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50 COISAS QUE MUDARAM O MUNDO

Tim Harford  

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Excerto

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O Arado

Imagine-se uma catástrofe, o fim da civilização. Este nosso mundo moderno, complexo e intrincado, a chegar ao fim. Não interessa qual a razão. Talvez devido a uma peste suína, ou a uma guerra nuclear, ou a robôs assassinos, ou ao apocalipse dos mortos-vivos. E imagine agora o leitor — sorte sua — que é um dos poucos sobreviventes. Não tem telefone — e mesmo que tivesse, a quem iria telefonar ? Não há Internet, nem electricidade, nem combustível.

Há quatro décadas, James Burke, historiador da ciência, considerou este cenário na sua série televisiva Connections. E formulou uma pergunta simples: rodeado pelos escombros da modernidade, sem acesso ao substrato da moderna tecnologia, por onde recomeçar? De que é que precisamos para nos mantermos vivos e conservarmos a chama do passado?

A resposta de Burke foi uma tecnologia simples, mas determinante: o arado. É uma resposta apropriada, porque foi o arado que deu o pontapé de saída da civilização. Em última análise, o arado tornou possível a nossa economia e, ao fazê-lo, possibilitou também a vida moderna, com todas as suas comodidades e frustrações: a satisfação de comida boa e abundante; a facilidade de uma pesquisa rápida na rede; a dádiva de água límpida e salubre; a diversão de um jogo de vídeo; mas também a poluição do ar e da água; as maquinações dos vigaristas; e a tortura de um emprego entediante… ou a falta de emprego.

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Há doze mil anos, os seres humanos levavam uma vida praticamente nómada, a caçar e a alimentar-se do que encontravam em cada lugar por onde passavam. Nessa altura, porém, o mundo estava a emergir de um período muito frio e o clima começava a ficar mais quente e seco. As populações, que viviam da caça e dos alimentos que colhiam nas colinas e planícies altas, aperceberam-se de que as plantas e os animais à sua volta estavam a morrer. Os animais migravam para os vales fluviais em busca de água e os humanos foram atrás deles. Esta mudança deu-se em muitos lugares e em momentos diferentes: há mais de onze mil anos na Eurásia Ocidental, há quase dez mil anos na Índia e na China, e há mais de oito mil anos na América Central e nos Andes. Por fim, aconteceu em quase toda a parte.

Esses vales fluviais, férteis mas geograficamente limitados, mudaram a forma como as populações adquiriam alimento suficiente: era menos gratificante deambular pelas redondezas em busca de comida e mais compensador estimular as áreas de plantio locais. Isso implicava abrir sulcos na terra, o que trazia à superfície os nutrientes e possibilitava que a humidade se infiltrasse mais na terra, abrigando-a do sol abrasador. A princípio usaram paus aguçados, operando-os com as mãos, mas depressa evoluíram para um simples arado de arrasto, puxado por uma junta de bois. Funcionou extraordinariamente bem.

Iniciava-se a agricultura a sério. Deixava de ser apenas uma alternativa desesperada ao estilo de vida nómada, que se ia extinguindo, e passava a ser fonte de verdadeira prosperidade. Quando a agricultura estava fortemente implantada — há dois mil anos na Roma imperial e há novecentos anos na China da dinastia Song —, esses agricultores eram cinco ou seis vezes mais produtivos do que os recolectores que substituíram.

Reflicta-se nisto: passou a ser possível que um quinto da população de uma comunidade produzisse alimento suficiente para todos. E os outros quatro quintos, o que é que faziam? Ora, ficaram livres para se especializarem noutras tarefas: cozer pão, fabricar tijolos, cortar árvores, edificar casas, extrair minérios, fundir metais, construir estradas… por outras palavras, projectar cidades e lançar a civilização.

Há, porém, um paradoxo: mais abundância pode ter como consequência mais competição. Se as pessoas comuns viverem em condições de subsistência, os poderosos não podem tirar-lhes muito, e muito menos se quiserem regressar na colheita seguinte e esbulhá-los de novo. No entanto, quanto mais as pessoas comuns conseguirem produzir, mais poderão confiscar os poderosos. A abundância agrícola cria governantes e governados, senhores e servos, e uma desigualdade de riqueza desconhecida nas sociedades de caçadores-recolectores. Proporciona a ascensão de reis e soldados, burocratas e sacerdotes — para que organizem com inteligência ou para que vivam ociosamente do trabalho de outros. As primeiras sociedades agrícolas podiam ser espantosamente desiguais. O Império Romano, por exemplo, parece ter estado à beira dos limites biológicos da desigualdade: se os ricos se houvessem apropriado de ainda mais recursos do império, a maioria das pessoas teria pura e simplesmente morrido à fome.

Não obstante, o arado fez mais do que somente criar as fundações da civilização — com todos os seus benefícios e iniquidades. Diferentes tipos de arado resultaram em diferentes tipos de civilização.

Os rudimentares arados de arrasto do passado usados no Médio Oriente, tiveram um papel muito importante durante milhares de anos. Mais tarde foram utilizados a oeste, no Mediterrâneo, onde eram ferramentas ideais para cultivar os solos secos e saibrosos. Com o tempo, porém, foi desenvolvido um instrumento muito diferente, o arado de aiveca, primeiro na China há mais de dois mil anos, e muito mais tarde na Europa. O arado de aiveca abre longos sulcos na terra e revolve-a cento e oitenta graus. Em terreno seco, trata-se de uma prática contraproducente, desperdiçando humidade preciosa. Contudo, nos solos férteis, argilosos e húmidos da Europa Setentrional, o arado de aiveca tinha um desempenho muitíssimo superior, porque melhorava a drenagem da terra e eliminava as ervas daninhas muito enraizadas, transformando-as de competidoras em composto.

O desenvolvimento do arado de aiveca transformou completamente a disponibilidade natural de terras férteis na Europa. As pessoas que viviam no Norte confrontavam-se há muito com condições agrícolas agrestes, mas agora era o Norte, e não o Sul, a beneficiar das melhores e mais produtivas terras de cultivo. Há cerca de um milhar de anos, graças ao enorme sucesso do arado, começaram a surgir e floresceram cidades na Europa Setentrional. E floresceram com uma estrutura social diferente da das cidades que ladeavam o Mediterrâneo. O arado de arrasto para solo seco apenas requeria dois animais de tracção, e trabalhava melhor com uma lavra em linhas cruzadas e em campos rectangulares simples. Tudo isso fazia da agricultura uma prática individualista: um lavrador podia viver sozinho com o seu arado, bois e terra. Em contrapartida, o arado de aiveca para solo argiloso húmido exigia oito bois — ou, melhor ainda, cavalos. E quem dispunha de tal riqueza? Era mais eficaz em faixas extensas e estreitas, muitas vezes a apenas um passo ou dois das faixas estreitas e compridas dos terrenos vizinhos. Em consequência, a agricultura tornou-se uma prática mais comunitária: as pessoas tinham de partilhar o arado e os animais de tracção, solucionando os desentendimentos. Congregaram-se em aldeias. O arado de aiveca contribuiu para introduzir o sistema senhorial no norte da Europa.

O arado também reconfigurou a vida familiar. Era um equipamento pesado, por isso a lavra era vista como trabalho masculino. Porém, o trigo e o arroz exigiam mais preparação dos terrenos do que as nozes e as bagas, daí que as mulheres ficassem cada vez mais em casa a preparar os alimentos. Foi feito um estudo sobre esqueletos sírios de há nove mil anos, descobrindo-se indícios de que as mulheres estavam a desenvolver artrite nos joelhos e nos pés, aparentemente por separarem e moerem cereais ajoelhadas. E como as mulheres já não tinham de carregar criancinhas de colo enquanto procuravam alimento, engravidavam com maior frequência.

A mudança induzida pelo arado, da actividade recolectora para a agrícola, poderá ter alterado até a política sexual. Ser dono de terras, é considerado um bem que se pode legar aos filhos. E se for homem, talvez resulte daí uma preocupação cada vez maior em saber se os filhos são realmente seus — afinal, a sua mulher passa o tempo todo em casa enquanto ele está nos campos. Além da tarefa de moer os cereais, estará ela entretida com outras coisas? Daí que tenha surgido a teoria — especulativa, mas intrigante — de que o arado intensificou o policiamento pelos homens da actividade sexual feminina. Se esse foi um efeito do arado, tem sido muito lento a extinguir-se.

Portanto, o arado fez muito mais do que aumentar o rendimento das colheitas. Transformou tudo, levando alguns a perguntar se inventar o arado terá sido mesmo uma boa ideia. Não que o arado não funcionasse — funcionava de forma magnífica —, mas porque, a par de oferecer um esteio para a civilização, parece ter proporcionado o aparecimento da misoginia e da tirania. Os vestígios arqueológicos também apontam para o facto de os agricultores primitivos apresentarem mais problemas de saúde do que os seus antepassados mais próximos, os caçadores-recolectores. Com as suas dietas de arroz e cereais, os nossos ancestrais tinham carência de vitaminas, ferro e proteína. À medida que as sociedades foram trocando o forragear pela agricultura, há dez mil anos, a estatura média tanto de homens como de mulheres reduziu-se em cerca de 15 centímetros, e há indícios abundantes de parasitas, doenças e malnutrição infantil. Jared Diamond, autor de Armas, Germes e Aço, chamou à adopção da agricultura «o pior erro na história da espécie humana».

Poderemos perguntar-nos, então, porque se disseminou a agricultura tão rapidamente. Vimos já a resposta: o excedente alimentar permitiu o aumento populacional e o aparecimento de sociedades especializadas — construtores, sacerdotes e artesãos, mas também de soldados a tempo inteiro. Exércitos — mesmo de soldados enfezados — terão sido suficientemente poderosos para rechaçar as tribos de caçadores-recolectores remanescentes para os territórios mais periféricos. Até aí, as poucas tribos nómadas que ainda hoje restam continuam a ter uma dieta relativamente saudável, com uma alimentação rica em nozes, bagas e animais. Questionado acerca da razão por que a sua tribo não imitara os vizinhos e se agarrara ao arado, um bosquímano do Calaári respondeu: «Porque o faríamos, se há tantas nozes de mongongo no mundo?»

Aqui temos, portanto, um dos poucos sobreviventes do fim da civilização. Reinventar-se-á o arado e recomeçar-se-á tudo de novo? Ou deveremos satisfazer-nos com as nozes de mongongo?

Introdução

Os bosquímanos do Calaári podem não querer aderir ao arado, mas a civilização moderna oferece-lhes, ainda assim, algumas outras oportunidades potencialmente lucrativas: uns meros 100 ml de óleo de noz de mongongo extraído a frio vendem-se actualmente ao público por 25,38 libras na evitamins.com, por gentileza da empresa Shea Terra Organics. Ao que parece, é um óleo excelente para o cabelo.

O óleo de noz de mongongo figura assim entre os cerca de dez mil milhões de produtos e serviços distintos que são actualmente disponibilizados nos principais centros económicos mundiais. O sistema económico global que fornece esses produtos e serviços é imenso e de uma complexidade inconcebível. Chega praticamente a cada uma dos milhares de milhões de pessoas do planeta. Proporciona um luxo espantoso a centenas de milhões. Mas deixa também centenas de milhões para trás, exerce uma pressão tremenda no ecossistema do planeta e — como nos recordou o colapso financeiro de 2008 — tem o hábito de se deixar arrastar, de uma forma alarmante, para crises imprevisíveis. Ninguém o comanda. Na verdade, nenhum indivíduo pode ter a pretensão de compreender mais do que uma fracção do que está a acontecer.

Como poderemos vir a orientar-nos neste sistema desconcertante de que dependem as nossas vidas?

Outro produto desses dez mil milhões — este livro — é uma tentativa de responder a essa questão. Examine-o mais atentamente. (Se estiver a ouvir um audiolivro ou a ler numa tablet, terá de evocar a memória das sensações proporcionadas por um livro impresso.) Passe os dedos pela superfície de papel. Não é extraordinário? É flexível, de modo que pode ser encadernado num livro, e as páginas podem ser viradas com facilidade, sem ser preciso dobradiças sofisticadas. É forte, pelo que pode ser transformado para se apresentar em folhas finas. E não menos importante, é suficientemente barato para ser utilizado para muitos fins menos duradouros do que este livro. Barato quanto baste para ser usado como material de embrulho, ou para produzir jornais que estarão desactualizados decorridas algumas horas, ou para servir para limpar… bem, para limpar aquilo que se quiser.

O papel é um material fantástico, não obstante acabar por se deitar fora. Na verdade, em parte o papel é um material fantástico porque é algo que se pode deitar fora. Porém, há mais do que papel num exemplar físico deste livro.

Se olhar para a contracapa, verá um código de barras, talvez até mais do que um. O código de barras é uma maneira de escrever um número de modo a que um computador possa lê-lo facilmente, e o código na contracapa deste livro diferencia-o de qualquer outro livro alguma vez escrito. Outros códigos de barras distinguem a coca-cola da lixívia industrial, um guarda-chuva de um disco rígido portátil. Estes códigos de barras são mais do que um meio preciso de apurar o pagamento na caixa. O desenvolvimento do código de barras reconfigurou a economia mundial, alterando o local onde são fabricados os produtos e onde podemos comprá-los. Contudo, em si mesmo, o código de barras é muitas vezes negligenciado.

Entre as primeiras páginas do livro há uma indicação de direitos de autor. Informa o leitor de que, apesar de o livro lhe pertencer, as palavras no livro pertencem-me a mim. O que quer isso dizer? É a consequência de uma meta-invenção, uma invenção relativa a invenções — um conceito denominado «propriedade intelectual». A propriedade intelectual determinou verdadeiramente quem ganha dinheiro no mundo actual.

Porém, está presente uma invenção ainda mais fundamental: a própria escrita. A capacidade de escrevermos as nossas ideias, memórias e histórias subjaz a toda a nossa civilização. Apercebemo-nos agora, contudo, que a própria escrita foi inventada para um fim económico, para ajudar a coordenar e a planear o frenesi de uma economia cada vez mais sofisticada.

Cada uma destas invenções conta-nos uma história, não só alusiva ao engenho humano, mas também aos sistemas imperceptíveis que nos rodeiam: às cadeias globais de abastecimento, à informação ubíqua, ao dinheiro e às ideias e, é verdade, até ao cano de esgoto que leva para longe o papel higiénico que fazemos desaparecer com a descarga do autoclismo.

Este livro projecta um foco de luz sobre os pormenores fascinantes da forma como funciona a economia mundial, seleccionando cinquenta invenções específicas, incluindo o papel, o código de barras, a propriedade intelectual e a escrita em si mesma. Para cada caso, veremos o que acontece quando o examinamos de muito perto ou recuamos para abarcar as suas ligações inesperadas. De caminho, encontraremos respostas para algumas questões surpreendentes. Por exemplo:

• qual é a ligação entre Elton John e a promessa do escritório sem papéis?

• que descoberta norte-americana foi proibida no Japão durante quatro décadas, e como essa proibição prejudicou as carreiras das mulheres japonesas?

• porque acreditaram as autoridades policiais que talvez tivessem de executar por duas vezes um assassino de Londres, em 1803? E que tem isso que ver com dispositivos electrónicos portáteis?

• como é que uma invenção monetária destruiu as Câmaras do Parlamento?

• que produto foi lançado em 1976, sendo um fracasso imediato, mas elogiado por Paul Samuelson, economista laureado com o Nobel, que o pôs ao nível do vinho, do alfabeto e da roda?

• que tem em comum a presidente da Reserva Federal, Janet Yellen, com o grande imperador mongol-chinês Kublai Khan?

Algumas destas cinquenta invenções, como o arado, são de uma simplicidade absurda. Outras, como o relógio, tornaram-se espantosamente sofisticadas. Algumas são de solidez brutal, como o betão. Outras, como a sociedade de responsabilidade limitada, são invenções abstractas totalmente inacessíveis ao tacto. Algumas, como o iPhone, têm sido insanamente lucrativas. Outras, como o motor a gasóleo, começaram por ser desastres comerciais. Todavia, todas têm uma história para contar, uma história que nos ensina algo sobre a forma como funciona o nosso mundo e nos ajuda a dar atenção a alguns dos milagres quotidianos que nos rodeiam, muitas vezes nos objectos mais insignificantes. Algumas dessas histórias são de forças económicas amplas e impessoais; outras, de génio humano ou tragédia humana.

Esta obra não pretende identificar as cinquenta invenções economicamente mais significativas. Não é um rol com o tamanho de um livro, uma contagem decrescente para a invenção mais importante de todas. Na verdade, algumas coisas que seriam evidentes numa lista destas, não foram eleitas: a imprensa, a máquina de fiar, o motor a vapor, o avião e o computador.

O que justifica tais omissões? Apenas que há outras histórias para contar. Por exemplo, a tentativa para desenvolver o «raio da morte» que acabou por conduzir ao radar, a invenção que muito contribui para que as viagens aéreas sejam seguras. Ou a invenção que chegou à Alemanha pouco antes de Gutenberg inventar a prensa de caracteres móveis, sem a qual a impressão seria tecnicamente exequível, mas um suicídio económico. (Adivinhou: papel.)

E não quero deixar o computador na penumbra, quero trazê-lo para a luz do dia. Isso, porém, implica olhar antes para uma constelação de invenções que fizeram dos computadores as notáveis ferramentas polivalentes que são hoje — o compilador de Grace Hopper, que facilitou muito a comunicação entre humanos e computadores; a criptografia assimétrica, que dá segurança ao comércio electrónico; e o algoritmo de pesquisa da Google, que torna a World Wide Web inteligível.

Enquanto investigava estas histórias, tomei consciência de que alguns temas surgiam de forma recorrente. O arado ilustra muitas delas: por exemplo, a forma como frequentemente novas ideias alteraram o equilíbrio do poder económico, criando simultaneamente vencedores e perdedores; como mudanças na economia podem ter efeitos inesperados na maneira como vivemos, entre os quais alteração do relacionamento entre homens e mulheres; e como uma invenção do tipo do arado cria possibilidades para outras invenções, como a escrita, os direitos de propriedade, o fertilizante químico, e muito mais.

Intercalei assim as histórias com interlúdios para reflectir sobre esses temas comuns. No fim do livro estaremos em posição de concatenar estas lições e perguntar como deveremos reflectir acerca da inovação nos dias de hoje. Qual é a melhor forma de encorajar ideias novas? E como podemos avaliar com clareza os efeitos dessas ideias, e actuar com clarividência para maximizar os efeitos bons e mitigar os maus?

É muito fácil ter uma visão crua das invenções — vê-las simplesmente como soluções para problemas. Invenções curam o cancro. Invenções fazem-nos chegar mais depressa ao nosso destino de férias. Há invenções que são divertidas. As invenções dão dinheiro a ganhar. E claro que é verdade que as invenções se impõem porque resolvem de facto um problema que alguém, algures, quer que seja resolvido. O arado foi adoptado porque ajudava os agricultores a produzirem mais alimento com menor esforço.

Não devemos, porém, cair na armadilha de pressupor que as invenções não são mais do que soluções. São muito mais do que isso. As invenções influenciam as nossas vidas de uma forma imprevisível e, enquanto solucionam um problema para alguém, estão muitas vezes a criar um problema para outros.

Estas cinquenta invenções que modelaram a nossa economia não o fizeram apenas por permitirem produzir mais coisas a um custo mais baixo. Cada uma delas arrastou consigo uma teia complexa de ligações económicas. Por vezes, essas teias deixaram-nos enredados, por vezes romperam com limitações antigas, e por vezes urdiram padrões completamente novos.

I

VENCEDORES

E PERDEDORES

Há uma palavra para os idiotas obstinados que não conseguem compreender os benefícios da nova tecnologia: «luditas». Os economistas — sempre prontos a adoptar alguma gíria — chegam a falar da «falácia ludita», a crença dúbia de que o progresso tecnológico cria desemprego em massa. Os luditas originais eram tecelões e trabalhadores têxteis que destruíram teares mecânicos em Inglaterra há duzentos anos.

«Nessa altura, alguns tinham a convicção de que a tecnologia criaria desemprego. Estavam errados», comenta Walter Isaacson, biógrafo de Albert Einstein, Ben Franklin e Steve Jobs. «A Revolução Industrial tornou a Inglaterra mais rica e fez aumentar o número de pessoas a trabalhar, incluindo nas indústrias têxtil e de vestuário.»

De facto, foi isso que aconteceu. Mas rejeitar os luditas como tolos retrógrados seria injusto. Os luditas não partiram os teares mecânicos por temerem erradamente que as máquinas empobrecessem a Inglaterra. Partiram os teares porque receavam justamente que as máquinas os tornassem mais pobres. Eram trabalhadores especializados que sabiam que os teares mecânicos desvalorizariam as suas habilitações. Compreenderam bem as implicações da tecnologia com que se confrontavam e tinham razão para a temer.

A situação difícil dos luditas não é invulgar. Novas tecnologias criam quase sempre novos vencedores e perdedores. Até uma ratoeira inovadora é uma má notícia para os fabricantes das ratoeiras tradicionais. E também não são boas notícias para os ratos.

E o processo pelo qual se altera a configuração do campo de jogo nem sempre é evidente. Os luditas não estavam preocupados com a possibilidade de serem substituídos por máquinas: estavam preocupados por poderem ser substituídos pelos trabalhadores menos habilitados e mais baratos que poderiam operar as máquinas.

Portanto, sempre que surge uma nova tecnologia, vale a pena perguntar quem ficará a ganhar e quem ficará a perder em consequência. A resposta pode muitas vezes surpreender-nos.

2

O Gramofone

Quem é o cantor solista mais bem pago do mundo? Em 2015, segundo a Forbes, foi provavelmente Elton John. Declarou ter ganho cem milhões de dólares. Aparentemente, os U2 auferiram o dobro, mas eles são quatro. Só há um Elton John.

Há duzentos e quinze anos, a resposta à mesma pergunta teria sido: a cantora mais bem paga do mundo é a Sr.ª Billington. Segundo alguns, Elizabeth Billington foi a maior soprano inglesa de sempre. Sir Joshua Reynolds, primeiro presidente da Academia Real das Artes, pintou-a certa vez, retratando-a de pé com um livro de música nas mãos e os caracóis em parte apanhados por um gancho, em parte a esvoaçarem livremente, enquanto escutava um coro de anjos. O compositor Joseph Haydn considerou o retrato uma injustiça: deveriam ser os anjos, declarou ele, a ouvir a Sr.ª Billington cantar.

Elizabeth Billington era também extraordinária fora de palco. Uma torpe biografia vendeu-se em menos de um dia. O livro continha pretensas transcrições de cartas íntimas trocadas com os seus amantes famosos, incluindo, dizem, o príncipe de Gales, o futuro rei Jorge IV. Numa celebração mais digna da sua fama, quando convalesceu de uma doença de seis semanas, no decurso da digressão italiana, a Ópera de Veneza esteve iluminada durante três dias.

Tal era a fama de Elizabeth Billington — alguns diriam notoriedade —, que ela foi objecto de aguerridas disputas para a contratar. Os administradores das que eram então as duas principais salas de ópera de Londres — Covent Garden e Drury Lane — debateram-se tão desesperadamente para a incluir nos seus programas, que ela acabou por assinar pelos dois espaços, alternando entre eles e arrecadando, pelo menos, 10 mil libras na temporada de 1801. Era um montante muito considerável até para ela, e, na altura, foi muito comentado. Contudo, aos valores actuais, são apenas 687 mil libras, ou à volta de um milhão de dólares — 1% dos proventos de Elton John.

O que é que explica a diferença? Porque é que Elton John vale uma centena de Elizabeth Billingtons?

Quase sessenta anos após a morte de Elizabeth Billington, o grande economista Alfred Marshall analisou o impacto do telégrafo eléctrico. Ligava na altura os Estados Unidos da América, a Grã-Bretanha, a Índia e até a Austrália. Graças aos novos meios de comunicação, escreveu ele, «os homens que alcançaram uma posição de comando podem aplicar o seu génio construtivo ou especulativo a empreendimentos muito mais vastos, alargados a uma área muito mais ampla, do que alguma vez antes». Os maiores magnatas da indústria mundial estavam a enriquecer muito mais rapidamente. Acentuava-se o fosso entre os ricos e os empreendedores menos destacados.

Porém, nem em todas as profissões os melhores e mais brilhantes podiam ganhar da mesma maneira, disse Marshall. Para algo que contrastasse, escolheu as artes de interpretação. Observou que o «número de pessoas que podem ser alcançadas por uma voz humana é estritamente limitado» — pelo que daí resulta que também o é a capacidade dos vocalistas para auferir proventos.

Dois anos depois de Alfred Marshall ter escrito estas palavras — em 1877, na véspera de Natal —, Thomas Edison registou a patente do fonógrafo. Era a primeira máquina capaz de registar e reproduzir o som de uma voz humana.

A princípio, ninguém parecia saber muito bem o que fazer com essa tecnologia. Um editor francês chamado Édouard-Léon Scott de Martinville já desenvolvera algo chamado fonoautógrafo, um dispositivo concebido para fornecer um registo visual do som da voz humana, algo aparentado com os registos sismográficos de um tremor de terra. Contudo, não parece ter ocorrido ao Sr. Martinville que se podia tentar reconverter o registo em som.

A aplicação da nova tecnologia veio, em breve, a tornar-se clara: era possível gravar as canções dos melhores cantores do mundo e depois vender as gravações. No começo, uma gravação era uma espécie de cópia a papel químico numa máquina de escrever: uma única interpretação só podia ser registada em três ou quatro fonógrafos em simultâneo. Na década de 1890, eram muitos os que queriam ouvir uma canção interpretada pelo afro-americano George W. Johnson. Para corresponder a essa procura, conta-se que o cantor passou dia após dia a cantar a mesma canção até a voz ceder — interpretar a canção cinquenta vezes por dia permitia apenas produzir duzentas gravações. Quando Émile Berliner introduziu as gravações em disco, em substituição do cilindro de Edison, abriu caminho à produção em série. Veio depois a rádio e o cinema. Intérpretes como Charlie Chaplin puderam assim chegar a um mercado global com a facilidade análoga à dos industriais que Alfred Marshall descrevera.

Para os Charlie Chaplins e Elton Johns do mundo, as novas tecnologias significavam mais fama e mais dinheiro. Porém, para os cantores assalariados foi um desastre. No tempo de Elizabeth Billington, muitos cantores de qualidade média ganhavam a vida a actuar ao vivo em salas de espectáculo. Afinal, a Sr.ª Billington não podia estar em todo o lado. Porém, quando podemos escutar em casa os melhores intérpretes do mundo, que razão há para pagar por um espectáculo de homenagem ao vivo, apenas satisfatório?

O fonógrafo de Thomas Edison abriu caminho a uma tendência para que todos os louros coubessem aos melhores na indústria das artes do espectáculo. Os melhores de entre os melhores passaram a ganhar não como a Sr.ª Billington, mas sim como Elton John. Entretanto, os que eram ligeiramente menos virtuosos deixaram de ter proventos confortáveis para passarem a ter dificuldades em pagar as contas: menos qualidade significava menos dinheiro auferido. Em 1981, o economista Sherwin Rosen chamou a este fenómeno «a economia das superestrelas». Imagine-se, disse ele, a fortuna que a Sr.ª Billington poderia ter acumulado se existisse o fonógrafo em 1801.

As inovações tecnológicas também criaram a economia das superestrelas noutros sectores. A televisão via satélite, por exemplo, tem sido para os futebolistas o que o gramofone foi para os músicos ou o telégrafo para os industriais do século xix. Se o leitor tivesse sido o melhor futebolista do mundo há algumas décadas, não mais do que um estádio repleto de fãs poderia vê-lo jogar a cada semana. Se fosse hoje, cada uma das jogadas do leitor seria apreciada por centenas de milhões em cada continente. Parte da história deve-se ao facto de o futebol poder ser transmitido. Igualmente importante, contudo, foi o aumento do número de canais de televisão. Quando as boas ligas de futebol se tornaram mais escassas que as estações difusoras, a guerra de ofertas entre esses canais tornou-se frenética.

E à medida que se expandiu o mercado do futebol, o mesmo aconteceu com o desfasamento entre os melhores jogadores e os que apenas eram muito bons. Já na década de 1980, jogadores de topo do futebol inglês costumavam ganhar o dobro dos que estavam na terceira linha, que jogavam, digamos assim, para a quinquagésima melhor equipa do país. Actualmente, um jogador da Primeira Liga ganha em média vinte e cinco vezes mais que um jogador da terceira divisão.

Mudanças tecnológicas podem alterar radicalmente quem ganha o quê, e são cruéis por poderem ser tão súbitas… e porque as pessoas envolvidas têm as mesmas capacidades de sempre, mas vêem-se de repente com um nível de rendimentos muito distinto. E também não é fácil saber como reagir: quando a desigualdade é causada por uma mudança no regime fiscal, ou por conluio corporativo, ou por governos que favorecem interesses específicos, há pelo menos um inimigo. Porém, dificilmente poderemos interditar o Google e o Facebook só para proteger o meio de subsistência dos jornalistas.

Ao longo do século xx, outras inovações — a cassete, o CD, o DVD — conservaram o modelo económico criado pelo gramofone. Contudo, no final do século surgiu o formato MP3 e as ligações rápidas à Internet. De repente, não era preciso gastar 20 dólares num disco de plástico para se ouvir a música favorita — podia ser encontrada gratuitamente na Web. Em 2002, David Bowie advertiu os seus colegas músicos de que se confrontavam com um futuro muito diferente: «A própria música vai passar a ser como a água corrente ou a electricidade», afirmou. «É melhor que estejam preparados para fazer muitas digressões, porque esse é mesmo o único trabalho que vai restar.»

Parece que Bowie tinha razão. Os artistas deixaram de usar os bilhetes para os concertos como um meio de vender álbuns e passaram a usar os álbuns como uma forma de vender bilhetes para os concertos. Contudo, não regressámos aos dias da Sr.ª Billington: amplificação, rock em estádios, digressões mundiais e contratos de patrocínio significavam que os músicos mais admirados podiam mesmo assim tirar partido de uma audiência muito numerosa. A desigualdade permanece bem viva: o percentil superior dos artistas recebe mais de cinco vezes mais dinheiro pelos concertos do que os 95 percentis inferiores em conjunto. O gramofone pode estar ultrapassado, mas a capacidade da mudança tecnológica para alterar quem ganha e quem perde continua sempre connosco.

3

O Arame Farpado

Lá para o final de 1876, segundo reza a história, um jovem chamado John Warne Gates instalou uma vedação de arame numa praça militar, no meio de San Antonio, no Texas. Juntou no recinto alguns dos touros mais possantes e bravios de todo o estado do Texas — ou pelo menos foi assim que os descreveu. Mas outros afirmaram que o gado era manso. E há aqueles que se interrogam, neste momento, se esta história em particular terá alguma verdade. Não importa.

Gates — um homem que mais tarde ficou conhecido por Gates Aposta-Um-Milhão — começou a aceitar apostas de alguns mirones quanto à eventualidade de aqueles fortes e irritáveis animais romperem o arame de aparência frágil. Não o conseguiram.

Nem mesmo quando o auxiliar de Gates, um vaqueiro mexicano, atiçou o gado a gritar pragas em espanhol e a brandir um ferrete em cada mão, a vedação cedeu. Não era em ganhar aos apostadores que Gates Aposta-Um-Milhão estava sobretudo interessado. Tinha uma parada mais alta em jogo: queria vender um novo tipo de vedação e as encomendas depressa começaram a chover.

A propaganda da altura promovia aquela vedação como «A Maior Descoberta da Era», patenteada por J. F. Glidden de De Kalb, no Ilinóis. John Warne Gates descreveu-a de forma mais poética: «Mais leve que o ar, mais forte que o uísque, mais barata que a poeira.» Nós chamamos-lhe simplesmente arame farpado.

Afirmar que o arame farpado é a maior descoberta da era pode parecer exagerado, mesmo dando um desconto ao facto de que os publicitários não sabiam que Alexander Graham Bell estava prestes a ver concedida a patente para o telefone. Contudo, embora as mentes modernas considerem o telefone como algo transformador, o arame farpado determinou mudanças gigantescas no Oeste americano, e de forma muito mais rápida.

A concepção de arame farpado de Joseph Glidden não foi a primeira, mas foi a melhor. É reconhecivelmente moderna: é o mesmo arame farpado que se vê hoje nas quintas. A terrível farpa é torcida em torno de um fio de arame esticado, e depois um segundo fio é entrançado no primeiro, de modo a impedir que as farpas deslizem. Os agricultores adoptaram-no de imediato.

Havia uma razão para os agricultores americanos estarem tão ávidos pelo arame farpado. Alguns anos antes, em 1862, o presidente Abraham Lincoln assinara a Lei da Herdade. A lei especificava que qualquer cidadão honesto — incluindo mulheres e escravos alforriados — podia tomar posse de até 65 hectares de terra nos territórios ocidentais da América do Norte. Tudo o que tinham de fazer era construir uma casa e lavrar a terra durante cinco anos. A ideia era que a Lei da Herdade contribuísse para melhorar tanto a terra como a situação dos cidadãos norte-americanos, criando proprietários de terras livres, virtuosos e labutadores com uma forte comparticipação no futuro da nação.

Parece simples. No entanto, a pradaria era uma vastidão não cartografada de ervas altas e bravias, mais adequada para nómadas, não para colonos. Fora durante muito tempo território dos nativos americanos. Depois de chegarem os europeus e avançarem para oeste, os vaqueiros circulavam livremente, a pastorear gado pelas planícies sem fronteiras.

Os colonos, porém, precisavam de vedações, sobretudo para impedir que aquele gado errante lhe destruísse as colheitas. E não havia madeira com abundância, decerto não a bastante para desperdiçar a vedar cada milha daquilo a que muitas vezes se chamava «O Deserto Americano». Os agricultores tentaram cultivar o espinheiro, que depois serviria de vedação, mas o espinheiro era de crescimento lento e pouco moldável. Vedações só de arame esticado também não serviam: o gado rebentava com elas.

A inexistência de vedações era motivo de grande preocupação. Em 1870, o Departamento de Agricultura dos EUA levou a cabo um estudo e concluiu que até que uma dessas tecnologias resultasse, seria impossível colonizar o oeste americano. Por sua vez, no oeste americano fervilhavam potenciais soluções: na altura, surgiam lá mais propostas para novas tecnologias de vedação do que no resto do mundo. E que ideia triunfou deste fermento intelectual? Arame farpado.

O arame farpado mudou aquilo que a Lei da Herdade não pôde mudar. Sem o arame farpado, a pradaria era um espaço inexplorado, mais aparentado a um oceano do que a uma extensão de terra arável. A posse privada da terra não era habitual porque não era exequível.

Assim, o arame farpado disseminou-se porque resolvia um dos maiores problemas com que se confrontavam os colonos. Não obstante, também desencadeou disputas ferozes. E não é difícil ver porquê. Os agricultores estavam a tentar delimitar as suas propriedades — propriedades que antes haviam sido território de diversas tribos nativas norte-americanas. E vinte e cinco anos após a Lei da Herdade, veio a Lei Dawes, que impôs a atribuição de terras às famílias indígenas, deixando a restante para os agricultores brancos. Segundo Olivier Razac, autor de um livro sobre arame farpado, ao mesmo tempo que libertava terra para cultivo pelos colonos, a Lei Dawes «ajudou a destruir as fundações da sociedade índia». Não admira que essas tribos chamassem ao arame farpado «Corda do Diabo».

Os vaqueiros dos velhos tempos viviam também segundo o princípio de que o gado podia pastar livremente pelas planícies — era a lei do campo aberto. Os vaqueiros detestavam o arame: o gado feria-se gravemente, e muitas vezes os ferimentos criavam infecções. Quando chegavam as geadas, o gado tentava deslocar-se para sul. Por vezes as manadas ficavam encurraladas pelo arame e morriam aos milhares.

Outros criadores de gado adoptaram o arame farpado, usando-o para vedar ranchos privados. Embora a atracção do arame farpado fosse a sua capacidade para impor o respeito pelas fronteiras legais, foram surgindo também muitas vedações ilegais, tentativas de açambarcar terra comum para fins privados.

Quando as vedações de arame farpado começaram a estender-se para oeste, eclodiram as contendas. Nas «guerras do corte de vedações», bandos de mascarados, auto-intitulados Demónios Azuis e Porcos-do-mato, cortavam as cercas e deixavam ameaças de morte para que o dono da vedação não a reerguesse. Houve tiroteios e até algumas mortes. As autoridades acabaram por intervir. As guerras do corte de vedações terminaram e o arame farpado ficou. Houve vencedores e houve vencidos.

«Sinto asco», disse um condutor de gado, em 1883, «quando penso em cebolas e batatas irlandesas a crescerem onde deviam estar póneis mustang a exercitar-se e onde os bezerros de quatro anos deviam engordar para o mercado.» E se os vaqueiros se sentiram escandalizados, os nativos americanos sofriam muito mais.

Aquelas disputas ferozes pela fronteira reflectiam um velho debate filosófico. O filósofo inglês do século xvii, John Locke — que teve grande influência nos pais fundadores dos Estados Unidos da América — sentia-se intrigado com o problema de como podia alguém vir a possuir legalmente a terra. A princípio, ninguém era dono de nada: a terra era uma dádiva da natureza ou de Deus. Porém, o mundo de Locke estava repleto de terras de posse privada, fosse o proprietário o próprio rei ou um simples lavrador. Como vieram as dádivas da natureza a cair na posse individual? Resultaria isso inevitavelmente de um fulano andar com um bando de rufiões a deitar mão a tudo o que podia? Se assim era, toda a civilização fora erguida sobre o roubo violento. Essa não era uma conclusão agradável para Locke ou para os seus patrões abastados.

Locke defendia que todos somos donos do nosso próprio trabalho. E se combinarmos o nosso trabalho com a terra fornecida pela natureza — ao lavrar o solo, por exemplo —, então integrámos algo que realmente possuímos com algo que não está na posse de ninguém. Ao trabalhar a terra, disse ele, passámos a possuí-la.

Não se tratava de um argumento puramente teórico. Locke estava activamente envolvido no debate sobre a colonização da América do Norte pela Europa. A cientista política Barbara Arneil, especialista em Locke, escreve que «a questão “Como foi criada a propriedade privada pelos primeiros homens?” equivale para Locke à mesma questão de “Quem está intitulado a apropriar-se agora das terras da América?”». E, para consolidar a sua posição, teve também de afirmar que a terra era abundante e não era reivindicada — ou seja, como as tribos indígenas não tinham «beneficiado» a terra, não tinham direito a ela.

Nem todos os filósofos europeus aceitaram esta linha de raciocínio. Jean-Jacques Rousseau, o filósofo francês do século xviii, expôs os malefícios da terra vedada. No seu Discurso sobre a Desigualdade […], Rousseau lamentou «O primeiro homem que, tendo cercado um pedaço de terra, entendeu declarar “Isto é meu” e encontrou gente ingénua quanto bastasse para acreditar nele». Este homem, disse Rousseau, «foi o verdadeiro fundador da sociedade civil».

Rousseau não pretendia com estas palavras fazer um elogio. Porém, elogioso ou não, é verdade que as economias modernas se fundam na propriedade privada — no facto legal de que a maior parte das coisas têm dono, geralmente uma pessoa ou uma sociedade. As economias modernas também se desenvolveram sobre a ideia de que a propriedade privada é uma coisa boa, porque a propriedade privada dá às pessoas um incentivo para investir naquilo que possuem e melhorá-lo, quer se trate de um talhão de terra na Região Centro-Oeste dos Estados Unidos da América, de um apartamento em Kolkata, ou até de um título de propriedade intelectual como os direitos sobre o Rato Mickey. É um argumento de peso e foi impiedosamente utilizado por aqueles que pretendiam argumentar que os nativos americanos não tinham realmente direito ao seu próprio território, porque não estavam a desenvolvê-lo activamente.

Porém, os factos jurídicos são abstractos. Para se obter os benefícios da posse de algo, é preciso ser-se capaz de reivindicar o domínio sobre essa coisa[1]. O arame farpado continua a ser amplamente utilizado para vedar terrenos em todo o mundo. E em muitas outras esferas da economia, o combate para possuir na prática aquilo de que se é proprie ...