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A MULHER QUE CORREU ATRáS DO VENTO

João Tordo  

5


Excerto

O rosto foi uma desilusão.

A primeira vez que o viu, pensou: Que feio é. Tem as sobrancelhas demasiado grossas, os lábios contraídos dos doentes terminais, uma expressão de apatia emocional. Como aquelas pessoas que só choram nos filmes, incapazes de sentir afecto na vida real. E então riu-se sozinha. O que era isso da vida real? Em que dimensão entrávamos a ver um filme ou a ler um livro? Um lugar de distracção, de fuga?

O único lugar onde existe consolo.

Reparou, reflectido no vidro do outro lado da carruagem — o vidro que a forçava a reconstruir a sua própria figura esguia nos contornos desbotados —, que, do seu lado direito, separado por um lugar, um rapaz adolescente a observava pelo canto do olho. Provavelmente, a timidez obrigava-o a fingir que nada daquilo sucedia; que os seus olhos não fugiam, uma e outra vez, para o rosto liso da rapariga, para a boca suavemente pintada com um batom escuro, a boca de quem esconde uma fragilidade que a faz chorar quando o cair da noite a encontra desprevenida. Mas ela não deu troco ao miúdo. Em vez disso, continuou a olhar para a fotografia no jornal. A desilusão transformara-se numa ligeira náusea: é sempre terrível quando aqueles que admiramos nos provocam, afinal, uma espécie de repulsa.

Guardou o jornal na mochila e, antes de sair na estação da universidade, fez questão que a aba do seu casaco, impregnada de perfume, roçasse nas pernas do rapaz, que fazia muita força para não a olhar, lutando contra o desejo.

Passou a aula de Estudos Ingleses a riscar a fotografia do escritor com um lápis. Fez-lhe um bigode, depois desenhou-lhe uns cornos. Acabou por desenhar um balão a sair-lhe da boca, como na banda desenhada, no interior do qual se lia «Sou um merdas». Desejava que ele fosse perverso, infeliz; que se deitasse com homens por dinheiro, ou então que frequentasse os bas-fonds mais decrépitos. Incapaz de compreender como aquele rosto podia ter escrito A História do Silêncio, acabou por esconder a página do jornal dentro do livro, que guardou debaixo do compêndio de Linguística Inglesa. Sentiu-se irritada, apeteceu-lhe gritar muito alto e interromper a aula chatíssima daquele professor insuportável, que caminhava sobre o palco do anfiteatro de um lado para o outro com a regularidade de um pêndulo. Atrás de si, um colega ressonava; na fila da frente, uma colega gótica pintava as unhas, o verniz preto escondido dentro da mala pousada num assento vazio. Cheirava a suor e a uma mistura enjoativa de perfumes. Era demasiado cedo para Chomsky, Teoria da Cultura e Pinker, uma aula daquelas suicidava-se naquele horário, e não admirava que os estudantes desfalecessem nas cadeiras e copiassem nas frequências.

A seguir à aula, foi ao gabinete do orientador de tese. Era um homem fininho, de voz trémula, que cheirava a água-de-colónia e a roupa por lavar. Ela tinha a certeza, porém, que o professor Gusmão era boa pessoa; que a olhava quase sem desejo, isento de pensamentos porcos. O gabinete era monótono. Havia um atlas nas prateleiras, dezenas de dicionários, Shakespeare, Chaucer. E ela ali, como se tivesse aterrado de um planeta diferente, onde havia cor e movimento, onde os humanos ainda não haviam adormecido à sombra do classicismo, da tradição.

Sente-se, disse Gusmão. E repetiu: Sente-se.

Gusmão repetia as palavras. Era um dos tiques que a idade trazia, como esfregar o rabo ou assoar-se ruidosamente em público.

Como quer que eu a trate? Só Beatriz?

Sim, só Beatriz, concordou ela.

O homem pôs-se de pé, enfiou as mãos nos bolsos das calças axadrezadas. Ela sentou-se num dos sofás. Tinha o compêndio de linguística no colo. O sofá estava quente, ter-se-ia alguém sentado ali antes dela? Ou teria Gusmão dormitado no sofá durante o período matinal?

É a Beatriz da tradução…

Sim, sou eu, respondeu ela. Joyce, e isso tudo.

Ah!, exclamou ele, erguendo o indicador. Levou-o aos lábios, indicando uma pausa exagerada de pensamento.

É um projecto muito ambicioso.

Gusmão deu meia-volta e foi abrir a janela. Vai saltar, pensou ela. Mas abriu-a um palmo e deixou-a ficar assim. Uma brisa invadiu o gabinete e foi pousar, gelada e cruel, na superfície do seu rosto.

É o meu projecto, insistiu ela.

Já começou?

Já, mentiu Beatriz. Mas encravo sempre nas mesmas palavras.

Quais?

Ela procurou apressadamente o caderno de notas que trazia na bolsa. Abriu-o; respirou fundo.

Dogsbody. Muskperfumed. Shellcocoacoloured.

O orientador levantou uma mão enrugada em sinal de clemência. Tornou a sentar-se à secretária, em cima da qual os livros nasciam como cogumelos num ambiente húmido, fétido.

Pare, pediu ele.

São tão perfeitas em inglês, insistiu ela, que qualquer tra­dução seria criminosa.

É isso o que pensa?

Sim.

Teve então a sensação inesperada de que o professor olhava para as pernas dela, cobertas por collants pretos. A saia (também preta) só lhe tapava as coxas, a forma dos joelhos era perfeitamente visível, a barriga da perna direita cruzada sobre a esquerda, os tornozelos finos. Talvez ele tivesse por ela o mesmo tipo de desejo do rapaz do metropolitano, a sublimação dissi­pando-se no tempo.

Vejo muitas raparigas e rapazes por aí com essas botas, reparou ele. É alguma espécie de declaração de rebeldia?

Beatriz olhou para as suas botas rasas castanhas.

Está enganado, não são as botas que vê por aí.

O quê?

Ele folheava agora um livro à procura de qualquer coisa. Ela não insistiu na conversa.

É mais fácil do que parece, explicou ele. Musk: almiscarado, e perfumed. Joyce gosta da contracção de substantivos e adjectivos, acontece muitas vezes ao longo do livro.

O que eu disse é que a tradução pode estragar esse efeito, contestou Beatriz.

Ah.

Gusmão fechou o livro. Recostou-se na cadeira e levou a ponta do dedo ao lábio inferior.

Porque gosta de Ulisses, Beatriz? E repetiu: Beatriz?

Não sei, respondeu ela.

Era verdade: não sabia. Nem de onde nascera a obsessão pelos livros, pelos escritores. De um lugar natural de discordância, de separação, de vontade de sair da ignorância.

O meu pai é dono de uma tabacaria em Coimbra, explicou ela, sem saber porquê. A minha mãe morreu de cancro do pulmão sem nunca ter fumado um cigarro.

Gusmão podia ter franzido o sobrolho, ter-se mostrado surpreendido pela confissão extemporânea. Mas nada disse, nada fez.

Os únicos livros que tínhamos em casa pertenciam ao meu avô paterno, edições antigas da obra de Camilo Castelo Branco, prosseguiu ela. O meu pai usava-os para pousar os tachos e as travessas de comida quente enquanto jantávamos. Todos os livros tinham círculos castanhos, queimaduras. Depois, um dia, uma tia deu-me dinheiro pelo Natal e eu comprei, num alfarrabista, uma peça de Tchekhov.

Qual?

A Gaivota.

Trigorin!

Beatriz assustou-se com o exclamativo de Gusmão.

Apaixonei-me por Nina, confessou ela.

E por Trigorin, não?

É um homem cruel.

É realista, contrapôs o professor. «Tenho uma ideia para uma história», diz ele a Nina. «Uma rapariga igual a ti, livre e feliz como uma gaivota; depois aparece um homem que destrói a vida dessa rapariga, porque não tem nada melhor para fazer.»

Apeteceu-lhe dar o tal grito, empurrar os livros de Gusmão da mesa e saltar pela janela. Desconhecia a origem daquela raiva, era incapaz de associar o súbito despontar da ira à fotografia no jornal, à sua desilusão por ver o rosto do escritor. Era possível ser esse o grande desapontamento da sua vida, o confronto com a realidade. Que mágoa. Que crime. Gusmão falou durante longos minutos acerca de Joyce, dando a impressão de que, em algum momento do passado, ele e o irlandês defunto se tinham encontrado num pub, ou que James passara pelo gabinete para lhe pedir a opinião sobre a tradução portuguesa de Dubliners. Enquanto o professor falava, Beatriz não conseguia deixar de pensar em Nina, na sua infinita tristeza, nas ilusões estilhaçadas. E, grata a Tchekhov por tê-la posto a sonhar com coisas impossíveis, com o idílio literário da melancolia, descruzou e cruzou as pernas para o lado contrário (plenamente consciente de que Gusmão, papagueando Joyce, seguia o movimento com o olhar), e declarou, interrompendo-o:

Irei traduzi-lo, palavra por palavra, ainda que isso me mate.

Houve um longo silêncio, durante o qual começou a cho­ver, os pingos a fazerem ricochete no parapeito. No corre­dor ouviam-se vozes distantes de outros alunos, de professores.

Minha cara Beatriz, disse ele, você está para os sonhos como os alpinistas estão para o Evereste.

Sem compreender o significado daquela frase, ela fitou atentamente o espaço acima da cabeça do orientador, a janela suja.

Foi professor aqui, comentou Gusmão.

Quem?

O autor desse livro.

Beatriz olhou para o seu colo. A História do Silêncio arranjara maneira de se mostrar, via-se uma nesga da capa debaixo do compêndio. Pensou imediatamente que Gusmão só podia conhecer muito bem aquele livro, porque o visível não era sufi­ciente, sequer, para se ler o título completo.

Eu sei, disse ela.

Antes do seu tempo.

Sim.

Professor razoável, escritor medíocre. Medíocre.

Não me diga.

Gostou do livro?

Ela reparou que a sua bota direita se agitava, as pernas pareciam independentes do resto do corpo.

Ainda não o li, mentiu.

Ninguém com aquela idade se interessa por Ulisses.

Ninguém.

É o livro mais difícil do mundo, toda a gente sabe, a maior chatice que um escritor alguma vez teve coragem de escrever. Os colegas dizem-lhe que ela, no que diz respeito à tese, como em tudo o resto, prima pelo exagero.

Passa dias inteiros sozinha. Às vezes, anda semanas sem falar com ninguém. Esconde-se do mundo nas bibliotecas, nos jardins. No metropolitano. Quando sai à noite, embebeda-se rapidamente, ainda antes das onze já anda a vomitar à esquina da Travessa da Cara e da Rua do Diário de Notícias. Ouve repetidamente, e sem nunca trocar de cassete, o mesmo disco de This Mortal Coil. A sua canção favorita é «A Single Wish», escrita por Gordon Sharp, Steven Young e Simon Raymonde. No intervalo entre essa canção e a anterior, os segundos de silên­cio, a fita está tão gasta que emite um ruído agudo

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