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A ESPERA DE FERNANDA

Maria Cláudia Rodrigues  

4


Excerto

3.

Fernanda e Joaquim estão agora sentados no sofá da sala comum, situada no andar inferior da moradia onde vivem e que adquiriram há mais de trinta anos. Não fazem mais do que cirandar entre essa zona e o quarto do filho, ora de dia, ora de noite. Lá fora, a horta não é regada desde que o calvário começou. Também as flores já começam a sucumbir à temperatura que anuncia a chegada do Verão. As horas arrastam-se. A espera é devastadora.

Fernando saíra de casa há quatro dias e não regressara nem dera uma única notícia. Nem aos pais, nem à namorada, a ninguém. Um comportamento completamente invulgar. Injustificável. Só lhe pode ter acontecido alguma coisa.

Há dois anos que Fernando trabalhava como técnico verificador na Alfândega, situada a cerca de setenta quilómetros de casa. Era ainda estagiário, mas em pouco tempo uma promoção transferira-o do sector de verificação de mercadorias para a área dos Impostos Especiais Sobre o Consumo. No dia em que desapareceu, a 6 de Junho, por ironia do destino, o Diário da República anunciou a sua colocação efectiva na instituição. Não chegou a comemorar essa vitória com os pais. A primeira de uma carreira que se adivinhava promissora. Fernando da Cruz era um jovem ambicioso, organizado, trabalhador, rigoroso. Tinha ainda planos, a curto prazo, de se casar com a namorada. Na semana em que sumiu, programara visitar com Sandra um terreno dos pais dele, para avaliar a hipótese de lá construir a futura casa de família. Até isso apontara na agenda. A mesma que a mãe já revirou vezes sem conta, à procura de um indício que pudesse fazer prever tudo aquilo. Marcara ainda as férias que gozaria em Agosto daquele mesmo ano, reservando alguns dias para os festejos de Natal e de Ano Novo. Portanto, era mais do que evidente que Fernando planeara viver.

No dia em que desapareceu, Fernando da Cruz — que completaria 25 anos a 25 de Agosto — levantou-se à hora do costume, tomou o pequeno-almoço que a mãe lhe preparou, como era habitual, e saiu de casa ao volante do Seat Ibiza vermelho que os pais lhe haviam oferecido três anos antes. O pai estava ainda deitado quando, por volta das sete e quinze da manhã, o ouviu a ligar o motor e a sair da garagem. Saber-se-ia mais tarde que Fernando percorreu os habituais cerca de setenta quilómetros que o separavam do local de trabalho. O que não se sabe é por que razão não chegou a entrar no escritório naquela manhã e porque não regressou a casa, no fim do expediente. E, ainda, porque não telefonou, se o telemóvel se manteve ligado ao longo de todo o dia.

A família desesperava. Ao fim de quatro dias, a ansiedade alcançava um patamar superior ao da aflição. Fernanda e Joaquim esperavam uma notícia. Fosse qual fosse. Com a condição de que lhes alimentasse a fé. Porém, naquele final de manhã de domingo, o toque da campainha inaugurou o princípio do fim da esperança.

— Quem será? — Joaquim estremece. Corre para a entrada e Fernanda segue-o.

Com a mão no puxador, Joaquim detém-se.

— E se for uma má notícia? — Treme-lhe a voz, e a mão que segura a porta está paralisada. Fernanda interrompe-lhe a letargia.

— Seja o que for, temos de saber! — Ela arreda-lhe a mão e roda o puxador com força, abrindo a porta de rompante.

Na entrada, está a vizinha da casa da frente. Pálida. Tem os cantos da boca virados para baixo. Fernanda e Joaquim fitam-na com ansiedade, mas a mulher demora alguns segundos até conseguir abrir a boca e falar.

— Desculpem vir assim… A Polícia telefonou para minha casa. Não percebi porque me telefonaram a mim. — Quase chora.

— Mas o que é que aconteceu? — pergunta Fernanda.

— É que encontraram o carro do Fernando… — solta a vizinha.

Fernanda leva a mão direita ao peito e começa a esfregá-lo com força. Com a esquerda, agarra a mão do marido.

— E o Fernando? Disseram-lhe alguma coisa sobre o Fernando?

— Só disseram que encontraram o carro dele… — A vizinha fala devagar, com os olhos colados ao chão. — E pediram-me para vos avisar…

— Mas ligaram para si porquê? E onde está o carro do meu filho? Só lhe disseram isso? — insiste Fernanda.

— Então quer dizer que

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