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O QUE CONTAMOS AO VENTO

Laura Imai Messina  

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Excerto

Prólogo

Um torvelinho de ar fustigou as plantas do amplo jardim em socalcos de Bell Gardia.

Para se proteger, a mulher ergueu instintivamente um cotovelo frente ao rosto e arqueou as costas. Subitamente, porém, regressou à consciência, erecta.

Chegara antes da madrugada, vira surgir a luz, mas o Sol permanecera escondido. Descarregara os sacos volumosos do carro: cinquenta metros de plástico da espessura máxima enrolados num tubo, rolos de fita-cola, dez caixas de pregos de anilha para prender ao chão e um martelo com um cabo próprio para senhoras. No Conan, o enorme supermercado de ferramentas, um empregado pedira-lhe o favor de lhe mostrar a mão; era para medir as dimensões, mas ela sobressaltou-se.

Aproximara-se, depressa, da cabina telefónica, vira-a, muito frágil, de algodão-doce e merengue, como que provada por uma quantidade incalculável de dedos. O vento já era de tempestade, não lhe restava mais tempo.

Haviam trabalhado sem descanso na colina de Otsuchi durante umas boas duas horas: ela a envolver com lonas a cabina, o banco, a tabuleta da entrada e o pequeno arco que anunciava o caminho, e o vento, que não parara um só instante de a fustigar. A certa altura, de forma inconsciente, abraçara-se a si mesma como fazia há anos quando a emoção a vencia, mas depois voltara a endireitar-se, alongara a coluna e enfrentara, desafiadora, o cúmulo de nuvens que agora cobria completamente a colina.

Só no fim parara, quando lhe parecera de facto ter na boca o sabor do mar, como se o ar tivesse subido a tal ponto, vindo de baixo, que invertera o mundo. Sentara-se, exausta, no banquinho envolvido como um bicho-da-seda, as solas dos sapatos já empoladas de terra.

Se o mundo desabasse, disse para si mesma, desabaria com ele; mas, se ainda houvesse uma possibilidade de o manter de pé, talvez mesmo num equilíbrio precário, gastaria todos os resquícios de energia que lhe restassem para o ajudar.

Lá em cima, a cidade ainda dormia. Um ou outro candeeiro acendera-se, pintando as janelas, mas, por causa do furacão que se aproximava, a maior parte das pessoas deixara as persianas fechadas, prendera as portadas com ripas de madeira. Algumas haviam deixado sacos de areia do lado de fora das portas, para evitar que a fúria do vento as sacudisse, inundando as divisões.

No entanto, Yui parecia não se preocupar com a chuva, com aquele céu que lhe descera até aos sapatos. Observou a sua obra: as camadas de plástico e fita-cola com que envolvera e fixara a cabina, o banco de madeira, as lajes em fila indiana do caminho, o arco da entrada e a tabuleta que dizia: «O Telefone do Vento».

Tudo estava coberto de terra e gotas. Se o furacão soltasse ou arrancasse alguma coisa, ela estaria ali para a devolver ao seu lugar.

Não lhe ocorreu o mais elementar, ou seja, que a fragilidade não está nas coisas, mas na carne, a ideia de que os objectos materiais podem ser reparados e substituídos, mas de que o corpo não se conserta, de que, sim, talvez seja mais forte do que a alma — a qual, quando quebra, é para sempre —, mas que o é menos do que a madeira, o chumbo, o ferro. Não vislumbrou por um instante o perigo a ameaçá-la.

«Já estamos em Setembro», sussurrou Yui, contemplando o negro do céu que se aproximava do Oriente. Nagatsuki , o «mês das noites longas», como sugeria o nome que lhe fora atribuído na Antiguidade. E, contudo, lembrava-se de ter repetido aquela mesma fórmula, todos os meses, declinando-a para Novembro e para Dezembro. Já estamos em Abril, dissera, e, depois, estamos em Maio e por aí fora, na contagem minuciosa dos dias, desde 11 de Março de 2011.

Cada semana fora um sofrimento, cada mês apenas tempo acumulado no sótão, para uma utilização futura, que talvez nunca viesse a ocorrer.

Yui tinha cabelo comprido, muito preto e ainda louro nas pontas, como raízes que partissem do fundo para chegar à parte de cima. Desde que a mãe e a filha haviam sido arrebatadas pela tragédia no mar, nunca mais os tinha pintado. Na verdade, cortara-os um pouco, várias vezes, acabando finalmente por os deixar crescer assim, como uma auréola caída. A cor do cabelo, a distância entre o amarelo de um tempo e o preto original acabara por reflectir a duração do luto. Tornara-se uma espécie de calendário do acontecimento.

Se sobrevivera, devia-o sobretudo àquele jardim, à cabina branca com a porta dobrável e ao telefone preto pousado na prateleira, ao lado do caderno. Os dedos marcavam um número ao acaso, o auscultador era encostado ao ouvido, e

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