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1793

Niklas Nat Och Dag  

5


Excerto

1.

— Guarda! Guarda Mickel! Acorda!

Quando os abanões vigorosos trazem Cardell de volta à consciência, a dor regressa também na zona por baixo do braço esquerdo, que já não possui. O membro em falta foi substituído por uma mão esculpida em madeira de faia. O coto assenta numa cavidade, e o pedaço de madeira está fixado por meio de tiras de couro em volta do cotovelo. Cravam-se-lhe na carne. Devia aprender a soltá-las antes de dormir.

Contrariado, Cardell abre os olhos e depara-se com a paisagem manchada do tampo de uma mesa. Tenta levantar a cabeça e percebe que tem a cara colada à madeira. Uma substância pegajosa arranca-lhe a peruca quando se levanta. Pragueja e enfia-a dentro do casaco, depois de a usar para limpar o rosto. O chapéu está caído no chão, amachucado. Endireita-o e puxa a aba para junto das orelhas.

As memórias começam a voltar. Ainda está na cave Hamburg. Deve ter bebido até à inconsciência àquela mesa. Um olhar por cima do ombro revela outros na mesma situação. Os poucos bêbedos que o dono achou suficientemente fiáveis para não serem atirados para a sarjeta estão estendidos nos bancos e debaixo das mesas, à espera da manhã, quando poderão ir para casa receber uma reprimenda dos que os aguardam. Mas isto não se aplica a Cardell. Sendo aleijado, vive sozinho e é dono do seu próprio tempo.

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— Mickel, tens de vir! Está um morto no Fatburen!

*

São os dois pequenos vagabundos que o acordaram. Os seus rostos têm algo de familiar, mas não se recorda dos seus nomes. Atrás deles está Baggen, o velho gordo de Norströmskan, ajudante da proprietária. Tem o rosto corado e acabou de acordar, posicionando-se entre as crianças e a jóia da cave, fechada a sete chaves num armário pintado de azul: uma colecção de copos gravados.

Ali, na cave Hamburg, os condenados param com os companheiros a caminho da montanha onde serão executados, em Skanstull, e tomam o seu último copo. Em seguida, os copos são gravados com os seus nomes e com a data, antes de serem acrescentados à colecção.

Só se pode beber deles sob supervisão rigorosa e mediante o pagamento de um soldo definido com base no estatuto do executado. Diz-se que dá sorte. Cardell nunca entendeu porquê.

Cardell esfrega os olhos e percebe que ainda está bêbedo. A sua voz soa entaramelada quando tenta falar.

— Que raio se passa?

É a criança mais velha, uma rapariga, que responde. O rapaz tem lábio leporino e, a julgar pela aparência, é irmão dela. Franze o nariz ao sentir o hálito de Cardell e esconde-se atrás da irmã.

— Está um morto no lago, mesmo à beira da água.

A sua voz está carregada de um misto de alegria e de medo. A cabeça de Cardell parece prestes de explodir. O seu coração acelerado arruína a clareza de espírito que conseguiu invocar.

— O que tenho eu a ver com isso?

— Querido Mickel, não há mais ninguém a quem pedir. Sabíamos que estavas aqui.

Massaja as têmporas numa tentativa fútil de obter algum alívio.

O dia começou a clarear sobre Södermalm. A escuridão da noite ainda perdura no ar, o Sol ainda não se ergueu sobre Sicklaön e Danviken. Cardell sobe as escadas da cave aos tropeções e avança, trôpego, pela rua Borgmästaregatan, vazia, com as crianças à sua frente. Ouve sem interesse uma história sobre uma égua sequiosa que foi beber do lago Fatburen e saiu a correr, assustada, em direcção a Danto.

— Tinha o focinho por cima do corpo, e este virou-se.

O chão transforma-se em barro lamacento quando se aproximam da água. Há muito tempo que Cardell não tinha motivo para se aproximar das margens do Fatburen, mas nada mudou. Nenhum dos muitos planos para limpar as praias e construir pontões foi iniciado: o que não era estranho, tendo em conta que tanto o Estado como a cidade estavam à beira da bancarrota — sabia-o melhor do que ninguém, por ter de complementar o seu salário anual com todo o tipo de extras. As casas de férias luxuosas em volta do lago haviam sido transformadas em fábricas. As fábricas despejavam os resíduos no lago, e a zona rodeada por tábuas onde deveriam depositar-se os dejectos estava a deitar por fora e era ignorada pela maioria. Cardell pragueja em voz alta quando o calcanhar de uma das botas se enterra na lama. Tem de esticar o braço bom para manter o equilíbrio.

— A vossa égua assustou-se porque viu um companheiro a apodrecer. O talhante deita o lixo no lago. Acordaram-me para me fazerem vir salvar uma carcaça de cavalo ou de porco.

— Nós vimos um rosto na água, um rosto humano.

A água do lago Fatburen lambe a praia e forma uma espuma amarelo-clara. As crianças estão certas, visto que há algo a flutuar a alguns metros de distância, um vulto escuro. A primeira coisa que Cardell pensa é que não pode ser uma pessoa. É demasiado pequeno.

— São restos do talho, como vos disse. É um animal morto.

A rapariga não desiste. O rapaz acena com a cabeça, em sinal de apoio. Cardell resmunga, resignado.

— Eu estou bêbedo. Entendem? A cair de bêbedo. Não se esqueçam disso quando vos perguntarem pelo dia em que pediram ao guarda para ir nadar no Fatburen e ele vos deu uma sova quando voltou do mergulho, imundo e furioso.

Despe o casaco com a dificuldade inerente à falta de um braço. Esqueceu-se da peruca, que cai na lama. Paciência. Custou-lhe apenas algumas peças de cobre, o modelo já saiu de moda, e só a usa porque uma boa aparência aumenta a probabilidade de um veterano de guerra conseguir uma bebida ou duas de graça. Cardell ergue o olhar por um momento. Lá em cima, as últimas estrelas da noite cintilam numa faixa por cima de Årstafjärden. Fecha os olhos para assimilar aquela beleza antes de enfiar a bota direita no Fatburen.

A lama húmida à beira do lago não suporta o peso de Cardell. Afunda-se até aos joelhos e sente a água a entrar pelo cano da bota, que fica presa na lama quando cai para a frente. Chapinhando e nadando, Cardell começa a avançar.

A água é espessa. Sente-a deslizar-lhe por entre os dedos, cheia de todas as coisas que nem as pessoas dos guetos de Södermalm acharam que valia a pena guardar.

O álcool inibiu-lhe a capacidade de raciocinar. Sente o pânico a aumentar ao perceber que já não toca o fundo do lago sob os pés. O lago é mais fundo do que julgava. Subitamente, vê-se transportado para Svensksund, três anos antes, a ser arrastado pela corrente enquanto a frota sueca se afasta.

Cardell toca o cadáver que flutua na água quando se impulsiona na sua direcção. A princípio, pensa que estava certo. Não é um cadáver humano. É a carcaça de um animal, que os criadores do talhante deitaram fora e que agora inchou como uma bóia devido aos gases da decomposição. Mas então o corpo vira-se, e Cardell vê-se cara a cara com ele.

Não está decomposto, mas duas órbitas oculares vazias fitam-no. Sob os lábios rasgados não se vê um único dente. O cabelo manteve o brilho — a noite e a lama do Fatburen descoloraram-no um pouco, mas é obviamente louro-claro. Cardell inspira fundo e engole um pouco de água quando o faz.

Quando acaba de tossir, está deitado, imóvel, a flutuar ao lado do corpo. Olha para o rosto desfigurado. As crianças à beira do lago não emitem um único som. Aguardam em silêncio o seu regresso. Vira-se na água e começa a bater os pés descalços, nadando em direcção a terra.

É difícil puxar o corpo para a terra lamacenta, quando a água já não ajuda a suportar o seu peso. Cardell deita-se de costas e cria impulso com ambas as pernas, ao mesmo tempo que tenta puxar o cadáver pelas roupas esfarrapadas com que está vestido. As crianças não o ajudam. Em vez disso, fogem assustadas para longe da água, ao mesmo tempo que tapam o nariz. Cardell tosse para expulsar a água suja dos pulmões e cospe para a lama.

— Corram até Slussen e chamem os casacos azuis.

As crianças não fazem menção de obedecer. Mantêm-se simplesmente à distância, ao mesmo tempo que vislumbram aquilo que Cardell pescou no lago. Só reagem quando Cardell lhes atira um punhado de lama.

— Corram a chamar o maldito guarda-nocturno e um casaco azul, raios!

*

Quando o som dos passinhos desaparece, rebola para o lado e vomita. O silêncio abateu-se sobre a praia, e, na sua solidão, Cardell sente um aperto frio roubar-lhe o ar dos pulmões, cortando-lhe novamente a respiração. O seu coração começa a bater mais depressa, sente a pulsação na carótida e é assaltado por uma ansiedade violenta. Sabe bem o que se segue. Sente o braço que já não tem quase materializar-se na escuridão, até que todo o seu corpo lhe diz que está lá outra vez e lhe causa uma dor insuportável, uma mandíbula de ferro a morder-lhe a carne e os ossos.

Em pânico, Cardell desata as tiras de couro e deixa a prótese de madeira cair na lama húmida, agarra o coto com a mão direita e massaja com força a pele irregular para lembrar os sentidos de que o braço que pensam existir já lá não está e de que a ferida que está a causar a dor cicatrizou há muito tempo.

O ataque não dura mais de um minuto. Volta a conseguir respirar, primeiro em pequenas golfadas de ar, depois mais longas e lentas. A ansiedade deixa de o dominar, e o mundo assume formas familiares. Os ataques de pânico súbitos perseguem-no há três anos, desde que regressou a terra com menos um braço e um amigo. Ainda assim, já se passou muito tempo. Pensava ter encontrado uma forma de manter os medos à distância. Bebida. Brigas. Cardell olha à sua volta em busca de conforto, mas só vê o cadáver. Balança para trás e para a frente, enquanto agarra com força o coto do braço.

Não sabe quanto tempo passa até a guarda chegar. Fica sentado, imóvel, na praia, a olhar em frente. As roupas molhadas arrefeceram, mas a bebida que ingeriu ao longo dos anos ainda serve para o manter quente. Quando finalmente chegam, são dois homens de casaco azul e calças brancas, cada um com um mosquete equipado com uma baioneta. A forma como caminham diz-lhe que ambos estiveram a beber, o que é condenável mas muito comum. Cardell sabe o nome de um deles. São muitos os que partilham o hábito de beber para esquecer as dores, e as tabernas são pequenas.

— Ora se não é Mickel Cardell que veio dar um mergulho. Vieste à procura de alguma coisa valiosa que engoliste há alguns dias e não apanhaste quando saiu pelo outro lado? Ou andas atrás de uma meretriz que fugiu para o mar?

— Cala-te, Solberg. Posso cheirar a merda, mas tu e o teu amigo tresandam a bebida. Devias gargarejar com água do lago antes de ires acordar o chefe da guarda.

Cardell ergue-se e endireita as costas. Aponta para o cadáver ao seu lado.

— Está ali.

Kalle Solberg aproxima-se, mas depois pára e recua.

— Porra.

— Pois. Suponho que é melhor um de vocês ficar aqui enquanto o outro vai a Slottsbacken buscar um oficial da guarnição.

Cardell enrola o casaco e a prótese e enfia o embrulho debaixo do coto do braço. Prepara-se para dar um passo, mas depois lembra-se de que perdeu uma bota. Pousa o embrulho no chão, dá meia-volta e refaz o caminho seguindo as suas próprias pegadas, com o ar mais digno que consegue, até encontrar o local e arrancar a bota da lama, que se solta com um gemido. Solberg foi o escolhido para ir buscar ajuda e já vai a subir a colina em direcção à cidade. O seu colega está parado, em silêncio, sem mostrar sinais de arrogância. Provavelmente sente-se desconfortável por ficar sozinho com o morto na escuridão. Cardell acena-lhe com a cabeça enquanto passa por ele. Tem um primo nas redondezas que possui um poço e talvez um pouco de sabão para partilhar com ele.

2.

Em cima da secretária está uma folha de papel com uma grelha desenhada. Cecil Winge pousa o relógio de bolso na mesa à sua frente, solta a corrente e aproxima o castiçal com a vela crepitante. As chaves de parafusos estão alinhadas, juntamente com uma pinça e um alicate. Estende as mãos à sua frente, à luz da vela. Não tem tremores.

De forma cuidadosa e metódica, inicia a sua tarefa. Abre o relógio, solta os parafusos que prendem os ponteiros, retira-os e coloca-os no seu lugar, na folha de papel. Levanta o mostrador e expõe o mecanismo, que se deixa desmontar com facilidade. Lentamente, retira cada engrenagem com cuidado e coloca-as no respectivo lugar desenhado na folha. Liberta do seu cativeiro, a mola estende-se numa longa espiral. Por baixo dela, a engrenagem. Depois, a própria caixa. Chaves de parafusos pouco maiores que uma agulha soltam os pequenos parafusos das suas cavidades.

Devido à falta temporária de relógio próprio, são os sinos da igreja que informam Winge da passagem do tempo. Em Ladugårdslandet, o sino grande toca na Hedvig Eleonora. De Saltsjön vem um eco ténue da torre da igreja de Katarina, no cimo do monte. As horas voam.

Quando todo o mecanismo está desmanchado, reinicia o processo, pela ordem inversa. Lentamente, o mecanismo começa a ganhar forma mais uma vez, à medida que cada peça encontra o seu lugar. Os seus dedos finos começam a doer, e tem de fazer pausas ocasionais para descansar os músculos e os tendões. Abre e fecha as mãos, esfrega-as e alonga-as contra as coxas. A desconfortável posição de trabalho é, em si, fonte de tensão, e a dor na anca, que alastra cada vez mais para o fundo das costas, obriga-o a mudar constantemente de posição na cadeira.

Quando os ponteiros estão novamente montados, coloca a pequena chave no lugar e sente a tensão na mola à medida que a roda. Mal a solta, ouve o conhecido tique-taque e, pela centésima vez naquele Verão, pensa a mesma coisa: o mundo devia ser assim. Racional e compreensível, cada engrenagem no seu devido lugar, com o efeito previsível e exacto dos seus movimentos.

A esperança é fugaz. Abandona-o logo que a distracção chega ao fim, e o mundo, que parara por momentos, retoma a sua forma em volta dele. Os pensamentos começam a vaguear. Pousa um dedo no pulso e começa a contar os batimentos cardíacos enquanto o ponteiro dos segundos dá uma volta completa ao mostrador com o nome do relojoeiro: Beurling, Estocolmo. Conta cento e quarenta e dois batimentos num minuto. As chaves de parafusos e as outras ferramentas estão nos devidos lugares. Prepara-se para iniciar novamente o processo quando sente o cheiro de comida, ouve a criada bater à porta e uma voz chamá-lo para a mesa.

Em cima da toalha há uma terrina decorada com padrões azuis. O anfitrião, o cordoeiro Olof Roselius, baixa a cabeça numa breve oração antes de estender a mão para levantar a tampa. Pragueja baixinho e sacode a mão ao queimar os dedos na pega.

Da sua cadeira ao lado do cordoeiro, Cecil Winge finge estudar a madeira do tampo da mesa sob o teatro de sombras produzido pela luz da vela, enquanto a criada aparece a correr com uma toalha, e o cheiro a carne e legumes faz desaparecer as rugas da testa do cordoeiro. Os seus setenta e dois anos roubaram-lhe toda a cor do cabelo e da barba. Está sentado na cadeira, torto. Roselius é conhecido como um homem justo, que durante anos dirigiu a casa dos pobres da igreja de Hedvig Eleonora e deu generosamente da sua fortuna, que em tempos foi grande o suficiente para lhe permitir comprar a casa de campo do Conde Spen, nos arredores de Ladugårdslandet. A sua velhice foi envenenada por maus investimentos com o vizinho, Ekman, tesoureiro do Kammarkollegiet, relacionados com uma serração em Västerbotten. Winge percebe que Roselius se sente injustamente tratado depois de tantas décadas dedicadas à caridade. A amargura espalhou-se sobre a propriedade como uma mão pesada.

Como hóspede, Winge não consegue impedir que isto lhe sirva de recordação de tempos maus. Nesta noite, Roselius parece mais deprimido do que o habitual e engole cada colherada com um suspiro. Quando finalmente pigarreia e quebra o silêncio, resta apenas um pouco de sopa no fundo do prato.

— É difícil dar conselhos aos jovens. Só recebemos gritos em troca. Ainda assim, vou dizer o que penso, Cecil, e peço-te que me ouças. Só quero o melhor para ti.

Roselius inspira profundamente enquanto se prepara para dizer o que tem de ser dito.

— O que tu fazes não é natural. Um homem precisa de estar com a mulher. Não lhe prometeste fidelidade eterna, tanto para o bem como para o mal? Volta para ela.

O fluxo de sangue faz corar o rosto pálido de Winge. As emoções surpreendem-no completamente. Não é habitual um homem tão contido deixar-se levar pelas emoções. Inspira profundamente, sente os batimentos do coração nos ouvidos e concentra-se em manter a compostura. Entretanto, tem de responder. Winge sabe que os anos não enfraqueceram a sagacidade que em tempos fez de Roselius o melhor no seu ramo. Quase consegue ouvir os pensamentos do cordoeiro correr por trás daquela testa enrugada. A tensão entre ambos aumenta e diminui enquanto o silêncio se arrasta. Roselius suspira, reclina-se na cadeira e levanta as mãos, num gesto conciliador.

— Já partilhámos muitas refeições, tu e eu. És educado e sagaz. Também sei que não és um homem mau, muito pelo contrário. Mas agora estás cego por essas novas ideias, Cecil, pensas que tudo pode ser resolvido através do pensamento. Através do poder da tua mente. Estás enganado. Não é possível controlar as emoções. Volta para a tua mulher, para bem de ambos, e, se lhe fizeste algum mal, pede-lhe perdão.

— O que fiz foi para o bem dela. Foi pensado.

Mesmo aos seus ouvidos, a resposta soa como a defesa de uma criança desafiadora.

— Cecil, independentemente do que planeasses alcançar, o resultado foi outro.

Winge não consegue impedir o tremor das mãos e larga a colher para esconder a inquietação. Para sua frustração, ouve as palavras saírem-lhe como pouco mais de um sussurro.

— Devia ter resultado.

Quando Roselius responde, o tom da sua voz é mais suave.

— Vi-a hoje, Cecil, a tua mulher, no mercado de peixe de Katthavet. Está grávida. Já não consegue esconder a barriga.

Winge afunda-se na cadeira e, pela primeira vez, olha o cordoeiro nos olhos.

— Estava sozinha?

Roselius assente e estende a mão para a pousar no antebraço de Winge. Winge puxa imediatamente o braço para trás. O instinto surpreende-o.

Winge fecha os olhos para se controlar e, num intervalo que parece abrandar a passagem do tempo, dá consigo na sua biblioteca interior, onde filas de livros estão ordenadas num silêncio eterno. Pega num volume de Ovídio e lê algumas palavras ao acaso: Omnia mutantur, nihil inherit. Tudo muda, mas nada se perde. Ali, encontra a esperança de que necessita.

Quando abre os olhos novamente, estes não revelam qualquer emoção. Winge tenta controlar o tremor das mãos, volta a pousar a colher no lugar, afasta a cadeira e levanta-se.

— Agradeço-lhe a sopa e a atenção, mas acho que de agora em diante vou passar a jantar no meu quarto.

A voz do cordoeiro segue-o enquanto se afasta.

— Se o pensamento diz uma coisa e a realidade diz outra, deve ser o pensamento que está errado. Porque não é isto claro para ti, tu que tiveste uma educação clássica?

Winge não tem resposta para lhe dar, mas a distância crescente entre ambos permite-lhe fingir que não ouviu.

Cecil Winge sai para o corredor com as pernas vacilantes e sobe as escadas até ao quarto que alugou na casa do cordoeiro, desde o Verão. Fica rapidamente sem fôlego e apoia-se na ombreira da porta.

Do lado de fora da janela, o silêncio cobre toda a propriedade. O Sol já se pôs. Na encosta que desce para o Saltsjön estende-se um pomar. Para lá das copas das árvores, avistam-se as luzes de Skeppsholmen, onde os marinheiros terminam as tarefas do dia, esperando poder ir para um lugar abrigado. Ainda mais longe, a silhueta da torre da igreja de Katarina. Sopra uma brisa nocturna.

Todos os dias, é como se a cidade estivesse a respirar, a aspirar a brisa marinha de manhã e a expeli-la novamente ao fim do dia, enquanto os moinhos de vento giram no seu eixo, na direcção da terra. Kurckan, o velho moinho de vento, agita-se em protesto contra as cordas que lhe prendem as velas. Mais longe, um dos seus irmãos responde da mesma forma.

Winge vê a sua imagem reflectida no vidro da janela. Ainda não tem trinta e dois anos. Usa o cabelo preso junto ao pescoço com uma fita, e o seu rosto pálido contrasta fortemente com os cabelos escuros. A camisa tem gola subida e esconde-lhe o pescoço. Já não consegue distinguir onde o horizonte começa e o céu termina. As estrelas começam a brilhar. É assim o mundo: tanta treva, tão pouca luz. No canto superior da janela, vê uma estrela-cadente, um risco que atravessa o céu num piscar de olhos. Quando era criança, dizia-se que, se avistássemos uma estrela-cadente, um desejo seria realizado. Há muito tempo que deixou de ser supersticioso, mas, ainda assim, formula mentalmente um desejo.

Avista uma candeia lá em baixo, entre as tílias, apesar de não esperar visitas. Alguém chama o seu nome. Põe o casaco sobre os ombros e, ao aproximar-se, vê duas pessoas. A criada de Roselius segura a candeia, e, ao seu lado, está uma figura baixa, curvada para a frente com as mãos pousadas nos joelhos, ofegante e a babar-se. Quando Winge se aproxima, a criada põe-lhe a candeia na mão.

— A visita é para si. Não o vou deixar entrar neste estado.

A criada dá meia-volta e caminha em passos largos para o edifício principal enquanto abana a cabeça, ao pensar naquela loucura. O homem não é velho, ainda tem uma voz leve, e a pele do rosto parece suave por baixo da sujidade.

— Então?

— É você o Winge que trabalha na Inbetoska?

— O nome do departamento de polícia local é Indebetouska. Mas, sim, sou o Cecil Winge.

O rapaz mira-o por baixo da franja loura, não querendo aceitar a palavra de ninguém sem provas.

— Em Slottsbacken prometeram uma recompensa a quem aqui chegasse mais depressa.

— Sim?

O rapaz puxa uma madeixa de cabelo que se soltou por baixo do chapéu.

— Corri mais depressa que todos os outros. Agora dói-me a barriga, tenho a boca a saber a sangue e vou ter de dormir esta noite ao relento com a roupa molhada. Quero uma moeda como recompensa.

O rapaz sustém a respiração como se tivesse sido dominado pela impudência. Winge lança-lhe um olhar severo.

— Já disseste que vêm outros a caminho com a mesma missão. Se esperar um bocado, posso dividir a recompensa por todos.

Ouve o rapaz ranger os dentes e praguejar baixinho ao perceber o seu erro. Winge abre a bolsa das moedas e tira a recompensa exigida. Segura a moeda entre o indicador e o polegar.

— Esta noite tiveste sorte. A paciência não é um dos meus pontos fortes.

O rapaz sorri, aliviado. Faltam-lhe os dois incisivos, que deixam uma abertura por onde a língua sai constantemente para limpar o ranho que lhe escorre pelo lábio superior.

— É o chefe da polícia que quer falar consigo, imediatamente, em Yxsmedsgränden.

Winge assente com a cabeça enquanto estende a mão com a moeda. O rapaz dá dois passos na sua direcção e agarra a sua recompensa. Dá meia-volta, estuga o passo e salta o muro baixo, quase perdendo o equilíbrio. Winge grita:

— Gasta o dinheiro em pão e não em bebida.

O rapaz pára e responde baixando as calças, mostrando-lhe o rabo pálido e dando uma palmada em cada bochecha enquanto grita por cima do ombro:

— Mais uns recados destes e vou ter dinheiro suficiente para não precisar de escolher.

O rapaz solta uma gargalhada triunfante e saltita pela Ladugårdslandet. As sombras devoram-no rapidamente e deixam Cecil a pensar na estrela-cadente.

Há muitos meses que prometeram uma residência oficial ao chefe da polícia, Johan Gustaf Norlin, mas ainda não aconteceu. Continua a viver com toda a família no mesmo apartamento pequeno, a três quarteirões de Börsen. Já anoiteceu quando Winge sobe ofegante ao terceiro andar. Percebe que os visitantes anteriores que vieram chamar o chefe da polícia também acordaram o resto da família. Algures do fundo da casa, uma mulher grita com uma criança assustada. Norlin encontra-o à entrada, sem peruca e com a bainha da camisa de noite visível entre o casaco do uniforme e as calças.

— Cecil. Obrigado por teres vindo tão depressa.

Winge assente e senta-se na cadeira que Norlin colocou em frente ao fogão e que lhe oferece com um gesto.

— A Catharina está a fazer café. Está quase pronto.

O chefe da polícia senta-se à frente dele e pigarreia algumas vezes, como que para anunciar o motivo do apelo.

— Descobriram um cadáver esta noite, Cecil, no Fatburen, em Södermalm. Duas crianças conseguiram convencer um guarda bêbedo a tirá-lo da água. O estado… o homem que mo descreveu já é guarda na cidade há dez anos e durante esse tempo deve ter visto todo o mal que as pessoas são capazes de fazer umas às outras. Ainda assim, apareceu à minha porta a arquejar para tentar não vomitar o jantar enquanto me descrevia o cadáver.

— Se bem conheço os guardas, pode ter sido a bebida a causar essa náusea.

Nenhum dos dois sorri, e Winge esfrega os olhos cansados.

— Johan Gustaf, combinámos que o último caso que te ajudei a resolver seria o meu último. Ajudei a polícia no último ano, mas, como sabes, agora está na altura de cuidar da minha casa.

Norlin levanta-se para ir buscar a chaleira de cobre sibilante à cozinha, depois volta e enche uma caneca para cada um.

— Ninguém está mais grato pelo teu serviço do que eu, Cecil. Não me lembro de um único caso em que não tenhas superado as minhas expectativas. Tendo em conta o quanto melhoraste no desempenho deste serviço este Inverno, reconheço que me fizeste um grande favor. Mas corrige-me, se estiver errado, Cecil: não te fiz também um favor?

Norlin procura em vão os olhos de Winge por cima da caneca. O chefe da polícia sorve um golo de café e pousa a caneca.

— Já fomos jovens, Cecil, acabados de sair da Faculdade de Direito e desejosos de fazer nome nos tribunais. Sempre foste o mais idealista de nós os dois, o que se mantinha mais fiel às suas convicções e o que estava pronto a arcar com as consequências disso. Tu não mudaste, ao passo que eu deixei o mundo manchar a minha dignidade. A minha capacidade de fazer cedências deu-me um lugar na polícia. Pela primeira vez, parece-me que os nossos papéis se inverteram. Agora sou eu que te pergunto: quantas vezes deparámos com um mal que pudesse ser corrigido com o poder que temos? Poucos dos casos que investigaste foram dignos da tua atenção. Falsificadores que cometiam erros de ortografia, assassinos que nem se davam ao trabalho de limpar o sangue do martelo, assaltantes e brigões que o álcool levava a ataques de fúria. Mas este é diferente, é algo que nenhum de nós viu antes. Se houvesse outra pessoa a quem pudesse confiar um caso destes, não hesitaria. Mas não existe mais ninguém. E algures lá fora anda à solta um monstro em figura humana. O morto foi levado para a igreja de Maria. Faz-me este favor e nunca mais te peço nada.

Winge olha Norlin nos olhos, e desta vez é o chefe de polícia que não consegue suster o seu olhar.

3.

Cardell desce apressadamente a colina de Kvarnberget e cospe um pedaço de tabaco castanho para a sarjeta. Está o mais limpo que conseguiu ficar depois de ir ao poço do amigo e vestiu uma camisa emprestada. Por trás dos edifícios caiados que sobem a colina em direcção ao Gullfjärden coberto pelo nevoeiro, consegue vislumbrar a cidade na sua ilha, com Riddarholmen muito perto. Juntos, formam um colosso escuro que se ergue do lago Mälarvattnet, intercalado com alguns espaços claros.

Ainda mal atravessou um quarteirão quando descobre um homem com um rosto coberto de bexigas e o distintivo da polícia preso numa corrente, ao pescoço, a caminho da porta de Polhem.

— Desculpe, mas sabe o que aconteceu ao corpo do Fatburen? Chamo-me Cardell. Fui eu que o tirei da água há poucas horas.

— Já ouvi dizer. É da guarda, não é? O morto está na capela da igreja de Maria até novas ordens. Raios! Nunca vi nada assim. Tendo em conta a forma como o encontrou, esperava que não quisesse voltar a vê-lo, mas você é que sabe. Eu tenho de voltar a Indebetouska antes do nascer do Sol.

Separam-se. Cardell continua a descer a colina pela terra húmida de Maria Kvarngränd. Ao fundo da colina, depara-se com o muro da igreja. A igreja de Maria está tão mutilada como Cardell. No mesmo ano em que ele nasceu, uma fagulha de uma padaria espalhou um fogo enorme e deixou vinte quarteirões em cinzas. A torre de Tessin abateu e ainda não voltou a ser erguida, apesar de já se terem passado três décadas.

Do outro lado de um portão encontra-se o cemitério da igreja. As lápides parecem observá-lo em silêncio, mas subitamente um som horrível atravessa a tranquilidade do lugar. Sob aquela luz fraca, Cardell demora um momento a perceber que o que está a ouvir vem de uma pessoa. Parece um cão a ladrar debaixo do solo, mas então vê uma sombra e percebe que no piso de gravilha em frente à fileira de edifícios que inclui o estábulo e a casa do coveiro está uma pessoa a tossir para um lenço.

Cardell fica parado, sem saber o que fazer, até que o desconhecido recupera o controlo do próprio corpo, cospe para o chão e vira-se. Dos edifícios atrás dele emana uma luz fraca vinda de uma janela. Embora esta dificulte a visão de Cardell, permite à figura examiná-lo.

O homem quebra o silêncio com uma voz que a princípio não é mais do que um sussurro rouco, mas que ganha força a cada palavra.

— Foi o senhor que encontrou o morto. Cardell.

Cardell assente em silêncio, enquanto se pergunta quanto tempo irá durar aquela conversa inesperada.

— A polícia não sabe, mas Cardell não é o seu nome completo.

Cardell tira o chapéu molhado da cabeça e faz uma vénia rígida.

— Se lhe interessa saber: Jean Michael Cardell. Quando o meu pai viu o seu primogénito pela primeira vez, teve grandes expectativas para ele. Como vê, saíram todas goradas. A maioria das pessoas chama-me Mickel.

— A modéstia também é uma virtude. Se o seu pai não o percebeu, ele é que ficou a perder.

O vulto aproxima-se da luz.

— O meu nome é Cecil Winge.

Cardell examina-o por um breve instante e constata que é mais jovem do que a voz rouca leva a crer. As roupas dão-lhe um ar digno, apesar de terem um corte antiquado. Um casaco preto, cingido na cintura, largo na parte de baixo e com gola subida. A parte visível do colete revela um padrão bordado discreto. Calças de veludo pretas com fitas nos joelhos. Gravata branca, com duas voltas junto ao pescoço. Cabelo comprido e negro, preso junto ao pescoço com uma fita vermelha. A pele é tão branca que quase parece brilhar.

Winge é magro, invulgarmente magro. Não podia ser mais diferente de Cardell, o tipo de homem que se encontra por toda a cidade de Estocolmo, a quem a guerra e a fome roubaram a juventude, prematuramente desgastado. Deve ter o dobro da largura de ombros, com as costas largas de um soldado a esticarem-lhe o casaco, pernas como troncos, uma mão direita enorme. As orelhas protuberantes receberam tantas pancadas que estão endurecidas.

Cardell pigarreia ao ver-se observado por Winge, que dá a impressão de estar a examiná-lo sem se desviar do seu rosto marcado. Cardell vira-se instintivamente para a esquerda para esconder o defeito.

O silêncio desconfortável, que não parece incomodar Winge, empurra as palavras para fora dos lábios de Cardell.

— Encontrei o guarda no local. O Sr. Winge também veio de Indebetouska, da polícia?

— Sim e não. Podemos dizer que sou um agente extraordinário. O chefe da polícia enviou-me. E o Jean Michael? O que o traz à casa de Maria Magdalena a meio da noite? Seria de pensar que já fez o suficiente pelo morto esta noite.

Cardell cospe um pedaço imaginário de tabaco para o chão para ganhar tempo, mas depois percebe que não tem uma resposta sensata para aquela pergunta.

— Perdi a minha bolsa. Talvez tenha ficado presa no cadáver quando o tirei do lago. Não tem muito, mas achei que ainda assim valia o passeio nocturno.

A resposta de Winge demora um pouco.

— Estou aqui para investigar o cadáver. Desde que foi trazido, o corpo já foi lavado. Vou agora falar com o coveiro. Venha comigo, Jean Michael, e veremos se conseguimos encontrar a sua bolsa.

O coveiro abre a porta da casa. É velho, baixo e atarracado, com costas curvadas e os primeiros indícios de uma corcunda por cima de uma omoplata. Fala com um leve sotaque alemão.

— Sr. Winge?

— Sim.

— Chamo-me Dieter Schwalbe. Vieram ver o morto? Têm esta noite para o fazer. O padre tem de o enterrar antes da missa da manhã.

— Mostre-nos o caminho.

— Um momento.

Schwalbe acende duas candeias com um fósforo e depois apaga-o. Em cima de uma mesa está um gato gordo que alisa o pêlo com a pata que acaba de lamber. Schwalbe estende uma das candeias a Cardell, fecha a porta atrás de si e guia-os. Do outro lado do cemitério há uma casa de pedra de aspecto primitivo e chão de terra batida. Schwalbe leva a mão à boca e solta um grito abafado quando abre a porta.

— É por causa das ratazanas. É melhor assustá-las antes de elas me assustarem a mim.

Todos os cantos da casa estão cheios de lixo. Espetos e pás, madeiras novas e velhas, pedaços de lápides que o Inverno destruiu. O corpo aguarda-os debaixo da mortalha, num banco baixo. O espaço está frio, mas, ainda assim, o cheiro a morte é acentuado.

O coveiro faz um gesto para um gancho de ferro na parede onde Cardell pendura a candeia. Schwalbe baixa a cabeça e aperta as mãos à frente do corpo enquanto transfere o peso de um pé para o outro, desconfortável. Winge olha-o com uma expressão inquisitiva.

— Mais alguma coisa? Temos muito que fazer e pouco tempo.

Schwalbe fita o chão.

— Uma pessoa não consegue passar a vida a abrir covas sem reparar no que escapa ao olhar dos outros. Os mortos não têm voz, mas têm outras formas de comunicar. Esse aí está furioso. Nunca vi nada assim. É como se até a pedra das paredes à nossa volta se estivesse a desmoronar por causa da fúria dele.

Cardell não consegue evitar sentir-se afectado pela superstição do coveiro. Prepara-se para soltar uma imprecação quando repara no olhar céptico que Winge dirige a Schwalbe.

— Os mortos caracterizam-se pela falta de vida. A consciência abandonou o corpo. Onde quer que esteja agora, não pode responder, mas esperemos que esteja num lugar melhor do que aquele que deixou. O que resta não consegue sentir chuva nem sol, e não há nada que possamos fazer que o perturbe agora.

As objecções de Schwalbe são visíveis na expressão insatisfeita do seu rosto. Franze as sobrancelhas farfalhudas e não faz menção de sair.

— Não devia ser enterrado sem nome. É algo que perturba os visitantes. Até descobrirem o seu nome verdadeiro, não podem dar-lhe outro?

Winge pensa por um momento, e Cardell percebe que a resposta vai ser a forma mais rápida de se livrar do coveiro.

— Suponho que pode ser vantajoso termos um nome para nos referirmos a ele. Alguma sugestão, Jean Michael?

Cardell fica em silêncio, apanhado de surpresa pela pergunta. O coveiro pigarreia discretamente.

— Diz-se que quem não é baptizado deve receber o nome do rei, não é?

Cardell estremece, desconfortável. Cospe o nome como se tivesse um sabor desagradável.

— Gustav? O pobre morto não sofreu já o suficiente?

Schwalbe franze a testa.

— Um dos Karls, então? Temos doze para escolher. Também significa «homem» na língua deles e é um nome que se adequa a quase toda a gente.

Winge vira-se para Cardell.

— Karl?

Na presença da morte, velhas memórias vêm à tona.

— Sim. Karl. Karl Johan.

Schwalbe sorri para eles com dentes castanhos e podres.

— Muito bem! Assim sendo, desejo-vos uma boa noite. Até breve. Sr. Winge, Sr.…?

— Cardell.

Schwalbe para à entrada e acrescenta por cima do ombro:

— Sr. Karl Johan.

O coveiro desaparece no meio das lápides, levando consigo a superstição. Winge e Cardell ficam sozinhos à luz da candeia na parede. Winge levanta uma ponta da mortalha e descobre uma perna, um coto, cortado com uma largura de dois palmos na zona da coxa. Ao fim de um momento, vira-se novamente para Cardell.

— Aproxime-se e diga-me o que vê.

Cardell vê que resta ainda menos da perna do que recordava do corpo como um todo, um monte de carne deformado que não parece um ser humano.

— Uma perna cortada? Não há muito a dizer.

Winge assente, pensativo. O seu silêncio faz Cardell sentir-se estúpido, o que o irrita. A noite parece durar uma eternidade e não tem fim à vista. Sem tirar os olhos de Cardell, Winge aponta para o seu lado esquerdo.

— Vejo que o Jean Michael também tem falta de um braço.

Cardell sabe que é bom a esconder a sua deformidade. Praticou-o durante mais horas do que consegue recordar. À distância, a madeira clara parece pele, e aprendeu a manter sempre o braço um pouco atrás da anca. Desde que não faça muitos movimentos, poucos reparam na sua deformidade sem se aproximarem, pelo menos à noite. Não tem remédio senão assentir, relutante.

— Sinto muito.

Cardell solta uma gargalhada desdenhosa.

— Vim à procura da minha bolsa, não de piedade.

— Tendo em conta o desprezo que mostrou pelo nome do rei Gustav, devo supor que o ferimento se deu durante a guerra?

Cardell assente levemente, enquanto Winge continua.

— Só o mencionei porque a sua experiência com amputações é muito superior à minha. Quer fazer-me o favor de olhar novamente para a perna amputada e dar-me o seu parecer?

Desta vez, Cardell investiga mais atentamente, por baixo das camadas de sujidade que perduram, apesar da lavagem com água e sabão. Quando a resposta lhe ocorre, é tão óbvia que se arrepende de não o ter visto imediatamente.

— Este ferimento não é novo. O corte está completamente cicatrizado.

Winge assente, com ar de aprovação.

— Sim. Quando encontramos um corpo neste estado, temos por hábito supor que os ferimentos estão relacionados com a causa da morte ou com os esforços do assassino para se livrar do corpo. Nenhuma das duas situações se aplica aqui. Não me surpreenderia se fosse o caso dos quatro cotos.

Ao sinal de Winge, posicionam-se um de cada lado do corpo, levantam a mortalha e dobram-na. O corpo liberta um odor adocicado que faz Winge aproximar o lenço do rosto, enquanto Cardell tapa a cara com o braço do casaco.

Karl Johan não tem braços nem pernas, todos amputados o mais perto do tronco que a serra conseguiu chegar. O rosto não tem olhos: foram removidos das órbitas. O que resta do corpo está subnutrido. Tem as costelas salientes. O abdómen está inchado dos gases, que fazem o umbigo destacar-se, mas, de cada lado do corpo, os ossos da anca aparecem por baixo da pele. O peito é estreito, ainda jovem, e não desenvolveu a largura do de um homem adulto. As faces estão encovadas. Daquilo que em tempos foi um jovem, é o cabelo que está mais bem conservado. A cabeleira loura foi lavada pelos paroquianos mais humildes.

Winge tirou a candeia do gancho para iluminar melhor as partes que está a investigar enquanto caminha lentamente em volta do banco.

— Durante a guerra, o Jean Michael também viu muitos corpos afogados?

Cardell assente. Não está habituado a este tipo de situações, um exame factual e racional de um cadáver, e o nervosismo solta-lhe a língua.

— Muitos dos que caíram no golfo da Finlândia regressaram no Outono. Encontrámo-los junto aos muros de Sveaborg, abaixo das baterias. Aqueles que conseguiram escapar à febre foram enviados para os recolherem. Os bacalhaus e os caranguejos tinham comido o que conseguiram. Às vezes começavam a mexer-se, e isso era o pior. Emitiam sons e gemidos. Os corpos estavam cheios de enguias, que se afastavam, relutantes, pelo chão, quando lhes interrompíamos o festim.

— E como compara as duas situações?

— Não há comparação possível. Recuperávamos os nossos mortos mais depressa, normalmente no dia em que caíam à água. Estavam pálidos, enrugados e inchados. É o mesmo que vejo aqui. Não creio que o Karl Johan tenha estado muito tempo no Fatburen. Deve ter sido uma questão de horas. Tê-lo-ão atirado à água depois do anoitecer.

Winge assente, pensativo.

— Quanto tempo demorou a sua amputação?

Cardell fita Winge por momentos, enquanto decide o que responder.

— Se queremos fazer isto como deve ser, é importante haver uma boa colaboração entre nós os dois.

Winge ajuda Cardell a enrolar a manga esquerda do casaco, até às tiras que prendem a madeira ao cotovelo. Cardell solta-as com movimentos hábeis e tira a prótese, que fica presa na mão de Winge. Cardell mostra-lhe o coto.

— Já tinha visto uma amputação?

— Nunca num homem vivo. Assisti a uma demonstração na escola de anatomia quando os cirurgiões abriram o cadáver de uma mulher.

— A minha operação não foi propriamente exemplar. Foi feita por um marinheiro trémulo com o único instrumento que tinha disponível. Amputou-me imediatamente abaixo do cotovelo. Quando chegou ao corte final, descobriu que devia ter cortado mais para impedir que a gangrena alastrasse. Prende-se o paciente com tiras de couro para não perturbar o cirurgião com as convulsões. A carne é cortada com uma faca e para o osso usa-se uma serra. Os que têm sorte bebem até à inconsciência, mas, como era uma urgência, tive de a suportar sóbrio. As veias grandes têm de ser fechadas depressa — se as pinças se soltarem, o sangue pode jorrar até ao outro lado da sala. Uma pessoa perde sangue e fica pálida num instante. Se tudo correr bem, guarda-se um pedaço de pele suficientemente grande para cobrir o coto. Este é cosido sobre a carne com agulha e linha. Repare, consegue ver-se a cicatriz em forma de crescente e as marcas dos pontos. Se não houver inflamação no braço, é só esperar até voltar a nascer pele.

Sorri para Winge, que o ouve atentamente.

— Assistiu a todas as fases do processo de cicatrização mais de perto do que alguém poderia desejar. Pode tentar datar as amputações do Karl Johan?

— Passe-me a candeia.

Agora é a vez de Cardell caminhar em volta do morto. Curva-se a cada um dos cantos do banco e observa os cotos um a um, com a testa franzida. Por ter a candeia na mão boa, não consegue tapar o nariz. Respira pela boca e expele o ar com expirações curtas.

— Tanto quanto posso perceber, o braço direito foi amputado primeiro. Depois foi a perna esquerda, de seguida o braço esquerdo e por fim a perna direita. Na minha opinião, o braço direito foi amputado há três meses, no caso de o Karl Johan ter tanta carne como eu. A perna direita? Talvez um mês. Tinha acabado de sarar quando deu o último mergulho.

— Então os braços e as pernas do homem foram amputados à vez e por ordem. Cada ferimento foi tratado e deixado a cicatrizar antes de se passar ao seguinte. Os olhos foram privados da vista. A boca também não tem dentes, e até a língua desapareceu. A avaliar pelos ferimentos, o processo que o transformou nisto que temos diante de nós começou neste Verão e terminou há poucas semanas. A morte ocorreu há apenas um dia ou dois.

Cardell sente os cabelos arrepiarem-se quando contempla aquilo que Winge sugere. Winge bate pensativamente nos dentes incisivos com a unha do polegar, antes de dizer:

— Acho que é tudo.

Prepara-se para voltar a colocar a mortalha sobre o corpo, mas pára e esfrega o tecido com o polegar e o indicador. ...