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A HORA MAIS NEGRA

Anthony McCarten  

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Excerto

Introdução

Ao longo dos anos, as minhas estantes acolheram sempre alguns volumes cujo conteúdo podia ser genericamente designado por «Grandes Discursos que Mudaram o Mundo». A tese desses livros é que essa proeza discutível se concretizou por diversas vezes, nas condições adequadas: palavras oportunas, combinadas com uma ideia oportuna, pronunciadas por um indivíduo oportuno e brilhante.

Nessas antologias, era de esperar encontrar sempre pelo menos um discurso de Winston Spencer Churchill. Com frequência, dois ou três. Soavam um pouco antiquados, pomposos, com o arsenal vocabular dele elevado a uma quase imponência, mas contendo sempre um par de frases intensas, tiradas soberbas que teriam sido tão memoráveis para uma audiência mil anos antes como para outra, mil anos no futuro.

Ao tornar-me estudioso de segunda ordem dos discursos de Nehru, Lenine, George Washington, Hitler, Martin Luther King e outros, alimentei a minha admiração pela arte oratória e pelas saraivadas de palavras como setas desses homens. No seu melhor, tinham a capacidade de evocar os pensamentos não expressos de um povo, de galvanizar emoções díspares num patamar de paixão partilhada capaz de tornar o impensável realidade.

Seja o primeiro a receber histórias como esta

O que mais me pareceu notável em Churchill foi que ele escreveu três desses discursos em apenas quatro semanas. Para ele, Maio de 1940 foi um único período de grandiloquência inspirada. E passou por isso sozinho. O que teve esse momento que o estimulou para atingir tal elevação? Que pressões políticas e pessoais o impeliram, por três vezes em tão poucos dias, a transformar carvão em tais diamantes?

Qual a resposta mais simples? A Grã-Bretanha estava em guerra. Os horrores da Blitzkrieg levaram diversas democracias europeias a ceder em rápida sucessão à bota e às bombas nazis. Perante esse horror, de caneta na mão e dactilógrafa pronta, o novo primeiro-ministro da Grã-Bretanha perguntou a si mesmo que palavras poderiam instigar a nação para a resistência heróica quando a invasão por um inimigo terrível parecia estar a poucas horas.

Este livro, e o argumento cinematográfico de A Hora Mais Negra, nasceram destas interrogações e deste fascínio. O objectivo é examinar os métodos de trabalho, as qualidades de liderança, o pensamento e os estados psicológicos de um homem nesses dias críticos — um homem que acreditava, no âmago da sua alma muito poética, que as palavras eram relevantes, que tinham efeito e podiam intervir para mudar o mundo.

A minha investigação inicial levou-me a concentrar no período entre a promoção inesperada de Churchill a primeiro-ministro, a 10 de Maio de 1940, e a quase concluída evacuação do exército britânico ameaçado em Dunquerque (o que assinalou a queda iminente da França) a 4 de Junho, a data em que ele proferiu o último discurso da sua trilogia retórica.

Os Arquivos Nacionais proporcionaram uma ferramenta de pesquisa essencial: o acesso às actas originais das reuniões do Gabinete de Guerra a que Winston presidiu durante esses dias sombrios. Essas actas lançaram luz num período raro de incerteza na sua carreira, um vacilar na liderança que, de resto, foi sempre firme. Os pedestais são para estátuas, não para pessoas, e uma leitura exaustiva das actas revela não só um líder em sarilhos, a sofrer ataques de todos os lados e, por vezes, hesitante quanto à direcção a tomar, mas também uma história que eu nunca ouvira: a de um Gabinete de Guerra britânico que, se tivesse acordado a paz com o inimigo, teria reconfigurado o mundo para sempre. Quanto faltou para que Winston chegasse a um acordo de paz com Hitler? Fiquei a saber que perigosamente pouco.

A questão com que se confrontava esse Gabinete de Guerra, que no ano de 1940 se reuniu inicialmente no Almirantado (uma curta distância a pé de Downing Street por Whitehall) e, a partir daí, no seu bunker nas profundezas do Edifício do Tesouro, era saber se a Grã-Bretanha iria combater sozinha, talvez até ao extermínio das suas Forças Armadas e da própria nação, ou jogar pelo seguro, procurando tirar partido de um acordo de paz com Hitler. O embaixador italiano em Londres, em troca de algumas concessões coloniais em África, Malta e Gibraltar, fizera saber que estava preparado para pedir ao líder fascista italiano, Benito Mussolini, que servisse de intermediário entre Berlim e Londres nesse acordo. Com o rival de Winston pela liderança, lorde Halifax, a apelar enfaticamente para que essa opção fosse explorada, pelo menos até que se conhecessem claramente as condições de Hitler, e com o antecessor de Winston na chefia do governo, Neville Chamberlain, a concordar que essa parecia ser a única via exequível para escapar à aniquilação quase certa, Winston viveu horas deveras solitárias em que não tinha senão o seu próprio aconselhamento para se apoiar.

Muitos leitores ficarão surpreendidos ao saber que o grande Winston Churchill, apresentado à História como inimigo empenhado e inabalável de Hitler, disse aos seus colegas do Gabinete de Guerra que, em princípio, não se oporia a conversações de paz com a Alemanha «se Herr Hitler estivesse preparado para acordar a paz com as condições de restituição das colónias alemãs e a suserania sobre a Europa Central». Em determinado momento, a 26 de Maio, foi mais longe e contou-se que teria dito «que ficaria grato por se livrar das nossas dificuldades presentes, desde que conservássemos o essencial da nossa força vital, ainda que isso implicasse ceder algum território». Que território? Não só europeu, mas território britânico. E ainda havia mais. O diário de Chamberlain do dia 27 de Maio regista que Churchill disse ao Gabinete de Guerra que «se pudéssemos sair deste aperto cedendo Malta e Gibraltar e algumas colónias africanas, ele [Winston] agarraria a oportunidade com as duas mãos».

Estaria Churchill a pensar seriamente em entabular conversações de paz com um maníaco homicida que detestava, mais do que qualquer outro? Assim parecia. Tais eram as pressões que sobre ele recaíam que não só acalentou a ideia, mas autorizou Halifax a iniciar o esboço de um memorando ultra-secreto dirigido aos italianos, a delinear as condições britânicas e a dar o primeiro passo num processo para descobrir quão severas seriam as de Hitler.

Para aqueles que julgarem que qualquer imagem de um Churchill disposto a considerar seriamente um tal acordo deprecia o grande homem, manchando-lhe a reputação, eu defenderia o contrário: que a imagem pública de um combatente sempre pronto que nunca duvidou de si mesmo não lhe faz justiça; torna-o irreal, um lugar-comum, menos um ser humano tridimensional do que produto de um sonho colectivo. Em vez de o diminuir, a indecisão dele, a sua capacidade de exibir um rosto determinado para manter a moral elevada enquanto ponderava diferentes soluções, favoreceu-o.

Estas são, então, as horas mais negras que o título refere, mas delas — e, sobretudo, por causa delas — Churchill emergiu com dois coups de théâtre, exemplos magníficos de peroração: o primeiro representado diante de um grupo de membros secundários do governo, e não em privado nas reuniões do Gabinete de Guerra, e o segundo perante o Parlamento reunido em plenário, para que todo o mundo o ouvisse. O primeiro foi uma preparação para o momento decisivo, e dele não existe registo completo, apenas as entradas dos diários de dois homens que o escutaram sugerem as suas linhas genéricas e muitas frases-chave. O segundo discurso entrou para a história no momento em que as palavras saíram da boca de Winston, enquanto ele arrolava praias, zonas de desembarque, campos, colinas, mares, oceanos e o ar como os espaços onde os Britânicos combateriam o temível Huno.

Em ambos os discursos — e num anterior proferido algumas semanas antes, no qual prometeu ao público o seu sangue, trabalho, lágrimas e suor, quer os quisessem ou não —, recorreu a todos os truques de manual. Eram lições que aprendera genericamente com os Gregos e os Romanos, e em particular com Cícero: primeiro estimulando a simpatia pelo seu país, por si mesmo, pelos seus clientes e pela sua causa; e, depois, progredindo em crescendo para o apelo emocional directo — aquilo a que os oradores romanos chamavam epilogos — que visava não deixar um único coração por mobilizar ou um só olho enxuto na Câmara.

Existem modelos para o tipo de fogo-de-artifício que ele produziu por três vezes em Maio e no começo de Junho de 1940 — nomeadamente o discurso de Marco António em defesa de Aquílio, durante o qual António rasgou a túnica de Aquílio para revelar as suas cicatrizes de batalha —, mas a Câmara dos Comuns britânica e o público britânico nunca tinham ouvido nada como aquilo. Com palavras, Churchill alterou o estado de espírito político e robusteceu a vontade agitada de um povo estremecido, exortando-o por um caminho incerto que — no fim, contra todas as probabilidades e com todo o sacrifício que Winston vaticinara (e mais algum) —, se concluiu com a vitória total.

Uma história extraordinária.

Todavia, quando Winston morreu, disse-se dele que naqueles dias sombrios de 1940, quando a Grã-Bretanha estava sozinha diante de um inimigo monstruoso, mobilizara a língua inglesa e a enviara para a batalha. Isto não é apenas uma bela metáfora. As palavras foram realmente tudo de que ele dispunha naqueles dias infindáveis. Porém — e esta deve ser a lição a extrair —, quando se fica apenas com uma única coisa com que lutar, o resultado poderia ter sido bem pior.

TERÇA-FEIRA, 7 DE MAIO DE 1940

HITLER JÁ INVADIRA

A CHECOSLOVÁQUIA, A POLÓNIA,

A DINAMARCA E A NORUEGA.

ESTAVA AGORA DETERMINADO

A CONQUISTAR O RESTO DA EUROPA.

NA GRÃ-BRETANHA,

O PARLAMENTO PERDERA A CONFIANÇA

NO SEU LÍDER, NEVILLE CHAMBERLAIN.

A DEMANDA POR UM SUBSTITUTO

INICIARA-SE.

1. Uma Câmara dividida

O plenário do Parlamento britânico bradava condenações e invectivas. «Fora, fora!», gritava-se das galerias superiores, onde aristocratas e membros da Câmara dos Lordes se debruçavam para ver melhor. «Demita-se, homem! Demita-se!» A política britânica nunca assistira a nada igual. Membros dos partidos da oposição enrolavam as folhas da ordem de trabalhos em dardos que arremessavam na direcção da figura prostrada, já a tartamudear e intimamente adoentada, sentada diante do cofre diplomático: o primeiro-ministro conservador da Grã-Bretanha, Neville Chamberlain.

No entanto, por muitas razões, Chamberlain estava relutante em prescindir da sua liderança, nomeadamente por sentir uma incerteza profunda a respeito do que poderia possivelmente acontecer-lhe.

A Grã-Bretanha estava em guerra havia oito meses e as coisas corriam mal. Tanto políticos como público bradavam não só por um líder, mas, como exigiam todos os grandes momentos, por um grande líder — um líder capaz de concretizar o que só grandes líderes conseguem: palavras que sensibilizam, influenciam, persuadem, excitam, inspiram e chegam a forjar nos corações do público níveis de emoção até então desconhecidos. Dessas palavras viriam acções e, consoante a sabedoria dessas acções, o triunfo ou a derrota sangrenta.

E aí estava, talvez, um ingrediente mais surpreendente que qualquer nação em crise grave procuraria encontrar no seu líder: a dúvida. A capacidade vital para duvidar dos seus próprios juízos, a posse de uma mente capaz de conter duas ideias contraditórias em simultâneo e só depois sintetizá-las; possuir um espírito ainda não fechado e, portanto, em diálogo com todas as perspectivas. Isto contrastava com um espírito já decidido que só podia continuar em diálogo com uma única pessoa: o próprio. A Grã-Bretanha, nessa altura, não tinha grande necessidade de um ideólogo. Aquilo de que precisava era de alguém que pensasse a 360 graus.

Como escreveu Oliver Cromwell em 1650 para a Igreja da Escócia: «Rogo-vos, pelas chagas de Cristo, que considereis a possibilidade de estardes errados.» Nesses tempos de incerteza, e sendo tão graves os problemas que a nação britânica enfrentava que o seu próprio futuro estava suspenso das acções vindouras, a grande interrogação era: onde poderia encontrar-se tal líder?

«Já ocupais esse lugar há demasiado tempo para qualquer bem que tenhais feito. Ide embora e deixai-nos livres de vós. Por amor de Deus, saí!» Leo Amery, deputado por Sparkbrook, em Birmingham, retomou o seu lugar sob aplausos ensurdecedores, na primeira noite do agora lendário Debate da Noruega, de 7 de Maio de 1940, uma terça-feira. A Câmara mantinha-se em sessão há quase nove horas. Estava-se num fim de dia cálido de começo de Verão e a escuridão impunha-se. As suas palavras foram a punhalada desferida em Chamberlain pelo próprio Partido Conservador.

A Grã-Bretanha era um país dividido e o governo, em vez de promover a coesão, estava a ser dilacerado por egos e diferendos mesquinhos que tinham contribuído para catastróficos fracassos militares, tanto no campo de batalha como em mar alto. A perspectiva de o fascismo ser bem-sucedido e a democracia estar a chegar ao fim na Europa já não era impensável.

As sementes do famoso debate que decorria nessa noite na Câmara foram lançadas cinco dias antes, quando surgiram as notícias de que a Grã-Bretanha estava a retirar as suas tropas do porto norueguês de Trondheim, depois de ficar pela primeira vez sob pesada investida nazi. Leo Amery e membros da Comissão de Observação de lorde Salisbury, constituída por deputados conservadores e lordes com o propósito de responsabilizar o governo, juntamente com um Grupo Multipartidário de Acção Parlamentar, com objectivo semelhante, mas encabeçado pelo deputado liberal Clement Davies e incluindo membros do Partido Trabalhista, haviam acordado forçar um debate sobre os erros cometidos durante esse primeiro recontro com tropas nazis e, com esse debate, procurar finalmente afastar o líder que sentiam estar a deixá-los — a eles e ao país — ficar mal.

Chamberlain fora o primeiro a dirigir-se à Câmara sobre a «Condução da Guerra», às três horas e quarenta e oito minutos da tarde de 7 de Maio, o primeiro dos dois dias de debate. As suas palavras, uma tentativa para salvar o cargo, em nada contribuíram para lhe reforçar a posição ou para mitigar os temores de que a Grã-Bretanha estivesse essencialmente a abeirar-se do desastre. Ao invés, confirmaram que se sentia fatigado e na defensiva, que era agora um homem que só empurraria mais rapidamente a nação para o perigo. Parecendo «destroçado e murcho», na descrição que um comentador fez mais tarde, não se deixou abater, enquanto lhe eram arremessadas frases cada vez mais memoráveis pelos seus inimigos. Conhecia bem essas frases, pois ele próprio as trabalhara: «Paz no nosso tempo!» (a sua promessa pomposa de um ano antes) e «Perdeu o comboio!» (a referência dele ao que parecera a oportunidade perdida por Hitler de lançar qualquer devastação na Europa). Agora, explodiam-lhe como granadas aos pés.

Qualquer apoio em surdina que Chamberlain tenha recebido durante esse discurso foi descrito por Arthur Greenwood, dos trabalhistas, como «sintético», pois o ambiente na Câmara nunca fora mais sério: «A alma da Câmara está perturbada. Está ansiosa; mais do que ansiosa, está apreensiva.»

Depois de Chamberlain retomar o lugar, o deputado conservador almirante Sir Roger Keyes, trajado com uniforme de gala (o que era inédito nos Comuns), fez a sua entrada teatral e o silêncio impôs-se na Câmara. Crítico de longa data do primeiro-ministro, Keyes denunciou a «história chocante de inaptidão» do governo. Sabia do que estava a falar: testemunhara os erros em primeira mão.

Interveio depois Clement Attlee, líder do Partido Trabalhista, da oposição. Não era um homem particularmente conhecido por grandes estocadas oratórias, mas o tema inspirara-o, falou com acutilância do modo «inepto» como o governo lidara com a situação:

Não é só a Noruega. A Noruega é o culminar de muitas outras insatisfações. Ouve-se dizer que os que são principalmente responsáveis pela condução das coisas são homens que tiveram uma carreira quase ininterrupta de fracassos. A Noruega segue-se à Checo-Eslováquia [sic] e à Polónia. Por todo o lado, a história é «Demasiado tarde». O primeiro-ministro falou de perder comboios. E todos os comboios que ele e os seus companheiros perderam desde 1931? Todos eles perderam os comboios da paz, mas apanharam o comboio da guerra. O povo pensa que estes homens que estiveram sempre errados na sua avaliação dos acontecimentos, as mesmas pessoas que julgaram que Hitler não atacaria a Checo-Eslováquia, que julgaram que Hitler podia ser apaziguado, não parecem ter tido consciência de que Hitler atacaria a Noruega.

Imediatamente antes da meia-noite de 7 de Maio, o destino de Chamberlain ficou selado, mas parecia a muitos que o próprio primeiro-ministro era incapaz de o reconhecer. Esta cegueira nada tinha de novo. John «Jock» Colville, o seu primeiro secretário privado (PPS), escrevera no seu diário a 6 de Maio de 1940, segunda-feira: «O P.-M. está muito deprimido por causas dos ataques que lhe faz a imprensa […] Penso que ele sofre de uma estranha vaidade e auto-estima que despontaram em Munique [referindo-se a Setembro de 1938, quando se pensa que Chamberlain aquiesceu a todas as exigências de Hitler, mas afirmou que negociara a paz] e floresceram desde então, não obstante os muitos vexames sofridos.»

Foi assim que, na manhã de 8 de Maio, antes do segundo e mais decisivo dia do debate, e perante a manifesta relutância de Chamberlain em demitir-se da posição de líder, membros tanto da Comissão de Observação como do Grupo Multipartidário de Acção Parlamentar se reuniram mais uma vez no Parlamento. Decidiram impor uma votação na Câmara, sendo pedido aos deputados que tomassem partido sobre o que o trabalhista Herbert Morrison explicou que seria a «indicação de estarem satisfeitos com a condução da situação ou antes apreensivos a respeito dessa mesma condução»: por outras palavras, desferir o soco decisivo, retirando a Chamberlain o número de apoiantes de que necessitava para se manter como líder.

A notícia dessa decisão chegou aos líderes de bancada do partido, que iniciaram freneticamente negociações de apoio entre os diversos blocos votantes. Colville escreveu no seu diário como os conservadores mais antigos «falavam todos de reconstituir o governo e discutiam seriamente estratégias como uma proposta (a ser apresentada por [lorde] Halifax a [Herbert] Morrison), segundo a qual o Partido Trabalhista seria convidado a participar no governo em troca da saída de figuras destacadas do executivo — Sam Hoare, Kingsley Wood, [Sir John] Simon, etc. —, mas só na condição de Chamberlain conservar a chefia».

As adagas estavam então desembainhadas e particularmente afiadas quando a Câmara se reuniu às catorze horas e quarenta e cinco minutos para retomar o debate sobre a condução da guerra.

Fizeram-se orelhas moucas aos apelos para que o deputado trabalhista Herbert Morrison não dividisse a Câmara. Os deputados trabalhistas estavam decididos: não participariam num Governo Nacional chefiado por «esse homem», Chamberlain. Morrison discursou arrebatadamente durante vinte minutos, exortando os membros da Câmara a votar com a consciência e a reflectir profundamente sobre se a Grã-Bretanha podia continuar com a presente situação, dado o deplorável comando de uma guerra que durava havia apenas oito meses. A mensagem era simples e clara: não só Chamberlain tinha de se ir embora, como levar com ele todos os que tinham apoiado a política de apaziguamento, a crença errónea que dominara a política britânica para com a Alemanha durante a década de 1930, nomeadamente a de que um ditador, uma vez alimentado com prodigalidade, se retiraria saciado para a sua caverna. Portanto, deveriam sair também Sir Samuel Hoare (ministro da Aviação) e Sir John Simon (chanceler do Tesouro[1]).

A decisão de se demitir pertencia a Chamberlain. Decerto que cederia, debilitado por ataques de todos os lados. Contudo, resistia ainda, permanecendo no seu lugar e só levantando ocasionalmente a cabeça para o olhar desapiedado da detracção e da calúnia. Quando, por fim, se levantou — como registam as memórias do deputado trabalhista Hugh Dalton —, foi em fúria que «saltou, a mostrar os dentes como uma ratazana encurralada, e gritou: “Aceito o desafio e peço aos meus amigos, e ainda tenho alguns amigos nesta Câmara, que esta noite apoiem o governo na antecâmara.”»

A incapacidade de Chamberlain para se aperceber da magnitude da situação com que a nação se confrontava só serviu para intensificar a fúria dos seus opositores no Parlamento, e, em breve, membros de ambas as alas punham-se de pé, a tentar atrair a atenção do presidente da Assembleia para a sua vez de intervir. Gritos de «Vá embora!» e «Demita-se!» ecoaram pela sala, mas ainda assim Chamberlain não se demoveu. Era requerido um derradeiro ataque devastador e o homem perfeito para o desferir levantou-se. A Câmara, já rouca, fez silêncio. David Lloyd George, ele próprio antigo primeiro-ministro liberal em tempo de guerra, a princípio devagar, mas depois num tom cada vez mais visceral, tratou de fustigar Chamberlain por sujeitar a Grã-Bretanha «à pior posição estratégica em que este país alguma vez se viu». A apoteose surgiu com um apelo directo à consciência de Chamberlain: «Dê-nos um exemplo de sacrifício, porque nada há que mais possa contribuir para a vitória nesta guerra do que aquele que sacrifica as insígnias do seu cargo.»

A assistir da galeria, e a acenar em aprovação com a cabeça, estava a esposa do orador, Margaret Lloyd George, que escreveria mais tarde:

Estou tão contente por o meu marido ter contribuído para o afastamento de Chamberlain. Eu nunca vira uma disputa como aquela, com a Câmara determinada a livrar-se dele, de Sir John Simon e de Sam Hoare […] O alarido que o seguiu na saída foi terrível, com gritos de «Vá embora, vá embora». Nunca vi um P.-M. afastar-se com tamanhas vaias. Ele meteu-nos numa situação difícil e o Partido Conservador disse sempre, depois de Munique, «Ele salvou-nos da guerra». Pobres homens, precisaram de quem lhes abrisse os olhos.

O debate entrou pela noite fora. Chamberlain não queria demitir-se de ânimo leve. Estava a poucas semanas de admitir pela primeira vez, no seu diário, que padecia de «dores consideráveis» por causa do cancro intestinal que lhe seria fatal no prazo de escassos meses. Talvez, no seu âmago, soubesse que aquele momento era a sua última oportunidade de evitar ser responsabilizado pelo colapso da Europa, da democracia e do modo de vida britânico. E talvez existisse uma outra razão, mais recôndita, para a sua relutância em se apear.

Alguns lugares mais abaixo, na linha da frente da bancada dele, sentava-se um homem que, na realidade, era bastante mais culpado no que dizia respeito à campanha da Noruega nos meses anteriores, que passara pela perda de 1800 homens, de um porta-aviões, de dois cruzadores, de sete contratorpedeiros e de um submarino.

Winston Spencer Churchill, como primeiro lorde do Almirantado, fora o principal arquitecto da desastrosa estratégia naval do país. Porém, com todas as atenções concentradas no primeiro-ministro, e não tendo chegada a sua vez de intervir, Churchill manteve-se fora da linha de fogo, à espera da sua hora, sem querer deixar impressões digitais na arma do crime.

Winston não era popular. Na verdade, nessa altura era uma espécie de figura anedótica, um egocêntrico, «meio americano» que, nas palavras de um deputado conservador, Sir Henry («Chips») Channon, só defendia uma coisa: ele próprio. É agora difícil de imaginar, constando que a Grã-Bretanha tem 3500 pubs e hotéis, mais de 1500 salões e estabelecimentos, e 25 ruas com o nome dele, e com a efígie dele a ilustrar quase tudo, de bases para copos a capachos de entrada — para não referir a presença esporádica do seu busto na Sala Oval do presidente dos Estados Unidos —, mas em Maio de 1940 estava longe de ser «um par de mãos seguras».

Ainda rotulado de vira-casacas por muitos do partido por «atravessar a sala» — trocar a fidelidade política dos conservadores para os liberais em 1904, regressando depois aos conservadores em 1924 —, Churchill revelara-se, todavia, espantosamente leal a Chamberlain. Foi-o nesse dia também, quando, a meio do discurso de Lloyd George, se ofereceu como alvo de punição em lugar do primeiro-ministro: «Eu assumo responsabilidade total por tudo o que foi feito pelo Almirantado, e aceito todo o meu quinhão desse fardo.»

Lloyd George, cujo fio de discurso Churchill interrompera, retorquiu com destreza: «O cavalheiro honrado não deve permitir-se ser transformado em abrigo antiaéreo para impedir que a metralha atinja os seus colegas.»

O mea culpa de Churchill não era mais do que a primeira prestação de uma falsa missão de resgate, calculada para falhar, mas também conquistar ascendência sobre os colegas com uma manifestação comovente de lealdade — uma boa oportunidade para mostrar ali o quanto sabia ser «primeiro-ministerial» sempre que o tentava, inscrevendo-se assim como potencial vencedor inesperado daquela competição.

Quando chegou finalmente a sua vez de intervir, e discursar demoradamente, os insurgentes inclinaram-se para a frente, expectantes e na esperança de ouvir frases imorredouras de condenação. No entanto, ele não proferiu nada de imorredouro, absolutamente nada que Chamberlain não pudesse ele próprio ter inscrito na sua pedra tumular. Ao contrário, Churchill fez um louvor tão extremadamente débil que só disse aquilo que queria: demasiado pouco, demasiado tarde. A verbosidade de socorro a que Winston podia ter dado livre curso estava claramente a ser reservada para outro dia e outro momento. Ele já tinha discursos em fermentação, frases em ensaio silencioso que serviriam outro fim mais espectacular nos dias subsequentes, e não as desperdiçaria ali.

Quando Winston voltou a sentar-se, obtivera talvez uma coisa com o seu discurso: a estrela dele, se ainda não brilhava vivamente, perdera um pouco da sua palidez num momento crítico em que todas as outras estrelas se haviam extinguido.

Daí que, quando o presidente da Assembleia anunciou o momento da votação, a maioria dos espíritos não tinha dúvidas. Chips Channon recordou:

Vimos os insurgentes saírem em fila da antecâmara da oposição […] «Traidores», gritámos-lhes, «Ratazanas». «Lambe-botas», retrucaram eles […] «281 para 200» […] Houve gritos de «demissão, demissão» […] e aquele velho macaco do Josh Wedgwood começou a acenar com os braços e a cantar o Rule Britannia. O Harold Macmillan, que estava junto dele, começou a cantar também, mas abafaram-nos com alarido. O Neville parecia aturdido com as figuras agoirentas e foi o primeiro a pôr-se de pé. Exibia um semblante grave, meditabundo e triste […] Nessa noite não havia multidões a ovacioná-lo, como antes de Munique. Era apenas um homenzinho solitário que dera o seu melhor pela Inglaterra.

Apesar desta vitória por curta margem, Chamberlain perdera a confiança do partido, tendo um total de quarenta e um deputados conservadores votado contra o governo. O mais jovem deles era John Profumo que, com apenas 25 anos, se esgueirara do seu gabinete para participar na votação e foi mais tarde castigado pelo temível presidente da bancada conservadora, David Margesson: «Ranhoso desprezível […] vais ter vergonha do que fizeste a noite passada para o resto da tua vida.» Com a maioria conservadora reduzida a apenas oitenta e um, não podia haver mais debate. Era desejável uma cruzada pública em sintonia com os pensamentos íntimos do primeiro secretário privado de Chamberlain, Jock Colville, que registou como era «chocante» que «toda a gente esteja a concentrar as suas energias numa crise de política interna (à la française), em vez de se precaverem para as consequências da jogada seguinte de Hitler». É preciso encontrar um novo líder. Mas quem? Quem era mais capaz? E quem estava pronto?

As lutas políticas intestinas tinham obscurecido a situação desesperada em que a Grã-Bretanha se encontrava. A nação precisava de alguém não só para unir o Partido Conservador, mas também para atrair os partidos da oposição e as Forças Armadas, não tendo estas últimas logrado actuar de forma conjunta nessa primeira derrota militar que pusera fim tão abruptamente à chamada «Guerra de Impostura» dos últimos oito meses, iniciada pela invasão da Polónia pela Alemanha.

Channon escreveu no seu diário que «boatos e intriga, conspiração e contraconspiração» alastravam agora entre os principais políticos. Porém, não era Churchill, que tantos haviam defendido e elogiado nos debates dos dias anteriores, quem estava a recolher o apoio do Partido Conservador. Destacando-se de todos os outros, um nome insinuava-se como único sucessor natural para Chamberlain. Era o de um homem que nem sequer tinha autorização para se sentar em qualquer das alas da Câmara dos Comuns. Tratava-se de lorde Halifax, ministro dos Negócios Estrangeiros em exercício e membro da Câmara dos Lordes, que assistira discretamente aos trabalhos da Galeria dos Pares, juntamente com outros titulares da sua câmara, embaixadores e importantes dignitários dos aliados da Grã-Bretanha.

Um grande obstáculo a que Halifax ocupasse o cargo de Chamberlain residia na própria Constituição. A natureza singular do sistema parlamentar britânico determina que quem ocupar um assento na Câmara dos Lordes não pode em simultâneo candidatar-se ou servir como membro eleito do parla ...