Loading...

À DIREITA DA REVOLUçãO

Riccardo Marchi  

0


Excerto

A DIREITA E AS DIREITAS

NO TEMPO DA ESQUERDA

Como todos os movimentos, partidos e correntes de ideias que têm por inimigo principal um fantasma, ou uma controversa entidade desaparecida há quase meio século, o antifascismo português tem os seus acessos de delírio. E é de um desses delirantes acessos que se acha agora enfermo — desde que apareceu o CHEGA, um partido nacional popular, e conseguiu levar André Ventura a São Bento.

Mas os antifascistas de hoje têm duas atenuantes: a primeira é que só sabem do «fascismo português» o que lhes contaram e contam e recontam; a segunda é que aquilo a que chamam fascismo — os actuais movimentos, partidos e personalidades de direita popular, populista, radical, nacional, nacionalista, identitária — tem vindo a chegar ao poder por via eleitoral em países importantes: com Donald Trump nos Estados Unidos, Jair Bolsonaro no Brasil e Viktor Orban na Hungria, para só falar do trio dos mais detestados.

Sabem também que há partidos europeus, como o Rassemblement National, de Marine Le Pen, ou a Lega, de Matteo Salvini, que congregam a votação popular em França e em Itália; e que um nacional conservador, Boris Johnson, tirou o Reino Unido da União Europeia; e que em Espanha há um novíssimo partido, o Vox, nascido à volta da defesa da unidade de Espanha e do combate à imposição e à inquisição da correcção política, que saiu da obscuridade para, em pouco mais de um ano, se tornar a terceira força partidária do país.

E, assim sendo, até se percebe a inquietação destas estremecidas almas — na sua maioria ainda devotas e simpatizantes de Marx, de Mao, de Lenine e de vários ditadores periféricos — e o seu alarme com o aparecimento de uma direita que não lhes pediu licença, nem aos velhos capitães de Abril, para existir. Mas podiam estudar mais o inimigo, perceber melhor a hidra de sete cabeças do fascismo lusitano, para corrigir a inquestionável e inquestionada «narrativa histórica» do anterior regime e da sua queda, em que insistem, e a amálgama que fazem da direita e das direitas.

Aqui entra Riccardo Marchi. Marchi era um jovem italiano quando um dia aterrou em Lisboa e descobriu que havia, neste nebuloso capítulo, uma história por contar, ou muito mal contada — a história da direita e das direitas portuguesas em Portugal nos últimos sessenta anos —, e que a ela se dedicou. E além de preencher esta lacuna, Marchi tem contribuído para que se vá fazendo luz sobre um período obscurecido e destorcido por lendas e narrativas mirabolantes e maniqueístas, repetidas por conveniência ou ignorância. E não só pela esquerda mas até por alguns dos simpatizantes dessas direitas.

Devemos, pois, a Riccardo Marchi o estudo e o trabalho de pesquisa paciente, escrupuloso e objectivo de um mundo de raízes complexas, de manifestações contraditórias e de produtos genuínos e ambíguos que é o da direita e das direitas em Portugal, nas suas muitas espécies, qualidades e ordens, radicais e moderadas, revolucionárias e conservadoras, estatistas e liberais. Isto sem que entremos pela História adentro e consideremos direitas monárquicas e republicanas, salazaristas e anti-salazaristas, germanófilas e anglófilas, autoritárias e liberais. É que a direita, como a esquerda, vista de perto com isenção e rigor, é tudo menos o bloco monolítico que os seus inimigos tresvêem, treslêem e amalgamam imprecisamente sob a cómoda designação de «fascismo» (quando não de «nazismo»). Tanto que poderá até perguntar-se — mas, afinal, o que é que então une as direitas? Se são assim tão variadas, qual é o seu denominador comum?

Como observou há muito o Professor Martim de Albuquerque, excluindo uma certa originalidade na construção da legitimidade e institucionalização do Além-Mar, das «terras de descoberta e conquista», a direita portuguesa foi seguindo a evolução do pensamento político das direitas europeias, especialmente das francesas. Como fizeram espanhóis e italianos, até Mussolini inventar o fascismo.

As polémicas e os conflitos começaram nos princípios do século XIX, com a posição quanto à Revolução Francesa e ao papel da Igreja. E aí, pode dizer-se que a França marcou o ADN da direita tradicional — a velha direita religiosa, monárquica, contra-revolucionária, identificada na Europa com a nostalgia do Ancien Régime. Essa direita tinha um lado romântico, de lealdades e fidelidades antigas, bem retratadas em Mémoires d’Outre Tombe, de Chateaubriand, ou em algumas personagens de Balzac e de Jean de La Varende. Mas também no conspiracionismo antimaçónico de Abbé Barruel, que teve ecos no nosso talentoso fundibulário José Agostinho de Macedo, que, a seu modo, tinha qualquer coisa de Rivarol.

Em Portugal, os correspondentes seriam os miguelistas, que durante o século XIX mantiveram um forte apoio no país. E não me refiro às guerrilhas pós-guerra civil, mas ao apoio no país profundo de Entre Douro e Minho e das Beiras; só que, por princípio, nunca quiseram organizar-se num partido político. E na literatura ficaram mais na versão satírica de Camilo da Brasileira de Prazins, que nos memoriais heróicos do Centauro de Deus de La Varende.

A direita francesa teve a sua grande revolução intelectual no final do século XIX, com Maurice Barrès e, principalmente, com Charles Maurras e a Action Française. É uma direita nacionalista, muito marcada pela derrota de 1870-1871 na Guerra Franco-Prussiana; desta derrota concluíram — e Barrès compreendeu bem e traduziu politicamente essa lição em Les Déracinés — que as instituições monárquicas, autoritárias, militarizadas, germânicas, eram superiores às instituições do II Império liberal francês.

Seja o primeiro a receber histórias como esta