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A NOSSA ALEGRIA CHEGOU

Alexandra Lucas Coelho  

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Excerto

Alguns mamíferos sabem que vão morrer. Estes três sabem que podem morrer hoje.

— O sol tem cores que nunca ninguém viu — diz Ira.

Atrás dele, Ossi abre os olhos. À frente, Aurora, também. De tão colados, a voz vibra nos três.

— Que cores? — pergunta Ossi.

— Cores sem nome, não as conseguimos ver — diz Ira. — Ouvi isto uma vez, lá na cidade.

— Há cores que não conseguimos ver?! — Aurora faz uma pala com a mão.

O sol dá-lhes em cheio. Três corações, seis pulmões, biliões de nervos numa cama de rede, tórax com tórax, boca com nuca, côncavos, recôncavos, convexos. Jovens como a jovem flor do cacto de Alendabar, a praia onde acordam.

Ossi segura o flanco de Ira, que segura o flanco de Aurora. Ela fecha os olhos, flecte o joelho esquerdo. Ira ganha ângulo e entra nela, com Ossi às costas. Primeira vez que acordam juntos, primeiro sexo a três, primeira hora de luz.

Este dia esperou por eles para mudar tudo. Pacto.

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Um velho carocha avança na estrada que leva a Alendabar, piso de terra batida, esburacada, assim conservada para afastar estranhos. Toda a região em volta da praia tem um dono chamado Rei. Os seus visitantes chegam de helicóptero, tirando isso é raro um forasteiro vir. Além de má, a estrada termina numa vedação, como nas pequenas praias privadas. Nem pequena nem privada, mas só quem está a par rodeia o arame farpado.

Felix salta do carocha, enfim livre. Ainda não pode guiar e já mal cabe no carro, perna longa, juba dourada: cinge-a no alto da cabeça, distendendo os braços. Ao sol, refulge. Quinze anos! Como aconteceu isto?

Ursula, a mãe, sorri, não sabe. Pediu o carocha a amigos nesta parte do mundo, estaciona-o na última sombra antes da vedação. Da primeira vez que aqui veio, era tudo uma selva sem dono. Foi então que conheceu o futuro pai de Felix e hoje traz as cinzas dele. Morreu a muitos fusos horários daqui, onde mãe e filho moram. Felix nunca esteve nesta parte do mundo. Nunca ouvira sequer o nome Alendabar.

— Parece inventado — disse à mãe quando vinham no carocha, contornando os buracos cheios de chuva, espelhos do céu.

Olho na estrada, Ursula respondeu:

— Todos os nomes são inventados.

Aurora sente o vaivém de Ira até à raiz do cabelo, emissão de nervo em nervo, pélvis, vagina, estômago, faringe, cocuruto. Está quase de barriga para baixo, perna direita esticada, perna esquerda flectida, joelho no queixo, já meio fora da rede. Quando fecha os olhos, tudo flutua, aéreo. Quando abre, o sol dá na flor do cacto, mais um botão. A palma da mão de Ira cobre-lhe a nádega, e a cada vinda a pélvis dela contrai, a cada ida a pélvis dela expande: bomba de sódio e potássio, impulso eléctrico, motriz.

Ao mesmo tempo, Ira sente o vaivém de Ossi até à raiz do cabelo, emissão de nervo em nervo, ânus, próstata, estômago, faringe, cocuruto. De olhos fechados, é atirado às feras. De olhos abertos, é o amante do meio, homem atrás, mulher à frente. Quer cada luz deste dia, cada cor desta hora, o azul na flor do cacto: índigo. Floriu no dia em que ele nasceu, dizia a avó. Mas o cacto tinha milhares de anos já, vira o primeiro homem chegar, ou seria mulher? Passou tanto tempo que os equinócios deram a volta, as estrelas estão de novo onde estavam.

As mãos de Ossi estão nas ancas de Ira, bem mais estreitas do que as suas. Ossi é o mais pesado dos três, Ira o mais leve. Ossi nunca sentiu ancas assim, e entre elas tudo tão justo, músculo dando de si. Não vai abrir os olhos.

A qualquer instante, o Rei espera um convidado do Oriente a quem tenciona vender uma pequena parte dos seus domínios, a única que não lhe dá lucro. Antes de marcar a visita consultou o mapa celeste, como costuma fazer. Ouviu dizer que assim faziam os reis outrora, no Oriente, no Ocidente. O equinócio caía numa sexta-feira, calhava bem. Seria o início da nova estação, antes dita da colheita, agora do abate.

Hoje.

— Porquê hoje? — pergunta Felix, a caminho da praia, pulando uma poça. — Era alguma data especial para ti e para o pai?

— Não — diz Ursula, um pouco atrás. — Mas achei que ele gostaria por ser equinócio. Norte e Sul iluminados por igual, o dia com a mesma duração da noite, doze horas de luz… Lem­bras-te disto?

— Sim, não me lembrava que era hoje. Então começa a Primavera.

— Aqui, o Outono.

— Ah, claro. Estamos ao contrário.

Um pássaro pousa adiante, bica uma gota de chuva. Felix reconhece-o do álbum que tem desde criança: um poupatuti! Não há dúvida, é o único com este arco-íris na cabeça. Vai man­dar uma foto ao pai. Mas mal pensa isso dói tanto que o corpo pula sozinho. Pula e pula, a ver se gasta a dor. Parte de Felix continua a pensar como se o pai estivesse vivo. Se calhar há células que se recusam a saber. Algumas células dele não sabem que o pai morreu.

— E porquê esta praia? — pergunta, pulando uma última vez. — Prometeste contar quando chegássemos.

— Ainda não chegámos — Ursula pára.

Um zumbido de helicóptero enche o ar. Mãe e filho olham para cima, os mesmos olhos amarelos. Olho de bicho, dizia o homem que com eles formava um trio. Antes de ser pai de Felix, antes mesmo de conhecer Ursula, provara cinza humana em Alendabar. Assim se fazia a despedida dos mortos, então. Parte da cinza era misturada com fruta, todos comiam um pouco. Depois caminhavam até à foz para lançar o resto no encontro das águas, doce-salgada.

O futuro pai de Felix contou isso a Ursula nesta praia, no dia seguinte a se conhecerem, e perguntou-lhe se comeria as cinzas dele. Deu uma gargalhada para não parecer dramático. Detestava parecer dramático.

Tinha várias vidas, já. Ela, vinte anos.

Duas copas de morambeira balançam no vaivém dos amantes, resguardo e resplendor. Há milénios que as morambeiras de Alendabar dão o braço a camas de rede, guarida a barcos de pescador, além de tudo o que nelas pousa, mora, se come ou bebe. Delas vem a fruta que se mistura na cinza dos mortos. E algumas ainda se transformam em totens ou grandes canoas. Mais antigo, só o cacto da flor índigo, também impossível de avistar noutras areias, doutras paragens. Algo que Ossi, Ira e Aurora desconhecem porque jamais viram outras.

Este equinócio decidirá se viverão para ver, doze horas de luz desde a primeira. Não planearam passá-la assim, é a hora mais solta no plano que têm. Vão acelerar nas próximas, em contagem decrescente até anoitecer. Um encaixado no outro que encaixa no outro, o zumbido no céu não os detém.

Enquanto isso, nas pastagens do Rei, as reses sobres­saltaram-se, com a antecipação auditiva de todo o bicho. Rara é a semana sem helicópteros aqui, e o coração delas continua a disparar por átrios e ventrículos, tão igual ao humano que o poderia substituir, só cinco vezes mais pesado. Se disparassem todas em debandada, num dia impossível, sem capatazes nem cercas, o chão tremeria por muitos quilómetros. São a infantaria avançada do abate, o grande exército dos involuntários.

E em breve os servos do Rei penetrarão horizontes limpos de selva. Tão limpos como um sexo exposto, disposto para o espectador.

O Rei sabe que alguém se aproxima antes mesmo de qualquer bicho. Um sinal no bolso e já sai do palácio, examinando as alturas. O terraço dá acesso a uma pista de aterragem em pedra translúcida, garimpada na mina junto ao rio. Primeiro aperitivo para quem chega do céu.

— Bem-vindo — murmura o Rei, com a sua boca das cavernas: buracos negros, estalactites. Acaba de localizar o pontinho do helicóptero que traz o convidado.

Eis senão quando um choro irrompe do interior, e o Rei acode, correndo. É pai de um varão recém-nascido, um ser vivo realmente seu. Não conhecia esta felicidade. Esta nova ferocidade.

Por toda a Alendabar correm relatos sobre o bebé do Rei. Ele o toma nos braços a cada choro. Ele muda a fralda de algodão de mil fios, lavada na cascata que os mais-velhos dizem sagrada. Ele examina os excrementos, cor, consistência, seria capaz de os comer, será. Ele não foi dotado de fé mas quer os deuses aos pés do seu fruto. Este mundo e o outro existiram até hoje para o reconhecer.

Lá em cima, a dez mil pés, o convidado do Oriente exulta. Que cores, que águas, que transparência! Pequenas ilhas debruadas por corais com certeza ainda vivos: esmeraldas, cobaltos, fúcsias, limas. Nenhum sinal de embranquecimento, de colapso, tanto quanto avista. E o helicóptero curva para a baía mais majestosa em que já pôs os olhos.

— Alendabar!!! — brada o piloto.

Ganha ao voo o que os servos lá em baixo não ganham ao ano. Acima de tudo, o Rei tem pânico de morrer, não se poupou até contratar o melhor piloto. Tão desafogado é o contrato que a propaganda lhe aflora à boca, espontânea:

— A história do mundo começou em Alendabar, contam os nativos!

O convidado está disposto a concordar, perante o que vê. Uma orla florejante bordeja o areal, extensíssimo. Num extremo da praia, a falésia negra, encostada a um vulcão. No outro, a foz de um rio incandescente, que ao subir alarga muito e tem uma ilha no meio. Para o interior, é a grande razia das pastagens, mas o litoral continua denso, intacto, tudo o que este oriental tem em mente.

Valeu a pena contornar o planeta, pensa. Nem muros nem mastins, a selva será a melhor guarnição.

Cá em baixo, entretanto, o rio incandescente luta pela vida. Cardumes de guelra aberta descem para o oceano, onde dragões-marinhos abraçam cotonetes, latas de refrigerante dão à luz crustáceos, amores loucos, mutantes, que não se vêem de helicóptero, nem num fim-de-semana. Ninguém mede o veneno no rio desde que o Rei chegou, com os seus planos de gado e minério. O gado carecia de muita água. O minério, de um dique para os resíduos, que pouco depois rebentou. E os ribeirinhos viram o rio vir como nunca, numa enxurrada castanha. Sementeiras, animais, casas, levou tudo. Uma mais-velha entrou na corrente para agarrar um dos seus bichos. O neto, ainda criança, correu atrás mas foi engolido, depois sentiu uma pancada. Quando voltou a si tremia na lama, um vizinho conseguira puxá-lo para a margem. No descer das águas acharam a avó, trespassada por um ferro. Fora ela a dar nome ao neto. Um nome de há muito, encurtado para o dia-a-dia:

Ira! O olho puxado dos antepassados, testemunha de quanto crime, objecto de quantos mais, macho à força primeiro, fêmea à força depois, nem uma nem outro, agora.

A demanda de servos é muita nas terras do Rei. Para não ficarem escanc ...