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A VIDA NãO é úTIL

Ailton Krenak  

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Excerto

Quando falo de Humanidade, não falo apenas do Homo sapiens. Refiro-me a uma imensidão de seres que excluímos desde sempre: caçamos baleias, cortamos barbatanas de tubarão, matamos leões e penduramo-los na parede para mostrar que somos mais bravos do que eles. Além da matança de todos os outros humanos que julgámos nada terem, que existiam só para nos suprir com roupa, comida, abrigo. Somos a praga do planeta, uma espécie de amiba gigante. Ao longo da História, os humanos, aliás, esse clube exclusivo da Humanidade — que está na declaração universal dos direitos humanos e nos protocolos das instituições —, foram devastando tudo ao seu redor. É como se tivessem elegido uma casta, a Humanidade, e todos os que estão fora dela sejam uma sub-Humanidade. Não são só os caiçaras, quilombolas e povos indígenas, mas toda a vida que, deliberadamente, largamos à margem do caminho. E o caminho é o progresso: esta ideia prospectiva de que caminhamos para algum lugar. Há um horizonte, dirigimo-nos para lá e vamos largando, no percurso, tudo o que não interessa, o que sobra, a sub-Humanidade — de que alguns de nós fazem parte.

É incrível que este vírus que está aqui agora apenas atinja pessoas. Foi uma manobra fantástica do organismo da Terra, esta de tirar a mama da nossa boca e dizer: «Respirem agora, quero ver.» Isto denuncia o artifício do tipo de vida que criámos, porque chega uma altura em que precisamos de uma másc

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