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A MULHER ENTRE NóS

Sarah Pekkanen

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Excerto

CAPÍTULO 1

Nellie era incapaz de dizer o que a tinha acordado. Mas, quando abriu os olhos, estava uma mulher de pé, ataviada no seu vestido de noiva, de renda branca, junto aos pés da cama, a olhar para ela.

A garganta de Nellie contraiu-se num grito e ela lançou-se na direcção do taco de beisebol que estava encostado à mesinha-de-cabeceira. Foi então que a sua visão se acomodou à luz granulosa da madrugada e o bater do seu coração se tornou mais suave.

Deixou escapar uma risada quando se apercebeu de que estava a salvo. A ilusão fora criada pelo seu vestido de noiva, enfiado numa protecção de plástico, pendurado nas costas da porta do roupeiro, onde ela o deixara no dia anterior, depois de o ter ido buscar à loja de noivas. O corpete e a saia armada estavam forrados com tecido amachucado, para manterem a forma. Nellie deixou cair a cabeça sobre a almofada. Quando a sua respiração estabilizou, reparou nos números azuis do relógio que repousava sobre a mesa-de-cabeceira. Demasiado cedo, mais uma vez.

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Esticou os braços por cima da cabeça e chegou a mão esquerda ao relógio para desligar o alarme antes que este começasse a tocar. O anel de noivado de diamantes que Richard lhe dera, sentia-o como um peso estranho no dedo.

Mesmo quando era criança, Nellie nunca conseguia adormecer com facilidade. A mãe não tinha paciência para os longos rituais à hora de ir para a cama, mas o pai esfregava-lhe suavemente as costas, formando frases sobre o tecido da sua camisa de dormir. Amo-te ou És mesmo especial, escrevia, e ela tentava adivinhar a mensagem. Outras vezes, traçava padrões, círculos, estrelas e triângulos, pelo menos até os pais se divorciarem e ele sair de casa quando ela tinha nove anos. Então deitava-se sozinha na sua cama de solteira, debaixo do edredão às riscas roxas e cor-de-rosa, a olhar para a mancha de água no tecto do quarto.

Quando, por fim, conseguia adormecer, dormia ferrada durante umas boas sete ou oito horas, sem sonhar e num sono tão profundo que a mãe às vezes tinha de a abanar para a despertar.

Mas, após uma noite de Outubro no seu último ano de faculdade, tudo isso mudou de repente.

As suas insónias pioraram acentuadamente e o seu sono passou a ser interrompido por sonhos agitados e despertares abruptos. Certa vez, desceu as escadas para tomar o pequeno-almoço na residência estudantil e a sua colega da república Chi Omega disse que ela estava a gritar algo ininteligível. Nellie tentou desvalorizar:

— Só ando stressada com os exames finais. Dizem que o exame de Psych Stat[1] é um horror. — Saiu então da mesa para ir buscar mais uma chávena de café.

Depois disso, fez questão de ir visitar a sua orientadora da faculdade, mas, apesar da amabilidade e capacidade de persuasão da mulher, Nellie não conseguiu falar sobre a noite quente de início do Outono que começou com garrafas de vodka e risadas e terminou com sirenes policiais e desespero. Nellie estivera com a terapeuta duas vezes, mas cancelou a terceira consulta e nunca mais voltou.

Nellie contara a Richard alguns pormenores depois de acordar de um dos seus pesadelos recorrentes, para sentir os seus braços apertarem-na e a sua voz profunda sussurrar-lhe ao ouvido:

— Agora estás comigo, meu amor. E, comigo, estás a salvo. — Abraçada a ele, Nellie sentia uma segurança pela qual percebia ter ansiado toda a vida, mesmo antes do incidente. Com Richard ao seu lado, conseguia finalmente voltar a sucumbir ao estado vulnerável do sono profundo. Era como se o chão instável sob os seus pés tivesse estabilizado.

Na noite anterior, porém, Nellie estava sozinha no seu antigo apartamento, no piso térreo. Richard encontrava-se em Chicago em viagem de negócios e Samantha, a sua melhor amiga e companheira de casa, adormecera no apartamento do seu último namorado. Os ruídos de Nova Iorque atravessavam as paredes: buzinas, gritos ocasionais, um cão a ladrar… Embora a taxa de criminalidade de Upper East Side fosse a mais baixa do bairro, as janelas estavam protegidas com barras de aço e a porta reforçada com três fechaduras, incluindo uma grossa que Nellie instalara depois de se mudar. Ainda assim, ela precisava de um copo extra de Chardonnay antes de conseguir adormecer.

Nellie esfregou os olhos remelosos e saiu lentamente da cama. Pegou no seu roupão de feltro e em seguida olhou de novo para o vestido, interrogando-se se não seria melhor tentar arranjar espaço no seu pequeno roupeiro para ele caber lá dentro. Mas a saia estava tão armada! Na loja de noivas, rodeada pelas suas irmãs tufadas e pejadas de lantejoulas, parecia elegante e simples, como um coque no meio de penteados bouffant. Mas, ao lado do emaranhado de roupas e da frágil estante da IKEA no seu quarto apertado, assemelhava-se perigosamente a um conjunto das Princesas Disney.

Porém, já era demasiado tarde para trocar o vestido. A data do casamento aproximava-se a passos largos e já estava tudo tratado ao pormenor, até o boneco do bolo: uma noiva louraça e o seu lindo noivo, petrificados num momento perfeito.

— Ena, até são parecidos com vocês — dissera Samantha quando Nellie lhe mostrara uma foto das figurinhas vintage chinesas que Richard enviara por e-mail. O boneco do bolo pertencera aos pais dele e Richard recuperara-o da arrecadação na cave do seu prédio depois de a ter pedido em casamento. Sam torcera o nariz. — Já alguma vez pensaste que ele é bom de mais para ser verdade?

Richard tinha trinta e seis anos, mais nove do que Nellie, e era um gestor bem-sucedido de fundos de cobertura. Era musculado como um atleta e tinha um sorriso fácil que contradizia os seus intensos olhos azul-marinho.

No seu primeiro encontro, levara-a a um restaurante francês e debatera com conhecimento de causa sobre borgonhas brancos com o escanção. No segundo, num sábado com neve, ele pedira-lhe que vestisse roupas quentes e aparecera com dois trenós de plástico verde-brilhante.

— Eu conheço a melhor colina do Central Park — disse-lhe.

Umas calças de ganga desbotadas ficavam-lhe tão bem como os seus melhores fatos.

Nellie não estava a brincar quando respondeu desta forma à pergunta de Sam:

— Não houve um único dia em que não pensasse nisso.

Nellie conteve mais um bocejo enquanto subia os sete degraus para entrar na estreita cozinha, sentindo o linóleo frio sob os pés descalços. Acendeu a luz do tecto e reparou que Sam, mais uma vez, fizera uma javardice com o frasco de mel ao adoçar o chá. O líquido escorria pelo frasco e uma barata esperneava na viscosa piscina âmbar. Embora já vivesse há uns anos em Manhattan, o espectáculo deixou-a enojada. Nellie pegou numa das canecas sujas de Sam que repousavam no lava-louças e prendeu a barata debaixo dela. Ela que resolva, pensou. Enquanto esperava que o café ficasse pronto, abriu o portátil e começou a ver os e-mails — um cupão da Gap; a mãe, que pelos vistos agora era vegetariana, a pedir a Nellie que se certificasse de que haveria um prato sem carne no copo-d’água; um aviso de pagamento do cartão de crédito.

Nellie verteu o seu café numa caneca decorada com corações e com as palavras World’s #1 Teacher — ela e Samantha, que também era educadora de infância na Learning Ladder, tinham uma dúzia de canecas quase iguais encafuadas no armário — e bebeu um gole agradável. Tinha agendadas para aquele dia dez reuniões de Primavera, com os pais dos Lobitos, a sua turma de três anos. Sem cafeína, corria o risco de adormecer no «cantinho do sossego» e precisava de estar em forma. Primeiro tinham sido os Porter, que recentemente haviam mostrado a sua preocupação com a falta de criatividade, estilo Spike Jonze, que imperava na sua sala. Tinham recomendado que substituísse a casa de bonecas grande por uma tenda tipi gigante e a seguir haviam-lhe enviado um link para uma que estava à venda na Land of Nod por 229 dólares.

Nellie decidiu que, quando fosse viver com Richard, sentiria ainda menos saudades dos Porter do que das baratas. Olhou para a caneca de Samantha e, sentindo-se culpada, pegou rapidamente no insecto com um lenço de papel, atirou-o para a sanita e puxou o autoclismo.

O telemóvel tocou quando Nellie estava a abrir a torneira do chuveiro. Enrolou-se numa toalha e foi a correr até ao quarto para alcançar a mala, mas o telemóvel não se encontrava lá dentro; Nellie andava sempre a perdê-lo. Acabou por o encontrar nas dobras do edredão.

— Sim?

Ninguém respondeu.

O visor indicava que se tratava de um número não identificado. Após breves instantes, apareceu um alerta de mensagem de voz no visor. Nellie premiu uma tecla para ouvir, mas tudo o que conseguiu escutar foi um som fraco e ritmado. Alguém a respirar.

É um vendedor de telemarketing, disse para consigo enquanto atirava novamente o telefone para cima da cama. Pouco importava. Estava a exagerar, como fazia às vezes. Andava sobrecarregada, apenas isso. Afinal de contas, nas semanas que se seguiriam, esvaziaria o seu apartamento, passaria a viver com Richard e seguraria num bouquet de rosas brancas enquanto caminhava rumo à sua nova vida. A mudança era desconcertante e ela enfrentava uma série delas ao mesmo tempo.

Ainda assim, era a terceira chamada em outras tantas semanas.

Olhou para a porta do apartamento. A lingueta da fechadura de aço estava corrida.

Nellie encaminhou-se para a casa de banho, depois voltou para trás, pegou no telemóvel e trouxe-o consigo. Poisou-o na borda do lavatório, trancou a porta, pendurou a toalha no varão e entrou no polibã. Deu um pulo para trás quando sentiu o jacto frio e a seguir ajustou a pressão da torneira e esfregou os braços.

O cubículo ficou repleto de vapor e Nellie deixou a água escorrer sobre os ombros e pelas costas abaixo. Ia mudar o apelido depois do casamento. Talvez alterasse também o número de telefone.

Nellie pôs um vestido de linho e estava a aplicar rímel nas pestanas loiras — as únicas vezes que usara bastante maquilhagem ou roupas agradáveis para trabalhar tinha sido nas reuniões de pais e no dia de formatura — quando o telemóvel vibrou com um barulho alto e breve contra o lavatório de porcelana. Nellie estremeceu e o pincel do rímel deslocou-se para cima, deixando uma marca negra junto à sobrancelha.

Olhou para baixo e viu uma mensagem de Richard:

Mal posso esperar para te ver esta noite, minha linda. Não paro de contar os minutos. Amo-te.

Enquanto olhava para as palavras do noivo, a respiração, que parecia ter estado presa no peito durante toda a manhã, afrouxou. Eu também te amo, respondeu-lhe.

Naquela noite, Nellie falar-lhe-ia dos telefonemas. Richard iria servir-lhe vinho e erguer-lhe os pés e pousá-los no seu colo enquanto conversavam. Talvez ele encontrasse uma forma de detectar o número desconhecido. Ela aprontou-se, pegou na mala pesada e saiu para a rua, onde brilhava o Sol de Primavera.

CAPÍTULO 2

Acordo com o guincho da chaleira da tia Charlotte. A luz do Sol, fraca, esgueira-se através das frestas das persianas, esboçando ténues riscas no meu corpo, enroscado na cama em posição fetal. Como pode já ser de manhã? Mesmo depois de meses a pernoitar sozinha numa cama de solteiro — e não na cama de casal que em tempos partilhei com Richard —, ainda durmo sempre sobre o lado esquerdo. Os lençóis ao meu lado estão frescos. Estou a arranjar espaço para um fantasma.

A manhã é o pior momento do dia, já que, por breves instantes, o meu cérebro se mostra desanuviado. A espera é tão cruel. Aninho-me sob a colcha de retalhos, como se um enorme peso me prendesse à cama.

Neste momento, Richard estará provavelmente com a minha jovem substituta, com os olhos azul-marinho cravados nela, enquanto as pontas dos dedos lhe percorrem as faces. Por vezes, quase consigo ouvi-lo dizer as frases doces que costumava sussurrar-me.

Adoro-te. Vou fazer-te tão feliz! És o meu mundo.

Bate, bate, coração, cada batida forte quase dói cá dentro. Respirações profundas, recordo. Não dá. Nunca dá.

Depois de ter observado a mulher por quem Richard me trocou, não deixo de ficar impressionada com a sua brandura e inocência. Faz-me lembrar tanto Richard e eu, quando nos conhecemos e ele me amparava o rosto entre as palmas das mãos, com todo o cuidado, como se fosse uma flor frágil que temesse estragar.

Mesmo naqueles inebriantes primeiros meses, às vezes aquilo — ele — parecia algo encenado. Mas pouco importava. Richard era carinhoso, carismático e talentoso. Apaixonei-me por ele quase de imediato. E também nunca duvidei do seu amor por mim.

No entanto, ele acabou comigo. Saí da nossa vivenda T4 com portas em arco e um belo relvado. Três dos quartos permaneceram vazios durante o nosso casamento, mas a empregada continuava a limpá-los todas as semanas. Eu encontrava sempre um pretexto para sair de casa quando ela abria aquelas portas.

A sirene de uma ambulância, doze andares mais abaixo, arranca-me finalmente da cama. Tomo um duche, a seguir seco o cabelo e reparo nas raízes expostas. Tiro uma caixa de Clairol Caramel Brown do armário por baixo do lavatório para me lembrar de lhes dar um retoque logo à noite. Já lá vão os dias em que eu pagava — ou melhor, em que Richard pagava — centenas de dólares para me cortarem e pintarem o cabelo.

Abro o velhinho roupeiro de cerejeira que a tia Charlotte comprou no GreenFlea Market e que depois restaurou. Dantes eu tinha closet maior do que o quarto em que me encontro agora. Cabides e cabides com vestidos arrumados por cor e por estação. Pilhas de jeans de marca, com a ganga em vários estados de desgaste. Um arco-íris de caxemira a revestir uma parede.

Nunca liguei muito a essas peças de roupa. Habitualmente, envergava apenas umas calças de ioga e uma camisola confortável. Como se fosse uma daquelas pessoas que vivem numa grande cidade e trabalham nos subúrbios, vestia uma fatiota mais elegante pouco antes da hora aprazada para Richard regressar a casa.

Agora, porém, agradeço o facto de ter trazido algumas malas com as minhas melhores vestimentas quando Richard me pediu para deixar a nossa casa de Westchester. Como sou assistente comercial da Saks, onde trabalho no terceiro andar, na venda de artigos de luxo, dependo de comissões, pelo que é fundamental passar a imagem de uma pessoa ambiciosa. Ponho-me a olhar para os vestidos alinhados no roupeiro com uma precisão quase militar e escolho um Chanel azul, cor de ovo de pisco. Um dos botões de marca está amolgado e mais lasso do que da última vez que o vesti, já lá vai tanto tempo. Nem preciso de balança para perceber que perdi bastante peso; com um metro e sessenta e sete de altura, o meu tamanho agora é o 34.

Entro na cozinha, onde a tia Charlotte está a comer um iogurte grego com mirtilos frescos, e dou-lhe um beijo na face, numa pele que me parece tão suave como pó de talco.

— Vanessa, dormiste bem?

— Dormi — minto.

Ela encontra-se junto à bancada da cozinha, de pé, descalça, enfiada no fato de tai-chi, que lhe está largo, com os óculos postos, a examinar uma lista de compras escrita na parte de trás de um velho envelope, enquanto vai dando umas colheradas no seu pequeno-almoço. Para a tia Charlotte, o impulso é a chave da saúde emocional. Anda sempre a pedir-me para a acompanhar numa caminhada pelo SoHo ou para irmos juntas a uma palestra de arte no Y ou ver um filme no Lincoln Center… mas já percebi que a actividade não me ajuda. Afinal de contas, os pensamentos obsessivos podem perseguir-nos em qualquer lugar.

Dou uma trincadela numa torrada de pão integral e ponho na mala uma maçã e uma barra de proteínas para o almoço. Consigo perceber que a tia Charlotte está aliviada por eu ter conseguido arranjar um emprego e não apenas por parecer que, por fim, as coisas estão a melhorar para o meu lado. Vim alterar o seu estilo de vida; habitualmente, ela passa as manhãs num aposento suplementar que usa como atelier, onde espalha óleos ricos em telas, criando mundos de sonho que nem por isso são mais bonitos do que aquele que habitamos. Mas não é de se queixar. Quando eu era pequena e a minha mãe precisava do que eu julgava serem os seus «dias sem luzes», eu telefonava à tia Charlotte, a sua irmã mais velha. Bastava sussurrar-lhe: «Ela está outra vez a descansar», e a minha tia aparecia, deixava cair o saco de viagem no chão, estendia-me as mãos manchadas de tinta e cingia-me num abraço que cheirava a óleo de linhaça e a alfazema. Sem filhos, tinha a flexibilidade suficiente para decidir a sua própria vida. E eu tinha muita sorte por ela me pôr no centro dessa vida quando eu mais precisava dela.

— Queijo brie… peras…. — murmura a tia Charlotte enquanto vai acrescentando os artigos à lista, com uma letra cheia de arabescos. Traz o cabelo acinzentado apanhado num coque revolto, e o conjunto ecléctico que repousa defronte — uma tigela de vidro azul-cobalto, uma caneca de cerâmica roxa e uma colher de prata — parece uma inspiração para a pintura de uma natureza-morta. Tem o seu T3 valorizado, pois a tia Charlotte e o meu tio Beau, que morreu há uns anos, compraram-no neste bairro antes de o preço dos imóveis subir em flecha, mas a habitação faz lembrar uma antiga casa de campo fora de contexto. O soalho de madeira range, empenado, e cada um dos quartos apresenta uma cor diferente: amarelo-forte, azul-safira, verde-hortelã.

— Mais um sarau esta noite? — pergunto, e ela anui com a cabeça.

Na sala de estar da minha tia, desde que passei a morar com ela, tanto podia deparar-me com um grupo de caloiros da Universidade de Nova Iorque como com o crítico de arte do New York Times reunido com alguns proprietários de estúdios.

— Deixe estar que eu trago o vinho quando vier para casa — ofereci-me. É importante que a tia Charlotte não me veja como um fardo. Ela é tudo o que me resta.

Mexo o meu café e tenho curiosidade em saber se Richard estará a fazer café para o seu novo amor e a levar-lho à cama, onde ela, sonolenta e quente, estará enroscada sob o edredão macio que dantes partilhávamos. Vejo os seus lábios curvarem-se num sorriso enquanto ela abre a cama para ele entrar. Richard e eu, muitas vezes, fazíamos amor de manhã.

— Independentemente do que venha a acontecer durante o resto do dia, esta já ninguém nos tira — dizia ele.

Sinto um nó no estômago e afasto a torrada. Olho para o meu relógio Cartier Tank, um presente de Richard por ocasião do nosso quinto aniversário, e toco com a ponta dum dedo no ouro suave.

Ainda consigo senti-lo a levantar-me o braço para mo enfiar no pulso. Por vezes, tenho a certeza de sentir nas minhas próprias roupas, mesmo após a lavagem, um resquício do perfume de citrinos do sabonete L’Occitane com que se esfregava no banho. Richard parece estar sempre ligado a mim, tão próximo, embora diáfano, como uma sombra.

— Acho que seria bom para ti vires connosco esta noite.

Demoro alguns instantes a reorientar-me.

— Talvez — digo, sabendo que não irei.

A tia Charlotte tem um olhar suave; ela deve perceber que estou a pensar em Richard. No entanto, não conhece a verdadeira história do nosso casamento. Acha que ele andou atrás de raparigas novas e que me pôs de lado, seguindo as pisadas de tantos homens que já fizeram o mesmo. Acha que sou uma vítima; apenas mais uma mulher destroçada pela chegada da meia-idade.

O seu semblante deixaria de denotar compaixão caso ela soubesse do meu papel na morte da nossa relação.

— Tenho de ir a correr — digo-lhe. — Mas mande-me uma mensagem se precisar de mais alguma coisa da loja.

Só consegui assegurar o meu trabalho no departamento de vendas há um mês e já recebi duas advertências por chegar atrasada. Tenho de arranjar melhor forma de adormecer; os comprimidos que o médico me prescreveu causam-me indolência de manhã. Estive quase dez anos sem trabalhar. Se perder este emprego, quem me irá contratar?

Ponho a mala pesada ao ombro, com os meus Jimmy Choos, praticamente impecáveis, com a ponta de fora, aperto os atacadores dos meus Nike, já coçados, e ponho os fones. Ouço podcasts de psicologia durante a minha caminhada de cinquenta quarteirões até chegar à Saks; o facto de ouvir falar das compulsões dos outros, por vezes, afasta-me da minha.

O Sol enganou-me ao vir cumprimentar-me, discreto, ainda na cama, levando-me a conjecturar uma temperatura superior àquela com que me deparo quando saio à rua. Preparo-me contra o agreste vento primaveril e dou início à caminhada de Upper West Side até Midtown Manhattan.

O meu primeiro cliente é uma banqueira de investimentos que dá pelo nome de Nancy. Tem um trabalho deveras absorvente, explica, mas a sua reunião matutina foi cancelada inesperadamente. É uma mulher baixa, com olhos grandes e cabelo curto, cujo ar arrapazado me desafia a encontrar o corte de roupa adequado ao seu estilo. Estou feliz com esta distracção.

— Tenho de usar roupas que causem um forte impacto, senão ninguém me leva a sério — diz ela. — Olhe lá para mim. Há quem não acredite que já passei dos vinte e um!

Quando a afasto delicadamente de um fato cinzento todo composto, reparo que tem as unhas roídas até ao sabugo. Ela apercebe-se do meu olhar e enfia as mãos nos bolsos do blazer. Tenho curiosidade em saber quanto tempo irá aguentar neste emprego. Talvez venha a encontrar outro — porventura algo que tenha uma componente comunitária, algo relacionado com o meio ambiente ou com os direitos das crianças — antes de este lhe dar cabo do juízo.

Alcanço uma saia travada e uma blusa de seda com motivos.

— Talvez uma coisa mais lustrosa? — sugiro.

À medida que percorremos o estabelecimento, vai falando sobre a corrida de bicicleta dos cinco bairros, na qual espera participar no próximo mês, apesar de não treinar, bem como do encontro às cegas que a sua colega lhe quer marcar. Vou tirando mais alguns artigos e olhando furtivamente para ela, tentando avaliar melhor o seu tamanho e a tez.

Dou então com um impressionante Alexander McQueen de malha preta e branca, florido, e detenho-me. Ergo uma das mãos e acaricio suavemente o tecido, com o coração aos pulos.

— É bonito — reconhece Nancy.

Fecho os olhos e recordo-me de uma noite em que usei um vestido quase igual a este.

Quando regressa a casa, Richard traz uma caixa branca grande com um laço vermelho. «Veste isso hoje à noite», disse-me enquanto eu o experimentava. «Fica-te lindamente.» Tínhamos estado a beber champanhe na gala Alvin Ailey e na risota com os seus colegas. A sua mão pousara na parte inferior das minhas costas. «Esquece o jantar», sussurrou-me ao ouvido. «Vamos mas é para casa.»

— Está tudo bem consigo? — pergunta Nancy.

— Tudo óptimo — respondo, mas a minha garganta ameaça bloquear as palavras. — Este vestido não lhe vai assentar bem.

Nancy parece surpreendida e apercebo-me de que fui demasiado ríspida.

— Este é que vai. — Pego num vestido travado, clássico, cor de tomate.

Encaminho-me para o provador, sentindo o peso das roupas nos braços.

— Acho que, para começar, já chega.

Pendurei as peças de roupa no varão estendido ao longo de uma das paredes, tentando concentrar-me na ordem pela qual, a meu ver, Nancy deveria experimentá-las, começando por um casaco lilás que dava com a sua pele verde-azeitona. É sempre melhor começar pelos casacos, de acordo com a minha experiência, porque as clientes não precisam de se despir para verem se ficam bem.

Acrescento uns collants e um par de sapatos de salto alto, para ela poder avaliar melhor as saias e os vestidos, e depois troquei-os por outros. Nancy acaba por escolher o casaco, dois vestidos — incluindo o vermelho — e um fato azul-marinho. Chamo uma costureira para subir a bainha da saia do fato e peço licença para sair, dizendo a Nancy que vou registar as compras na caixa.

Em vez disso, volto até junto do vestido preto e branco. Estão três no varão. Recolho-os com os braços, levo-os para o armazém e escondo-os atrás de uma fila de roupas com defeito.

Volto com o cartão de crédito de Nancy e com o recibo no momento em que ela está a vestir o seu fato de trabalho.

— Obrigada — diz Nancy. — Eu nunca teria escolhido esta roupa, mas estou mesmo contente por a vestir.

É esta faceta do meu trabalho que me agrada sobremaneira, quando contribuo para a felicidade das minhas clientes. Quando experimentam roupas e gastam dinheiro, a maioria das mulheres interrogam-se: Será que pareço ter uns quilos a mais? Será que mereço isto? Serei eu? Conheço bem este tipo de dúvidas, porque já estive dentro do provador muitas vezes a tentar descobrir quem eu deveria ser.

Enfio as roupas novas de Nancy num saco, entrego-lhas e, por um instante, interrogo-me se a tia Charlotte não terá razão. Se eu continuar a andar para a frente, talvez a minha mente acabe por seguir o impulso do meu corpo.

Depois de Nancy sair, ajudo mais algumas clientes, depois vou aos provadores buscar os artigos que elas não levaram. Enquanto estou a alisar a roupa nos cabides, ouço duas mulheres a conversar em provadores contíguos.

— Bolas, este Alaïa fica-me mesmo mal. Estou toda inchada. Eu sabia que aquela empregada estava a mentir quando me disse que o molho de soja tinha baixo teor de sódio.

Reconheço imediatamente o sotaque do Sul: Hillary Searles, a mulher de George Searles, um dos colegas de Richard. Hillary e eu assistimos a inúmeras festas e eventos de negócios nos anos em que estivemos juntos. Ouvi a opinião dela sobre as vantagens e desvantagens do ensino público em relação ao privado, escutei-a a comparar Atkins com The Zone e St. Barts com Amalfi Coast. Hoje já não aguento a conversa dela.

— Se faz favor! Não está aí nenhuma vendedora? Precisamos de mais tamanhos — ouço alguém a chamar.

Abre-se a porta de um dos provadores e sai de lá uma mulher, tão parecida com Hillary, até no cabelo, encaracolado e ruivo, que só pode ser irmã dela.

— Menina, pode dar-nos uma ajudinha? Ao que parece, a outra vendedora que estava connosco desapareceu sem dizer nada a ninguém.

Antes de conseguir responder, vejo um clarão cor de laranja quando alguém arremessa o ofensivo Alaïa por cima da porta do provador.

— Não tem o quarenta e dois deste?

Se Hillary gasta três mil e cem dólares num vestido, vale a pena, só para ganhar a comissão, aguentar as perguntas com que me vai bombardear.

— Vou verificar — respondo. — Mas a Alaïa não é a marca mais tolerante, independentemente do que a senhora tenha comido ao almoço… Posso trazer-lhe o quarenta e quatro, caso fique apertado.

— Conheço a sua voz de qualquer lado. — Hillary espreita para fora do provador, escondendo atrás da porta o seu corpo inchado de sódio. Dá um grito e faz um esforço para se manter no mesmo sítio enquanto olha para mim. — O que estás aqui a fazer?

A irmã mete-se na conversa:

— Hill, com quem estás a falar?

— A Vanessa é uma amiga de longa data. É casada… ou melhor, era casada… com um dos sócios do George. Espera um bocadinho, miúda! Deixa-me só vestir qualquer coisinha. — Quando volta a sair do provador, cinge-me num abraço, imergindo-me ao mesmo tempo no seu perfume floral. — Estás diferente! Mas em quê? — Pôe as mãos nos quadris e vi-me obrigada a aguentar o seu escrutínio. — Antes de mais nada, minha linda, estás tão magra. Aquele Alaïa servia-te que nem uma luva. Então, agora trabalhas aqui?

— É verdade. Bons olhos te vejam.

Nunca fiquei tão agradecida por ser interrompida pelo toque de um telemóvel.

— Olá — atende Hillary. — O quê? Febre? Tem a certeza? Não se esqueça da última vez que ela a enganou… Está bem, está bem. Vou já para aí. — Vira-se para a irmã. — Era a enfermeira da escola. Ela acha que a Madison está doente. A verdade é que basta uma criança dar uma fungadela para eles a mandarem para casa.

Inclina-se para me dar mais um abraço e o seu brinco de diamantes arranha-me a face.

— Temos de marcar um almoço para pormos a conversa em dia. Liga-me!

Quando Hillary e a irmã se dirigem para o elevador a bater com os saltos, vejo uma pulseira de platina na cadeira do provador. Pego nela e vou em passo acelerado em direcção a Hillary. Estou prestes a chamá-la quando ouço a sua voz chegar até mim.

— Pobre diaba — diz ela à irmã, e pelo tom de voz verifico que a comiseração é sincera. — Ele ficou com a casa, com os carros, com tudo…

— A sério? Ela nem sequer meteu um advogado?

— Ficou um caco. — Hillary encolheu os ombros.

Foi como se eu tivesse esbarrado numa parede invisível.

Fico a vê-la a afastar-se. Quando ela prime o botão para chamar o elevador, vou ao provador buscar as sedas e os linhos que deixou no chão. Mas antes enfio a pulseira de platina no pulso.

Pouco antes de o nosso casamento dar o berro, Richard e eu organizámos uma festa em casa. Foi a última vez que vi Hillary. A noite começou com um sobressalto, porque as empresas de catering e os respectivos funcionários não apareceram a tempo e horas. Richard ficou irritado — com eles, comigo, por não ter combinado que aparecessem uma hora antes, com a situação —, mas, determinado, acabou por improvisar um bar na nossa sala de estar, atrás do qual começou a misturar martínis e gins tónicos, inclinando a cabeça para trás e rindo quando um dos seus sócios lhe deu uma nota de vinte de gorjeta. Eu circulava entre os convidados, murmurando desculpas pela fatia mal cortada de queijo brie e pelo fino triângulo de queijo cheddar que eu partira, prometendo que a comida a sério chegaria em breve.

— Querida? Podes ir buscar-me umas garrafas de Raveneau de 2009 à adega? — Richard chamou-me do outro lado da sala. — Encomendei uma caixa a semana passada. Estão na prateleira do meio do frigorífico dos vinhos.

Eu ficara petrificada, parecia-me que todos os olhares estavam postos em mim. Hillary encontrava-se junto ao bar. Provavelmente, tinha sido ela a pedir aquele vintage; era o seu favorito.

Lembro-me de ter ido numa espécie de câmara lenta em direcção à cave, adiando o momento em que teria de contar a Richard, à frente de todos os seus amigos e sócios, o que eu já sabia: que não havia Raveneau nenhum na nossa adega.

A seguir, passo uma hora ou mais a atender uma avó que precisa de roupa nova para o baptizado da sua homónima e quer preparar um guarda-roupa para uma mulher que está a fazer um cruzeiro com destino ao Alasca. Sinto o corpo como se fosse areia molhada; extinguiu-se a centelha de esperança que experimentara depois de ajudar Nancy.

Desta vez, vejo Hillary antes de lhe ouvir a voz.

Ela aproxima-se quando estou a pendurar uma saia num cabide.

— Vanessa! — diz ela. — Estou tão feliz por ainda estares aqui. Por favor, diz-me que encontraste a…

Deixa a frase a meio quando os seus olhos pousam no meu pulso.

Tiro logo a pulseira.

— Eu não… Eu… eu não queria deixá-la nos perdidos e achados… Achei que vinhas cá buscá-la, senão ia ligar-te.

A sombra nos olhos de Hillary desaparece. Ela acredita em mim. Ou, pelo menos, quer acreditar.

— A tua filha está bem?

Hillary anui com a cabeça.

— Acho que aquela malandra só queria faltar à aula de Matemática. — Dá uma risadinha e enfia a pesada pulseira de platina no pulso. — Salvaste-me a vida. O George ofereceu-ma como prenda de aniversário a semana passada. Imagina se eu tivesse de lhe dizer que a perdi! Ele era capaz de pedir o divór…

Um rubor invade-lhe as faces e ela desvia o olhar. Tanto quanto me lembro, Hillary nunca foi cruel. No início, às vezes, até me fazia rir.

— E o George, como é que ele está?

— Anda ocupado, sempre ocupado! Já sabes como é.

Mais uma ligeira pausa.

— Tens visto o Richard? — Tento imprimir alegria ao meu tom de voz, mas não consigo. A minha ânsia de obter informações sobre ele é por de mais evidente.

— Oh, uma vez por outra.

Fico à espera, mas é óbvio que ela não tenciona revelar mais do que isso.

— Bem! Sempre queres experimentar aquele Alaïa?

— Tenho de ir andando. Volto noutra altura, minha linda. — Mas pressinto que Hillary não voltará. O que ela vê à sua frente, o botão amolgado num Chanel que já tem dois anos, o penteado que não perderia nada se levasse um blowout das mãos de um cabeleireiro profissional, é uma visão cujo contágio Hillary deseja desesperadamente evitar.

Dá-me um abraço apressado e faz menção de se retirar, mas acaba por voltar para trás.

— Se fosse comigo… — Franze o sobrolho; tem alguma coisa a dizer-me. Está indecisa se a diz ou não. — Bem, acho que gostaria de saber.

O que está para vir parece ser um comboio desenfreado.

— O Richard está noivo. — A sua voz parece flutuar na minha direcção, vinda de longe. — Sinto muito… Pensei que talvez não soubesses e parecia que…

O rugido na minha cabeça sufoca as suas restantes palavras. Anuo com a cabeça e afasto-me.

O Richard está noivo. O meu marido vai mesmo casar com ela.

Dirijo-me a um dos provadores. Encosto-me à parede e deixo-me deslizar para o chão, sentindo a alcatifa queimar-me as coxas à medida que o vestido sobe. Em seguida enfio a cabeça entre as mãos e começo a soluçar.

CAPÍTULO 3

De um lado da antiga igreja, que, com o seu campanário, albergava a Learning Ladder, ficavam três lápides de final do século, desgastadas com o passar dos anos e escondidas no meio de um dossel de árvores. Do outro lado, via-se um pequeno parque infantil com uma caixa de areia e uma estrutura de escalada amarela e azul. Símbolos da vida e da morte a bordejar a igreja, que testemunhara inúmeras cerimónias de homenagem em ambas as ocasiões.

Numa das lápides lia-se o nome de Elizabeth Knapp, que morrera com vinte e tal anos e cuja sepultura se encontrava ligeiramente afastada das restantes. Nellie deu a volta ao quarteirão, como sempre, para evitar passar pelo pequeno cemitério. Mesmo assim, tinha curiosidade em saber o que acontecera àquela rapariga.

A sua vida poderia ter sido interrompida por doença ou por um parto. Ou por acidente.

Teria sido casada? Será que tinha filhos?

Nellie pousou a mala junto à vedação que circundava o parque infantil, para abrir o fecho de segurança, dotado de bloqueio para crianças, enquanto o vento sacudia as folhas das árvores. Elizabeth terá morrido com vinte seis ou vinte sete anos, não sabia ao certo. Um pormenor que, de repente, passou a perturbá-la.

Começou a caminhar em direcção ao cemitério para esclarecer a questão, mas o sino da igreja tocou oito vezes; os acordes profundos e sombrios vibravam através do ar, lembrando-lhe que as suas reuniões começariam dentro de quinze minutos. Uma nuvem tapou o Sol, e a temperatura baixou de repente.

Nellie virou-se, passou pelo portão, fechou-o e, em seguida, puxou para trás a lona protectora que tapava a caixa de areia, deixando-a pronta para quando a criançada invadisse o recreio. Uma forte rajada de vento ameaçava arrancar uma das pontas. Nellie lutou contra ela e, em seguida, arrastou um vaso de flores pesado para cima da lona para a segurar.

Apressou-se a entrar no edifício e a descer as escadas até à cave, onde ficava a escola pré-primária. O agradável odor a café anunciava que Linda, a directora, já chegara. Nellie costumava arranjar as coisas na sua sala antes de ir cumprimentar Linda, mas passou primeiro pelo aposento vazio e continuou pelo corredor, em direcção à luz amarela que vinha do gabinete de Linda, sentindo necessidade de ver um rosto familiar.

Ao entrar, Nellie deparou não só com o café mas também com uma travessa de bolos. Linda abanava guardanapos de papel ao lado de uma pilha de copos térmicos, com um penteado bob escuro e brilhante e um fato cor de toupeira, cingido por um cinto de crocodilo, que não destoariam numa reunião de Direcção. Não se vestia daquela maneira só por causa da reunião de pais: mesmo num dia de trabalho normal, andava sempre produzida.

— Não me digas que são croissants de chocolate.

— Comprados na Dean & DeLuca — confirmou Linda. — Podes servir-te.

Nellie soltou um gemido. Nesse dia de manhã a balança revelara que ainda tinha de perder dois — vá lá, três — quilinhos até ao casamento.

— Força — insistiu Linda. — Tenho que chegue para adoçar a boca aos paizinhos.

— Esta gente é do Upper East Side — gracejou Nellie. — Não os estou a ver a comerem hidratos de carbono carregados de açúcar. — Nellie olhou novamente para a travessa. — Talvez uma metadinha. — E cortou um bolo ao meio com uma faca de plástico.

Deu uma trincadela enquanto se dirigia à sua sala. Não era um aposento por aí além, mas era espaçoso, com janelas altas que deixavam entrar alguma luz natural. Os seus Lobitos sentavam-se de pernas cruzadas num tapete macio cujo motivo era um comboio de letras a andar à roda e ficavam à espera da história; na zona da cozinha, punham chapelinhos de