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QUANDO NADA ACONTECE

Kathryn Nicolai   Léa Le Pivert  

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Excerto

INTRODUÇÃO

Como Usar Este Livro

Dormir devia ser fácil.

Afinal, é uma das coisas mais naturais que fazemos; precisamos do repouso e queremos dormir. Mas nem sempre conseguimos. O que se passa? Bem, na maior parte das vezes, somos impedidos pelos nossos cérebros. Uma mente a pensar é como um camião com um tijolo em cima do acelerador. Continua a avançar mesmo que ninguém a esteja a conduzir, e continuará durante toda a noite se lhe for permitido. Se se juntar a essa mente desenfreada um mundo de azáfama e caos, demasiada cafeína e uma assustadora quantidade de horas a olhar para um ecrã, torna-se óbvio porque tantas pessoas têm dificuldade em dormir.

Mas não se preocupem, amigos; podemos recuperar o sono tranquilo e todos os benefícios e prazer que dele resultam. Será necessária alguma prática e disciplina para estabelecer esta rotina, mas prometo que em breve conseguirão adormecer mais depressa e dormir durante mais tempo do que quando eram crianças. Vão acordar a sentir-se descansados e descontraídos, e poderão até descobrir que estas histórias também plantam outras sementes do mindfulness na vossa vida diária. (Um bónus!)

Dormir é um superpoder moderno.

As histórias são magia antiga

Uma das minhas primeiras recordações é estar deitada na cama a contar a mim mesma uma história para adormecer. Devia ter quatro anos, e ainda me lembro do enredo: um conto da pobreza para a riqueza, com suspense e o género de reviravoltas do destino que faziam parte dos contos de fadas que os meus pais me liam. Tinha um final feliz e satisfatório, e, por mais vezes que a contasse, conseguia fazer-me adormecer.

Quer usasse a imaginação para delinear uma narrativa ao luar ou os meus pais se sentassem na beira da minha cama para me lerem uma história escrita por outros, eu gravitava naturalmente para a tradição, consagrada pelo tempo, de contar uma história para me preparar para dormir. A verdade é que nunca deixei de contar histórias a mim mesma quando me deito ao final de cada dia. E, embora tenham evoluído e integrem menos barcos piratas e vilões terríveis e mais panelas de sopa a fumegar e cães adormecidos, continuam a resultar na perfeição.

Contamos histórias antes de adormecer por uma boa razão. As histórias ajudam-nos a dar sentido às coisas; podem apontar-nos uma direcção útil e proporcionar-nos uma maneira de sair do presente para um novo tempo e lugar. Oferecem-nos novas perspectivas e modos de imaginar as nossas vidas — e as vidas dos outros. E, quando são contadas de uma certa maneira, podem ajudar-nos a relaxar.

Sou professora de ioga a tempo inteiro há dezassete anos e faço meditação regularmente desde 2003. Durante esse tempo, aprendi muito sobre como atingir o relaxamento do corpo e como os princípios do mindfulness — prestar atenção ao que está a acontecer a todo o momento de um modo relaxado — ajudam as mentes agitadas a aquietarem-se. Ao longo destes anos, estudei um pouco de neurociência, e a minha biblioteca, além de livros sobre fisiologia e pranayama, está repleta de livros acerca do cérebro e como o treinar.

Uma das coisas fundamentais que aprendi foi que os neurónios que trabalham juntos permanecem conectados, o que significa que os bons hábitos podem ser uma questão de prática. Eu própria o experimentei: treinei o meu cérebro ao longo dos anos com a prática de recorrer a histórias para adormecer, e agora o sono e o relaxamento são uma resposta automática a um supino contar de histórias.

No entanto, à medida que fui ficando mais velha, comecei a ouvir os amigos e a família a falarem das suas noites sem dormir, de ansiedade e insónia crónica. Apercebi-me de como essas condições podem ser debilitantes, desde provocarem um aumento do risco de doença coronária, depressão e ansiedade, a uma sensação generalizada de mal-estar e mau humor. Percebi que a minha prática de contar histórias era, na verdade, um superpoder secreto — um poder de que as outras pessoas precisavam desesperadamente. Mas, na impossibilidade de poder estar, na verdadeira acepção da palavra, com elas enquanto davam voltas na cama (o que seria tão sinistro quanto impraticável), não sabia muito bem como ajudar.

Uma noite, encontrava-me (ironicamente) acordada a meio da madrugada com o meu velho cão. E foi quando estava sentada a fazer festas nas costas do beagle que me ocorreu. Um podcast com as minhas histórias. Podia usar a minha voz para ajudar as pessoas a adormecerem à noite. Podia estar com os meus amigos e família (e, quem sabe, talvez outras pessoas) na hora de ir para a cama. Naquela noite, sentada no chão às três da manhã, encomendei um microfone.

Quando Nada Acontece foi lançado seis semanas mais tarde, e, quase de imediato, vi que o meu palpite estava certo. Comecei a receber mensagens de ouvintes de todo o mundo a dizerem-me que, pela primeira vez em anos ou décadas, conseguiam dormir a noite toda. Este superpoder podia ser partilhado.

Também fiquei a saber de que outras formas os ouvintes usavam as histórias. Soube de um homem que as ouvia durante as sessões de quimioterapia, da mulher que durante anos teve medo de ir para a cama porque sofria de terrores nocturnos, mas que agora mal podia esperar pela hora de dormir e tinha sonhos agradáveis quase pela primeira vez na sua vida. Havia pessoas que escreviam a dizer que tinham conseguido deixar a medicação para dormir e que se sentiam repousadas e alerta quando o despertador tocava de manhã. Famílias contaram-me que as ouviam antes de se deitarem e que os pequenotes, que costumavam andar a correr pela casa como galinhas tontas, agora deitavam-se e adormeciam em minutos. Algumas pessoas ouviam-nas quando estavam ansiosas, e depois sentiam-se melhor. Artistas escreveram a dizer que gostavam de as ouvir enquanto desenhavam ou esculpiam, e por vezes enviavam uma fotografia da peça que a história tinha inspirado.

É este o poder das histórias, e é por isto que sei que elas resultam.

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