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COMER PARA CURAR

William W. Li  

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Excerto

Introdução

Encontramo-nos verdadeiramente num ponto de viragem no combate das doenças. Cada um de nós tem uma oportunidade extraordinária de assumir o controlo da sua vida usando os alimentos para transformar a sua saúde. Pode tomar decisões sobre o que comer e beber com base em provas científicas obtidas com os mesmos sistemas e métodos usados para descobrir e desenvolver medicamentos. Os dados obtidos quando estudamos os alimentos enquanto medicamentos mostram claramente que o que consumimos pode influenciar a nossa saúde de modo positivo e específico.

Primeiro, um pouco sobre a minha pessoa. Sou médico, especialista em clínica médica e investigador. Na faculdade, estudei Bioquímica (hoje chamada Biologia Molecular e Celular) e passei a primeira metade da minha carreira mergulhado no mundo da biotecnologia. Nos últimos vinte e cinco anos, dirigi a Angiogenesis Foundation, uma organização sem fins lucrativos que co-fundei em 1994 com uma missão diferente: melhorar a saúde global, tendo em vista um «denominador comum» partilhado por muitas doenças: angiogénese, o processo que os nossos corpos usam para criar vasos sanguíneos novos.

Como cientista, encontrar denominadores comuns entre doenças sempre esteve entre os meus interesses e paixões. A maior parte da investigação médica dedica-se à exploração da individualidade da doença, procurando aquilo que torna cada uma diferente das outras, com a intenção de encontrar curas. A minha postura foi completa­mente diferente. Ao procurar aspectos em comum entre muitas doenças e questionando se esses aspectos poderiam levar a novos tratamentos, descobri que é possível alcançar avanços não apenas para uma doença, mas para muitas ao mesmo tempo.

No início da minha carreira, decidi estudar a angiogénese. Os vasos sanguíneos são essenciais para a saúde porque transportam oxigénio e nutrientes para todas as células do corpo. O meu mentor, Judah Folkman, o extraordinário cirurgião-investigador de Harvard, foi o primeiro a ter a ideia de que estudar os vasos sanguíneos afectados que alimentavam o cancro poderia ser uma forma totalmente nova de abordar a doença. A angiogénese falhada não é um problema apenas no caso do cancro, mas um denominador comum em mais de setenta doenças diferentes, incluindo outras das que mais matam no mundo: doença cardíaca, acidente vascular cerebral, diabetes, doença de Alzheimer, obesidade e outras mais. Em 1993, tive uma inspiração: E se o facto de se controlar o desenvolvimento de vasos sanguíneos pudesse constituir uma perspectiva diferente para tratar todas essas doenças graves?

Ao longo dos últimos vinte e cinco anos, acompanhado de uma longa lista de colegas e simpatizantes extraordinários, é precisamente esse trabalho que a Angiogenesis Foundation tem feito. Coordenamos a pesquisa e defendemos novos tratamentos, assumindo esta abordagem como denominador comum. Trabalhamos com mais de trezentos dos mais brilhantes cientistas e médicos da América do Norte, da Europa, da Ásia, da Austrália e da América Latina; mais de cem empresas inovadoras em biotecnologia, equipamentos médicos e tecnologias de diagnóstico e de imagem, bem como líderes visionários dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, da Food and Drug Administration e das principais sociedades médicas de todo o mundo.

Alcançámos um imenso sucesso. Coordenando esforços colectivos, criou-se um novo campo da medicina conhecido como terapia com base na angiogénese. Alguns dos tratamentos inovadores impedem que os vasos sanguíneos cresçam em tecidos lesados, como no caso do cancro ou em doenças que provocam cegueira, tais como degeneração macular neovascular relacionada com a idade e retinopatia diabética. Outros tratamentos que mudaram a prática médica estimulam vasos sanguíneos novos a sarar tecidos vitais, como em úlceras de pernas varicosas e diabéticas. Hoje, já são mais de trinta e dois medicamentos, equipamentos médicos e produtos baseados na angiogénese e aprovados pela FDA.

Estes tratamentos, antes meras ideias, tornaram-se as novas referências quanto a cuidados de saúde em áreas como as da oncologia, da oftalmologia e do tratamento de feridas, ajudando os pacientes a conhe­cerem vidas qualitativamente melhores e mais longas. Trabalhámos inclusive com veterinários e desenvolvemos novos tratamentos que ajudaram a salvar as vidas de cães, golfinhos, peixes de coral, aves de rapina, um rinoceronte e até um urso-polar. Orgulho-me de ter participado nesses avanços, e, tendo em conta os mais de 1500 ensaios clínicos em curso sobre angiogénese, outros certamente ainda estão por vir.

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Mas, apesar de todo o sucesso, um facto desanimador é que os números de novas doenças estão a disparar. As maiores ameaças à saúde para as pessoas de todo o mundo são as doenças não transmissíveis, que incluem cancro, doença cardíaca, acidente vascular cerebral, diabetes, obesidade e doenças neurodegenerativas. Todos conhecem alguém que tenha sofrido de uma dessas doenças. Segundo a Organização Mundial da Saúde, as doenças cardiovasculares mataram 17,7 milhões de pessoas em 2015; o cancro, 8,8 milhões; e a diabetes, 1,8 milhões.

Mesmo com inovações extraordinárias ao nível das terapêuticas e de aprovações por parte da FDA, o tratamento da doença por si só não é uma solução duradoura para patologias não transmissíveis, em parte devido ao preço estratosférico dos novos medicamentos. Pode custar mais de dois mil milhões de dólares desenvolver um único fármaco biotecnológico novo. O custo de usar alguns dos medicamentos mais recentes depois de terem sido aprovados pela FDA é assombroso, variando em alguns casos de 200 mil dólares a mais de 900 mil dólares por ano. Como poucos podem fazer face a valores como estes, os tratamentos mais avançados não chegam a todos os que deles precisam, ao passo que a população idosa, em crescimento, continua a adoecer.

Por si só, os tratamentos medicamentosos não conseguem manter-nos saudáveis. Assim sendo, a questão passa a ser: Como podemos fazer uma melhor prevenção das doenças, antes de termos de as tratar? Uma resposta moderna: comendo. Todos os médicos sabem que uma alimentação errada pode estar na origem de uma doença evitável, e os alimentos estão a tornar-se um assunto de grande relevância na comunidade médica. Algumas faculdades médicas de vanguarda chegaram até a acrescentar aulas de culinária aos seus planos de estudo. Os alimentos são produtos acessíveis e as intervenções alimentares não dependem de tratamentos farmacêuticos dispendiosos.

Não são muitos os médicos que sabem falar com os seus pacientes de uma dieta alimentar saudável. Este facto não é responsabilidade dos médicos em particular, mas um efeito secundário de estes receberem muito pouca formação a nível nutricional. De acordo com David Eisenberg, professor da Harvard T. H. Chan School of Public Health, apenas uma em cada cinco faculdades de medicina nos Estados Unidos exige que os seus alunos se inscrevam numa cadeira de Nutrição. Em média, as faculdades de medicina disponibilizam apenas dezanove horas lectivas no âmbito da nutrição, e poucos são os cursos de nutrição de formação continuada em pós-graduação para médicos que já se encontrem a desempenhar as suas funções.

Para agravar este problema, os diferentes ramos da ciência que estudam a alimentação e a saúde operam tradicionalmente de forma independente, como campos separados. Especialistas em alimentos estudam as propriedades químicas e físicas de substâncias comestíveis. Os investigadores das ciências da vida estudam organismos vivos, incluindo os seres humanos. Os epidemiologistas estudam populações do mundo real. Cada campo contribui com perspectivas e ideias importantes, mas raramente se reúnem para responder a questões práticas sobre que alimentos e bebidas podem beneficiar a saúde do corpo humano, em que quantidades e o que existe num alimento específico para provocar esse efeito.

O que tudo isto significa é que o seu médico, ainda que munido de competências aprofundadas e de um conhecimento inestimável sobre medi­cina, pode não ter o conhecimento suficiente para o aconselhar sobre o que deve comer para que a sua saúde vença a doença.

Presenciei as consequências deste aspecto em primeira mão na minha prática médica. Quando estava a tratar de pacientes mais velhos num hospital para veteranos de guerra, perguntava-me sempre o que acontecera aos seus corpos. Estes pacientes, na sua maioria homens, já haviam sido exemplos da forma física perfeita, treinados como guer­reiros para lutar pelo seu país. Quando, décadas mais tarde, os recebia, apresentavam, de um modo geral, excesso de peso, quando não propriamente obesidade, sofriam de diabetes e estavam devastados por doenças cardíacas e pulmonares terríveis e, com grande frequência, cancro.

Como seu médico, anunciava-lhes um diagnóstico terrível. E eles per­guntavam-me: É muito mau? Qual é o tratamento? Quanto tempo tenho de vida? Eu dava a minha melhor estimativa. Depois, enquanto saíam do meu gabinete, quase todos se viravam para me perguntar: «Doutor, o que posso comer para ajudar a situação?»

Eu não tinha resposta para esta pergunta — porque não fora ensi­nado ou formado na maneira certa de responder. Pareceu-me errado; e assim começou a jornada em busca das respostas que me levaram a escre­ver este livro.

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Para compreendermos os benefícios dos alimentos para a saúde, precisamos primeiro de entender a definição de saúde. Para a maioria das pessoas, saúde é a ausência de doença. Mas é muito mais do que isso. Na realidade, a definição de saúde exige uma grande actualização.

O que é claro é que a nossa saúde é um estado activo, protegido por uma série de sistemas extraordinários de defesa existentes no corpo que actuam em plena capacidade, desde o nascimento até ao último dia de vida, mantendo as células e os órgãos a funcionar perfeitamente. Estes sistemas imunitários são projectados nos nossos corpos para nos protegerem. Alguns são tão poderosos que conseguem até reverter doenças como o cancro. E, embora operem como sistemas de defesa separados, também se apoiam e interagem. Estes sistemas de defesa são os denominadores comuns da saúde. Ao reorientarmos a nossa visão sobre prevenção de doenças e ao concentrarmo-nos nesses denominadores comuns, podemos desenvolver uma tentativa unificada de interceptar doenças antes que estas se instalem. Pode ser tão determinante como encontrar denominadores comuns para tratar doenças, como fizemos duas décadas atrás.

Cinco sistemas de defesa constituem os pilares fundamentais para a saúde. Todos eles são influenciados pela alimentação. Quando soubermos o que comer para reforçar cada uma das defesas de saúde, descobriremos como usar a dieta alimentar para preservar a saúde e vencer a doença.

Quando dou formação a outros médicos e estudantes no âmbito da alimentação e da saúde, uso a analogia de que o corpo é como uma fortaleza medieval, protegido não apenas pelas suas muralhas de pedra, mas por uma grande variedade de defesas interiores e inteligentes. Na verdade, nos castelos, algumas dessas defesas, como o baluarte, a cova de lobo e o buraco assassino, não eram sequer visíveis antes da invasão inimiga. Pense no seu sistema imunitário como nas defesas ocultas da fortaleza corporal. Essas defesas curam o corpo de dentro para fora, de tal maneira que hoje é possível analisar sistematicamente o modo de reforçar o seu estado de saúde.

Esses cinco sistemas de defesa são a angiogénese, a regeneração, o microbioma, a protecção do ADN e o sistema imunitário.

Angiogénese

Noventa e seis mil e quinhentos quilómetros de vasos sanguíneos percorrem os nossos corpos e transportam oxigénio e nutrientes a todas as nossas células e órgãos. A angiogénese é o processo pelo qual esses vasos sanguíneos se formam. Alimentos como soja, chá verde, café, tomate, vinho tinto, cerveja e até queijo duro podem influenciar o sistema imunitário da angiogénese.

Regeneração

Alimentado por mais de 750 mil células-tronco distribuídas pela medula óssea, pelos pulmões, intestinos e por quase todos os nossos órgãos, o corpo regenera-se todos os dias. Estas células-tronco mantêm, reparam e regeneram os nossos corpos ao longo de toda a vida. Alguns ali­mentos, como chocolate preto, chá preto e cerveja, podem mobilizá-las e ajudar-nos a regenerar o corpo. Outros, como batata-roxa, podem destruir células-tronco mortais que desencadeiam o desenvolvimento do cancro.

Microbioma

Perto de 40 triliões de bactérias habitam os nossos corpos, a maioria das quais actua em defesa da nossa saúde. Estas bactérias não só produzem metabolitos benéficos para a saúde a partir dos alimentos que consumimos e fazemos passar pelo intestino mas também controlam o nosso sistema imunológico, influenciam a angiogénese e até ajudam a produzir hormonas que determinam a nossa função social e cerebral. Podemos estimular o microbioma ingerindo alimentos como kimchi, chucrute, queijo Cheddar e pão de fermentação natural.

Protecção do ADN

O ADN é o nosso mapa genético, mas também é projectado para constituir um sistema de defesa. Possui mecanismos surpreendentes de regeneração que nos protegem de danos causados por radiação solar, produtos químicos de uso doméstico, stress, má qualidade de sono e alimentação, entre outras agressões. Certos alimentos podem incentivar o ADN a auto-reparar-se. Alguns activam genes benéficos e desactivam outros prejudiciais, ao passo que outros ainda alongam os telómeros, os quais protegem o ADN e atrasam o envelhecimento.

Sistema imunitário

O sistema imunológico defende a saúde de um modo muito mais complexo do que alguma vez pudemos imaginar. É influenciado pelo intestino e pode ser manipulado para atacar e eliminar o cancro, inclusive em idosos. Descobertas recentes mudaram completamente a nossa com­preensão do sistema imunológico. Alimentos como amoras, nozes e romãs podem activar o sistema imunológico, ao passo que outros ajudam a reduzir as suas actividades e os sintomas de doenças auto-imunes.

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Este livro foi escrito para lhe dar o conhecimento e as ferramentas que lhe vão permitir tomar decisões mais acertadas ao escolher o que ingerir a cada dia. Tem como objectivo ajudá-lo a viver mais consumindo alimentos de que realmente gosta. Se estiver em forma e de boa saúde e quiser continuar assim, este livro é para si. Se começa a sentir o peso da idade e quiser evitar a deterioração e afastar doenças crónicas, este livro é para si. Se for um dos milhões de pessoas que vivem com doenças cardíacas, diabetes, patologias auto-imunes ou outras enfermidades crónicas, este livro é para si. E, se estiver a combater activamente alguma doença receada, como o cancro, ou se o seu histórico familiar tornar muito provável que um dia venha a sofrer de alguma, este livro é para si.

Quero deixar claro que este estudo não pretende apresentar uma «dieta alimentar definitiva». Se estiver a seguir um regime alimentar para perder peso, a lidar com uma intolerância ao glúten, a controlar a glicemia, a adiar a doença de Alzheimer ou a reverter a doença cardíaca, deverá saber que a minha intenção não é substituir essas terapêuticas específicas, mas apresentar provas e recomendações científicas relativas a alimentos que será importante incluir no seu plano, escolhas que tornarão esse plano ainda melhor. Também incluí algumas receitas saborosas para o ajudar a

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