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A MEDIDA DO HOMEM

Marco Malvaldi  

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Excerto

DRAMATIS PERSONÆ

A OFICINA

LEONARDO DI SER PIERO DA VINCI: pintor, escultor, arquitecto, engenheiro da corte e assaz avesso a fantasias. Em suma, um homem de génio.

GIAN GIACOMO CAPROTTI, DITO SALAÌ: aprendiz na oficina de Leonardo, aluno predilecto, ladrão, mentiroso, obstinado, guloso. Mas também tem defeitos.

MARCO D’OGGIONO, ZANINO DA FERRARA, GIULIO, O ALEMÃO: outros alunos do génio de Da Vinci.

RAMBALDO CHITI: ex-aluno de Leonardo e, infelizmente para ele, ex-muitas outras coisas.

CATERINA: mãe amorosa de Leonardo, concebido quando ela e ser Piero da Vinci, notário, eram ainda jovens e inexperientes. Mulher de muitas, demasiadas, atenções pelo nosso e de igual superabundante franqueza.

A CORTE

LUDOVICO, O MOURO: duque de Bari e senhor de Milão, um metro e noventa de físico maquiavélico, filho ilegítimo de Francesco Sforza. Não é claro se é melhor a comandar ou a foder, mas as duas coisas agradam-lhe bastante.

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FRANCESCO SFORZA: morto e enterrado há mais de vinte e sete anos, mas o omnipresente pai de Ludovico, o Mouro. Em sua honra, há um gargantuesco cavalo de bronze a fazer.

GIACOMO TROTTI: embaixador, olhos e ouvidos do duque de Ferrara, Ercole I d’Este. Já não é jovem, mas é um hábil intérprete da vida da corte. Meio espião, talvez, mas é para isso que lhe pagam.

BEATRICE D’ESTE: filha do duque de Ferrara e mulher de Ludovico, o Mouro, gorda de aspecto e de dote, ingénua mas não ao ponto de não se aperceber dos muitos frufrus de saias pelos corredores do castelo.

ERCOLE MASSIMILIANO: filho de o Mouro e de Beatrice. Tem dois anos, mas já é nobre.

TEODORA: ama-de-leite do pequeno Ercole Massimiliano.

MAXIMILIANO DE HABSBURGO: vienense, imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Não está no palácio, mas é como se estivesse.

BIANCA MARIA SFORZA: sobrinha de Ludovico, o Mouro, prometida em casamento a Maximiliano para o Natal iminente.

LUCREZIA CRIVELLI: amante de Ludovico, o Mouro, será retratada por Leonardo na tela conhecida como La Belle Ferronnière. Mas não é preciso apregoá-lo.

GALEAZZO SANSEVERINO: conde de Caiazzo e de Voghera, genro fiel de Ludovico, o Mouro, homem de acção e de pulso de ferro. Dos três Galeazzi do romance, é o mais importante.

BIANCA GIOVANNA SFORZA: sua mulher, filha legítima de Ludovico, o Mouro.

AMBROGIO VARESE DA ROSATE: astrólogo da corte, de púrpura adornado. Especialista nos movimentos das estrelas, solícito gerador de horóscopos. Costuma dizer que, nas previsões, o importante é prever um acontecimento ou uma data, mas nunca as duas coisas juntas.

PIETROBONO DA Ferrara: rival directo de Varese da Rosate.

BERGONZIO BOTTA: cobrador de impostos do duque de Milão.

MARCHESINO STANGA: superintendente do erário da corte, pagador oficial, oficioso importuno.

BERNARDINO DA CORTE: castelão.

REMIGIO TREVANOTTI: fâmulo.

ASCANIO MARIA SFORZA VISCONTI: cardeal, irmão de Ludovico, o Mouro. Na época não existia qualquer lei sobre o conflito de interesses.

GIAN GALEAZZO MARIA SFORZA: duque legítimo de Milão, enquanto filho do irmão mais velho de Ludovico, Galeazzo Maria, assassinado alguns anos antes. Após ter tentado a bem governar no seu lugar e ter organizado para a sua boda de casamento a Festa do Paraíso, entregando as espectaculares cenografias precisamente a Leonardo, o tio Ludovico prendeu-o gentilmente no Castelo de Vigevano.

ISABEL DE ARAGÃO: sua esposa. Nunca se vê, e é melhor assim.

BONA DE SAVOIA: mulher de Galeazzo Maria e mãe de Gian Galeazzo Maria Sforza, além de regente do Ducado de Milão até Ludovico a prender na torre do castelo, que tomará o seu nome.

CICCO SIMONETTA: seu fidelíssimo conselheiro e valente homem de Estado, que paga com a cabeça (em sentido não metafórico) a fidelidade a Bona.

CATROZZO: anão da corte com alguma inteligência, poliglota. Obsceno, como convém a todos os verdadeiros ases do riso e das piadas.

PALÁCIO CARMAGNOLA

CECILIA GALLERANI: mulher de grande cultura e elegância, salva do destino monástico por Ludovico, que faz dela a sua juveníssima favorita. Em tempos mais recentes, após ter sabido que a engravidara, o próprio Mouro tratou de a dar em casamento ao conde Carminati de Brambilla, dito Bergamini. É ela a Dama com Arminho que podemos admirar até hoje em Cracóvia.

CESARE SFORZA VISCONTI: filho ilegítimo de Ludovico, o Mouro, e de Cecilia. Não tem muitos anos, dois, apenas, mas já possui bens razoáveis de raiz: aquando do seu nascimento o pai doou-lhe o Palácio Carmagnola, onde hoje tem a sua sede o Piccolo Teatro de Milão.

TERSILLA: alegre e loquaz dama de companhia de Cecilia Gallerani.

CORSO: camareiro de Cecilia Gallerani.

OS FRANCESES

SUA MAJESTADE CRISTIANÍSSIMA CARLOS VIII: rei de França. Débil de corpo e de intelecto, nunca participou numa batalha mas tagarela muito sobre a guerra, invadir Itália e tomar Nápoles. Como se costuma dizer, armemo-nos e ide.

LUÍS DE VALOIS: duque de Orleães, seu primo, futuro condottiero na campanha para conquistar o reino de Nápoles, acalenta pretensões secretas ao Ducado de Milão (enquanto descendente de Valentina Visconti, sua avó).

PHILIPPE, DUQUE DE COMMYNES: legado francês em terras de Itália e em conluio com o duque de Orleães.

ROBINOT E MATTENET: o feio e o bonito. Esbirros desastrados do duque de Commynes, têm uma missão secreta a levar a cabo em Milão.

PERRON DE BASCHE: natural de Orvieto, depois embaixador por conta de Sua Majestade Cristianíssima Carlos VIII e do duque de Orleães.

CARLO BARBIANO DI BELGIOIOSO: embaixador de Ludovico, o Mouro, junto da corte de França.

JOSQUIN DES PREZ: cantor ducal ao serviço de o Mouro, génio da música em carne e contraponto.

OS MERCADORES

ACCERRITO PORTINARI: gordo representante do Banco Medici, sôfrego de bifes e de dinheiro.

BENCIO SERRISTORI: sócio de messer Accerrito, trabalhador incansável, mas não nos dias santos de guarda.

ANTONIO MISSAGLIA: armeiro prestigiado, estilista do ferro e amigo de Leonardo.

GIOVANNI BARRACCIO: comerciante de lãs.

CLEMENTE VULZIO, CANDIDO BERTONE, RICCETTO NANNIPIERI E ADEMARO COSTANTE: mercadores de lãs, sedas, agulhas e alúmenes, que reclamam crédito ao Banco Medici.

OS RELIGIOSOS

FRANCESCO SANSONE DA BRESCIA: superior-geral da Ordem dos Franciscanos.

GIULIANO DA MUGGIA: pregador franciscano.

DIODATO DA SIENA: prior dos Jesuatos (isto é, da Congregação, hoje desaparecida, dos Pobres de Jesus em São Jerónimo), pastor tenaz do seu rebanho.

GIOACCHINO DA BRENNO: frade jesuato e pregador intransigente, arengador de turbas e turbador de sossego.

ELIGIO DA VARRAMISTA: jesuato e grafólogo experiente, porque especialista em letras de câmbio e de crédito, ex-bancário convertido à fé no caminho para Milão.

GIULIANO DELLA ROVERE: cardeal, que ainda não digeriu bem a eleição a Papa do rival Bórgia, Alexandre VI.

A Medida do Homem

O talento acerta num alvo que ninguém consegue atingir.

O génio acerta num alvo que ninguém consegue ver.

Arthur Schopenhauer

Prólogo

O homem parou por instantes, antes de entrar.

Era inútil olhar em volta para tentar perceber se alguém o tinha seguido. A entrada do castelo erguia-se numa das zonas velhas de Milão, numa rua húmida e escura à qual se chegava apenas por outras ruas húmidas e escuras e, mesmo que alguém se tivesse lançado no seu encalço, há um bom bocado que o teria perdido apesar do berrante tecido cor-de-rosa das suas vestes.

A bem da verdade, também ele receava ter-se perdido. Já uma vez acontecera não ter sido capaz de se orientar no novelo de becos à volta do castelo. Em parte por sua culpa, claro, que nunca teve grande sentido de orientação. Em parte por culpa daquela cidade, que cresceu tão mal, sem um projecto, sem uma forma, sem uma visão. Devia ser repensada dos pés à cabeça, aquela cidade. Ou até mesmo organizada de um modo diferente. Radicalmente diferente. De um modo nunca antes visto. Uma cidade em vários níveis, por exemplo. Do baixo ao alto, da água ao céu. Uma cidade ao contrário de uma casa, onde os pobres estavam no ar e os senhores no chão, como nas ilhas romanas descritas no livro de Vitrúvio. Francesco di Giorgio teve razão ao traduzi-lo do latim, valia realmente a pena. Grande aquisição, aquele livro. Custou-lhe uma fortuna, mas recordou-lhe tantas daquelas…

O homem vestido de rosa sobressaltou-se ao aperceber-se de que estava perdido — mas apenas nos seus pensamentos. Era algo que lhe sucedia com frequência e, de longe, a melhor fracção de tempo do seu dia. Mas aquele não era o momento para se entregar a fantasias. Agora tinha que fazer.

Com calma, mas inquieto, o homem bateu à porta. Quase de imediato, um rangido prolongado fê-lo perceber que a estavam a abrir e, na escuridão absoluta da rua, o cubículo da entrada parecia quase luminoso.

Uma única palava.

— Entrai.

E o homem entrou, deixando a escuridão atrás de si.

Início

A primeira coisa que se notava ao entrar na sala do Conselho era que tinha pouca luz.

Apesar de Outubro ter acabado de chegar a meio, fazia frio em Milão e, antes sequer de o castelo se encher com os senhores que regressariam de Vigevano, os servos já haviam resguardado as janelas com os taipais: toldos brancos de tecido impregnados de terebintina para os tornar o mais transparentes possível, e que deixavam entrar pouca luz do exterior, mas que, em compensação, não deixavam ver nada do que se passava no interior da sala. Para quem vivia no castelo, aquela era a sala dos Scarlioni, devido às decorações brancas e vermelhas assim chamadas, mas para todos os outros, isto é, para a maioria dos habitantes de Milão, aquela era a sala do Conselho: a sala onde se reunia habitualmente o Conselho secreto. Seis pessoas, as seis pessoas mais poderosas de Milão, mais o seu senhor, o mais poderoso de todos.

— Mandai entrar o próximo, castelão.

Bernardino da Corte, castelão de Porta Giovia, anuiu e puxou para si a pesada porta de madeira, enquanto anunciava:

— Sua Excelência, o superior-geral da Ordem dos Franciscanos, Francesco Sansone da Brescia.

As terças e sextas-feiras eram os dias reservados às audiências. Os dias em que Ludovico, o Mouro, duque de Bari, mas ainda assim senhor de Milão, concedia ouvidos e atenção a quem lhe pedisse para resolver um problema. Qualquer tipo de problema e qualquer cidadão de Milão, o que significava todas as pessoas que pagassem os impostos decretados pelo Mouro, à excepção de quem não os pagava por gentil concessão do próprio Mouro. E milanês que pagasse os impostos tinha o direito a ser ouvido, até porque eram substanciais os impostos que pagava.

Mas o superior da Ordem dos Franciscanos não era um cidadão milanês, tal como não era um cidadão qualquer. Segundo a lógica, não teria direito a usurpar sequer um minuto do precioso tempo que o Mouro destinava aos seus súbditos, escutando as súplicas dos pobres coitados, ao invés de impor a sua vontade a embaixadores conflituosos, corcéis fogosos ou criadas condescendentes. Por outro lado, segundo a regra do bom senso, seria estúpido negar audiência ao superior-geral da ordem que se apresentava como um simples cidadão.

E Ludovico, o Mouro, duque de Bari e senhor de Milão, não era de todo estúpido.

— Quanta honra — disse o Mouro, sentado na sua cadeira alta. — O superior-geral da Ordem dos Franciscanos a pedir audiência como um cidadão. A que devemos uma visita de tão modesta guisa?

— Eu sou um humilde franciscano, Vossa Senhoria — respondeu Francesco Sansone —, e não estou habituado a honras e ouropéis. Além do mais, a questão que pretendo submeter à clarividência de Vossa Senhoria requer tão pouco tempo que seria prepotente solicitar-vos uma audiência privada.

Bem-vindos ao Renascimento, onde cada frase é calibrada e moldada como uma jóia, pesando-se na balança cada palavra e depois exibindo-se o colar para mostrar não como é bonito, mas como é poderoso aquele que o usa. E onde o significado de qualquer discurso deve ser interpretado tendo em conta quem o faz, quem o ouve, quem está presente e quem não está, quais os nomes que se dizem e, acima de tudo, aqueles que não se pronunciam.

Em suma, Ludovico, o Mouro, recebeu o frade chamando-o não pelo nome, mas pelo título, e apreciando o facto de ter ido à sua presença como humilde cidadão, o que significava que o frade, enquanto superior dos Franciscanos, não contava um chavo nem para ele nem para o resto do Conselho. Ao que o frade respondeu que teria outras formas, mais oficiais, solenes e inexoráveis, de se impor à atenção do Mouro, chamando-lhe Vossa Senhoria, e não duque, recordando-lhe, com efeito, que para grande parte de Itália Ludovico era tão-só e apenas um usurpador.

— Fico contente, padre — respondeu o Mouro. — Digai-nos, então. Eu e o Conselho estamos prontos para vos ouvir.

— Vossa Senhoria… perdoai-me, não vejo Sua Eminência, o bispo de Como. Espero que não esteja indisposto.

— Não se trata de indisposição, padre. Nos últimos tempos temos reduzido o número de conselheiros, uma vez que quarenta e duas pessoas eram de todo redundantes para exercer tal função, também em virtude do facto de as causas e motivações de audiência terem diminuído substancialmente no decorrer do último ano.

Claro, poderia ter observado o frade, se antes quarenta e duas eram de mais, talvez agora seis fossem de menos, mesmo sem ter em conta que entre estas seis não se encontrava um eclesiástico, facto que dificilmente poderia ser um acaso. O padre Sansone voltou a aclarar a voz.

— Vossa Senhoria, estou aqui a pedido da minha ordem, para que possais reconsiderar o caso de frei Giuliano da Muggia, que continua a pregar com desprezo pelas regras da sua ordem e pelo conteúdo das Sagradas Escrituras.

— Não saberia como, padre — respondeu o Mouro, após ter pousado o olhar em cada um dos membros do Conselho.

— Então, o senhor de Milão não saberia como mandar calar um pobre franciscano?

Não é decerto necessário ser um exegeta arguto para compreender o significado fortemente alusivo da pergunta do franciscano, em particular do condicional. E se o leitor o sentiu, imagine-se se poderia escapar a um membro do Conselho. Ou a Ludovico, o Mouro.

— Frei Giuliano já foi preso e processado há dezasseis meses, segundo a vossa iniciativa. Não sendo eu prior de uma ordem religiosa, ordenei que o processo fosse revisto, mandatando Sua Excelência o arcebispo Arcimboldi para presidir. Sabeis muito bem qual foi o desfecho do processo.

O padre Sansone respirou fundo.

O processo-farsa contra Giuliano da Muggia fora uma verdadeira obra-prima do Mouro. Todas as testemunhas, por coincidência leigos e por coincidência pertencentes à corte de Ludovico, haviam exaltado com entusiasmo as pregações do frade e minimizado ou fingido não se lembrarem dos seus disparos contra a Igreja de Roma. O que depois, na verdade, seria o menos.

Frei Giuliano não se limitava a dizer que a Cúria Romana era corrupta, mundana, decadente e repugnante; isso já muitos faziam, incluindo o dominicano de voz plangente, Girolamo Savonarola, que conquistou fama de notável porta-merda ao profetizar a morte de Lorenzo de Medici e outras desgraças precisamente verificadas.

Não, frei Giuliano afirmava que a Igreja da capital lombarda podia ser independente da de Roma. Tal como Savonarola, que almejava obter a independência dos conventos; só que este queria convencer Milão a distanciar-se de Roma. Milão, a cidade que estava ostensivamente a tornar-se a província mais rica da península italiana, o lugar que atraía os maiores artistas, que enviava para a vizinha Universidade de Pavia os melhores médicos e os matemáticos mais eminentes, pagando-lhes principescamente.

Segundo o padre Sansone e um seu colega influente com lugar no trono de Roma, tal não deveria acontecer. Para isso, tentara refrear frei Giuliano. Há certas coisas que quanto menos se falar nelas melhor, e ter um franciscano que invoca com voz troante a separação da Igreja ambrosiana da romana por todos os meios — excepto com escavadoras, à época não existiam — não era propriamente o auge da vida.

Mas o processo instruído por Sansone fora desviado pelo Mouro com uma habilidade toda ela renascentista. Os poetas da corte haviam composto estrofes que tinham sido declamadas em toda a cidade; por toda a parte, nas ruas à volta do Broletto e ao longo dos Navigli, era possível ouvir o soneto de Bellincioni, O Milan cristianissimo, e a sextilha de um tal Giacomo Alfieri, famosíssimo naquele tempo mas agora justamente esquecido, que agradeciam aos céus por terem enviado frei Giuliano a Milão. Ambas as composições horríveis, mas eficazes. O Mouro caíra nas boas graças dos cidadãos, ainda antes das da corte, tratando a Cúria com pinças para lidar com a sua vontade consciente e a vontade bovina do povo.

— Bem sei que frei Giuliano foi cristãmente absolvido — afirmou o padre Sansone, após outra inspiração profunda. — Frei Giuliano é um homem de mérito e as suas pregações são inspiradas por um grande fervor. Grande fervor e grande amor pelo seu rebanho. Frei Giuliano é um homem que sabe falar ao povo porque diz aquilo que o povo quer ouvir.

Com isto, o religioso recordava sub-repticiamente a Ludovico que o favor do povo varia conforme as circunstâncias. E, na circunstância em questão, o povo já não estava todo do lado do Mouro.

O imposto do sal e outras taxas recentes não haviam sido bem recebidos pelo povo, e a popularidade de Ludovico já não estava em alta como outrora. Se já existissem sondagens, provavelmente os conselhos de terça-feira de manhã iniciariam com uma reunião preventiva para analisar a aceitação e endereçar bem as intervenções do Mouro. Mas, naquela época, a estatística ainda vinha longe, o homem comum ainda não fora descoberto e o povo só podia manifestar a sua vontade aclamando. Ou revoltando-se.

— E frei Giuliano, que é um homem de viva inteligência — continuou o padre Sansone —, dificilmente pode ser obrigado a calar-se. Quando prega em São Francisco Grande, enche a igreja. As pessoas vêm de longe para o ouvir e saem inspiradas. Seria talvez oportuno…

Contudo, o padre Sansone não conseguiu dizer o que seria oportuno, porque naquele instante Ludovico levantou-se da cadeira.

Se estivéssemos para os lados de Lodi, Ludovico, o Mouro, teria cerca de quatro braças de fábrica de altura mais um palmo; se, por outro lado, quiséssemos medi-lo segundo o costume da cidade, o Mouro teria de comprimento pouco menos de três braças de tecido milanês. Nos termos do sistema métrico decimal, o senhor de Milão tinha um metro e noventa de altura, o que, aliado ao seu olhar glacial e à comprida e severa veste de brocado preto, fazia Ludovico, o Mouro, meter verdadeiramente medo quando se colocava de pé.

Lentamente, depois de se ter levantado, Ludovico caminhou até ficar ao lado do franciscano e pegou-lhe com doçura por um cotovelo.

— Vinde, padre excelentíssimo — disse com uma voz suave, mas como quem tem consciência de incutir. — Quero mostrar-vos uma coisa.

E, levando-o pelo cotovelo, fez o austero mas assustadíssimo religioso atravessar toda a sala, até chegar a uma magnífica planta da cidade pintada a fresco na parede.

— Reparai, padre excelentíssimo, Milão é uma roda. — O Mouro traçou um círculo amplo com a mão, mostrando na planta os muros que protegiam a cidade, para depois plantar um dedo no centro do mapa, no lugar correspondente à catedral. — Milão é uma roda e a sua igreja está no eixo. Um eixo robusto, seguro e bem direito. Mas sabeis o que acontece se esta igreja permanecer imóvel?

O Mouro começou a descrever com o dedo círculos cada vez mais estreitos, até se concentrar em espiral à volta da catedral e ali parar.

— A roda pode girar, e girar, e girar outra vez, mas quem lá vive… — o Mouro afastou as mãos — não irá a parte alguma. — Depois, o Mouro pousou a mão direita no ombro do franciscano, de um modo amigável mas também pesado. — Compreendeis, padre excelentíssimo?

— Compreendo, compreendo, embaixador. Não vos penitencieis por causa disso, peço-vos. Já vimos bem pior, garanto-vos.

— Eu só posso pedir desculpa pelo estado lastimável em que me apresento, mas…

Giacomo Trotti, embaixador de Ercole I d’Este, duque de Ferrara junto da corte dos Sforza, era habitualmente uma das pessoas mais distintas e sérias de Milão. Mas a seriedade e a distinção são muitas vezes ajudadas por um aspecto exterior adequado e, quando nos despejam em cima um penico, tais qualidades ficam bastante comprometidas. Infelizmente, ao encaminhar-se para o Palácio Carmagnola para o habitual encontro de música das terças-feiras no salão de Cecilia Gallerani, o embaixador ancião foi precisamente alvo de um malcriado que esvaziou o penico pela janela sem quaisquer cuidados e sem o habitual «água vaaai!» que até os menos educados gritavam para a rua, para evitar banhos de merda involuntários.

— Vá, vá, embaixador, não façais cerimónia. — Cecilia Gallerani acenou e uma das damas que aguardavam ao fundo da sala aproximou-se a caminhar com uma graciosidade forçada. — Levai o senhor embaixador Trotti para o quarto a ocidente e prestai-lhe assistência. Não começaremos sem o embaixador…

— Não sei como vos agradecer, condessa…

— Despachai-vos a trocar de roupa e juntai-vos a nós para desfrutarmos da vossa companhia — respondeu Gallerani a sorrir. — Tersilla, por favor.

E, sempre a sorrir, a rapariga desapareceu por uma porta, para ordenar aos músicos que esperassem mais um pouco. Giacomo Trotti, embaixador de Ferrara, continuou a olhar por instantes para a porta pela qual Cecilia Gallerani se eclipsou. E, como sempre, fez automaticamente a comparação com aquela que, em teoria, era a sua protegida e compatriota. Comparação que, como sempre, revelou-se impiedosa.

De um lado, a franzina e etérea Cecilia Gallerani, ainda bela como no retrato que anos antes lhe fizera messer Leonardo, serena e ao mesmo tempo austera, virada a três quartos como que a aperceber-se da combinada chegada do amante, isto é, aquele Ludovico, o Mouro, de quem se fala ...