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A RECLUSA

Debra Jo Immergut  

4


Excerto

1

ABSTENHA-SE DE ASSUMIR UM PAPEL PROFISSIONAL QUANDO A OBJECTIVIDADE PUDER ESTAR AFECTADA

(Princípios Éticos e Códigos de Conduta da Associação de Psicologia Americana, Norma 3.06)

Aquilo que me aconteceu é universal. E posso prová-lo.

Pense nas pessoas que conhecia na escola secundária. Agora, concentre-se naquela pessoa em particular, a que era a protagonista de todos os seus devaneios. Aquela que, quando via de relance no corredor, desencadeava uma sensação pré-Homo sapiens, uma descarga de pura adrenalina estimulada pelo tronco cerebral. Por outras palavras, a paixão.

Agora, visualize essa pessoa a caminhar na sua direcção. A aproximar-se ao longo do ruidoso e apinhado corredor, cada vez mais perto, mais perto, e depois a passar por si. O cabelo, o andar, o sorriso.

A sua pulsação acelerou um pouco. Certo?

Isto mostra-lhe o poder. Está a imaginar uma criança, já foi há muitos anos, e imagina uma criança de escola desconjuntada e, no entanto, a imagem dessa criança na sua mente ainda vibra no seu córtex cerebral, perturba-lhe a respiração.

É como vê. Há algo de involuntário em acção nestas situações.

Agora imagine isto: é um homem com trinta e dois anos e psicólogo. Está sentado no seu gabinete, numa cave do centro de saúde mental de uma instituição correccional de Nova Iorque. Uma prisão para mulheres. Chegou atrasado ao trabalho a uma segunda-feira de manhã e ainda não teve tempo para rever os dossiers ou olhar sequer para a agenda. E eis que entra a primeira reclusa do dia, vestida com o uniforme amarelo regulamentar.

E é aquela pessoa.

E, para seu choque, parece a mesma rapariga que se aproximava pelo corredor flanqueado pelas portas de cacifos. O cabelo, o andar.

Isto não o deixaria virado do avesso?

Seja honesto. Não iria saber como reagir.

Reconheci-a de imediato. Quem não a reconheceria? Ela não é do género das que se esquecem facilmente. Pelo menos, não do género que eu esqueço. Em particular o rosto. Podia compará-lo à variedade de flores que a minha mãe costumava cultivar em canteiros ao longo da nossa casa, bonitas sem serem surpreendentes, como as que se cultivam num quintal, mas que ofereciam vislumbres de complexidades íntimas se se olhassem com a atenção suficiente. Este rosto tinha permanecido soterrado na minha memória durante quase quinze anos. De vez em quando — uma melodia do vintage certo, a visão de uma mulher com o cabelo arruivado, comprido, a correr — trazia-a à superfície. Se fosse o tipo de homem que vai a encontros de ex-colegas do liceu — não sou —, teria corrido a comprar um bilhete e colado uma etiqueta ao peito só para ter notícias dela, para ver se aparecia. Para ver o que era feito dela.

Agora sabia. Ela sentou-se na cadeira de vinil azul-esverdeado à minha frente, com NYS DOCS[1] estampado a tinta preta desbotada sobre o coração.

Não se lembrava de mim. Disso não havia dúvidas. Não consegui ver uma centelha ou um clarão de reconhecimento.

Por isso, não abordei o assunto. O que poderia dizer? Gaguejar o seu nome, perguntar-lhe como estava, o que a levou ali? Não. Enquanto tentava processar a situação — ela? ali? —, precipitei-me para o armário de arquivo ao canto, onde guardava as coisas necessárias para o chá: um pequeno bule vermelho, caixas de oolong e Earl Grey, chávenas de papel, colheres de plástico. O meu breve ritual do chá proporcionava um suave aconchego que deixava as minhas clientes um pouco mais à vontade, por isso realizava-o em quase todas as sessões. Enquanto preparava, trémulo, duas chávenas, proferi mecanicamente o meu discurso de abertura habitual, que consistia em dar as boas-vindas, agradecer por ter vindo, estabelecer algumas regras básicas e dizer que tudo o que ali fosse revelado não saía daquela sala. Um discurso que, ao fim de seis meses na profissão, conseguia debitar sem pensar. Ofereci-lhe a bebida coroada de vapor e ela aceitou-a com um sorriso que me apunhalou um pouco. Voltei a sentar-me e deixei que as minhas mãos se aquietassem em redor da chávena quente. Uma nota presa com um clipe ao seu dossier declarava que tinha acabado de sair da solitária. Por isso, pedi-lhe que me falasse do assunto. Mas não ouvi a sua resposta. Não consegui evitar mergulhar naquela memória. Uma memória que andou às voltas na minha mente vezes sem conta ao longo dos anos, como uma daquelas melodias do tempo da escola que não nos saem da cabeça. Pensar nisso com ela ali sentada, em carne e osso, quase me fez estremecer, embora tenha conseguido manter o semblante profissional.

Lembrei-me das suas costas nuas, um ondular de brancura como uma bandeira, e depois o vislumbre de um seio quando se virou para apanhar uma toalha de cima do banco. O cabelo — aquele ruivo com reflexos acastanhados — caiu-lhe para o seio e era precisamente da mesma cor do mamilo. Jason DeMarea e Anthony Li estavam na risota. Mas eu fiquei em silêncio, encostado à parede exterior do balneário das raparigas, com as pontas dos dedos doridas por agarrar no parapeito de betão e as biqueiras dos ténis comprimidas com força contra os tijolos. A ideia foi minha. Vi a janela entreaberta para deixar entrar a brisa que soprava naquele dia de Novembro soalheiro, mas um pouco fresco, e vi a rapariga da equipa júnior de atletismo a dirigir-se para ali sozinha depois da corrida. Eu estava a cobrir o evento para o Lincoln Clarion. Os desportos juniores femininos eram a minha área e Anthony era o fotógrafo dos desportos juniores femininos, o que lhe permite ter uma ideia do nosso estatuto entre o pessoal do Clarion e na secundária de Lincoln em geral. Jason DeMarea só se colou a nós porque não tinha nada melhor para fazer numa terça-feira depois das aulas. Ambos trocavam risinhos e cotoveladas e, quando ela acabou de se vestir (calças de bombazina azul-bebé, camisa estampada com flores brilhantes), desceram do parapeito. Mas eu continuei ali agarrado, a observar. Sentou-se no banco, a atar os atacadores dos botins. Depois, pegou no equipamento de corrida amarfanhado e usou-o para limpar os olhos. Eu apenas conseguia ver uma pequena faixa do seu rosto e uma orelha delicada — a orelha com o intrigante piercing duplo, com a argola prateada, e, mesmo por cima, o minúsculo Pégaso de prata que já tinha observado secretamente quando me sentei atrás dela na aula de Trigonometria, perguntando-me se seria um símbolo de amor por cavalos, ou de drogas, ou de alguma outra zona sombria nela que nunca conseguiria descodificar. Limpou os olhos com o equipamento amarrotado e, na realidade, pareciam demasiado lacrimejantes. Tinha as pálpebras inchadas. E depois olhou para cima, para o cacifo aberto. Atirou a roupa de corrida lá para dentro e estendeu a mão para a porta aberta. Havia ali uma espécie de autocolante. Não o consegui ler do meu poleiro. Com um pouco de brusquidão, arrancou aquilo e rasgou-o. Depois bateu com a porta do cacifo e projectou a mão para a frente, para deitar fora o papel amarfanhado. Porém, este ficou-lhe colado à palma da mão. Ol

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