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A MELHOR MáQUINA VIVA

José Gardeazabal  

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Excerto

7

Chiaroscuro

Kopf ambicionava por um desaparecimento. Pés no chão, palavras na cabeça, a cidade a pairar-lhe suspensa e inteira no frio, avançou em direção aos outros pobres. Olhou-os um a um, como personagens.

— Vocês são os pobres do mundo?

— Não, nós somos os pobres daqui.

Uma fogueira afastava o frio, os pobres como meninos à volta da fogueira. Queimavam-se livros. A imitação da miséria foi instantânea: Kopf era um monstro a testemunhar a sua transformação privativa, empobrecia no frio próximo da fogueira de livros, elevando perigosamente a temperatura do planeta. Uma atitude nova aumentava-lhe a invisibilidade e a liberdade. Livre, Kopf era livre, era algo novo, e logo livre! Algumas horas antes, adolescentes de uniforme tinham dedicado a noite inteira a livros, a queimar livros. O grupo fizera uma festa de fogo para escolher o que ler e não ler, e os pobres, agora, usavam o fim das chamas para afastar o frio. Houve odes, houve hinos, fahrenheits a quatrocentos e tal e, já se sabe, onde se queimam livros acaba-se a queimar… Não, não nos apressemos. Um incêndio invoca facilmente os piores abusos da história universal.

Anders Kopf estava próximo da chama. O fogo e a cinza, essas duas audazes palavras europeias ardiam-lhe no interior e à volta de Kopf era tudo prático, o calor imitava a sombra de um vulcão. Em menos de dois minutos, Kopf reclamou para si o lado lógico da miséria: frio e calor, fome e alimento. A liberdade de Kopf era inteira e clara, como um dia novo, inteiro e claro. Soavam-lhe por ali contos germânicos ou, pelo menos, europeus. «Espalha migalhinhas para encontrares o caminho de regresso.» Um menino e uma menina abraçavam-se a árvores altas, polvilhando de migalhas brancas uma floresta negra, e o pão no chão era tão abundante quanto os passarinhos. Ao longe, uma casinha de chocolate. A porta abre-se e fecha-se, revelando ao fundo uma velha que cozinha. No fim, o menino e a menina salvam-se graças às migalhinhas europeias. Não é antiga, esta história? Kopf tinha fome. Estivesse perdido na floresta, e não hesitaria em alimentar-se de migalhas de pão, qual passarinho. E o caminho de volta? Se comes tudo, Kopf, como descobres o caminho de volta?

Por aquela altura, os meus pais descobriram que eu sofria de prisão de ventre. Uma espécie de preguiça, explicou-nos o médico de família. Mostrou-me um desenho do aparelho digestivo, em escala reduzida, que confirmou o pior pesadelo infantil sobre desenhos infantis. Eu nunca imaginara que era assim por dentro, a possibilidade sequer de tantos intestinos no interior de mim. Mais tarde, em casa, brinquei com as ideias gémeas de preguiça dos intestinos e preguiça do coração. Passei imenso tempo na casa de banho, a brincar com as ideias. A preguiça dos intestinos era física, escatológica, e a preguiça do coração, um desperdício bastante espiritual. Lembro-me muito bem da palavra espiritual. Desde esse dia suspeitei que as coisas escatológicas iam preencher parte da minha vida, e a palavra escatológico aterrorizou-me antes de ter plena consciência do seu precioso significado.

O sol erguia-se, ou parecia erguer-se. Não no céu, erguia-se abaixo do céu, acima da linha do horizonte. Era o sinal enganador daquilo a que metaforicamente chamamos a renovação da vida. Um anúncio, um aviso, o descer do dia. Kopf pôs as mãos atrás das costas e olhou o céu. Estranhamente, pensava nos pés. Estavam perfeitamente alinhados sem que tivesse dado por isso. Ai, eu grito!, pensou. Mas não gritou.

Decidira-se pelos pobres e a vida recomeçava-o de fora para dentro, primeiro a roupa, depois a carne, antes da carne a pele. A carne chega no fim, mas sempre chega. Kopf queria ser tão pobre quanto possível, mas não mais. A sua fome seria sincera, a sua solidão bem-feita, o seu frio fiel, tudo embrulhado como presentes de aniversário, para empobrecer. Ser ou não ser Kopf. Eu, por exemplo, já não sou, pensou Kopf. À medida que empobrecia, o velho Kopf imitava um inglês clássico, que desaparecia no chão como água na chuva. O escatológico entrava-lhe pela pele e pelos buracos do nariz. Kopf comia frio e fome, respirava fumo, examinava o fogo chão com o oportunismo dos esfomeados. O presente chegara para ficar e, a partir daquele instante, o eterno estaria com Kopf para sempre, como as migalhinhas dos segundos. Um dia, um homem é uma criança disfarçada de pobre e, no dia seguinte, tem a máscara de carnaval colada à carne da cara e entende todos os necessitados da alemanha e da américa do norte.

Quem sou eu?, pensou Kopf, um quem, dois quens?

Não se nasce pai, nasce-se filho, não se nasce pobre, etecetera… A paternidade e a pobreza são excessivas e humanas. Kopf é um filho inventado, um pobre Kopf. Quem, quenzinho, quenzão.

8

No orfanato não havia guardas, havia mulheres. O diretor era um médico psiquiatra a quem chamavam «o único homem nas instalações». Naquele tempo, ser o único homem dava a qualquer um uma certa aparência de autoridade.

Anos antes, lembro-me bem, ajoelhei-me no quarto para apalpar as roupas dos meus pais, à procura de uma descoberta negativa. Tentava, pelo tato, provar que ainda me amavam. Ajoelhado em frente às gavetas abertas, experimentava ao acaso uma grande quantidade de peças de roupa e, vestido ora de pai, ora de mãe, esperando que o cheiro a lavado me dissesse algo sobre os melhores sentimentos dos adultos. Acreditava p

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