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UMA GAIOLA DE OURO

Camilla Läckberg  

4


Excerto

Julienne dormia, finalmente. O seu cabelo estava espalhado pela almofada cor-de-rosa. A respiração estava calma. Faye acariciou-lhe o rosto cuidadosamente, para não a acordar.

Jack iria regressar da viagem de trabalho a Londres naquela noite. Ou seria Hamburgo? Faye não se recordava. O marido estaria cansado e stressado quando chegasse a casa, mas Faye faria os possíveis para que ele pudesse relaxar adequadamente.

Fechou a porta do quarto lentamente para não acordar Julienne, saiu para o corredor e verificou se a porta da rua estava trancada. Na cozinha, passou com a mão pela bancada. Mármore branco, com três metros de comprimento. Carrara, obviamente. Infelizmente, era tão pouco prático que chegava a ser atroz a forma como o mármore poroso absorvia tudo como uma esponja, até já começara a ficar com manchas feias. Todavia, Jack nem pusera a hipótese de escolher algo mais prático. A cozinha do apartamento na rua Narvavägen custara quase um milhão de coroas, e não se tinham poupado a nenhuma despesa.

Faye estendeu o braço para uma garrafa de Amarone e colocou um copo de vinho em cima da bancada. Copos de vinho a pousar em lajes de mármore, o gorgolejar de vinho a sair de garrafas — era esse o resumo das noites de Faye em casa, quando Jack estava fora. Serviu o vinho cuidadosamente, de maneira a não ficar com ainda mais manchas de tinto na superfície de mármore branco, e fechou os olhos ao levantar o copo até aos lábios.

Reduziu a intensidade da luz com o dimmer e saiu para o corredor, onde os retratos a preto e branco dela própria, de Jack e de Julienne estavam pendurados. Tirados por Kate Gabor, a fotógrafa não oficial da princesa real, que todos os anos tirava novas fotografias cativantes das crianças reais a brincarem com as folhas de Outono, em roupas imaculadamente brancas. Faye e Jack tinham optado por tirar retratos de Verão. Relaxadamente divertidos, à beira-mar. Julienne, no meio dos dois, com os cabelos louros a flutuarem ao vento. Roupas brancas, evidentemente. Ela própria com um vestido de algodão simples Armani, Jack em camisa e calças arregaçadas Hugo Boss, Julienne com um vestido de renda da mais recente colecção infantil de Stella McCartney. Tinham acabado de discutir, antes de tirarem as fotografias. Faye não se recordava do motivo da discussão, sabia apenas que a culpa fora dela. Porém, nada relativo à discórdia anterior era visível nos retratos.

Faye subiu as escadas. Hesitou à porta do escritório de Jack, mas acabou por abri-la. A divisão ficava numa torre, com vista para todas as direcções. Uma planta única, num imóvel único, como o agente imobiliário lhes dissera, quando lhes mostrara o apartamento, havia cinco anos. Na altura, ainda tinha Julienne na barriga e a cabeça cheia de esperanças brilhantes para o futuro.

Faye adorava o quarto da torre. O espaço e a luz que as janelas deixavam entrar davam-lhe a sensação de estar a voar. E, agora que a escuridão estava compacta, lá fora, as paredes abobadadas rodeavam-na como um casulo quente.

Faye decorara o quarto sozinha, tal como o resto do apartamento. Escolhera o papel de parede, as estantes, a secretária, as fotografias e a arte para pendurar nas paredes. E Jack adorava o resultado. Nunca questionava o gosto de Faye e, além disso, ficava sempre extremamente orgulhoso quando os convidados pediam o contacto do decorador que tinham utilizado.

Nesses instantes, Jack deixava Faye brilhar.

Enquanto todas as outras divisões tinham uma decoração moderna, luminosa e arejada, o escritório de Jack era mais masculino. Mais pesado. Faye dedicara mais tempo e esforço a esta divisão, do que ao quarto de bebé de Julienne e ao resto do apartamento em conjunto. Jack iria passar muito tempo ali e tomar muitas decisões importantes que influenciariam o futuro da sua família. O mínimo que ela podia fazer era proporcionar-lhe um santuário, ali em cima, quase a aflorar as nuvens.

Faye acariciou ligeiramente a secretária rústica de Jack, que ela própria comprara num leilão da Bukowski e que, em tempos, pertencera a Ingmar Bergman. Jack não era um grande conhecedor de Bergman, preferia filmes de acção com Jackie Chan ou comédias com Ben Stiller, mas, tal como Faye, gostava quando os móveis tinham uma história.

Quando faziam uma visita guiada aos convidados, pelo apartamento, Jack batia sempre com a palma da mão duas vezes no tampo da mesa e contava, como que por acaso, que o belo móvel, em tempos, fizera parte do lar do cineasta mundialmente famoso. Sempre que fazia aquilo, Faye sorria, pois, ao mesmo tempo que Jack pronunciava aquelas palavras, os seus olhares costumavam encontrar-se. Era mais uma das incontáveis coisas que haviam partilhado, e ainda partilhavam, nas suas vidas. Aqueles olhares familiares, os pequenos momentos irrelevantes e relevantes que construíam uma relação.

Faye afundou-se na cadeira atrás do computador, rodou-a meia-volta e ficou de frente para a janela. A neve caía lá fora e transformava-se em lama na rua, lá bem no fundo. Quando se inclinou para a frente para olhar para baixo, conseguiu ver um carro arrastar-se pela noite escura de Fevereiro. Na rua Banérgatan, o condutor virou o volante e desapareceu na direcção do centro da cidade. Por momentos, esqueceu-se do que fora ali fazer, do motivo pelo qual estava sentada no escritório de Jack. Era demasiado fácil desaparecer na escuridão e deixar-se hipnotizar pelos flocos de neve, que caíam lentamente e perfuravam a negrura.

Faye piscou os olhos, endireitou as costas e virou a cadeira para ficar novamente de frente para o grande monitor da Apple, mexeu no rato, e o ecrã despertou. Perguntou-se o que Jack teria feito com o tapete do rato que ela lhe oferecera pelo Natal, aquele com uma fotografia sua e de Julienne.

Em vez desse, tinha um feio, azul, do banco Nordea. O presente de Natal desse ano para os clientes de private banking.

Sabia a sua palavra-passe. Julienne2010. Pelo menos não tinha o Nordea como protector de ecrã, mantinha a fotografia que lhe tirara, a ela e a Julienne, em Marbella. Estavam deitadas à beira-mar, Faye levantava a filha com os braços esticados, na direcção do céu. Estavam ambas a rir, mas o riso de Faye sentia-se mais do que se via, ali, deitada de costas, com os cabelos a flutuarem à sua volta, na água. Os olhos azuis brilhantes de Julienne olhavam directamente para a câmara, quase atravessavam a lente. Para os olhos igualmente azuis de Jack.

Faye inclinou-se um pouco mais, deixou o olhar percorrer o seu corpo bronzeado e brilhante com a água salgada do mar. Apesar de, na altura, só se terem passado alguns meses desde o parto, estava em melhor forma do que agora. A barriga estava lisa, os braços finos. As coxas magras e firmes. Agora, mais de três anos mais tarde, pesava pelo menos mais dez quilos do que em Espanha. Talvez quinze. Há muito tempo que não tinha coragem de se pesar.

Desviou o olhar do seu próprio corpo no ecrã e abriu o explorador da Internet, acedeu ao histórico de pesquisas e escreveu porn. Ligação atrás de ligação reveladas, apresentadas por data. Faye pôde seguir facilmente as fantasias sexuais de Jack nos últimos meses. Como uma enciclopédia sobre a sua tesão. Uma espécie de «fantasias sexuais para totós».

No dia 26 de Outubro, Jack acedera a dois vídeos. Russian teen gets slammed by big cock e Skinny teen brutally hammered. Dissesse-se o que se quisesse sobre a indústria pornográfica, pelo menos os títulos dos filmes eram esclarecedores. Nada de rodeios. Nenhuma tentativa de embelezar, disfarçar ou mentir sobre o que iria ser disponibilizado ou sobre o que a pessoa em frente ao monitor realmente queria ver. Um diálogo directo, comunicação aberta e sincera.

Jack via pornografia desde que ela o conhecia, e

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