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A GLóRIA E SEU CORTEJO DE HORRORES

Fernanda Torres  

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Excerto

do consultório de um prédio velho de Copacabana. Eu obedecia, de quatro, no tapete, acreditando na teoria de que só assim eu atingiria o estado de humilhação do rei. Laurence Olivier jamais precisou ficar de quatro, mas eu ficava, de quatro, no cubículo de Copacabana. Sentido de humilhação eu tenho, o que me falta é nobreza para carregar a coroa, nenhum de nós tem. Essa era a certeza que me vinha, cada vez que, entre deprimido e exausto, eu deixava a sala apertada do edifício comercial na Figueiredo Magalhães em direção a mais um dia extenuante de ensaio. Naquele tempo, ainda havia esperança em mim. A ilusão da glória. Tudo começou a ruir no dia em que o canalha do diretor entregou os raios de aço para o elenco e deu ordem para os animais sacolejarem aquelas joças. Stein — o nome do iluminado era Stein —, desse jeito ninguém vai me ouvir, eu disse. Ele me lançou um olhar de desprezo e respondeu que as palavras não eram relevantes, só a desconstrução do texto e o blefe do teatro da imagem. Vai dirigir marionete, pensei, escala uma penca de bonecos de Olinda, estive a ponto de desabafar, mas o medo de perder o diretor a um mês da estreia me fez frear os cavalos.

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No centro do palco, eu repetia os versos com as patas no chão, rei de coisa nenhuma, Lear encarnado. A angústia me fez pensar em exorcismo, macumba, cogitei suicídio e até assassinato do Stein. A ideia do homicídio me alimentou até o ensaio geral. O prazer de sentir raiva. Goneril e Regana, as filhas megeras do monarca sem trono, tinham a cara do Stein para mim; botei todo meu ódio nelas e melhorei, melhorei até demais. Um mal-agradecido que não dirigia uma peça há mais de dez anos. Um pária que eu mandei buscar num sítio em Corrêas, o retiro onde a grande promessa do teatro dos anos 80 se refugiou, depois de declarar que a humanidade era incapaz de compreender os arroubos de criatividade dele.

— E tu, trovão que abala o universo, achata para sempre a grossa redondez do mundo! Quebra os moldes da natureza e destrói de uma vez por todas as sementes que geram a humanidade ingrata!

O horror à direção era apenas um dos meus problemas. O cenógrafo e o figurinista, duas senhoras casadas que só trabalhavam em dupla, completavam o pesadelo. O primeiro concebeu a parede de um castelo medieval que consumiu uma floresta inteira de madeira nobre. As toras maciças da estrutura pesavam tanto que me vi obrigado a chamar um engenheiro para reforçar as vigas de sustentação do palco, palco… um teatro de shopping mal travestido de Cornualha. Isso é cenário, eu repetia, mas o criador queria verdade. Com o dinheiro dos outros é fácil, bradei, e ele saiu ofendido, como se eu fosse um burguês tacanho, sem sensibilidade para me embevecer com a inspiração dele. O fosso com água tomou as três fileiras em frente ao proscênio, o que diminuiu os ganhos de quem vivia de percentual. O infantil de sábado e domingo exigia que desmontássemos o circo duas vezes por semana, onerando a folha de pagamento com mais três bebe-águas. Além dos energúmenos, mais quatro incompetentes se revezavam na coxia com a contrarregra. O Stein pediu realismo e criou dois banquetes inexistentes no original. Consumíamos dez frangos de padaria por récita, além das frutas, pães e legumes comprados a peso de ouro na quitanda da esquina, e que apodreciam sem dó no camarim. Cheiro insuportável. Nas cenas em que Lear é expulso de casa pelas filhas, o portão se fechava arrastado por correntes. Perdemos uma semana para içar a geringonça. Dane-se a poesia, o Stein queria efeito. Na cena da guerra, eu tentei dissuadi-lo, mas a besta quis porque quis botar fogo nas seteiras da parede, toda coberta de isopor maquiado de pedra. Contratei um bombeiro para ficar de prontidão. Stein exigiu que Cordélia, depois de morta, entrasse nua nos braços do pai. Era uma atriz muito bonitinha, que o Stein tentou comer de todo jeito, sem resultado. Tinha cabeça, a menina. No domingo seguinte à estreia, o bombeiro não resistiu à pressão dos hormônios e arriscou uma mão nos peitos da moça. Demiti o tarado. O outro que entrou só olhava de esguelha, e eu pedi para ela aguentar o tranco. Depois de assistir a uma versão russa da peça para o cinema, Stein resolveu situar o enredo na Idade da Pedra. O figurinista teve orgasmos com a concepção e nos brindou com uma coleção de peles de carneiro — ele queria urso, mas aceitou os carneiros. Suávamos em bica, arrastando as capas de lã no calor de fevereiro. Abrimos o pano logo depois do Carnaval, o ar-condicionado não dava conta do bafo, e como só ligavam as máquinas na hora de passar o corrido — economia, Horácio, economia —, dois atores foram parar no hospital, comprometendo ainda mais a reta final.

A velha crítica do principal jornal carioca consumou a tragédia. Estudiosa de Shakespeare, a dama de ferro ganhava a vida assistindo aos Tem bububu no bobobó dos palcos brasileiros. Capaz de perdoar comédias rasas, era acometida de uma agressividade cruel quando escrevia sobre aqueles que, como eu, se dispunham a enfrentar o cânone. Ela abria com meu epitáfio, e terminava a resenha culpando as leis de incentivo à cultura, por permitirem que uma infelicidade daquela chegasse às vias de fato. A depressão tomou conta do elenco. Ainda teríamos seis meses pela frente e um contrato assinado com o patrocinador que incluía uma temporada em São Paulo. Terminamos a catástrofe no Rio com a casa vazia, enfiei o castelo em quatro caminhões de mudança e rumamos para o planalto paulista.

São Paulo. A fraqueza me abateu em São Paulo.

A empresa de engenharia que apoiou o espetáculo resolveu comemorar os cinquenta anos de fundação convidando os funcionários para a estreia. No foyer, antes da sessão, foi servido ravióli de funghi com creme quatro queijos, acompanhado de vinho tinto da Serra Gaúcha. Depois de passar a sexta no batente, os convivas encheram a pança. Mal subiu a cortina, os primeiros roncos ecoaram. Como as pausas dramáticas amplificavam a sinfonia de Morfeu, passamos a evitá-las ao máximo. Atropelávamos as falas e quanto mais corríamos com o texto, mais arrastada ficava a peça. Foi um suplício lento, moroso, insuportável. Quando as luzes se acenderam para o agradecimento, esperamos pacientes metade da plateia acordar a outra e nos brindar com bocejos e aplausos apáticos.

O matutino campeão de assinaturas foi testemunha do flagelo. Um crítico deveria ter a compaixão de não aparecer no teatro na noite do patrocinador, mas aquele não teve. Nenhum deles tem.

Perto da resenha paulista, a do jornal carioca mais parecia uma consagração. No rodapé da quarta página do caderno de cultura, num espaço espremido entre os quadrinhos e o horóscopo, uma foto pequena, em preto e branco, comigo de quatro, estampava a manchete: PESADELO DE UMA NOITE DE VERÃO. O entendido começava a análise com uma lista de atores consumidos pela vontade de serem maiores do que de fato são. Me faltava o peso para dar conta do papel, decretava, concluindo que até Romeu me caberia melhor. Arrependido por não ter optado por Macbeth, engendrei planos para explodir a redação com o miserável dentro. Tinha uns trinta anos, o agourento, e padecia do mesmo complexo de vira-lata de outros jornalistas empregados naquele jornal. Os cinco parcos parágrafos davam cabo de tudo: elenco, direção, luz, cenário, figurino; só o Bobo, personagem de Arlindo Correia, saiu ileso da debacle. Velho ator de teatro que, como todos nós, ganhava a vida na televisão, Arlindo participou de montagens históricas, trabalhou com Kusnet, Ziembinski, e fez parte do coro do Arena. Ele brilhou desde a primeira leitura, sabendo ser irônico e trágico quando preciso. Durante a preparação, procurei esconder a inveja de saber que ele se sairia melhor do que eu, e sem o peso de carregar a produção nas costas. Escamoteei o quanto pude, até ler a verdade explícita naquele jornal metido a New York Times. Passei a evitá-lo, parei de cumprimentar. Chegava no teatro cedo, resmungava um boa-noite inaudível e seguia batido para o camarim. Meu alívio, se é que se pode chamar de alívio, era ouvir as desgraças do Lineu Castro, enquanto ajustava a barba branca.

O Lineu era um ator maravilhoso, neurótico, mas maravilhoso. Tinha problemas sexuais terríveis, foi virgem até os vinte e oito anos e deve ter comido a mulher umas duas vezes na vida. Numa delas, concebeu um filho. O Lineu era hipocondríaco e só tomava banhos bissextos. Ninguém quis dividir o camarim com ele. Acabamos juntos, em frente ao espelho, comigo ouvindo a ladainha dele sobre a vida indigente que levava ao lado da mulher feia e do filho fracassado. A infelicidade o havia dotado de uma sensibilidade rara de se encontrar num ator. Não era a vaidade que o movia, mas um conhecimento profundo da pequenez humana. Foi isso o que nos levou a escalá-lo para o papel de Gloucester, pai traído pelo filho bastardo, o vilão Edmundo, que trama contra o irmão legítimo, Edgar, para lhe usurpar o poder.

O tormento começou num sábado, quinze dias depois da crítica devastadora. Tartamudeei as falas em meio à borrasca, guardando um fio de voz para o fim do espetáculo, ninguém ouvia mesmo. O elenco se retirou com as famigeradas placas, eu suspirei aliviado e fui conduzido pelo Arlindo, de Bobo, e o Claudio Melo, de duque de Kent, até o tronco que simulava a cabana. Da direita do palco, surgiram o Lineu e o Paulo, Gloucester e Edgar, formando o grupo de nobres párias. Paulo Macedo, um galã jovem, ótimo ator, mas que ninguém levava a sério porque havia emendado três novelas no mesmo papel de estúpido, aceitara o desafio, acreditando que o teatro mudaria o rumo da sua carreira. Não mudou. Pediu substituição logo depois da estreia em São Paulo. A televisão o convocou para protagonizar um folhetim das sete, e o contrato vitalício forçou-o a aceitar. E fez muito bem de aceitar, porque sairíamos de cartaz com ele ainda em cena, antes de ensaiar outro ator. E mesmo que perdurássemos: de que vale Shakespeare diante de uma novela das sete?

Paulo e Lineu entraram vestidos com as fraldas de faquir que o figurinista criou para a cena do precipício, aquela em que o filho honrado salva do suicídio o pai cego. O Lineu veio tateando na minha direção, forjando a cegueira com os olhos revirados até ficarem brancos. Eu tinha medo daquilo acabar em descolamento de retina, mas ele era desses atores empenhados, que gostam de se imolar pelo papel. A dupla encontra o trio, formado pelo rei, o bobo e o duque, perdidos na vastidão gelada da Cornualha.

Foi esse o instante.

Gloucester surge carregado por Edgar. O rosto sofrido do jovem ator, obrigado a encarar o mau cheiro do colega avesso a banho. Demos conta de um bom naco de cena, até Paulo dar a deixa, o Peligalo sentou no monte Pintocano. Co-co-ri-có, e sair batendo as asas, imitando galinha, para fazer-se de louco.

Fui assaltado por uma experiência extracorpórea.

Minha alma vagou e me pus a admirar na distância aquele rapaz bonito, de fralda, macaqueando uma ave penada. Que tristeza eu sentiria de ver um filho se humilhar desse jeito, pensei. Na plateia, os que não dormiam também pareciam assombrados. Voltei-me para o infeliz do Lineu, revirando os olhinhos com arroubos de Carmen Miranda, e senti pena do Claudio, afogado na estola de carneiro, com o suor a escorrer pelas têmporas. Para tudo, desejei em silêncio. Para este bonde que eu quero descer.

Foram as fraldas, as fraldas e a falsa cegueira, o nojo do galã com os fluidos do companheiro, os trovões do gênio do diretor, a afonia, eu de quatro no cubículo de Copacabana, a azia dos frangos, a tara do bombeiro, a crítica arrasadora, o público estupefato, a bilheteria às moscas, o shopping fervendo com a liquidação de inverno, a consciência traiçoeira, a fragilidade da profissão. Minha atenção se concentrou na cortina de veludo puído, lembrei do quanto eu odiava a Regana canastra da Ivete Maria e lamentei o delírio idiota de estar à altura de Lear. Um senhor na primeira fila teve um ataque de tosse e a mulher abriu a bolsa para catar uma pastilha. O barulho do papel de bala se juntou ao dos espasmos do marido e alguém na plateia soltou um shhhh resmungão. Meu diafragma perdeu o tônus, o ar subiu pela faringe e terminou na boca, forçando a contração dos lábios para cima. Tentei disfarçar o riso. Esta noite fria vai nos deixar a todos loucos e assustados, disse o Arlindo; Cuidado com o espírito maligno, continuou o Paulo, e os dois se voltaram para mim. Eu deveria dizer alguma coisa, mas o quê? O quê? Eu não me lembrava nem em que ato estávamos. Branco total. Fiquei parado, sem resquício do personagem, incapaz de esboçar reação. Alguém sussurrou a deixa, procurei repetir, mas a voz saiu fina, estrangulada pelo humor contido. Estampou-se o pânico na cara dos quatro patetas. Explodi. Ri vencido, frouxo, tomado por uma alegria ginasiana, demente, diabólica. Dissimulei loucura, por um segundo, recuperei a gravidade do bardo, mas foi pior, a gargalhada aflorou com força redobrada, sonora, potente a ponto de me vergar. Apoiei as mãos nos joelhos. Perdão, pedi, ao Lineu, ao Paulo, à plateia. Perdão.

A fantasia do ator é matéria frágil. Contorcido no centro da ação, eu procurava um sinal, uma lembrança que me barrasse as cócegas. As dívidas, o medo do câncer, a carreira infeliz, o jingle do Médicos Sem Fronteiras; mas o esgar sádico, desumano, se mantinha firme, indiferente aos apelos da razão. Recomecei mais de uma vez, um protagonista não tem o direito de abandonar o barco, mas era bater os olhos nas fraldas para recair no abismo. Fecha, fecha, fecha a cortina, implorei. Ouvi o burburinho do público, o elenco entrou para acudir, alguém surgiu com um copo d’água. Vai passar, eu dizia, vai passar. Respirei sincopado, diante da trupe atônita. A plateia começou a aplaudir ritmada, exigindo a volta. Em agonia, ensaiei uma cura raivosa, dei pulos de kung fu pelo espaço, chutes e socos no ar. Era eu contra mim. Os colegas respeitaram o momento. Soltei um grito primal, outro, exorcizei como pude, até recuperar o juízo. Estanquei sério, ofegante. Mantive a sobriedade por dois, três, quatro segundos… Passou, garanti, passou. Solene, retomei o centro do palco. Lineu, Arlindo, Claudio e Paulo se posicionaram na marca, e eu dei ordem para que abrissem de novo a cortina. O veludo se moveu com lentidão, a poeira a bailar no contraluz dos refletores, fez-se silêncio para a retomada da ação. Como é belo o teatro.

Durou pouco.

O ataque se repetiu, nem sei como chegamos ao fim. No dia seguinte, de novo, foram três tentativas seguidas, um fecha e abre cortina de cair o queixo. Mandei suspender a sessão, devolvi o dinheiro e deixei o teatro vestido de Lear. À noite, deitado no quarto do hotel barato, o único que aceitara a permuta, chorei de não me aguentar, até cair duro. Acordei apavorado, sabendo que, à noite, eu teria que encarar o Lineu e o Paulo de fralda, e a galinha. Suei frio durante todo o espetáculo, sentindo cólicas de ansiedade. Quando a tempestade passou, o Claudio e o Arlindo me conduziram até o tronco que simulava a cabana e lá veio o Paulo com o Lineu nas costas. Tentei não olhar para os dois, representei virado para os lados, mas como barrar os ouvidos? O Peligalo sentou no monte Pintocano. Co-co-ri-có. Nova explosão. Mais uma noite arruinada. Choros no camarim. O problema era crônico. Pedi para mudar o figurino, eles se cobriram com um gibão. Foi pior. As fraldas permaneciam intactas na memória. Cortamos a fala da galinha, mas eu já estava condicionado. Agora, bastava sentar no tronco para os pulmões cederem. Levei três semanas e uma nota de jornal para jogar a toalha. O último frouxo se deu diante de uma plateia de vinte e dois pagantes. Eu já ria no início, indefeso, e por qualquer bobagem. Interrompi o primeiro ato logo após a Ivete Maria declarar o quanto amava o pai. Ela era ruim demais, parecia dublada. Olhei para o Arlindo, ele baixou a cabeça e começou a tremelicar. Era contagioso. Fechamos a derradeira cortina com o elenco às gargalhadas, infectado por uma descrença que havia nascido em mim. Fui para o hotel esquecer. Na penumbra do quarto, nem me dei ao trabalho de contar as gotas de Rivotril que esguichei na boca, a empreitada me deixara imune a elas. Deitei na cama mole do hotel da permuta e planejei os próximos passos. Eu baixaria o dinheiro guardado no banco, os restos do último contrato na televisão, pagaria o que devia à equipe, a multa do teatro, os anúncios já contratados, as passagens aéreas, escreveria uma carta culpada para o patrocinador e iria pessoalmente a Brasília, fazer o mea-culpa no Ministério. Largaria o ofício se soubesse viver de outra coisa. Um restaurante, uma pousada na serra, talvez Paraty. Esquece, pensei, amanhã vejo o que faço de mim. Apaguei no lençol de nylon, embalado pelo autor.

— Não atormente sua alma. Deixemos que ele parta. Seria odiá-lo mantê-lo mais tempo na roda de tortura que é este mundo.

Foi o fim do Lear que ri.

O telefone insistia em tocar. Acordei torto e demorei a entender onde estava. Gritei um já vou para ninguém e levantei trôpego. Na bancada, diante do espelho, as olheiras do rei me miraram. Deprimi ao recordar do horror. Eu continuava ali, maquiado, perdido entre um mundo e outro. O toque não parava e soltei outro já vou irritado, revirando a zona do quarto até encontrar o aparelho jogado atrás do sofá. Atendi. Era uma ligação do Rio. Uma voz grossa se identificou como o subcomandante Melo, do 17.º grupamento de bombeiros de Copacabana.

Catástrofes vêm em cardume.

Uma senhora branca, aparentando oitenta anos, de cabelos pintados de louro, fora encontrada nua, quase afogada, na praia em frente à Miguel Lemos. No celular, achado entre os pertences largados na areia, identificaram a última chamada efetuada. O senhor conhece alguém com o nome de Maria Amélia Pires Cardoso? Conheço, respondi, é minha mãe, ela está bem? Sim, está fora de perigo, mas um pouco confusa, disse a voz. Demos entrada na emergência do Hospital Miguel Couto, continuou. Eu estou em São Paulo, sou filho único, minha mãe é viúva, expliquei, me dando conta da própria orfandade. Algum parente ou vizinho que possa vir socorrê-la? Não… não… tia Neusa, pensei, mas desisti em seguida. Me comprometi a pegar o primeiro avião e desliguei em choque.

A velha falta de ar.

Sentei-me na cama, ia entrar em parafuso, mas eu era homem-feito, precisava aguentar. Catei um saco de papel do chão, enfiei o nariz e a boca dentro e me pus a respirar compassado, tinha visto num filme, talvez funcionasse. O papel inflou e murchou seguidas vezes, enquanto eu tentava organizar as ideias. Amassei o saco e joguei longe, que se dane a asma nervosa. Quis tomar um banho, mas pareceu leviandade. Tirei a maquiagem borrada com o sabãozinho da pia, meti o que pude no paletó e saí desgovernado, deixando para a volta as contas do hotel, o elenco, o teatro, a carreira, o futuro. Congonhas!, ordenei ao taxista.

No total, foram cinco ...