Toda a gente falava do livro. Nas ruas de Nova Iorque, eu não podia deambular em paz, não podia fazer jogging nas alamedas do Central Park sem me cruzar com transeuntes que me reconheciam e exclamavam: «Oh, é Goldman! É o escritor!» Por vezes acontecia alguns tentarem correr para me acompanharem e fazerem as perguntas que os intrigavam: «O que diz no seu livro é verdade? Harry Quebert procedeu realmente assim?» No café de West Village que eu frequentava, certos clientes não hesitavam em sentar-e à minha mesa para falar comigo: «Estou a ler o seu livro, Sr. Goldman: não consigo parar! O primeiro já era bom, mas este então! Pagaram-lhe mesmo um milhão de dólares para o escrever? Que idade tem? Só trinta anos? Trinta anos! E já amealhou tanto dinheiro!» Até o meu porteiro, que eu via avançar na leitura do livro sempre que entrava no prédio, acabara por me deter demoradamente em frente do elevador, depois de terminada a leitura, para me confiar o que lhe ia no coração: «Então, foi mesmo isto que se passou com Nola Kellergan? Que horror! Mas como se chega à quele ponto? Hem, Sr. Goldman, como é possÃvel?»
Toda a cidade de Nova Iorque se apaixonava pelo meu livro; fora publicado há duas semanas e já prometia ser o livro mais vendido do ano no continente americano. Toda a gente queria saber o que acontecera em Aurora em 1975. Falava-se dele em todo o lado: na televisão, na rádio, nos jornais. Eu tinha apenas trinta anos e com este livro, que era simplesmente o segundo da minha carreira, tornara-me o escritor mais famoso do paÃs.
O caso que agitava a América, e ao qual fora beber o essencial da minha narrativa, eclodira alguns meses antes, no inÃcio do Verão, quando foram encontrados os restos mortais de uma jovem desaparecida trinta e três anos antes. Foi assim que teve inÃcio a série de acontecimentos que aqui serão relatados e sem os quais a pequena cidade de Aurora teria certamente continuado a ser desconhecida no resto da América.
Primeira Parte
A DOENÇA DOS ESCRITORES
(Oito meses antes da publicação do livro)
31. Nos abismos da memória
— O primeiro capÃtulo, Marcus, é essencial. Se os leitores não gostarem, não lerão o resto do livro. Como tenciona começar o seu?
— Não sei, Harry. Pensa que algum dia conseguirei?
— Conseguirá o quê?
— Escrever um livro.
— Tenho a certeza.
No inÃcio de 2008, ou seja, um ano e meio depois de me ter tornado, graças ao meu primeiro romance, a nova coqueluche das letras americanas, fui atingido por uma terrÃvel crise da página em branco, sÃndroma que, segundo consta, não é rara entre os escritores que conheceram um sucesso imediato e retumbante. A doença não se manifestara de repente: foi-se instalando lentamente dentro de mim. Era como se o meu cérebro, atingido, paralisasse a pouco e pouco. Quando surgiram os primeiros sintomas, não quis dar-lhes importância: disse para comigo que a inspiração voltaria no dia seguinte ou no outro ou dois dias depois. Mas os dias, as semanas e os meses foram passando e a inspiração nunca mais regressava.
A minha descida aos infernos desenrolara-se em três fases. A primeira, indispensável a toda a queda vertiginosa digna desse nome, fora uma ascensão fulgurante: o meu primeiro romance vendera dois milhões de exemplares, catapultando-me, aos vinte e oito anos de idade, para a categoria de escritor de sucesso. Corria o Outono de 2006 e, em escassas semanas, o meu nome tornou-se um nome: aparecia em todo o lado, na televisão, nos jornais, em capas de revistas. O meu rosto figurava em enormes painéis publicitários nas estações de metro. Os crÃticos literários mais exigentes dos grandes jornais diários da costa leste eram unânimes: o jovem Marcus Goldman seria um grande escritor.
Um livro, um único, e eu já me via a abrir as portas de uma nova vida: a das jovens vedetas milionárias. Saà de casa dos meus pais em Montclair, Nova Jérsia, para me instalar num espaçoso apartamento do Village, troquei o meu Ford em terceira mão por um Range Rover preto a brilhar de novo, com vidros fumados, comecei a frequentar os restaurantes famosos, contratei um agente literário para gerir a minha agenda e via jogos de basebol num ecrã gigante no meu novo apartamento. Arrendei, a dois passos do Central Park, um escritório no qual uma secretária ligeiramente apaixonada por mim e de nome Denise organizava a minha correspondência, preparava o meu café e arquivava os meus documentos importantes.
Durante os seis primeiros meses que se seguiram à saÃda do livro, limitara-me a gozar a doçura da minha nova existência. De manhã, passava pelo escritório para folhear os artigos que tivessem sido publicados a meu respeito e ler as dezenas de cartas de admiradores que recebia todos os dias e que Denise arquivava de seguida em grandes dossiers. Depois, satisfeito comigo mesmo e considerando que trabalhara o suficiente, ia passear pelas ruas de Manhattan, onde os transeuntes sussurravam à minha passagem. Consagrava o resto dos dias a desfrutar dos novos direitos que o facto de estar a ficar célebre me concedia: direito de comprar tudo o que me apetecesse, direito aos camarotes VIP do Madison Square Garden para ver os jogos dos Rangers, direito de partilhar a passadeira vermelha com estrelas da música cujos discos, quando era mais jovem, nunca deixara de comprar, direito de sair com Lydia Gloor, a actriz principal da série televisiva do momento e que toda a gente disputava. Eu era um escritor célebre; tinha a impressão de exercer o mais belo ofÃcio do mundo. E, convicto de que o meu sucesso duraria para sempre, não me preocupara com as primeiras advertências do meu agente e do meu editor, que me pressionavam para retomar o trabalho e começar a escrever o meu segundo romance.
Foi durante os seis meses que se seguiram que me apercebi de que o vento estava a mudar: as cartas de admiradores começaram a rarear e, na rua, passei a ser menos abordado. Em breve, os transeuntes que ainda me reconheciam começaram a perguntar-me: «Sr. Goldman, qual será o tema do seu próximo livro? E quando sairá?» Compreendi que teria de me lançar ao trabalho, e foi o que fiz: apontara algumas ideias em folhas soltas e esboçara sinopses no meu computador. Mas nada de bom. Pensei então noutras ideias e esbocei outras sinopses. Mas também sem sucesso. Por fim, comprei outro computador, na esperança de que viesse com boas ideias e excelentes sinopses. Mas em vão. Em seguida, tentei mudar de método: requisitei a presença de Denise até altas horas da noite para lhe ditar o que pensei serem grandes frases, palavras certas e arranques de romances excepcionais. Mas, no dia seguinte, as palavras pareciam-me toscas, as frases coxas e os meus arranques, derrotas. Entrava na segunda fase da minha doença.
No Outono de 2007, passara já um ano desde que o meu primeiro livro fora publicado e ainda não escrevera nem uma linha do seguinte. Quando deixou de haver cartas para arquivar já ninguém me reconhecia nos locais públicos e, nas grandes livrarias da Broadway, os cartazes com a minha efÃgie desapareceram, compreendi que a glória era efémera. Era uma górgone esfaimada, e quem não a alimentasse via-se rapidamente substituÃdo: os polÃticos do momento, a estrela do último reality show, o grupo de rock que acabara de triunfar tinham reclamado para si a minha quota-parte de atenção. Porém, só tinham passado uns meros doze meses desde a publicação do meu livro: um lapso de tempo ridiculamente curto, na minha opinião, mas que, à escala da Humanidade, correspondia a uma eternidade. Durante aquele mesmo ano, só na América, tinham nascido um milhão de crianças, outro milhão de pessoas tinham morrido, uma boa dezena de milhares fora abatida, meio milhão mergulhara na droga, um milhão tinham-se tornado milionárias, dezassete milhões tinham trocado de telemóvel, cinquenta mil tinham morrido num acidente de viação e, nas mesmas circunstâncias, dois milhões tinham ficado feridas com maior ou menor gravidade. Quanto a mim, escrevera um único livro.
Schmid & Hanson, a poderosa editora nova-iorquina que me oferecera uma atraente quantia em dinheiro para publicar o meu primeiro romance e depositara grandes esperanças em mim, pressionava o meu agente, Douglas Claren, que, por sua vez, me perseguia a mim. Dizia-me que o tempo corria, que eu devia absolutamente apresentar um novo manuscrito, e eu esforçava-me por me tranquilizar a mim próprio, afirmando-lhe que o segundo romance avançava a bom ritmo e que não havia motivos para preocupações. Mas, não obstante as horas que passava fechado no meu escritório, as páginas continuavam em branco: a inspiração desaparecera sem dar sinal e eu nunca mais a encontrara. E à noite, na cama, incapaz de conciliar o sono, sonhava que em breve, e antes de completar trinta anos, o grande Marcus Goldman deixaria de existir. Este pensamento inquietou-me tanto que decidi fazer umas férias para aclarar as ideias: ofereci-me um mês num hotel de Miami, com o pretexto de me inspirar, intimamente convencido de que o descanso à sombra das palmeiras me permitiria reencontrar o pleno uso do meu génio criador. Mas a Florida não passava, evidentemente, de uma magnÃfica tentativa de fuga e o filósofo Séneca, dois mil anos antes de mim, já passara por esta penosa situação: para onde quer que fujamos, levamos na bagagem os nossos problemas, que nos perseguem por toda a parte. Era como se, mal chegado a Miami, um simpático bagageiro cubano não me tivesse largado depois de sair do aeroporto e me tivesse dito:
— É o Sr. Goldman?
— Sou.
— Então isto pertence-lhe.
Ao mesmo tempo, estendia-me um envelope contendo um maço de folhas de papel.
— São as minhas folhas em branco?
— São, Sr. Goldman. Não ia com certeza sair de Nova Iorque sem as levar consigo!
Foi assim que passei aquele mês sozinho, na Florida, fechado numa suite com os meus demónios, miserável e despeitado. No meu computador, ligado dia e noite, o documento que eu intitulara novo romance.doc continuava desesperadamente virgem. Compreendi que contraÃra uma doença muito disseminada no meio artÃstico no dia em que ofereci uma margarita ao pianista do bar do hotel. Instalado ao balcão, o homem contou-me que, em toda a vida, escrevera uma única canção, mas que essa canção fizera um sucesso dos diabos. De tal maneira que nunca mais pudera escrever outra, e agora, arruinado e infeliz, sobrevivia tocando os êxitos dos outros para os clientes dos hotéis. «Naquele tempo, fiz digressões inacreditáveis pelas maiores salas do paÃs», disse-me ele, agarrando-se ao colarinho da minha camisa. «Dez mil pessoas gritando o meu nome, mulheres que desmaiavam e outras que me atiravam as cuecas. Era qualquer coisa.» E, depois de ter lambido, como um cachorro, o sal do rebordo do copo, acrescentou: «Juro-te que é verdade.» O pior, justamente, é que eu sabia ser verdade.
A terceira fase das minhas desventuras começou logo que regressei a Nova Iorque. No avião que me trazia de Miami, li um artigo sobre um jovem autor que acabara de publicar um romance exaltado pela crÃtica, e, à minha chegada a LaGuardia, vi o seu rosto em grandes cartazes no hall de recolha das bagagens. A vida escarnecia de mim: não só fora esquecido como, pior ainda, estava a ser substituÃdo. Douglas, que me esperava no aeroporto, estava furioso: a Schmid & Hanson, cuja paciência se esgotara, queria uma prova de que eu avançava e de que em breve estaria em condições de lhes entregar um novo manuscrito.
— Isto vai mal — disse-me ele no automóvel enquanto me levava para Manhattan. — Diz-me que a Florida te revigorou e que tens um livro já bem avançado! Agora há aquele tipo de quem toda a gente fala… O livro dele vai ser o grande sucesso do Natal. E tu, Marcus? Que tens para nos oferecer para o Natal?
— Vou meter mãos à obra! — exclamei eu, em pânico. — Vou conseguir! Vamos fazer uma grande campanha publicitária e vai correr tudo bem! As pessoas gostaram do primeiro livro, portanto gostarão do próximo!
— Marc, não compreendes: isso poderia ter acontecido há alguns meses. Era a estratégia: aproveitar o teu sucesso, alimentar o público, dar-lhe o que ele pedia. O público queria Marcus Goldman, mas, como o Marcus Goldman foi passear para a Florida, os leitores foram comprar o livro de outro autor qualquer. Estudaste um pouco de economia, Marc? Os livros tornaram-se um produto descartável: as pessoas querem um livro que lhes agrade, que as descontraia, que as divirta. E, se não fores tu a dar-lhes esse livro, será o teu vizinho, e o teu destino será o caixote do lixo.
Aterrado pelos oráculos de Douglas, lancei-me ao trabalho como nunca: começava a escrever às seis horas da manhã, e nunca parava antes das nove ou dez da noite. Dias inteiros passados no meu escritório, a escrever sem parar, arrebatado pelo frenesim do desespero, alinhando palavras, alinhavando frases e multiplicando as ideias para o romance. Mas, para minha grande desgraça, não produzia nada de válido. Denise, por seu lado, passava os dias a preocupar-se com o meu estado. Como já nada tinha para fazer, nem ditados nem correspondência para arquivar nem café para me servir, andava de um lado para o outro no corredor. E, quando já não suportava a situação, tamborilava na minha porta.
— Por favor, Marcus, abra-me a porta! — gemia ela. — Saia desse escritório, vá dar um passeio pelo parque. Ainda não comeu nada hoje!
Eu respondia-lhe, gritando:
— Não tenho fome! Não tenho fome! Quem não escreve não come!
Denise quase soluçava.
— Não diga tolices, Marcus. Vou ao deli da esquina comprar sanduÃches de roast-beef, as suas preferidas. Vou num instante! Num instante!
Eu ouvia-a pegar na carteira e precipitar-se até à porta da entrada e depois correr escada a baixo, como se a sua pressa pudesse alterar a minha situação no que quer que fosse. Na verdade, eu tomara finalmente consciência do mal que me atingia: escrever um livro partindo do nada parecera-me muito fácil, mas agora que me lançara ao trabalho, agora que precisava de assumir o meu talento e repetir a caminhada extenuante rumo ao sucesso que é a escrita de um bom romance, já não me sentia capaz. Fora atingido pela doença dos escritores e não tinha quem me ajudasse: aqueles com quem falava do caso diziam-me que não tinha importância, que era com certeza muito comum e que, se não escrevesse hoje, o faria amanhã. Experimentei, durante dois dias, trabalhar no meu antigo quarto, em casa dos meus pais, em Montclair, precisamente onde encontrara inspiração para o meu primeiro romance. Mas esta tentativa saldou-se por um fracasso lamentável, ao qual a minha mãe talvez não tenha sido alheia, em particular por ter passado esses dois dias sentada ao meu lado, a esquadrinhar o ecrã do meu computador portátil e a repetir: «Está muito bem, Markie.»
— Mãe, não escrevi uma única linha — acabei por dizer.
— Mas eu sinto que vai ficar muito bem.
— Mãe, se me deixasses sozinho…
— Sozinho porquê? Dói-te a barriga? Tens gases? Podes soltá-los à minha frente, meu querido. Sou tua mãe.
— Não, não tenho gases, mãe.
— Então tens fome? Queres panquecas? Gaufres? Qualquer coisa salgada? Uns ovos talvez?
— Não, não tenho fome.
— Então porque queres que me vá embora? Estás a tentar dizer que a presença da mulher que te trouxe ao mundo te perturba?
— Não, não me perturbas, mas…
— Mas o quê?
— Nada, mãe.
— Precisavas de ter uma namorada, Markie. Julgas que não sei que te zangaste com aquela actriz da televisão? Como é que ela se chama?
— Lydia Gloor. De qualquer modo, não estávamos propriamente juntos, mãe. Enfim, foi só uma história passageira.
— Uma história passageira, uma história passageira! É o que fazem os jovens de hoje: histórias passageiras e, aos cinquenta anos, estão carecas e sem famÃlia!
— O que é que isso tem a ver com ser careca, mãe?
— Nada. Mas achas normal que eu saiba que andas com essa rapariga através de uma revista? Que filho faz isso à mãe? Imagina que, antes de partires para a Florida, fui ao Scheingetz, o cabeleireiro, não o talhante, e toda a gente olhou para mim com um ar estranho. Perguntei o que se passava e a Sr.ª Berg, que estava a fazer uma permanente, apontou para a revista que estava a ler: vi uma fotografia tua e dessa Lydia Gloor, na rua, juntos, e o tÃtulo do artigo dizia que se tinham separado. Todo o salão de cabeleireiro sabia que tinham rompido e eu nem sequer sabia que namoravas com aquela rapariga! Claro que não quis passar por uma tonta: disse que era uma mulher encantadora e que jantara muitas vezes em nossa casa.
— Mãe, não te falei do caso porque não era nada sério. Não era a mulher indicada, compreendes?
— Mas nunca é a mulher indicada! Não acertas numa que seja, Markie! É este o problema. Julgas que uma actriz de televisão é capaz de tomar conta de uma casa? Sabes, ontem encontrei a Sr.ª Emerson no supermercado: a filha também é solteira. Era perfeita para ti. Além disso, tem dentes muito bonitos. Queres que lhe diga que passe cá agora?
— Não, mãe. Estou a tentar trabalhar.
Naquele momento, bateram à porta.
— Devem ser elas — disse a minha mãe.
— Como assim, são elas?
— A Sr.ª Emerson e a filha. Disse-lhes que viessem tomar chá às quatro horas. São quatro horas em ponto. Uma mulher como deve ser é uma mulher pontual. Já estás a gostar dela, não é?
— Convidaste-as para tomar chá? Despacha-as imediatamente, mãe! Não quero vê-las! Tenho um livro para escrever, que diabo! Não estou aqui para brincar aos jantarinhos, preciso de escrever um romance!
— Oh, Markie, fazia-te mesmo falta uma namorada. Uma namorada de quem ficasses noivo e com quem te casasses. Pensas demasiado em livros e muito pouco em casamento…
Ninguém compreendia a gravidade da situação: precisava imperativamente de um novo livro, nem que fosse para respeitar as cláusulas do contrato que me ligava à minha editora. Durante o mês de Janeiro de 2008, Roy Barnaski, o poderoso director da Schmid & Hanson, convocou-me ao seu gabinete no 51.º andar de uma torre da Lexington Avenue para me chamar seriamente à ordem: «Então, Goldman, quando verei o novo manuscrito?», grunhiu ele. «O nosso contrato diz respeito a cinco livros: lance-se ao trabalho, e rapidamente! Preciso de resultados, temos de ganhar dinheiro! Está atrasado nos prazos! Está atrasado em tudo! Viu o tipo que publicou o livro a tempo do Natal? Ocupou o seu lugar junto do público! O agente dele diz que o próximo romance está quase terminado. E o seu? Está a fazer-nos perder dinheiro! Portanto, despache-se e remedeie a situação. Apresente uma grande obra, escreva um bom livro e salve a sua honra. Dou-lhe seis meses, até Junho.» Seis meses para escrever um livro, quando eu estava bloqueado há quase um ano e meio. Era impossÃvel. Pior ainda, Barnaski, ao impor-me aquele prazo, não me informara sobre as consequências a que me sujeitava se não o cumprisse. Foi Douglas que se encarregou de o fazer, duas semanas mais tarde, durante a enésima conversa no meu apartamento. Disse-me: «Vais ter de escrever, meu caro, não podes continuar a fingir. Assinaste um contrato para cinco livros! Cinco livros! O Barnaski está furioso, perdeu a paciência… Disse-me que alargou o prazo até Junho. E sabes o que acontecerá se falhares? Denunciam o contrato, levam-te a tribunal e serás chupado até à medula. Ficas teso e podes dizer adeus à tua bela vida, ao teu belo apartamento, aos sapatos italianos, ao automóvel potente: ficarás sem nada. Uma sangria.» Assim, eu, que um ano antes era considerado a nova estrela da literatura deste paÃs, transformara-me no grande desespero, a grande lesma da edição norte-americana. Lição número dois: para além de ser efémera, a glória tinha as suas consequências. Na noite que se seguiu à advertência de Douglas, peguei no telefone e marquei o número da única pessoa que achei que poderia tirar-me do mau caminho: Harry Quebert, meu antigo professor na universidade e, sobretudo, um dos autores mais lidos e mais respeitados da América, com quem tinha uma relação muito próxima há uma dezena de anos, desde que fora seu aluno na universidade de Burrows, no Massachusetts.
Naquele momento, fazia mais de um ano que não o via e há quase o mesmo tempo que não lhe telefonava. Liguei para casa dele, em Aurora, no New Hampshire. Ao ouvir a minha voz, disse-me num tom trocista:
— Oh, Marcus! É mesmo consigo que estou a falar? IncrÃvel. Desde que se tornou uma vedeta, nunca mais deu notÃcias. Tentei telefonar-lhe há um mês e respondeu-me a sua secretária, que me disse que não estava para ninguém.
Respondi-lhe sem rodeios:
— Está tudo a correr mal, Harry. Creio que já não sou escritor.
Ele respondeu logo, com um tom sério:
— Que história é essa, Marcus?
— Não sei, que escrever, estou acabado. Página em branco. Há meses. Talvez um ano.
Ele soltou uma gargalhada tranquilizadora e calorosa.
— Bloqueio mental, Marcus, é o que é! As páginas em branco são tão estúpidas como os falhanços no desempenho sexual: é o pânico do génio, precisamente o que deixa o seu pénis completamente mole quando se prepara para brincar aos médicos com uma das suas admiradoras e só pensa em proporcionar-lhe um orgasmo de tal ordem que possa ser medido pela escala de Richter. Não se preocupe com o génio, limite-se a juntar palavras. O génio vem naturalmente.
— Acha que sim?
— Tenho a certeza. Mas devia abandonar um pouco as festas mundanas e os canapés. Escrever é uma coisa séria. Julguei que tinha inculcado esta ideia dentro de si.
— Mas eu trabalho arduamente! Não faço outra coisa! E, apesar disso, não saio do mesmo sÃtio.
— Então, é porque lhe falta um ambiente propÃcio. Nova Iorque é muito bonita mas é, sobretudo, muito ruidosa. Porque não vem até cá, a minha casa, como no tempo em que era estudante?
Afastar-me de Nova Iorque e mudar de ares. Nunca um convite ao exÃlio me parecera mais sensato. Partir à procura da inspiração para um novo livro na provÃncia na companhia do meu velho professor: era exactamente o que me convinha. Foi assim que, uma semana mais tarde, em meados de Fevereiro de 2008, me instalei em Aurora, New Hampshire. Precisamente alguns meses antes dos acontecimentos dramáticos que me preparo para vos contar aqui.
***
Antes do caso que agitou a América durante o Verão de 2008, ninguém ouvira falar de Aurora. É uma pequena cidade à beira-mar, a cerca de quinze minutos da fronteira com o Massachusetts. A rua principal inclui um cinema — cuja programação está sempre atrasada em relação ao resto do paÃs —, alguns estabelecimentos, uma estação dos Correios, uma esquadra da polÃcia e um punhado de restaurantes, como o Clark’s, o diner histórico da cidade. A toda a volta, bairros tranquilos de casas de madeira coloridas com alpendres aprazÃveis, encimadas por telhados de ardósia e rodeadas por jardins de relvados impecavelmente cuidados. É uma América dentro da América, onde os habitantes não fecham a porta à chave; um desses lugares como só existem na Nova Inglaterra, tão calmo que parece protegido de tudo.
Eu conhecia bem Aurora por lá ter ido várias vezes visitar Harry quando era seu aluno. Habitava uma magnÃfica casa de pedra e madeira de pinho maciço, situada fora da cidade, na estrada n.º 1 em direcção ao Maine, e construÃda à beira de um braço de mar assinalado nos mapas com o nome Goose Cove. Era uma casa de escritor, virada para o mar, com um terraço para aproveitar os dias de bom tempo, do qual uma escada conduzia directamente à praia. As imediações eram de uma tranquilidade selvagem: a floresta costeira, as extensões de seixos e de pedras gigantes, os maciços lagunares de fetos e musgo, alguns caminhos para passear ao longo do areal. PoderÃamos pensar-nos no fim do mundo se não nos soubéssemos apenas a escassas milhas da civilização. E era fácil imaginar o velho escritor produzindo as suas obras-primas no terraço, inspirado pelas marés e pelo sol-poente.
A 10 de Fevereiro de 2008, parti de Nova Iorque, no auge da minha crise da página em branco. O paÃs, esse, já fervilhava com a proximidade das eleições presidenciais: alguns dias antes, a Super Tuesday (que, a tÃtulo excepcional, se realizara no mês de Fevereiro e não em Março, prova de que o ano seria fora do comum) oferecera o tÃtulo republicano ao senador McCain, enquanto nos democratas a batalha entre Hilary Clinton e Barack Obama continuava acesa. Fiz o trajecto de automóvel até Aurora de uma só vez. Nevara muito no Inverno e as paisagens que desfilavam à minha volta estavam cobertas de branco. Eu gostava do New Hampshire: apreciava a tranquilidade, apreciava as imensas florestas, apreciava os lagos cheios de nenúfares onde se podia tomar banho no Verão e patinar no Inverno, apreciava o facto de ali não se pagarem taxas nem impostos sobre os rendimentos. Naquele Estado libertário, a divisa VIVER LIVRE OU MORRER, cunhada nas placas de matrÃcula dos automóveis que me ultrapassavam na auto-estrada, resumia bem o forte sentimento de liberdade que me impressionara em cada uma das minhas estadias em Aurora. Lembro-me, de resto, de ter, experimentado logo, ao chegar a casa de Harry nesse dia, a meio de uma tarde tão fria quanto enevoada, uma sensação de apaziguamento interior. O professor esperava-me ao cimo das escadas da entrada, agasalhado num enorme casaco de Inverno. Desci do automóvel, ele veio ao meu encontro, pousou as mãos nos meus ombros e brindou-me com um largo sorriso reconfortante.
— Que se passa, Marcus?
— Não sei, Harry…
— Então, então. Sempre foi um jovem demasiado sensÃvel.
Ainda antes de arrumar a bagagem, instalámo-nos na sala para conversar um pouco. Serviu-nos café. Na lareira, o fogo crepitava; estava-se bem dentro de casa, observando, através da imensa parede envidraçada, o oceano atormentado pelos ventos gelados e a neve húmida que caÃa nos rochedos.
— Já não me lembrava de que isto aqui era tão bonito — murmurei.
Ele aquiesceu.
— Verá, meu caro Marcus, que tratarei bem de si. Vai escrever-nos um romance imbatÃvel. Não se enerve, todos os bons escritores passam por este género de momentos difÃceis.
Harry tinha o ar sereno e confiante que eu sempre lhe conhecera. Era um homem que eu nunca vira duvidar: carismático, seguro de si, a sua simples presença irradiava uma autoridade natural. Tinha sessenta e sete anos e um belo aspecto, com a farta cabeleira grisalha sempre bem penteada, ombros largos e um corpo forte que testemunhava a sua longa prática de boxe. Era pugilista, e fora precisamente através deste desporto, que eu próprio praticava com regularidade, que tÃnhamos simpatizado um com o outro na universidade de Burrows.
Os laços que me uniam a Harry, e aos quais voltarei um pouco mais adiante nesta narrativa, eram poderosos. Ele entrara na minha vida durante o ano de 1998, quando entrei na universidade de Burrows, Massachusetts. Nessa época, ele tinha cinquenta e sete anos. Há cerca de quinze anos que ele animava o Departamento de Literatura daquela modesta universidade de provÃncia, de atmosfera acolhedora e frequentada por estudantes simpáticos e educados. Antes disso, conhecia Harry-Quebert-o-grande-escritor apenas de nome, como toda a gente; em Burrows relacionei-me com Harry, simplesmente Harry, aquele que se tornaria um dos meus amigos mais Ãntimos, apesar da diferença de idades, e que me ensinaria a tornar-me escritor. Ele próprio conhecera a consagração em meados dos anos 1970, quando vendeu quinze milhões de exemplares do seu segundo livro, As Origens do Mal, com que conquistou o National Literary Award e o National Book Award, os dois prémios literários mais prestigiados do paÃs. A partir daÃ, publicava a um ritmo regular e assinava uma crónica mensal muito apreciada no Boston Globe. Era uma das grandes figuras da elite intelectual americana: proferia inúmeras conferências, era muitas vezes solicitado para acontecimentos culturais importantes; a sua opinião sobre as questões polÃticas contava. Era um homem muito respeitado, um dos motivos de orgulho do paÃs, aquilo que a América podia produzir de melhor. Indo passar algumas semanas em sua casa, esperava que ele conseguisse transformar-me de novo num escritor e ensinar-me a vencer o abismo da página em branco. Pude, porém, constatar que, se Harry considerava, sem dúvida, a minha situação difÃcil, nem por isso ela se lhe afigurava anormal. «Por vezes, os escritores têm falhas, faz parte dos riscos do ofÃcio», explicou-me ele. «Lance-se ao trabalho, verá que isso se desbloqueará sozinho.» Instalou-me no seu gabinete do rés-do-chão, onde escrevera todos os seus livros, entre os quais As Origens do Mal. Passei lá longas horas a tentar escrever, mas mantive-me sobretudo absorto pelo oceano e pela neve do outro lado da janela. Quando me levava café ou qualquer coisa para comer, Harry olhava para a minha expressão desesperada e procurava levantar-me o ânimo. Certa manhã, acabou por me dizer:
— Não faça essa cara, Marcus, parece que está para morrer.
— É muito parecido…
— Então, preocupe-se com o andar do mundo, com a guerra do Iraque, não com miseráveis livros… ainda é muito cedo. É irritante, sabe: cria toda uma história porque tem dificuldade em conseguir alinhavar três linhas. Procure encarar as coisas de frente: escreveu um livro formidável, tornou-se rico e célebre, e o seu segundo livro tem alguma dificuldade em lhe sair da cabeça. Não há nada de estranho nem de preocupante nesta situação…
— Mas o Harry… Alguma vez teve este problema?
Harry soltou uma sonora gargalhada.
— A página em branco? Está a brincar? Meu caro amigo, muito mais vezes do que possa imaginar!
— O meu editor diz que, se eu não escrevo um novo livro agora, é o fim.
— Sabe o que é um editor? É um escritor falhado cujo pai tinha dinheiro suficiente para poder apropriar-se do talento dos outros. Vai ver, Marcus, tudo entrará rapidamente na ordem. Tem uma grande carreira à sua frente. O seu primeiro livro foi notável, o segundo será ainda melhor. Não se preocupe, vou ajudá-lo a reencontrar a inspiração.
Não posso afirmar que o meu retiro em Aurora me restituiu a inspiração, mas, não posso negar fez-me muito bem. A Harry também, porque, eu sabia-o, ele sentia-se muitas vezes só: era um homem sem famÃlia e tinha poucas distracções. Foram dias felizes. Foram, na realidade, os últimos dias felizes que passámos juntos. Demos longos passeios à beira do oceano, ouvimos os grandes clássicos da ópera, calcorreámos as pistas de esqui de fundo, apreciámos os acontecimentos culturais locais e organizámos expedições pelos supermercados da região à procura de pequenas salsichas de cocktail que eram vendidas a favor dos veteranos do exército americano e que Harry adorava, considerando que justificavam só por si a intervenção militar no Iraque. Também Ãamos com frequência almoçar ao Clark’s, beber café durante tardes inteiras e dissertar sobre a vida como fazÃamos no tempo em que eu era seu aluno. Toda a gente em Aurora conhecia e respeitava Harry, e há muito que as pessoas me conheciam também a mim. As duas pessoas com quem eu tinha mais afinidades eram Jenny Dawn, a dona do Clark’s, e Erne Pinkas, o benévolo bibliotecário municipal, muito próximo de Harry e que à s vezes ia a Goose Cove ao fim do dia para beber um copo de uÃsque. Eu próprio ia todas as manhãs à biblioteca para ler o New York Times. No primeiro dia, reparei que Erne Pinkas pusera um exemplar do meu livro num expositor bem em destaque. Mostrara-mo com orgulho, dizendo: «Vês, Marcus, o teu livro está em primeiro lugar. É o livro mais solicitado no último ano. Para quando o próximo?» «Para dizer a verdade, estou com alguma dificuldade em começá-lo. É por isso que estou aqui.» «Não te preocupes. Vais encontrar uma ideia genial, tenho a certeza. Algo muito cativante.» «O quê? «Não sei, o escritor és tu. Mas terás de descobrir um tema que apaixone as multidões.»
No Clark’s, Harry ocupava a mesma mesa há trinta anos, a n.º 17, na qual Jenny aparafusara uma placa de metal com a seguinte inscrição:
Foi sentado a esta mesa que, durante o Verão
de 1975, o escritor Harry Quebert redigiu o
seu célebre romance As Origens do Mal
Eu conhecia aquela placa, desde sempre, mas nunca lhe prestara uma verdadeira atenção. Foi durante aquela estadia que comecei a interessar-me por ela mais de perto, contemplando-a demoradamente. Aquela série de palavras gravadas no metal depressa me obcecou: sentado àquela miserável mesa de madeira pegajosa de gordura e de melaço, naquele diner de uma pequena cidade do New Hampshire, Harry escrevera uma imensa obra-prima, a que fizera dele uma lenda da literatura. Como lhe ocorrera tamanha inspiração? Eu também queria sentar-me àquela mesa, escrever e ser atingido pelo génio. Assim, lá me instalei com papéis e canetas, durante duas tardes consecutivas. Mas sem sucesso. Acabei por perguntar a Jenny:
— É mesmo verdade, ele sentava-se a esta mesa e escrevia?
Ela disse que sim com a cabeça:
— O dia inteiro, Marcus. Todo o santo dia. Nunca parava. Foi no Verão de 1975, lembro-me muito bem.
— E que idade tinha ele em 1975?
— A tua idade. Mais ou menos trinta anos. Talvez um pouco mais.
Eu sentia uma espécie de raiva fervilhar dentro de mim: eu também queria escrever uma obra-prima, também queria escrever um livro que se tornasse uma referência. Harry apercebeu-se da gravidade da situação quando, após quase um mês de estadia em Aurora, verificou que eu ainda não escrevera uma linha. A cena desenrolou-se no princÃpio de Março, no escritório de Goose Cove, onde eu aguardava a Iluminação divina e onde ele entrou, munido de um avental de mulher, para me oferecer bolos fritos que acabara de fazer.
— Isso avança? — perguntou-me ele.
— Estou a escrever uma obra grandiosa — respondi eu, estendendo-lhe o maço de folhas que o bagageiro cubano me entregara três meses antes.
Harry pousou o tabuleiro e apressou-se a observá-las, constatando que não passavam de páginas em branco.
— Ainda não escreveu nada? Há três semanas que aqui está e não escreveu nada?
Exaltei-me:
— Nada! Nada! Nada de jeito! Só ideias para um mau romance!
— Mas, meu Deus, Marcus, que é que quer escrever senão um romance?
Respondi sem sequer reflectir:
— Uma obra-prima! Quero escrever uma obra-prima!
— Uma obra-prima?
— Sim. Quero escrever um grande romance, com grandes ideias! Quero escrever um livro que marque os espÃritos.
Harry contemplou-me por momentos e soltou uma gargalhada:
— A sua ambição desmedida chateia-me, Marcus, há muito que lho digo. Vai tornar-se um grande escritor, sei-o bem, estou convencido disso desde que o conheço. Mas quer saber qual é o seu problema? É demasiado precipitado! Que idade tem ao certo?
— Trinta anos.
— Trinta anos! E já quer ser uma espécie de cruzamento entre Saul Bellow e Arthur Miller? A glória virá, não tenha pressa. Eu próprio tenho sessenta e sete anos e sinto-me apavorado: o tempo passa depressa, sabe, e cada ano que passa é um ano a menos que não poderei recuperar. Que pensava, Marcus? Que ia escrever um segundo romance como quem põe um ovo? Uma carreira constrói-se, meu caro. Quanto a escrever um grande romance, não são precisas grandes ideias: limite-se a ser quem é e certamente chegará lá. Não estou preocupado consigo. Ensino Literatura há vinte e cinco anos, vinte e cinco longos anos, e o Marcus é a pessoa mais brilhante que encontrei.
— Obrigado.
— Não me agradeça, é a simples verdade. Mas não venha para aqui com lamentações por ainda não ter recebido o Prémio Nobel, meu Deus… Trinta anos… Ora, eu dou-lhe os grandes romances… Prémio Nobel da ParvoÃce, é o que você merece.
— Mas como conseguiu, Harry? O seu livro, em 1976, As Origens do Mal. É uma obra-prima! Era apenas o seu segundo livro… Como conseguiu? Como se escreve uma obra-prima?
Harry sorriu com tristeza:
— Marcus: as obras-primas não se escrevem. Existem por si mesmas. E depois, sabe, aos olhos de muitos, foi, afinal, o único livro que escrevi… Ou seja, nenhum dos outros que se seguiram alcançou o mesmo sucesso. Quando falam de mim, pensam logo e quase unicamente n’ As Origens do Mal. E é triste, porque creio que se, aos trinta anos, me tivessem dito que atingira o auge da minha carreira, ter-me-ia atirado ao mar, com certeza. Não seja tão apressado.
— Arrepende-se de ter escrito o livro?
— Talvez… De certo modo… Não sei… O arrependimento é um conceito que não aprecio: significa que não assumimos aquilo que fomos.
— Mas então que devo fazer?
— O que sempre fez melhor: escrever. E, se posso dar-lhe um conselho, Marcus, não faça como eu. Temos grandes semelhanças, como sabe, por isso peço-lhe encarecidamente que não repita os erros que eu cometi.
— Que erros?
— No ano em que aqui cheguei, em 1975, queria muito escrever um grande romance, andava obcecado pela ideia e pela vontade de me tornar um grande escritor.
— E conseguiu…
— Não está a compreender: hoje sou, com certeza, um grande escritor, como diz, mas vivo sozinho nesta enorme casa. A minha vida é vazia, Marcus. Não faça como eu… Não se deixe levar pela ambição. Senão, o seu coração ficará sozinho e a sua escrita será triste. Porque não tem namorada?
— Não tenho namorada porque não encontro alguém que me agrade verdadeiramente.
— O que me parece é que você faz amor como escreve: ou é o êxtase ou é o nada. Procure uma pessoa de bem e dê-lhe uma oportunidade. Faça o mesmo em relação ao livro: dê também uma oportunidade a si próprio. Dê uma oportunidade à sua vida! Sabe qual é a minha principal ocupação? Dar de comer à s gaivotas. Guardo pão seco, naquela lata que está na cozinha com a inscrição RECORDAÇÃO DE ROCKLAND, MAINE, e vou lançá-lo à s gaivotas. Você não devia passar o tempo a escrever…
Apesar dos conselhos que Harry tentava dar-me, fiquei deslumbrado por esta ideia: como é que ele, na minha idade, tivera a ideia, o momento de génio, que lhe permitira escrever As Origens do Mal? Esta interrogação obcecava-me cada vez mais, e, como Harry me instalara no seu escritório, permiti-me investigar um pouco. Estava longe de imaginar o que ia descobrir. Tudo começou quando abri uma gaveta à procura de uma caneta e deparei com um caderno manuscrito e algumas folhas soltas: originais de Harry. Senti uma grande excitação: encontrava-me perante a ocasião inesperada de compreender como Harry trabalhava, de saber se os seus cadernos estavam cobertos de rasuras ou se o génio surgia naturalmente dentro dele. Insaciável, comecei a explorar a estante em busca de outros cadernos. Para ficar com o campo livre, precisava de esperar que Harry se ausentasse de casa; ora, acontecia que a quinta-feira era o dia em que ele dava aulas em Burrows, saindo de manhã cedo e só regressando, em geral, ao fim do dia. Foi assim que, na tarde do dia 6 de Março de 2008, quinta-feira, se deu um acontecimento que decidi esquecer de imediato: descobri que Harry mantivera uma ligação com uma jovem de quinze anos, quando ele próprio tinha trinta e quatro. Acontecera por volta de 1975.
Descobri o segredo quando, esquadrinhando freneticamente e sem pudor as prateleiras do se escritório, encontrei, escondida atrás dos livros, uma grande caixa de madeira lacada, fechada por uma tampa de dobradiças. Pressenti ter encontrado um tesouro, porventura o manuscrito de As Origens do Mal. Peguei na caixa e abri-a, mas, para meu grande embaraço, não havia qualquer manuscrito no interior: apenas uma série de fotografias e artigos de jornais. As fotografias representavam Harry na juventude, trinta magnÃficos anos, elegante, altivo, e, ao seu lado, uma jovem. Quatro ou cinco fotografias e ela estava presente em todas. Numa delas, via-se Harry numa praia, tronco nu, bronzeado e musculado, estreitando contra o corpo a jovem sorridente, de óculos escuros presos no cabelo louro e comprido para o manter no lugar e que o beijava na face. No verso da fotografia, uma anotação: Eu e Nola, Martha’s Vineyard, fim de Julho de 1975. Naquele momento, embevecido pela descoberta, não me apercebi de que Harry regressara muito mais cedo da universidade: não ouvi o rangido dos pneus do Corvette na gravilha do caminho para Goose Cove, nem o som da sua voz quando entrou em casa. Não ouvi nada porque, na caixa, junto das fotografias, encontrei uma carta, sem data. Uma caligrafia infantil num belÃssimo papel, que dizia:
Não se preocupe, Harry, não se preocupe comigo, conseguirei encontrá-lo. Espere por mim no quarto n.º 8, gosto deste algarismo, é o meu preferido. Espere-me nesse quarto às 19 horas. Em seguida, partiremos para sempre.
Amo-o tanto.
Com muita ternura
Nola
Quem seria então esta Nola? Com o coração aos pulos, comecei a percorrer os recortes dos jornais: todos os artigos mencionavam o desaparecimento de uma certa Nola Kellergan, numa noite de Agosto de 1975; e a Nola das fotos dos jornais correspondia à Nola das fotografias de Harry. Foi nesse momento que Harry entrou no escritório, segurando nas mãos um tabuleiro com chávenas de café e um prato com biscoitos, que largou quando, empurrando a porta com o pé, deparou comigo sentado no tapete com o conteúdo da caixa secreta espalhado à minha frente.
— Mas… que está a fazer? — exclamou ele. — Está… Está a bisbilhotar, Marcus? Convido-o para minha casa e remexe nas minhas coisas? Mas que espécie de amigo é você?
Balbuciei explicações atabalhoadas:
— Foi sem querer, Harry. Encontrei esta caixa por acaso. Não devia tê-la aberto… Lamento muito.
— Com certeza que não devia! Com que direito? Com que direito, meu Deus?
Arrancou-me as fotografias das mãos, pegou à pressa nos artigos e guardou tudo misturado na caixa, que levou para o quarto, onde se fechou. Nunca o vira assim. Não sabia dizer se se tratava de pânico ou de raiva. Através da porta, desfiz-me em desculpas, explicando-lhe que não quisera melindrá-lo, que encontrara a caixa por acaso, mas isso não surtiu efeito algum. Só saiu do quarto duas horas mais tarde e desceu directamente para a sala, onde bebeu vários copos de uÃsque. Quando me pareceu um pouco mais calmo, aproximei-me dele.
— Harry… Quem é aquela jovem? — perguntei eu com delicadeza.
Harry baixou os olhos.
— Nola.
— Quem é Nola?
— Não me pergunte quem é a Nola. Por favor.
— Harry, quem é a Nola? — repeti eu.
Ele moveu a cabeça de um lado para o outro.
— Amei-a, Marcus. Amei-a muito.
— Mas porque nunca me falou dela?
— É complicado…
— Para os amigos, nada é complicado.
Harry encolheu os ombros.
— Já que encontrou as fotografias, é preferÃvel contar-lhe… Em 1975, ao chegar a Aurora, apaixonei-me por aquela rapariga, que tinha apenas quinze anos. Chamava-se Nola e foi a mulher da minha vida.
Seguiu-se um breve silêncio, findo o qual perguntei, intrigado:
— Que aconteceu a Nola?
— Uma história sórdida, Marcus. Desapareceu. Uma noite, no final de Agosto de 1975, desapareceu, depois de uma habitante dos arredores a ter visto fugir ensanguentada. Se abriu a caixa, viu com certeza os artigos. Nunca a encontraram, ninguém sabe o que lhe aconteceu.
— Que horror — murmurei eu.
Ele abanou a cabeça demoradamente.
— Sabe — disse ele —, a Nola tinha mudado a minha vida. E pouco me teria importado tornar-me o grande Harry Quebert, o enorme escritor. Pouco me importariam a glória, o dinheiro e o meu grande destino se tivesse podido conservar a Nola. Nada do que fiz depois dela conferiu tanto sentido à minha vida como o Verão que passei com ela.
Era a primeira vez, desde que o conhecia, que via Harry tão abalado. Depois de me ter encarado durante alguns momentos, acrescentou:
— Marcus, nunca ninguém tomou conhecimento desta história. Agora, passa a ser a única pessoa a saber. E tem de guardar segredo.
— É claro que sim.
— Prometa!
— Prometo, Harry. Será o nosso segredo.
— Se alguém em Aurora souber que vivi uma história de amor com a Nola Kellergan, poderá ser um descalabro para mim…
— Pode confiar em mim, Harry.
Foi tudo o que soube sobre Nola Kellergan. Não voltámos a falar dela, nem da caixa, e decidi enterrar para sempre este episódio nos abismos da minha memória, longe de imaginar que, em virtude de um conjunto de circunstâncias, o espectro de Nola surgiria de novo nas nossas vidas alguns meses mais tarde.
Regressei a Nova Iorque no fim do mês de Março, após seis semanas em Aurora, que não me permitiram dar inÃcio ao meu grande romance. Faltavam três meses para terminar o prazo marcado por Barnaski e eu sabia que não conseguiria salvar a minha carreira. Queimara as asas, estava oficialmente no declÃnio, era o mais infeliz e o mais improdutivo dos escritores nova-iorquinos em voga. As semanas foram passando: consagrei a maior parte do tempo a preparar ardentemente a minha derrota. Encontrei um novo emprego para Denise, contactei com advogados que pudessem ser-me úteis no momento em que a Schmid & Hanson decidisse levar-me a tribunal e elaborei a lista dos objectos que me eram mais caros e que teria de esconder em casa dos meus pais antes de os oficiais de justiça me baterem à porta. No inÃcio do mês de Junho, mês fatÃdico, mês do cadafalso, comecei a contar os dias que faltavam para a minha morte artÃstica: mais trinta dias, depois uma convocatória para o gabinete de Barnaski, e seguir-se-ia a execução. Começara a contagem decrescente. Ignorava que um acontecimento dramático iria alterar a situação.
30. O Formidável
— O segundo capÃtulo é muito importante, Marcus. Deve ser incisivo, determinante.
— Como por exemplo, Harry?
— Como no boxe. Você é destro, mas, em posição de guarda, avança sempre o punho esquerdo: o primeiro directo atinge o adversário, seguido de um poderoso encadeamento do direito, que o aniquila. Assim deveria ser o seu CapÃtulo 2: um golpe nos queixos dos leitores.
Aconteceu numa quinta-feira, 12 de Junho de 2008. Passara a manhã em casa, a ler na sala. Lá fora, estava calor mas chovia: há três dias que Nova Iorque era regada por uma chuvinha morna. Por volta das treze horas, recebi um telefonema. Atendi, mas pareceu-me que não havia ninguém do outro lado da linha. Depois, distingui um soluço abafado.
— Está lá? Está lá? Quem fala? — perguntei eu.
— Ela… ela está morta.
A voz era quase inaudÃvel, mas reconheci-a imediatamente.
— Harry? Harry, é você?
— Ela está morta, Marcus.
— Morta? Quem é que está morta?
— A Nola.
— O quê? Como assim?
— Está morta, e a culpa foi toda minha. Marcus… Que fiz eu? Meu Deus, que fiz eu?
Harry chorava.
— Harry, de que está a falar? Que está a tentar dizer-me?
Ele desligou. Liguei de imediato para casa dele. Nenhuma resposta. Para o telemóvel. Sem sucesso. Voltei a tentar repetidas vezes, deixando várias mensagens no gravador. Mas nenhuma outra notÃcia. Estava muito preocupado. Ignorava, naquele momento, que Harry me telefonara do quartel-general da polÃcia estadual, em Concord. Não compreendi nada do que estava a acontecer até Douglas me telefonar, por volta das dezasseis horas.
— Marc, meu Deus, já sabes? — gritou ele.
— Sei o quê?
— Meu Deus, liga a televisão! É sobre o Harry Quebert! Foi o Quebert!
— O Quebert? Quebert o quê?
— Liga a televisão, meu Deus!
Escolhi logo um canal informativo. No ecrã, vi, estupefacto, imagens da casa de Goose Cove e ouvi o apresentador explicar: Foi aqui, na sua casa de Aurora, no New Hampshire, que o escritor Harry Quebert foi preso hoje, depois de a polÃcia ter desenterrado restos humanos na sua propriedade. De acordo com os primeiros elementos da investigação, poderá tratar-se do corpo de Nola Kellergan, uma jovem da região desaparecida do seu domicÃlio em Agosto de 1975, aos quinze anos de idade, sem que alguma vez se tivesse sabido o que lhe aconteceu… De repente, tudo começou a girar à minha volta; deixei-me cair sobre o sofá, completamente atordoado. Não ouvia nada: nem a televisão, nem Douglas, do outro lado da linha, que continuava a vociferar: «Marcus? Ouves-me? Estás aÃ? Ele matou uma rapariga? Ele matou uma rapariga?» Na minha cabeça misturava-se tudo, como num pesadelo.
Foi assim que fiquei a saber, ao mesmo tempo que toda a América incrédula, o que acontecera algumas horas antes: de manhã cedo, uma empresa de jardinagem apresentara-se na casa de Goose Cove a pedido de Harry, a fim de plantar hortênsias nos canteiros perto de casa. Ao revolver a terra, os jardineiros encontraram ossadas humanas a um metro de profundidade e avisaram logo a polÃcia. Não tardaram a descobrir um esqueleto inteiro, e Harry foi preso.
Na televisão, sucedia-se tudo muito depressa. Alternavam os directos entre Aurora, no local do crime, e Concord, a capital do New Hampshire, situada sessenta milhas a noroeste, onde Harry se encontrava agora detido, nas instalações da brigada criminal da polÃcia estadual. Equipas de jornalistas enviadas para o local já acompanhavam as investigações de perto. Aparentemente, um indÃcio encontrado no corpo permitia pensar seriamente na hipótese de serem os restos mortais de Nola Kellergan; um responsável da polÃcia já dissera que, caso esta informação viesse a ser confirmada, nomearia igualmente Harry Quebert como suspeito da morte de uma certa Deborah Cooper, a última pessoa que vira Nola viva no dia 30 de Agosto de 1975 e que fora encontrada assassinada no mesmo dia, depois de ter chamado a polÃcia. Era absolutamente horrÃvel. Os rumores cresciam de forma exponencial; as informações atravessavam o paÃs em tempo real, transportadas pela televisão, pela rádio, pela internet e pelas redes sociais: Harry Quebert, sessenta e sete anos, um dos autores mais famosos da segunda metade do século, era o sórdido assassino de uma adolescente.
Precisei de muito tempo para compreender o que estava a passar-se: várias horas, talvez. Às vinte horas, quando Douglas, preocupado, chegou a minha casa para se certificar de que eu conseguia aguentar o que estava a acontecer, eu ainda estava convencido de que se tratava de um erro. Disse-lhe:
— Enfim, como podem acusá-lo de dois crimes se nem sequer têm a certeza de que se trata do corpo dessa tal Nola?
— Seja como for, havia um cadáver enterrado no jardim dele.
— Mas então porque ia mandar escavar num terreno onde presumivelmente enterrara um corpo? Isso não faz qualquer sentido! Preciso de lá ir.
— Ir aonde?
— Ao New Hampshire. Tenho de defender o Harry.
Douglas respondeu-me com o bom senso muito terra-a-terra que caracteriza os naturais do Midwest:
— Isso nunca, Marc. Não vás. Não te atrevas a entrar nesse vespeiro.
— O Harry telefonou-me…
— Quando? Hoje?
— Por volta da uma hora da tarde. Imagino que fui eu a única pessoa a quem teve o direito de telefonar. Preciso de ir apoiá-lo! É muito importante.
— Importante? O que é importante é o teu segundo livro. Espero que não me tenhas enganado e me entregues um manuscrito no fim do mês. O Barnaski está quase a desistir de ti. Já pensaste no que vai acontecer ao Harry? Não entres nesse vespeiro, Marc, ainda és muito novo! Não dês cabo da tua carreira.
Não lhe respondi. Na televisão, o assessor do procurador do Estado acabava de comparecer perante uma plateia de jornalistas. Enumerou as acusações que pendiam sobre Harry: rapto em primeiro grau e duplo homicÃdio em primeiro grau. Harry era oficialmente acusado de ter assassinado Deborah Cooper e Nola Kellergan. E, pelo cúmulo do rapto e dos homicÃdios, estava sujeito à pena de morte.
***
A queda de Harry ainda estava a começar. As imagens da audiência preliminar que se realizou no dia seguinte deram a volta ao paÃs. Sob o olhar de dezenas de câmaras de televisão e das rajadas dos flashs dos fotógrafos, toda a gente o viu chegar à sala do tribunal, algemado e rodeado por polÃcias. Tinha um ar muito cansado: acabrunhado, mal barbeado, despenteado, camisa desabotoada, olhos inchados. Benjamin Roth, o seu advogado, acompanhava-o. Roth era um profissional afamado de Concord, que muitas vezes o aconselhara no passado e que eu conhecia vagamente por o ter encontrado algumas vezes em Goose Cove.
O milagre da televisão permitiu que a América inteira seguisse em directo a audiência em que Harry se declarou inocente dos crimes de que era acusado e em que o juiz determinou a sua detenção provisória na prisão estadual masculina do New Hampshire. Era apenas o inÃcio da tempestade: naquele instante, eu ainda tinha a ingénua esperança de um desfecho rápido, mas uma hora depois da audiência recebi um telefonema de Benjamin Roth.
— O Harry deu-me o seu número de telefone — disse-me ele. — Insistiu para que lhe telefonasse, quer que saiba que está inocente e que não matou ninguém.
— Eu sei que está inocente! — respondi. — É essa a minha convicção. Como está ele?
— Mal, como pode imaginar. A polÃcia pressionou-o. Ele admitiu ter mantido uma relação com a Nola, no Verão anterior ao seu desaparecimento.
— Eu estava ao corrente do caso da Nola. Mas quanto ao resto?
Roth hesitou um segundo antes de responder:
— Ele nega. Mas…
Calou-se.
— Mas o quê? — perguntei eu, inquieto.
— Marcus, não lhe escondo que vai ser difÃcil. Eles têm argumentos de peso.
— O que é que entende por peso? Explique-se, por favor! Preciso de saber!
— Isto tem de ficar entre nós. Ninguém pode saber.
— Não direi nada. Pode confiar.
— Com os restos mortais da rapariga, os investigadores encontraram o manuscrito de As Origens do Mal.
— O quê?
— É como lhe digo: o manuscrito do desgraçado do livro estava enterrado com ela. O Harry está em muito maus lençóis.
— Ele explicou-se quanto a esse aspecto?
— Sim. Disse que escreveu o livro para ela. Que ela passava o tempo em casa dele, Goose Cove, e que de vez em quando levava para casa algumas folhas para ler. Contou que, poucos dias antes do seu desaparecimento, levara o manuscrito com ela.
— O quê? — exclamei eu. — O Harry escreveu o livro para ela?
— Sim. Em caso algum isto pode transparecer. Imagine o escândalo se os media soubessem que um dos livros mais vendidos na América nestes últimos cinquenta anos não é o simples relato de uma história de amor, como toda a gente pensa, mas o fruto de uma relação amorosa ilÃcita entre um tipo de trinta e quatro anos e uma rapariga de quinze…
— Acredita que o pode libertar sob caução?
— Sob caução? Você não compreendeu a gravidade da situação, Marcus: não há liberdade sob caução em casos de crime capital. O Harry arrisca-se a uma injecção letal. Dentro de dez dias, comparecerá perante o Grande Júri, que decidirá quanto ao prosseguimento das acusações e à instauração de um processo. Trata-se muitas vezes de uma formalidade, não há dúvida de que existirá um processo. Daqui a seis meses, talvez um ano.
— E entretanto?
— Continuará na prisão.
— Mas se estiver inocente?
— É a lei. Repito que a situação é muito grave. Acusam-no de ter assassinado duas pessoas.
Afundei-me no sofá. Precisava de falar com Harry.
— Diga-lhe que me telefone! — insisti eu junto de Roth. — É muito importante.
— Transmitir-lhe-ei a mensagem…
— Diga-lhe que preciso mesmo de falar com ele e que aguardo o telefonema dele!
Imediatamente a seguir ao telefonema, retirei da estante As Origens do Mal. Na primeira página, a dedicatória do Mestre:
Para Marcus, o meu mais brilhante aluno.
Com toda a amizade
H. L. Quebert, Maio de 1999
Voltei a mergulhar no livro, que já não abria há anos. Era uma história de amor, intercalando narrativa e passagens epistolares; a história de um homem e de uma mulher que se amavam sem, na verdade, terem o direito de se amar. Escrevera, portanto, o livro para a misteriosa jovem sobre a qual eu ainda nada sabia. Quando, a meio da noite, acabei de o reler, fixei-me demoradamente no tÃtulo. E, pela primeira vez, interroguei-me sobre o seu significado: porquê As Origens do Mal? De que mal falava Harry?
***
Passaram-se três dias durante os quais as análises de ADN e as impressões dentárias confirmaram que o esqueleto descoberto em Goose Cove era, sem dúvida, o de Nola Kellergan. O exame aos ossos permitiu confirmar que se tratava de uma adolescente de cerca de quinze anos, o que indicava que Nola morrera mais ou menos no momento do seu desaparecimento. Mas, sobretudo, uma fractura na base do crânio ...
