Loading...

A MULHER QUE CORREU ATRáS DO VENTO

João Tordo  

0


Excerto

O rosto foi uma desilusão.

A primeira vez que o viu, pensou: Que feio é. Tem as sobrancelhas demasiado grossas, os lábios contraídos dos doentes terminais, uma expressão de apatia emocional. Como aquelas pessoas que só choram nos filmes, incapazes de sentir afecto na vida real. E então riu-se sozinha. O que era isso da vida real? Em que dimensão entrávamos a ver um filme ou a ler um livro? Um lugar de distracção, de fuga?

O único lugar onde existe consolo.

Reparou, reflectido no vidro do outro lado da carruagem — o vidro que a forçava a reconstruir a sua própria figura esguia nos contornos desbotados —, que, do seu lado direito, separado por um lugar, um rapaz adolescente a observava pelo canto do olho. Provavelmente, a timidez obrigava-o a fingir que nada daquilo sucedia; que os seus olhos não fugiam, uma e outra vez, para o rosto liso da rapariga, para a boca suavemente pintada com um batom escuro, a boca de quem esconde uma fragilidade que a faz chorar quando o cair da noite a encontra desprevenida. Mas ela não deu troco ao miúdo. Em vez disso, continuou a olhar para a fotografia no jornal. A desilusão transformara-se numa ligeira náusea: é sempre terrível quando aqueles que admiramos nos provocam, afinal, uma espécie de repulsa.

Seja o primeiro a receber histórias como esta

Guardou o jornal na mochila e, antes de sair na estação da universidade, fez questão que a aba do seu casaco, impregnada de perfume, roçasse nas pernas do rapaz, que fazia muita força para não a olhar, lutando contra o desejo.

Passou a aula de Estudos Ingleses a riscar a fotografia do escritor com um lápis. Fez-lhe um bigode, depois desenhou-lhe uns cornos. Acabou por desenhar um balão a sair-lhe da boca, como na banda desenhada, no interior do qual se lia «Sou um merdas». Desejava que ele fosse perverso, infeliz; que se deitasse com homens por dinheiro, ou então que frequentasse os bas-fonds mais decrépitos. Incapaz de compreender como aquele rosto podia ter escrito A História do Silêncio, acabou por esconder a página do jornal dentro do livro, que guardou debaixo do compêndio de Linguística Inglesa. Sentiu-se irritada, apeteceu-lhe gritar muito alto e interromper a aula chatíssima daquele professor insuportável, que caminhava sobre o palco do anfiteatro de um lado para o outro com a regularidade de um pêndulo. Atrás de si, um colega ressonava; na fila da frente, uma colega gótica pintava as unhas, o verniz preto escondido dentro da mala pousada num assento vazio. Cheirava a suor e a uma mistura enjoativa de perfumes. Era demasiado cedo para Chomsky, Teoria da Cultura e Pinker, uma aula daquelas suicidava-se naquele horário, e não admirava que os estudantes desfalecessem nas cadeiras e copiassem nas frequências.

A seguir à aula, foi ao gabinete do orientador de tese. Era um homem fininho, de voz trémula, que cheirava a água-de-colónia e a roupa por lavar. Ela tinha a certeza, porém, que o professor Gusmão era boa pessoa; que a olhava quase sem desejo, isento de pensamentos porcos. O gabinete era monótono. Havia um atlas nas prateleiras, dezenas de dicionários, Shakespeare, Chaucer. E ela ali, como se tivesse aterrado de um planeta diferente, onde havia cor e movimento, onde os humanos ainda não haviam adormecido à sombra do classicismo, da tradição.

Sente-se, disse Gusmão. E repetiu: Sente-se.

Gusmão repetia as palavras. Era um dos tiques que a idade trazia, como esfregar o rabo ou assoar-se ruidosamente em público.

Como quer que eu a trate? Só Beatriz?

Sim, só Beatriz, concordou ela.

O homem pôs-se de pé, enfiou as mãos nos bolsos das calças axadrezadas. Ela sentou-se num dos sofás. Tinha o compêndio de linguística no colo. O sofá estava quente, ter-se-ia alguém sentado ali antes dela? Ou teria Gusmão dormitado no sofá durante o período matinal?

É a Beatriz da tradução…

Sim, sou eu, respondeu ela. Joyce, e isso tudo.

Ah!, exclamou ele, erguendo o indicador. Levou-o aos lábios, indicando uma pausa exagerada de pensamento.

É um projecto muito ambicioso.

Gusmão deu meia-volta e foi abrir a janela. Vai saltar, pensou ela. Mas abriu-a um palmo e deixou-a ficar assim. Uma brisa invadiu o gabinete e foi pousar, gelada e cruel, na superfície do seu rosto.

É o meu projecto, insistiu ela.

Já começou?

Já, mentiu Beatriz. Mas encravo sempre nas mesmas palavras.

Quais?

Ela procurou apressadamente o caderno de notas que trazia na bolsa. Abriu-o; respirou fundo.

Dogsbody. Muskperfumed. Shellcocoacoloured.

O orientador levantou uma mão enrugada em sinal de clemência. Tornou a sentar-se à secretária, em cima da qual os livros nasciam como cogumelos num ambiente húmido, fétido.

Pare, pediu ele.

São tão perfeitas em inglês, insistiu ela, que qualquer tra­dução seria criminosa.

É isso o que pensa?

Sim.

Teve então a sensação inesperada de que o professor olhava para as pernas dela, cobertas por collants pretos. A saia (também preta) só lhe tapava as coxas, a forma dos joelhos era perfeitamente visível, a barriga da perna direita cruzada sobre a esquerda, os tornozelos finos. Talvez ele tivesse por ela o mesmo tipo de desejo do rapaz do metropolitano, a sublimação dissi­pando-se no tempo.

Vejo muitas raparigas e rapazes por aí com essas botas, reparou ele. É alguma espécie de declaração de rebeldia?

Beatriz olhou para as suas botas rasas castanhas.

Está enganado, não são as botas que vê por aí.

O quê?

Ele folheava agora um livro à procura de qualquer coisa. Ela não insistiu na conversa.

É mais fácil do que parece, explicou ele. Musk: almiscarado, e perfumed. Joyce gosta da contracção de substantivos e adjectivos, acontece muitas vezes ao longo do livro.

O que eu disse é que a tradução pode estragar esse efeito, contestou Beatriz.

Ah.

Gusmão fechou o livro. Recostou-se na cadeira e levou a ponta do dedo ao lábio inferior.

Porque gosta de Ulisses, Beatriz? E repetiu: Beatriz?

Não sei, respondeu ela.

Era verdade: não sabia. Nem de onde nascera a obsessão pelos livros, pelos escritores. De um lugar natural de discordância, de separação, de vontade de sair da ignorância.

O meu pai é dono de uma tabacaria em Coimbra, explicou ela, sem saber porquê. A minha mãe morreu de cancro do pulmão sem nunca ter fumado um cigarro.

Gusmão podia ter franzido o sobrolho, ter-se mostrado surpreendido pela confissão extemporânea. Mas nada disse, nada fez.

Os únicos livros que tínhamos em casa pertenciam ao meu avô paterno, edições antigas da obra de Camilo Castelo Branco, prosseguiu ela. O meu pai usava-os para pousar os tachos e as travessas de comida quente enquanto jantávamos. Todos os livros tinham círculos castanhos, queimaduras. Depois, um dia, uma tia deu-me dinheiro pelo Natal e eu comprei, num alfarrabista, uma peça de Tchekhov.

Qual?

A Gaivota.

Trigorin!

Beatriz assustou-se com o exclamativo de Gusmão.

Apaixonei-me por Nina, confessou ela.

E por Trigorin, não?

É um homem cruel.

É realista, contrapôs o professor. «Tenho uma ideia para uma história», diz ele a Nina. «Uma rapariga igual a ti, livre e feliz como uma gaivota; depois aparece um homem que destrói a vida dessa rapariga, porque não tem nada melhor para fazer.»

Apeteceu-lhe dar o tal grito, empurrar os livros de Gusmão da mesa e saltar pela janela. Desconhecia a origem daquela raiva, era incapaz de associar o súbito despontar da ira à fotografia no jornal, à sua desilusão por ver o rosto do escritor. Era possível ser esse o grande desapontamento da sua vida, o confronto com a realidade. Que mágoa. Que crime. Gusmão falou durante longos minutos acerca de Joyce, dando a impressão de que, em algum momento do passado, ele e o irlandês defunto se tinham encontrado num pub, ou que James passara pelo gabinete para lhe pedir a opinião sobre a tradução portuguesa de Dubliners. Enquanto o professor falava, Beatriz não conseguia deixar de pensar em Nina, na sua infinita tristeza, nas ilusões estilhaçadas. E, grata a Tchekhov por tê-la posto a sonhar com coisas impossíveis, com o idílio literário da melancolia, descruzou e cruzou as pernas para o lado contrário (plenamente consciente de que Gusmão, papagueando Joyce, seguia o movimento com o olhar), e declarou, interrompendo-o:

Irei traduzi-lo, palavra por palavra, ainda que isso me mate.

Houve um longo silêncio, durante o qual começou a cho­ver, os pingos a fazerem ricochete no parapeito. No corre­dor ouviam-se vozes distantes de outros alunos, de professores.

Minha cara Beatriz, disse ele, você está para os sonhos como os alpinistas estão para o Evereste.

Sem compreender o significado daquela frase, ela fitou atentamente o espaço acima da cabeça do orientador, a janela suja.

Foi professor aqui, comentou Gusmão.

Quem?

O autor desse livro.

Beatriz olhou para o seu colo. A História do Silêncio arranjara maneira de se mostrar, via-se uma nesga da capa debaixo do compêndio. Pensou imediatamente que Gusmão só podia conhecer muito bem aquele livro, porque o visível não era sufi­ciente, sequer, para se ler o título completo.

Eu sei, disse ela.

Antes do seu tempo.

Sim.

Professor razoável, escritor medíocre. Medíocre.

Não me diga.

Gostou do livro?

Ela reparou que a sua bota direita se agitava, as pernas pareciam independentes do resto do corpo.

Ainda não o li, mentiu.

Ninguém com aquela idade se interessa por Ulisses.

Ninguém.

É o livro mais difícil do mundo, toda a gente sabe, a maior chatice que um escritor alguma vez teve coragem de escrever. Os colegas dizem-lhe que ela, no que diz respeito à tese, como em tudo o resto, prima pelo exagero.

Passa dias inteiros sozinha. Às vezes, anda semanas sem falar com ninguém. Esconde-se do mundo nas bibliotecas, nos jardins. No metropolitano. Quando sai à noite, embebeda-se rapidamente, ainda antes das onze já anda a vomitar à esquina da Travessa da Cara e da Rua do Diário de Notícias. Ouve repetidamente, e sem nunca trocar de cassete, o mesmo disco de This Mortal Coil. A sua canção favorita é «A Single Wish», escrita por Gordon Sharp, Steven Young e Simon Raymonde. No intervalo entre essa canção e a anterior, os segundos de silên­cio, a fita está tão gasta que emite um ruído agudo, como uma tesoura a riscar um quadro de ardósia.

O seu lugar favorito é a Cinemateca. Quando se senta na sala principal, sente-se protegida. Aprecia o consolo. Entra nas sessões sem critério. Não lhe faz diferença ver um filme de Tarkovsky (odiou O Espelho) ou um western de John Sturges (detesta filmes de cowboys). Em alguns, adormece. E tem vergonha — mas também uma espécie de orgulho rebelde — daquela vez em que, numa sessão dedicada ao cinema erótico, se sentiu excitada durante a projecção de uma curta-metragem alemã a preto-e-branco chamada Am Abend que mostrava, durante dez minutos, uma mulher a masturbar-se numa cama. Pensou em tocar-se (afinal, a sala estava quase vazia), enfiando discretamente a mão nas calças, os dedos esgueirando-se pelo cós adentro, mas sabia perfeitamente que o prazer suscitava nela os ruídos do prazer, e não saberia conter-se, e seria apanhada, e nunca mais teria coragem de regressar àquela sala, o seu lugar favorito na cidade, onde tudo era simbólico, nada era verdadeiro nem se vergava à tirania da realidade.

Se tudo são símbolos, então existir é possível, porque nada é aquilo que é, tudo dentro de nós é outra coisa qualquer, conclui Beatriz, numa tarde de chuva, a caminho de casa.

O trabalho tinha sido ideia do pai. Convencera-a durante uma conversa telefónica no segundo ano do curso, em que ela ligara para casa e começara a chorar ao bocal, o corpo a tremer, sentada na beira da cama, sem conseguir dizer ao pai o que tinha, o porquê de tanta tristeza.

Não foi preciso. O pai adivinhou que ela se sentia demasiado sozinha, que uma miúda em Lisboa, longe da família, podia começar a ter pesadelos, as sombras cercando-a, e sugeriu-lhe procurar uma actividade que a obrigasse a sair da solidão das bibliotecas, do quarto no apartamento partilhado, da sala de cinema. Um coro, sugeriu ele, ouvindo ao fundo a mesma música que Beatriz costumava escutar em Coimbra, num pequeno leitor de cassetes portátil e amarelo. Não, um coro não, respondeu a filha, entre fungadelas. Então um hospital, insistiu o pai, podes ajudar os enfermeiros. As pessoas doentes deixam-me deprimida, respondeu ela.

Decidiu-se por um abrigo. Todas as semanas, às quintas-feiras, os mendigos chegavam às dezenas, sujos e teimosos, encharcados, quando a crueldade da chuva os obrigava a tanto. Nesse Janeiro, choveu o mês todo; as ruas eram um lamaçal, as suas vidas uma intempérie. Havia o banho para tomar e a refeição para servir, várias embalagens de sopa de pacote deitada em água a ferver e um guisado borbulhante, demasiado salgado. Beatriz transitava entre a cozinha, prestando serviço a Gertrudes, a mulher grande com um vozeirão que assustava os voluntários, e a porta, recebendo os sem-abrigo, encaminhando-os para o vestiário, mostrando-lhes o caminho para os duches e, a seguir, para o salão das refeições. No princípio, tinha preferido ficar na cozinha, onde não precisava de estar em contacto com os vagabundos, os pedintes, os toxicodependentes. Não era uma questão de arrogância; era porque a miséria humana a deixava desfeita, esbatia a fina ilusão que separava a fantasia dos factos, e existia em Beatriz um instinto primordial de salvação que esbarrava de frente com a impotência diante da realidade.

Havia muitos drogados, de veias desfeitas. Outros, via-se-lhes no rosto, sofriam de doença mental. Ainda outros provinham de lares desfeitos, eram filhos de junkies ou de prostitutas. Nenhum mostrava qualquer esperança de sair da rua. Os sem-abrigo, descobriu ela, têm um cheiro característico, como uma manada de bois que passou demasiado tempo ao relento; têm os olhos vazios e curiosos da gente que anda à procura de uma alma há muito perdida. Costumavam refugiar-se do frio à entrada do centro, uma antiga igreja que a junta de freguesia disponibilizava. Sentavam-se na fria escadaria de pedra, vestidos com roupas demasiado largas ou demasiado justas — oferecidas ou resgatadas dos caixotes do lixo. Alguns carregavam sacos de plástico com todas as coisas que possuíam neste mundo: uns quantos pares de cuecas, meias esburacadas, uma escova de dentes que passara por muitas bocas, uma lâmina gasta para fazer a barba, um livro meio desfeito pelo tempo, um rádio de pilhas que só funcionava de vez em quando, e toda uma variedade de objectos que não serviam para nada. Havia um que transportava uma torradeira para todo o lado. Outro, uma pequena guitarra sem cordas. Entravam aos tropeções, queriam ser os primeiros a chegar ao bengaleiro, onde entregavam a roupa suja da semana para ser lavada, onde resgatavam a que ali haviam deixado na semana anterior. Eram pessoas impacientes, ruidosas — movia-as o instinto de sobrevivência e uma raiva inexcedível e, por isso, tratavam aqueles que delas cuidavam com rudeza, por vezes com despeito. Algumas eram agressivas e pediam as coisas com voz de comando: picante para a comida; mais pão; uma segunda sobremesa (se fosse pudim). Mandavam para trás os pratos de que não gostavam. Queixa­vam-se da cozinheira. Arrotavam ruidosamente. Deixavam tudo sujo, as cadeiras desarrumadas, restos de comida nas mesas, um gorro esquecido, um saco de plástico perdido num canto. A escassez entre eles é infinita, disse Beatriz ao pai, uma noite, ao telefone, sem se dar conta de que já não chorava.

Havia um casal que, sem que Beatriz soubesse explicar porquê, lhe chamou a atenção desde o princípio. Eram certamente mais novos do que ela. O rapaz usava um casaco de penas com dois buracos enormes, ténis desapertados, calças cinzentas muito justas, iguais às dos músicos das bandas inglesas e dos viciados em heroína. Ela andava de capuz. E era nela que Beatriz mais reparava, porque a rapariga tinha um rosto tão invulgar, tão feroz, uns olhos enormes, fundos como a escuridão de um poço, os lábios grandes e carnudos, parecia um animal assustado e perdido, à noite, numa floresta de corujas. Beatriz pensava que podia ser aquele o rosto de Nina Mikhailovna Zarechnaya quando todo o brilho lhe fugisse, no rescaldo da sua derrota.

O casal costumava chegar tarde, quando as portas do abrigo estavam prestes a fechar. Eram os únicos mendigos com permissão para tomar banho juntos. Da cozinha, chegavam os gritos de Gertrudes, urgindo despacho, queria ser­vir as últimas refeições e limpar a cozinha. Os duches ficavam no fundo de umas escadas. Beatriz viu-os, uma vez mais, des­pirem-se e entrarem para o cubículo, o vapor ocultou-lhes os corpos, mas adivinhou-os abraçados, sentindo finalmente o calor após uma semana gelada, as cabeças unidas, a água a desfazer-se nos cabelos, nos rostos gratos. Lembrou-se d’A História do Silêncio, das páginas em que o escritor feio descreve duas personagens a tomarem banho juntas — uma mulher mais velha, um rapaz muito novo —, mas não desejava lembrar-se do livro e, portanto, subiu as escadas e ficou à espera que terminassem. Gertrudes, irada, surgiu de avental, no corredor, e vociferou.

Minutos passados, estavam sentados a uma mesa no centro da sala. As demais mesas encontravam-se limpas e arrumadas, as cadeiras voltadas ao contrário sobre os tampos. Ele comeu vorazmente. Chamava-se Rodrigo, tinha mãos de cavador, os dedos grossos e calejados, dezanove anos, os últimos três passados na rua. Ela chamava-se Lia, ou Lisa, ou Elisa — ninguém lhe sabia o nome ao certo, ou a idade —, a rapariga dizia-o de diferentes maneiras sempre que lho perguntavam e raramente falava ou respondia. O cabelo molhado escorria-lhe pelo rosto. Entre duas garfadas de empadão, segurando o garfo com a mão fechada num punho, a comida caiu-lhe dos cantos da boca.

Traz-me pão, ordenou Rodrigo.

Beatriz foi ao fundo da sala buscar a cesta de pão. Já só restava ela e outro voluntário, um trintão sonolento que olhava para o relógio de cinco em cinco minutos. Ela pousou o cesto em cima da mesa, sobravam dois pedaços. Rodrigo, num gesto rápido, tirou os dois para si. A expressão nos olhos de Lia mudou num segundo — um animal feroz, acossado — e protestou, largando um grito de rejeição perante aquele gesto; como Rodrigo a ignorava, soergueu-se na cadeira e estendeu o braço para lhe roubar o pão. Os dois começaram a lutar, um dos pratos caiu ao chão e estilhaçou-se.

Beatriz devia ter feito alguma coisa, intervindo, separado a bulha, mas foi o trintão que veio a correr do outro lado do salão e pôs ordem nos dois adolescentes irados, enquanto Beatriz fixava, paralisada, o rosto de Lia, a melancolia daqueles olhos de pássaro de cidade, a selvajaria daquela expressão de criatura abandonada que luta por sobreviver, e, enquanto isso acontecia, sem saber porquê, as formas e as cores do mundo foram substituídas por uma constelação de pontos de luz que cintilavam numa dança, emergindo do fundo escuro da sua consciência, engolindo-a por inteiro.

Império.

Era o que via da janela do quarto, todas as noites: a palavra Império, por vezes iluminada, grande parte do tempo apagada, soturna.

Berta, a colega de apartamento, sentou-se na poltrona onde Beatriz costumava ler — uma poltrona enorme, de veludo verde e desbotado, que carregara sozinha, há dois Verões, da Feira da Ladra para casa — e pôs-se a trautear uma canção. Beatriz, que estava deitada na cama (o quarto era espaçoso, a madeira escura do chão rangia, crepitava sozinha durante a noite), pediu-lhe que fizesse silêncio. Doía-lhe a cabeça.

Devias ir ao hospital, recomendou Berta, e pôs-se a olhar para as unhas pintadas.

Berta desejava duas coisas na vida: ser actriz e mudar de nome. De alguma maneira acreditava que as duas ambições eram interdependentes e, por isso, fizera uma lista extensa de nomes que gostaria de ter ou que (também acreditava nisto) a deixariam em posição de destaque perante um encenador, um realizador. Os favoritos de Beatriz eram Laura Rolf e Margaret Cristal. Beatriz não tinha coragem para dizer a Berta que o seu nome verdadeiro — Berta Flores — era na verdade melhor ou, pelo menos, mais caricato do que qualquer dos nomes na lista.

A única diferença nos nossos nomes próprios é um i e um z, pensou Beatriz. E depois, para Berta: Carrega aí no play.

Berta esticou o corpo atlético e alcançou o leitor de cassetes amarelo. A música começou a tocar, a voz de uma mulher que parecia emergir do fundo de um poço árabe, em todo o sofrimento do Ramadão.

Um destes dias, desmaias no meio da estrada e és atropelada, sugeriu Berta.

Não digas parvoíces, ninguém desmaia no meio da estrada.

Tens outra cassete?

Gosto desta, respondeu Beatriz, e fechou os olhos. Chegou-lhe às narinas o perfume adocicado de Berta, o cheiro a verniz da mobília antiga com que a senhoria decorara aquele apartamento decrépito destinado a estudantes. Julgou (mas era impossível) sentir o odor nauseabundo do vizinho do terceiro direito, um homem cuja profissão parecia ser beber copos de vinho e fumar cigarros com boquilha.

A colega saltou do sofá com agilidade e foi à secretária de Beatriz. Remexeu na confusão. Pegou no Ulisses, o peso do livro vergava qualquer pulso. Tornou a largá-lo sobre o tampo. A edição inglesa encontrava-se anotada por Beatriz, havia papelinhos amarelos e cor-de-rosa colados em quase todas as páginas.

Sabes o que me disseram hoje?, disse Berta. Que o cinema vai passar a ser uma igreja.

Berta apontou para o Império. As letras mortiças pareciam denunciar, por si mesmas, o fim de qualquer coisa.

Uma igreja brasileira, insistiu ela. Daquelas em que as pessoas cantam todas juntas.

Que horror, comentou Beatriz, que cobrira os olhos com o antebraço. Aposto que vão fazer exorcismos por dois contos.

As pessoas não têm culpa de acreditar em Deus, replicou Berta.

A frase pareceu a Beatriz de uma ingenuidade tão grande, tão desmesuradamente estúpida, que lhe faltaram forças para responder. Ainda via, no escuro dos olhos fechados, algumas fagulhas a brilharem. Em três anos de Lisboa, era a segunda vez que desmaiava. Tinha a certeza de que nunca aconteceria no meio da estrada, porque só acontecia quando, por alguma razão, o seu coração transbordava de uma emoção nova, insuspeita e desconhecida. Nada a emocionava ao atravessar a rua; o tráfego era muito pouco sentimental.

Berta dizia alguma coisa sobre a igreja que Beatriz não ouviu. Surgiu-lhe, no centro da escuridão, o rosto da mãe: a maneira como lhe dava a mão à saída da escola em Coimbra, como a abraçava antes de a deitar na cama da infância, o rosto frio colado ao seu, o cheiro dela, muskperfumed, que nunca tornara a encontrar noutro ser humano. O pai cheirava a água-de-colónia barata e àquela coisa indefinida a que os homens por vezes chei­ram, mistura de suor e complacência com o corpo.

… de uma noite de Verão, dizia Berta, a propósito de Sha­kespeare, da aula de Expressão Dramática.

Mas ela pensava na rapariga cujo nome verdadeiro era um mistério. Lembrava-se de abrir os olhos, emergindo do fundo das estrelas, e de ver as caras, lá no alto, a cercá-la: Gertrudes, o senhor Fernando, o trintão desencantado; e o rosto de Lia, sentada em frente ao namorado vagabundo, ele ainda concentrado na comida, a engolir vorazmente os últimos pedaços do empadão, e ela, embora permanecesse sentada, olhava-a com a expressão de lamento de uma pietà a quem foi sonegado o corpo de Jesus. Beatriz pensou nesse instante, regressando da inconsciência, das trevas (o desmaio não podia ter sido longo), que aquele colo teria sido o seu íntimo desejo: arrastar-se devagarinho pelo chão de ladrilhos, imundo dos sapatos dos sem-abrigo e dos restos de comida, e ir sossegar a cabeça no calor das coxas de Lia.

… decidir entre Titânia, rainha das Fadas, e Hipólita, rainha das Amazonas, continuou Berta, que falava com as mãos, agitando os braços. Quando explicava alguma coisa, punha o olhar num sítio distante, endireitava as costas, tinha um físico de patinadora artística. Beatriz quis fazer uma comparação, mas não se lembrou do nome de nenhuma patinadora.

O que achas?, perguntou a outra.

O quê?

Berta levantou-se do sofá novamente e foi ao leitor de cassetes. Começou a rebobinar a fita, que emitiu um silvo estridente.

Quero ouvir esta canção outra vez, justificou.

Olhou para Beatriz, que se deitara de lado na cama.

O que achas?, tornou a perguntar.

Beatriz teve de pensar durante um longo e doloroso momento — parecia-lhe que, naquele desmaio, desalojara alguma parte importante da função cognitiva que permitia associar uma resposta a uma pergunta.

Titânia, respondeu por fim. É o papel que deves escolher.

Pergunta-se se ele será assim tão feio. Se àquela hora ainda sentirá repulsa. Pega no livro, decide-lhe o peso entre as mãos: duzentos gramas, mais ou menos. Volta-o ao contrário, abre-o, torna a ler a sinopse. No interior está a página do jor­nal. Desdobra-a e, a custo, como quem olha para uma imagem da vergonha (prisioneiros de Auschwitz, ou atrocidades no Congo), torna a contemplar o rosto do escritor. Só que agora ele tem um bigode e uns cornos; um balãozinho com uma frase estúpida. Talvez devesse pegar numa borracha e apagar aquelas garatujas. Que ridículo, como se um jornal fosse coisa que se emendasse! Ou ir à procura de um outro jornal onde apa­recesse uma outra fotografia do escritor, que lhe fizesse justiça.

O livro que possuía (terceira edição) não tinha fotografia de badana. Se fosse editora, obrigaria todos os seus autores a mostrarem a cara; nenhum se esconderia por detrás do escudo protector do talento. O choque inicial não lhe permitira contem­plar o artigo. Era uma espécie de entrevista misturada numa crítica velada ao livro — as palavras fútil, incómodo e manipulador chamaram-lhe a atenção. A certa altura, em resposta à bana­líssima pergunta pela autobiografia da obra, o escritor dizia que a memória o traía constantemente — que, na verdade, tinha tido um caso com uma mulher mais velha aos dezassete anos, e que, sim, ela lhe mostrara as possibilidades do amor, e também a inescapável traição que o amor sempre cumpre sobre os amantes.

Mas o protagonista, no romance, é virgem quando conhece Lisbeth.

Sim, e então?

Na vida real não era…

Se puser as coisas assim, romance e vida real, nunca sairemos disto. Um romance não é um romance, ou uma vida irreal. É a vida real, ou a verdade que nela existe.

Que pretensioso, pensa Beatriz. É possível que a apatia emocional no rosto dele derive daí, desse lugar de arrogância que tantas vezes enclausura um criador (um artista) na solidão da sua obra. Ao mesmo tempo, dá-se conta de que concorda absolutamente com ele, e isso irrita-a de tal maneira que torna a enfiar a página do jornal no interior do livro, maldosamente dobrada, e atira o volume para o chão, voltando-se para o outro lado na cama.

Fecha os olhos, encontra o escuro. Tem vontade de chorar, mas depois ouve, do outro lado do corredor, no quarto de Berta, a pavorosa recitação de Shakespeare — «Canta outra vez, gentil mortal, peço-te!» — e apetece-lhe gritar que o papel de Titânia é secundário, terciário, e que tem a certeza de que a colega de casa nunca, mas nunca, em dia algum, será uma actriz de renome.

Que está destinada ao fracasso.

Entrou na sala de aula quase no final e foi sentar-se ao lado de Natalya, a colega de origem ucraniana cujo cabelo espesso, de caracóis infinitos, era a inveja de Beatriz. Vestia-se sempre de preto — unhas pintadas de preto, olhos maquilhados de sombra negra —, e era melancólica e soturna, escrava de emoções voláteis e temperamentos exaltados. Por algum motivo, Natalya desenvolvera uma predilecção pelo professor Gusmão. Dizia dele que tinha os olhos verdes mais bonitos do mundo, que havia neles tanto desespero como em Tender Prey, o álbum de Nick Cave que a ucraniana ouvia repetidamente no intervalo das aulas, sentada à sombra do telheiro da associação de estudantes.

Gusmão lia uma passagem em inglês na sua voz rouca, melodiosa.

I may have been happy, but it is not in my conscious memory now. Nor do I feel a longing for it, as though I had never had it; my spirit seeks different food from happiness; for I think I have a suspicion of what it is.

Mais tarde, Beatriz aprenderia que Gusmão lia de um romance de Melville, o mesmo que compusera a história da Grande Baleia, o livro que servira para acabar com as suas aspirações literárias — vendeu pouco mais de três mil exemplares enquanto Melville foi vivo, e o escritor lucrou, com um dos maiores clássicos da história da literatura, pouco mais de quinhentos dólares, tornando-se inspector de alfândega para sobreviver. Natalya, de olhos semicerrados, punha verniz nas unhas discretamente, o frasquinho dentro da mala pousada sobre o colo, oculto do olhar de Gusmão. O cheiro propagava-se pela fila de carteiras, onde cerca de doze alunos sonolentos faziam o possível por terem uma nota sumarenta numa cadeira semestral de Literatura Inglesa (séculos XVII-XIX). Gusmão era conhecido pela generosidade nas avaliações; também era conhecido pelas longas e soporíferas leituras de clássicos.

Não apareceste, disse-lhe Natalya, baixinho.

Beatriz desconhecia o sentido daquela afirmação.

A festa, relembrou-lhe a outra.

Beatriz recordou então o convite. Quinta-feira, no bar da Travessa da Cara. Natalya, nos primeiros tempos de faculdade, ensinara-a a beber. «As mulheres bebem muito mais do que tu julgas», dissera-lhe, uma noite, «só que a maioria não gosta de mostrar que bebe.» Também fumava e, por vezes, inalava rapé — um produto escandinavo que o namorado, também gótico, de dois metros de altura e empregado do bar, lhe trouxera de uma viagem à Dinamarca.

Desmaiei, disse Beatriz. Desculpa.

O quê?, perguntou Natalya.

Meninas, chamou Gusmão. Erguera os olhos de Pierre; or, The Ambiguities e olhava na direcção das duas. Beatriz sentiu-se corar. Não pertencia àquela cadeira e, além disso, era agora um elemento perturbador.

Tem uma voz tão bonita, comentou Natalya, baixinho. A voz de um poeta.

Gusmão era quase septuagenário e praticamente surdo do ouvido esquerdo. Quando se sentava ao fundo da sala, de frente para os estudantes, fazia-o sempre de perfil. Houve um momento de silêncio. O professor pigarreou e perguntou à aluna ucraniana se desejava acrescentar alguma coisa à leitura do excerto.

Não, professor, respondeu Natalya, fechando o zipper da carteira, o que abafou o cheiro do verniz.

No final da aula, Beatriz levantou-se e foi ter com Gusmão. O professor sorriu-lhe com dentes amarelos, de anos de tabaco. Usava um casaco castanho de veludo com cotoveleiras. Não chei­rava a água-de-colónia; cheirava, nesse dia, a uma mistura de suor e de sono. Pela primeira vez, reparou nas profundas olheiras do orientador.

Temos algum tempo, disse o homem. Prefere ir para o meu gabinete?

Pode ser aqui, respondeu Beatriz.

Os outros alunos tinham saído. Ela sentou-se numa das cadeiras da frente (ainda estava morna) e tirou o caderno da mochila. Começou a ler o que prometera terminar: o princípio do capítulo sete, que ia de «No Coração da Metrópole Hiberniana» até ao difícil título «House of Key(es)», com a dupla referência a «chaves» e a Alexander Keyes.

Não sei resolver isto, admitiu ela.

Hum, respondeu Gusmão. Coçou a parte superior da cabeça, onde o cabelo escasseava. Tinha, de facto, uns bonitos olhos verdes, ainda que gastos pelo tempo.

Às vezes acho que o livro foi escrito de propósito para tornar a tradução impossível, disse ela.

Foi a Beatriz que o quis traduzir.

Eu sei.

Traduzir, repetiu ele. Nem que a mate, gracejou.

Acha que cometi um erro?

Acho que pode levar anos. Quer licenciar-se aos quarenta?

Beatriz não respondeu. Gusmão olhou para o tecto, como se existisse aí uma resposta. Depois coçou o tecido das calças com as duas mãos, levou o indicador ao lábio inferior. Outra vez o mesmo gesto, pensou ela; seria que as pessoas se repetiam infindavelmente?

Quando somos novos, disse Gusmão, tendemos a pro­curar o mais. A coisa mais difícil, a mais saborosa. A mais bonita. Tendemos a sobreavaliar as nossas capacidades e, quando fracassamos, a condenar-nos sem misericórdia por termos falhado. Lembre-se disto.

Do quê?

De não se julgar incapaz quando falhar.

Beatriz recostou-se na cadeira e fechou o caderno que continha a tradução. Sentiu-se desmoralizada, como se alguém a vergasse com um gigantesco dedo indicador. Reparou nos pulsos finíssimos e ossudos de Gusmão, que cruzara as mãos na barriga e aguardava por uma resposta dela.

É o meu Evereste, disse ela, por fim.

Gusmão sorriu. Depois chegou-se à frente na mesa e, pousando os cotovelos sobre o tampo (as mangas do casaco recuaram), voltou a orelha direita para Beatriz e começou a falar de um outro livro de Joyce, chamado Dubliners, e de um conto inti­tulado «Os Mortos», de que Beatriz imediatamente se lembrou, das aulas de primeiro ano de Literatura Inglesa. Na altura, lera o conto e nada lhe dissera, esquecera-o. Mas Gusmão insistiu.

Esse livro é uma pérola por traduzir em português, sugeriu ele. Existe uma ou outra tradução, todas terríveis. E esse conto final… Das coisas mais dilacerantes alguma vez escritas acerca do amor.

Não tenho tempo para começar outro livro, queixou-se Beatriz.

Por mim, bastaria que traduzisse «Os Mortos».

Beatriz ficou sem resposta. Era, afinal, um fracasso aquilo que estava a acontecer: a sugestão, por parte do seu orientador, de mudar a tese, de recuar na sua proposta. Porventura, era necessário render-se à evidência de que almejara escalar o Evereste sem experiência prévia, sem nunca ter subido sequer à serra da Estrela, e que a voz da maturidade a advertia dos perigos da sua temeridade, dos custos da ousadia. Cruzou os braços em torno do peito — estava no período pré-menstrual e as mamas tinham aumentado de volume, doíam-lhe — e respirou fundo. Depois perguntou:

Porque acha que ele é um escritor medíocre?

Gusmão deteve um gesto a meio, o braço a meio caminho. Depois voltou a cruzar as mãos uma na outra.

Joyce, medíocre? É um génio.

Não me refiro a Joyce, insistiu Beatriz.

Gusmão, que parecia confuso com a pergunta, balbuciou alguma coisa ininteligível. Depois lembrou-se e começou a discorrer sobre o autor d’A História do Silêncio.

… banalidade dos temas, ouviu Beatriz. Muito sexo, pouca profundidade de análise nas relações humanas, afinal, a matéria de que é feita a literatura. Veja o exemplo de Tolstoi, de Proust…

Havia uma satisfação secreta em deixar que Gusmão se pronunciasse daquela maneira acerca de um antigo colega — com um ressentimento velado mas notório. Talvez tivesse ciúmes por nunca ter escrito um livro, pensou Beatriz. Então e se os ciúmes fossem por causa dela? Melhor ainda. Num quartinho secreto da sua inteligência, ela regozijava com aquela sua vingança, compensando a frustração de Ulisses com a frustração que agora sentia na postura e no discurso do orientador.

E o seu pai? perguntou às tantas o professor Gusmão, desejando mudar de assunto. Como está o seu pai?

O meu pai?, riu-se ela.

Sim. A papelaria é um bom negócio?

Tabacaria, corrigiu Beatriz.

Ah. «Não sou nada, nunca serei nada», gracejou ele.

«Não posso querer ser nada», completou ela.

Por vezes, a cidade deixa-a triste. Embora Coimbra seja um lugar muito mais pequeno, desolado em certas noites — ou em quase todas as noites, excepto aquelas em que os estudantes saem à rua de batas negras, ébrios de vinho —, é Lisboa que a deixa perplexa, melancólica. Amiúde sente que está em lado nenhum, que há um buraco negro no mapa do mundo e esse buraco calha precisamente ali. Nessas ocasiões, quando não consegue dormir, dá uma volta pelo bairro. À porta do Café Império, cruza-se com prostitutas e alguns taxistas gordos e malcheirosos; os empregados nocturnos do café, ridiculamente vestidos com fraques brancos e lacinhos pretos, fumam cigarros à porta para que a lentidão do tempo não seja tão castigadora. Beatriz veste um casaco comprido que herdou da mãe — castanho-claro, ou cor de caramelo — e sente-se, à semelhança daquela que perdeu, um espírito a vagabundear por ruas que não são as suas. Não ocupa espaço, é mais vento do que gente, mais uma assombração do que alguém deste mundo.

Lembra-se da primeira vez que bebeu com Natalya. Tinha ido ver um filme à Cinemateca nessa tarde — O Desprezo — e ainda trazia Bardot na cabeça, nos ouvidos Gordon Sharp a res­soar no leitor de cassetes enquanto atravessava a pé o jardim do Príncipe Real, quando, no bar da Travessa da Cara, experimentou o alívio do absinto. Sempre evitara os bares, os ajuntamentos. Em Coimbra, na sua vida anterior, fugira constantemente ao apelo dos colegas do liceu — até que, um dia, os convites terminaram. Se havia saídas nocturnas, não era convidada. Ficava em casa a ler. Foi assim que descobriu os clássicos russos, os franceses, o irlandês que escreveu o livro mais difícil do mundo.

Em Lisboa, porém, a solidão é demasiado pesada; tornara-se o seu mestre, ela o seu vassalo. E, nessa noite, Beatriz bebeu. Natalya era um muro de resistência, o álcool passava por si sem deixar marcas. O namorado era oito anos mais velho, magro mas musculado, usava pulseiras pretas com rebites nos dois braços, coletes de cabedal sem nada por baixo, o cabelo era uma confusão de diagonais e declives. Ao terceiro copo, Beatriz começou a rir-se, a rir-se muito com as piadas grotescas do rapaz, com os trejeitos de Natalya. As mesas do bar estavam todas ocupadas, ninguém era mais velho do que ninguém ali dentro. Natalya ensinava-lhe palavras russas — pogrom, kolkhoz (mais tarde, percebeu que, na verdade, a amiga não falava russo) — e, de tempos a tempos, agarrava-se ao pescoço do namorado e iam para um canto do bar, onde havia uma jukebox, beijar-se apaixonadamente enquanto ele lhe enfiava as mãos por debaixo da camisola e lhe apalpava os seios. Juntaram-se outras pessoas à mesa, Natalya ia trazendo copinhos de absinto numa bandeja que o empregado lhe passava por cima do balcão e, já muito tarde, a horas desconhecidas (Berta juntara-se a eles), alguém inventou, num grupo de gente ébria e desatinada, o nome Laura Rolf para Berta e a sua carreira de actriz. A miúda, na ingenuidade do seu cabelo louro, nem percebeu ser piada de mau gosto, uma anedota.

Beatriz teve de sair do bar e, na esquina com a Rua do Diário de Notícias, encostou-se à parede e fechou os olhos. O mundo era um carrossel, os póneis iam à frente, com a velo­cidade dos átomos e o pendular de um barco, e viu, nos cantos secretos da sua mente, o carro de Bardot e Jack Palance no enfiamento de um comboio, os passageiros mortos, a justiça devolvida a um mundo que castiga o mal-entendido, a decepção. A vida real, porém, não é como os filmes, o castigo pode nunca chegar.

Que se foda a vida real, pensa Beatriz, com o sabor do vómito na garganta. A seguir, vomita. Pese embora o sofrimento, há um imenso alívio. Caminhando para casa, sozinha e cam­baleante, atravessando em silêncio a cidade triste em Janeiro de 1992, reflecte: Porque remetem todos os filmes e os livros de que gosta para outros filmes e outros livros? Ah, lembra-se: Porque tudo são símbolos.

Tudo são símbolos.

Acontece-lhe sonhar com eles, sabe que sim, embora não consiga dizer se são sonhos ou a imaginação a funcionar num plano menos do que superficial, alguma coisa que lhe acontece por trás dos olhos abertos: durante uma aula, no metropolitano, enquanto relê «Os Mortos». Sonha-os deitados no chão, num beco, em cima de papel de jornal, sujos e miseráveis. Dói-lhe o frio que devem passar naqueles dias de Janeiro, gelados e húmidos. O corpo dela embrulhado no dele, cercados por pombos, pela imundície. Uma ratazana, inquilina daquele beco, a farejar a meia esburacada de Rodrigo, a subir pelo corpo inerte da rapariga de nome desconhecido, à procura de sustento. Os estômagos — deles, e dos bichos — doentes da escassa nutrição, o desejo há muito vergado pelo castigo do relento.

Nesses sonhos acordados, contudo, Beatriz dá-se conta de que não assume o papel de cuidadora: não é mais a voluntária do abrigo, servindo a sopa quente, a refeição aos miseráveis; não. Nessas fantasias de olhos abertos, ela deita-se ao lado deles, ou no meio, as mãos de cavador, dedos grossos e calejados, percorrendo-lhe a pele, o rosto feroz, de animal perdido, encostado à curva das suas costas, e Beatriz rebentando num orgasmo, como a explosão de um pequeno planeta à deriva.

Quéquefoi?, pergunta-lhe Lia.

Nada, responde Beatriz.

Está encostada à parede do salão, de mãos enfiadas nos bolsos das calças de ganga pretas. Tem o avental sujíssimo, foi uma noite em que os sem-abrigo não pararam de chegar, e ela desdobrou-se em funções. Primeiro na cozinha sob a batuta de Gertrudes; depois com António, na lavandaria, de luvas e máscara no rosto, enfiando roupa suja nas máquinas industriais; por fim, servindo jantares. Restam quatro pessoas, o jovem casal e as irmãs gémeas. (Tem a certeza de que estas irmãs sofrem de alguma espécie de deficiência mental: os rostos demasiado quadrados, os olhos demasiado juntos. Uma delas tem ranho constante no nariz, como se não se desse conta do seu aspecto físico.)

Tásólhar, insiste a rapariga.

É a primeira vez que a ouve falar. Tem uma voz bonita, algo aguda; voz de miúda. Enquanto Lia olha, desconfiada, para Beatriz, o namorado aproveita e ...