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A NOITE EM QUE O VERãO ACABOU

João Tordo  

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Excerto

A Laura e Levi Walsh

PRÓLOGO

14 de Setembro de 1998 Chatlam, Nova Iorque

O telefonema para a Polícia de Chatlam deuse às quatro horas e dezoito minutos da madrugada de catorze de Setembro.

A voz embargada de uma mulher - a Sr.ª Mullens -, confundindo as palavras e hesitante nas orações, pediu com urgência uma ambulância, a Polícia, as autoridades, porque acabara de encontrar o patrão assassinado no escritório. Do outro lado da linha, a telefonista urgiulhe que tivesse calma, que não perdesse o controlo. Numa voz tranquila, com que actuam as pessoas habituadas àquele tipo de situação, perguntou a Doris se, por acaso, existia a possibilidade de o assassino ainda estar dentro da casa. Foi então que a Sr.ª Mullens, no seu sotaque do Arkansas, lhe respondeu (com toda a calma de que foi capaz) que essa possibilidade não era uma mera possibilidade, mas um facto.

O assassino ainda lá estava dentro, porque pertencia àquela casa desde que nascera.

O assassino - aliás, a assassina - tinha dezasseis anos de idade.

Verão de 1987 Lagoeiro, Portugal

Na tarde em que eu comecei a chorar, a cadela trazia a boneca na boca, mordendoa com a força dos seus caninos de bicho ainda jovem.

Chorei todas as noites durante uma semana, a boneca caída no relvado da casa de férias dos meus pais. Tornouse o brinquedo de Niki, até o meu pai a guardar na garagem. Era a única memória física que me restava de Laura e de Levi, que regressaram aos Estados Unidos no final de Agosto: uma coisa velha feita de trapos, com dois botões a servirem de olhos, cabelo ruivo e uma boca infeliz. A seguir - porque aos treze anos recuperamos com facilidade dos choques emocionais -, distraíme com o ténis, e a exploração do terreno dos lagartos e as parvoíces da minha irmã e esquecime temporariamente da ausência das raparigas americanas no Lagoeiro.

No ano seguinte, Laura e Levi não voltaram como prometido e a casa ao lado da nossa foi alugada durante o Verão por uma família de alemães, cujos filhos barulhentos e desordeiros fizeram a vida dos meus pais num inferno, com os mergulhos para a piscina às três da madrugada e a música pop aos berros o dia inteiro. O cheiro das bratwürste grelhadas invadiu as redondezas. Passei esse mês de Agosto a jogar ténis com o meu pai, a ler romances policiais e a trocar cartas com Laura, que respondia às minhas missivas

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