Loading...

A DISTâNCIA ENTRE MIM E A CEREJEIRA

Paola Peretti  

0


Excerto

2

Coisas de que gosto muito

(e que vou deixar de poder fazer)

Vejo-me ao espelho a uma distância de três passos.

No entanto, esta distância está a encurtar: o ano passado era de cinco passos. Frente ao espelho, acaricio a cabeça de Ottimo Turcaret e também aproveito para alisar o cabelo. Ultimamente a mãe gosta de me fazer totós e ai de mim se me despentear! Gosta tanto deles que mos deixa até para dormir. O pai espreita para dentro do quarto e diz-me para me empijamar e lavar os dentes. Eu respondo-lhe que sim, mas acabo por ficar sempre à janela durante muito tempo antes de obedecer. Da janela do meu quarto vê-se um bom pedaço de céu preto. Gosto de ficar debruçada a olhar lá para fora nas noites de outono como esta, porque não está frio e vê-se a Lua e a estrela polar a brilhar muito. A mãe diz que as duas são o candeeiro e o fósforo de Jesus. A mim, só me interessa confirmar que continuam lá todas as noites.

Antes de adormecer, o pai vem ler-me uma história. Agora vamos a meio de Robin dos Bosques, que me faz sonhar com bosques e flechas. A seguir, normalmente a mãe também vem, ajeita-me os totós na almofada, dos lados da cara, e dá-me as boas-noites com um hálito de gelado de hortelã.

No entanto, esta noite chegam juntos e sentam-se na minha cama, um de cada lado. Dizem-me que repararam que estou a ver cada vez menos, por isso resolveram levar-me a umas consultas muito especiais na semana que vem. Não gosto de faltar às aulas porque perco informações importantes (quanto tempo levaram a construir as pirâmides) e uns mexericos (é verdade que Chiara e Gianluca do quarto ano namoram outra vez?). Mas diante dos meus pais fico calada. Espero que saiam e apaguem a luz do teto, acendo o candeeiro na minha mesa-de-cabeceira e passo os dedos pela lombada dos livros que guardo por cima da cabeceira da cama, numa pequena prateleira. Pego num caderno com o canto da página dobrado.

Apoio-o na almofada. Na capa tem uma etiqueta onde se lê: A LISTA DA MAFALDA

Este caderno é o meu diário. Na primeira página lê-se uma data:

14 de setembro.

Há três anos e catorze dias. Por baixo está escrito:

Coisas de que gosto muito

(e que vou deixar de poder fazer)

Não é uma lista muito grande. Na verdade tem apenas três páginas, e no início da primeira está escrito:

Contar todas as estrelas à noite

Governar um submarino

Fazer sinais de luz de boa-noite à janela

Alerta vermelho. Óculos embaciados.

A avó morava mesmo à nossa frente, na casa vermelha com cortinas de renda, onde agora vive um casal que nunca cumprimenta e que também mudou as cortinas. A avó era mãe do meu pai, tinha caracóis como ele e como eu, só que brancos, e fazia-me sempre sinais com um foco antes de se ir deitar. Um flash de luz significava «estou a chamar-te». Dois flashes, «boa-noite». Três flashes, «também

Seja o primeiro a receber histórias como esta