no lixo. Quando chegam ao tecto, diz-se, dão azar. Uma foto de Armando, tirada num casamento dois anos antes, a barriga cinquentona disfarçada com uma camisa já na altura fora de moda, olhava severamente para ela de cima da cristaleira.

«Ai, Armando, Armando, o que vai ser agora de mim?», disse Madalena, alto. Sentia-se, nesse instante, tão desamparada como toda a gente lhe asseverara que iria sentir-se, nas últimas quarenta e oito horas.

«Agora é que vais ver a falta que ele te faz! Enquanto são vivos, temos sempre queixas disto ou daquilo…»

«… mas quando se despedem é que vemos que não somos nada sem o outro», alguém completou.

Alguns retorceram a faca na ferida.

«Ai, minha querida, minha querida… a dor que tu não deves de estar a sentir!»

«Não chore, minha boa amiga, que a esta hora ele é um anjinho que está lá no Céu a olhar por si. Vai ver que continua a orientá-la. Não se vai sentir perdida. Não vai…»

Uma prima tão afastada que a voz só lhe chegava no Natal, e apenas de dez em dez anos, aparecera no cemitério, tapada de preto da cabeça aos pés. Segurando-lhe as mãos com as que trazia de longe, magras e que nunca haviam tocado um sexo, disse-lhe em tom de atestado médico:

«E logo na tua idade, rapariga, quando uma pessoa tem de ir tantas vezes às consultas. Eu, até lhe perco a conta… E tu que nem sequer tens carta, filha.»

Madalena descalçou-se. Tinha os pés inchados dos sapatos pretos que a filha lhe tinha ido comprar à pressa na noite anterior.

«Não podes estar num funeral com essas porcarias com que andas em casa ou vais ao café tomar a tua bica escaldada.» A voz fria de Cátia, o olhar crítico sobre as botas que a mãe tinha calçadas quando saíram do hospital. Tinham pelo menos uns dez anos, engraxadas, é verdade, com o cano baixo e os saltos largos que já ninguém usava. Sobre a eventual dor pela morte do pai, nada. «O melhor é ires já com o Diogo à funerária. Vão vocês tratar da urna e das coroas, que eu passo na Bondi para te comprar qualquer coisa de jeito. Enfim, algo melhor do que isso que trazes nos pés…. Onde é se meteu o Diogo?»

«Foi ver se comia alguma coisa. Sabes que ele, em não tomando o pequeno-almoço, tem quebras de tensão.»

«Para essas coisas, falta-lhe a tensão. Já para outras, até tem tensão a mais.»

«Não fales assim. Cada um é como é.»

«Está bem. Olha, e tens o cartão de crédito contigo?»

«Não, nem tenho a certeza onde estará. Tal

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