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A úLTIMA CARTA

Cecelia Ahern  

4


Excerto

PRÓLOGO

Pede a Lua. Se falhares, permanecerás sempre entre as estrelas.

Está gravado na lápide do meu marido no cemitério. Era uma expressão que ele empregava com frequência. Na sua disposição optimista e alegre, saía-se com expressões positivas de auto-ajuda, como se fossem alimento para a vida. Tais palavras de reforço positivo não tinham efeito em mim até ele ter falecido. Foi quando ele mas disse, já na campa, que realmente as escutei, senti e acreditei nelas. Agarrei-me a elas.

Durante um ano inteiro, depois da sua morte, o meu marido Gerry continuou a viver fazendo-me a dádiva das suas palavras em bilhetes mensais surpreendentes. As suas palavras eram tudo o que eu tinha; já não eram palavras ditas, mas palavras escritas dos seus pensamentos, da sua mente, de um cérebro que controlava um corpo com um coração que batia. As palavras eram vida, e eu agarrava-as, as mãos bem firmes em redor das suas cartas, até os nós dos meus dedos ficarem brancos e as unhas se cravarem na carne. Agarrava-me a elas como se fossem uma bóia de salvação.

São sete da manhã do dia 1 de Abril, e esta tola está a deleitar-se na nova claridade. As tardes estão a alongar-se e o aguilhão cortante, breve e inclemente do bofetão invernoso tem sido acarinhado pela Primavera. Eu costumava abominar esta época; preferia o Inverno, em que cada lugar era um esconderijo. A escuridão fazia-me sentir oculta atrás de uma gaze desfocada, quase invisível. Deleitava-me nisso, celebrava a brevidade do dia, a extensão da noite; o céu a escurecer era a minha contagem decrescente para uma hibernação consentida. Agora que encaro a luz, preciso disso para me impedir de ser sugada de novo para lá.

A minha metamorfose era semelhante ao choque instantâneo que o corpo sente quando mergulhado em água fria. No impacto, há a vontade indómita de gritar e saltar, mas, quanto mais se permanece submersa, mais fácil a aclimatação. O frio, como a escuridão, pode tornar-se num conforto enganador de que nunca queremos sair. Mas eu saí; a pontapear e a esbracejar, icei-me até à superfície. Emergi com os lábios roxos e a bater o dente, descongelei e reentrei no mundo.

Em transição do dia para a noite, do Inverno que transita para a Primavera, num lugar transicional. O cemitério, considerada última morada, é menos sossegado abaixo da superfície do que acima dela. Abaixo da terra, abraçados por caixões de madeira, os corpos alteram-se conforme a natureza decompõe inexoravelmente os seus restos. Mesmo em repouso, o corpo está em transformação perpétua. Os risos alegres de crianças por perto estilhaçam o silêncio, incautas ou impávidas ao mundo intermédio que pisam. Os enlutados estão silenciosos, mas a sua dor, não. A ferida pode ser interna, mas ouve-se, vê-se, sente-se. O desgosto é transportado para o meio dos corpos como um manto invisível; acrescenta um peso, torna os olhos mortiços, deixa as passadas vagarosas.

Nos dias e meses que se seguiram à morte do meu marido, procurei uma qualquer ligação transcendente e fugidia com ele, desesperada por me sentir inteira outra vez, como uma sede insuportável que tivesse de ser saciada. Nos dias em que me sentia funcional, a sua presença aparecia sorrateira atrás de mim e tocava-me no ombro, e, de súbito, eu sentia um vazio intolerável. Um coração árido. A dor do luto é infinitamente incontrolável.

Ele quis ser cremado. As suas cinzas estão numa urna colocada num compartimento de uma Parede de Columbário. Os pais reservaram o espaço ao lado do dele. O espaço vazio na parede ao lado da sua urna é para mim. Sinto que estou a olhar a morte de frente, algo que teria acolhido bem quando ele faleceu. Qualquer coisa que me levasse a ir ter com ele. Teria de bom grado subido àquele nicho, dobrado o corpo como uma contorcionista e aninhado o meu corpo à volta das suas cinzas.

Ele está naquela parede. Mas não está lá, não está aqui. Desapareceu. Energia algures. Partículas de matéria dissolvidas, salpicadas em meu redor. Se pudesse, destacaria um exército para dar caça a cada átomo seu e reconstituí-lo de novo, mas todos os cavalos do rei e todos os homens do rei… aprendemos desde o princípio, só percebemos o que tudo significa no fim.

Tivemos o privilégio de ter, não uma, mas duas despedidas; doença prolongada por cancro, seguida de um ano de cartas suas. Deixou-se ir, sabendo secretamente que haveria mais de si a que me agarrar, mais do que recordações; mesmo após a morte, encontrou uma maneira de criar novas lembranças comigo. Magia. Adeus, meu amor, adeus outra vez. Deviam ter bastado. Pensei que sim. Talvez seja por isso que se vai ao cemitério. Para mais despedidas. Talvez não se trate de dizer «olá», de todo — é o consolo da despedida, uma separação calma e tranquila, sem culpa. Nem sempre nos lembramos de como nos conhecemos, lembramo-nos amiúde de como nos separámos.

É surpreendente para mim estar de volta aqui, tanto a este local como a este estado de espírito. Sete anos depois da sua morte. Seis anos desde que li a sua última carta. Eu tinha, tenho avançado, mas os acontecimentos recentes desestabilizaram tudo, abalaram-me até ao âmago. Deveria avançar, mas há uma maré rítmica e hipnótica, como se a sua mão me quisesse tocar e puxar para trás.

Examino a lápide e releio-o outra vez.

Pede a Lua. Se falhares, permanecerás sempre entre as estrelas.

Por conseguinte, deve ser assim. Porque a pedimos, eu e ele. Apontámos para ela. Falhámos. Isto aqui, tudo o que tenho e tudo o que sou, esta nova vida que criei nos últimos sete anos, sem o Gerry, deve ser como ficar entre as estrelas.

CAPÍTULO UM

Três Meses Antes

— A paciente Penélope. Esposa do Rei de Ítaca, Ulisses. Personagem séria e diligente, esposa e mãe extremosa, certos críticos menosprezam-na como símbolo de fidelidade conjugal, mas Penélope é uma mulher complexa que tece as suas teias com a destreza de quem tece uma roupa. — O guia turístico faz uma pausa misteriosa, enquanto perscruta o público intrigado.

Eu e o Gabriel estamos numa exposição no National Museum. Estamos atrás da multidão que se juntou, ligeiramente à parte dos outros, como se não pertencêssemos, ou não quiséssemos fazer parte do grupo, mas também não somos tão desprendidos que nos arriscássemos a perder o que se diz. Ouço o guia, enquanto Gabriel folheia a brochura a meu lado. Mais tarde, há-de ser capaz de repetir à letra tudo o que o guia diz. Adora estas coisas. Adoro que ele adore estas coisas mais do que as coisas propriamente ditas. Ele é alguém que sabe preencher o tempo, e, quando o conheci, foi uma das suas características mais atraentes, porque eu tinha namoro marcado com o destino. Em sessenta anos, no máximo, namoraria com alguém do outro lado.

— Ulisses, o marido de Penélope, parte para combater na Guerra de Tróia, a qual dura dez anos, e ele demora outros dez a regressar. Penélope fica numa situação perigosíssima, quando cento e oito pretendentes, no total, começam a exigir a sua mão em casamento. Penélope é esperta e congemina maneiras de adiar a sua decisão perante os pretendentes, sabendo levar ca

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