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UMA GAIOLA DE OURO

Camilla Läckberg  

5


Excerto

Julienne dormia, finalmente. O seu cabelo estava espalhado pela almofada cor-de-rosa. A respiração estava calma. Faye acariciou-lhe o rosto cuidadosamente, para não a acordar.

Jack iria regressar da viagem de trabalho a Londres naquela noite. Ou seria Hamburgo? Faye não se recordava. O marido estaria cansado e stressado quando chegasse a casa, mas Faye faria os possíveis para que ele pudesse relaxar adequadamente.

Fechou a porta do quarto lentamente para não acordar Julienne, saiu para o corredor e verificou se a porta da rua estava trancada. Na cozinha, passou com a mão pela bancada. Mármore branco, com três metros de comprimento. Carrara, obviamente. Infelizmente, era tão pouco prático que chegava a ser atroz a forma como o mármore poroso absorvia tudo como uma esponja, até já começara a ficar com manchas feias. Todavia, Jack nem pusera a hipótese de escolher algo mais prático. A cozinha do apartamento na rua Narvavägen custara quase um milhão de coroas, e não se tinham poupado a nenhuma despesa.

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Faye estendeu o braço para uma garrafa de Amarone e colocou um copo de vinho em cima da bancada. Copos de vinho a pousar em lajes de mármore, o gorgolejar de vinho a sair de garrafas — era esse o resumo das noites de Faye em casa, quando Jack estava fora. Serviu o vinho cuidadosamente, de maneira a não ficar com ainda mais manchas de tinto na superfície de mármore branco, e fechou os olhos ao levantar o copo até aos lábios.

Reduziu a intensidade da luz com o dimmer e saiu para o corredor, onde os retratos a preto e branco dela própria, de Jack e de Julienne estavam pendurados. Tirados por Kate Gabor, a fotógrafa não oficial da princesa real, que todos os anos tirava novas fotografias cativantes das crianças reais a brincarem com as folhas de Outono, em roupas imaculadamente brancas. Faye e Jack tinham optado por tirar retratos de Verão. Relaxadamente divertidos, à beira-mar. Julienne, no meio dos dois, com os cabelos louros a flutuarem ao vento. Roupas brancas, evidentemente. Ela própria com um vestido de algodão simples Armani, Jack em camisa e calças arregaçadas Hugo Boss, Julienne com um vestido de renda da mais recente colecção infantil de Stella McCartney. Tinham acabado de discutir, antes de tirarem as fotografias. Faye não se recordava do motivo da discussão, sabia apenas que a culpa fora dela. Porém, nada relativo à discórdia anterior era visível nos retratos.

Faye subiu as escadas. Hesitou à porta do escritório de Jack, mas acabou por abri-la. A divisão ficava numa torre, com vista para todas as direcções. Uma planta única, num imóvel único, como o agente imobiliário lhes dissera, quando lhes mostrara o apartamento, havia cinco anos. Na altura, ainda tinha Julienne na barriga e a cabeça cheia de esperanças brilhantes para o futuro.

Faye adorava o quarto da torre. O espaço e a luz que as janelas deixavam entrar davam-lhe a sensação de estar a voar. E, agora que a escuridão estava compacta, lá fora, as paredes abobadadas rodeavam-na como um casulo quente.

Faye decorara o quarto sozinha, tal como o resto do apartamento. Escolhera o papel de parede, as estantes, a secretária, as fotografias e a arte para pendurar nas paredes. E Jack adorava o resultado. Nunca questionava o gosto de Faye e, além disso, ficava sempre extremamente orgulhoso quando os convidados pediam o contacto do decorador que tinham utilizado.

Nesses instantes, Jack deixava Faye brilhar.

Enquanto todas as outras divisões tinham uma decoração moderna, luminosa e arejada, o escritório de Jack era mais masculino. Mais pesado. Faye dedicara mais tempo e esforço a esta divisão, do que ao quarto de bebé de Julienne e ao resto do apartamento em conjunto. Jack iria passar muito tempo ali e tomar muitas decisões importantes que influenciariam o futuro da sua família. O mínimo que ela podia fazer era proporcionar-lhe um santuário, ali em cima, quase a aflorar as nuvens.

Faye acariciou ligeiramente a secretária rústica de Jack, que ela própria comprara num leilão da Bukowski e que, em tempos, pertencera a Ingmar Bergman. Jack não era um grande conhecedor de Bergman, preferia filmes de acção com Jackie Chan ou comédias com Ben Stiller, mas, tal como Faye, gostava quando os móveis tinham uma história.

Quando faziam uma visita guiada aos convidados, pelo apartamento, Jack batia sempre com a palma da mão duas vezes no tampo da mesa e contava, como que por acaso, que o belo móvel, em tempos, fizera parte do lar do cineasta mundialmente famoso. Sempre que fazia aquilo, Faye sorria, pois, ao mesmo tempo que Jack pronunciava aquelas palavras, os seus olhares costumavam encontrar-se. Era mais uma das incontáveis coisas que haviam partilhado, e ainda partilhavam, nas suas vidas. Aqueles olhares familiares, os pequenos momentos irrelevantes e relevantes que construíam uma relação.

Faye afundou-se na cadeira atrás do computador, rodou-a meia-volta e ficou de frente para a janela. A neve caía lá fora e transformava-se em lama na rua, lá bem no fundo. Quando se inclinou para a frente para olhar para baixo, conseguiu ver um carro arrastar-se pela noite escura de Fevereiro. Na rua Banérgatan, o condutor virou o volante e desapareceu na direcção do centro da cidade. Por momentos, esqueceu-se do que fora ali fazer, do motivo pelo qual estava sentada no escritório de Jack. Era demasiado fácil desaparecer na escuridão e deixar-se hipnotizar pelos flocos de neve, que caíam lentamente e perfuravam a negrura.

Faye piscou os olhos, endireitou as costas e virou a cadeira para ficar novamente de frente para o grande monitor da Apple, mexeu no rato, e o ecrã despertou. Perguntou-se o que Jack teria feito com o tapete do rato que ela lhe oferecera pelo Natal, aquele com uma fotografia sua e de Julienne.

Em vez desse, tinha um feio, azul, do banco Nordea. O presente de Natal desse ano para os clientes de private banking.

Sabia a sua palavra-passe. Julienne2010. Pelo menos não tinha o Nordea como protector de ecrã, mantinha a fotografia que lhe tirara, a ela e a Julienne, em Marbella. Estavam deitadas à beira-mar, Faye levantava a filha com os braços esticados, na direcção do céu. Estavam ambas a rir, mas o riso de Faye sentia-se mais do que se via, ali, deitada de costas, com os cabelos a flutuarem à sua volta, na água. Os olhos azuis brilhantes de Julienne olhavam directamente para a câmara, quase atravessavam a lente. Para os olhos igualmente azuis de Jack.

Faye inclinou-se um pouco mais, deixou o olhar percorrer o seu corpo bronzeado e brilhante com a água salgada do mar. Apesar de, na altura, só se terem passado alguns meses desde o parto, estava em melhor forma do que agora. A barriga estava lisa, os braços finos. As coxas magras e firmes. Agora, mais de três anos mais tarde, pesava pelo menos mais dez quilos do que em Espanha. Talvez quinze. Há muito tempo que não tinha coragem de se pesar.

Desviou o olhar do seu próprio corpo no ecrã e abriu o explorador da Internet, acedeu ao histórico de pesquisas e escreveu porn. Ligação atrás de ligação reveladas, apresentadas por data. Faye pôde seguir facilmente as fantasias sexuais de Jack nos últimos meses. Como uma enciclopédia sobre a sua tesão. Uma espécie de «fantasias sexuais para totós».

No dia 26 de Outubro, Jack acedera a dois vídeos. Russian teen gets slammed by big cock e Skinny teen brutally hammered. Dissesse-se o que se quisesse sobre a indústria pornográfica, pelo menos os títulos dos filmes eram esclarecedores. Nada de rodeios. Nenhuma tentativa de embelezar, disfarçar ou mentir sobre o que iria ser disponibilizado ou sobre o que a pessoa em frente ao monitor realmente queria ver. Um diálogo directo, comunicação aberta e sincera.

Jack via pornografia desde que ela o conhecia, e ela própria também via, às vezes, quando estava sozinha. Faye desprezava as amigas que afirmavam que jamais passaria pela cabeça dos seus maridos verem filmes pornográficos. Que bloqueio mental tão óbvio.

Anteriormente, Jack nunca deixara o consumo de pornografia afectar a vida sexual dos dois enquanto casal. Nunca fora uma situação de «ou uma coisa ou outra». Porém, agora já não procurava Faye, apesar de continuar a procurar satisfação em Skinny teen brutally hammered.

O nó na barriga de Faye ficava cada vez mais apertado, a cada vídeo que via. As raparigas eram jovens, magras e submissas. Jack sempre gostara das mulheres jovens e magras. Não fora ele quem mudara, fora ela. E não seria assim que a maior parte dos homens queria as mulheres? Na zona de Östermalm não havia espaço para envelhecimento e aumentos de peso. Pelo menos, não para as mulheres.

No último mês, Jack vira o mesmo vídeo sete ou oito vezes. Young petite schoolgirl brutally fucked by her teacher. Faye carregou no play. Uma jovem rapariga, com uma minissaia de xadrez, camisa branca, gravata, meias e tranças à Pipi das meias altas, tem problemas na escola. As maiores dificuldades surgem quando vai estudar Biologia. Os pais, preocupados e responsáveis, organizam explicações e deixam a filha sozinha em casa. Alguém toca à campainha. Um homem, à volta dos quarenta anos, vestido com um blazer remendado nos cotovelos e uma pasta debaixo do braço, está à porta. Vão os dois para uma cozinha luminosa. A rapariga vai buscar os livros da escola e abre-os em cima de uma mesa. Fazem uma revisão aos músculos do corpo.

—Quando eu disser o nome de um músculo, tu mostras no teu próprio corpo onde ele está. Achas que consegues? — pergunta o professor, com a voz grave.

A rapariga arregala os olhos, assente com a cabeça e faz beicinho. Consegue apontar dois músculos. Quando ele diz gluteus maximus, o músculo principal das nádegas, ela levanta ligeiramente a saia, de maneira que a borda das cuecas fique visível na imagem, e aponta para a parte exterior da virilha. O professor abana a cabeça com um sorriso.

—Levanta-te para eu te mostrar ­— diz-lhe.

A rapariga afasta a cadeira e levanta-se. O professor, com a sua grande mão, percorre-lhe a perna desde a dobra do joelho, subindo, por baixo da saia. Levanta-lhe a saia ainda mais e empurra as cuecas para o lado. Insere um dedo. A rapariga geme. Um supergemido perfeitamente pornográfico. Mas ainda com uma sugestão de inocência assustada e um certo sentimento de culpa. Uma admissão face ao espectador de que sabe que não devia. Que é proibido. Mas que não consegue evitar. Que a tentação é demasiado grande para conseguir resistir.

O professor penetra-a com o dedo algumas vezes. Debruça-a de seguida sobre a mesa e fode-a. Ela grita, geme, arranha a mesa. Pede mais. A cena termina com o professor a pedir para a rapariga voltar a pôr os óculos, que tinham caído durante o espectáculo, antes de se vir na sua cara. Com a cara distorcida pelo prazer e com a boca entreaberta, a estudante recebe o esperma.

Em mais lado nenhum para além dos filmes pornográficos transparece com tanta clareza o elevado grau de importância que os homens atribuem ao seu próprio esperma. É como um bem valioso, distribuído a mulheres langorosas e devotas, de boca entreaberta, sempre de boca entreaberta, como se fosse uma dádiva.

Faye desligou o computador com alguns cliques no rato contra o tapete feio do banco Nordea. Se era aquilo que Jack queria, era aquilo que iria ter.

Empurrou a cadeira para trás, que rangeu relutantemente, e levantou-se. Já era noite cerrada lá fora. A ligeira precipitação de neve cessara. Faye pegou no copo de vinho e saiu do escritório.

O seu closet tinha tudo o que era necessário. Faye olhou para o relógio, eram nove e meia. O avião de Jack estava prestes a aterrar, daí a pouco ele estaria sentado num táxi. Evidentemente, Jack tinha acesso ao serviço VIP do aeroporto, por isso não levaria muito tempo até sair de lá.

Tomou um duche rápido e depilou os poucos pêlos púbicos que tinham crescido. Lavou todo o corpo e maquilhou-se, não da forma habitual, mas mais desleixada, mais juvenil. Esborratou as bochechas com blush, exagerou no rímel e, em jeito de cereja no topo do bolo, pintou os lábios com um batom cor-de-rosa-brilhante, que encontrou no fundo da gaveta de maquilhagem e que provavelmente teria recebido como brinde em algum evento.

Jack não iria tê-la a ela — não a Faye, sua esposa, mãe da sua filha —, mas alguém mais jovem e inocente, alguém intocado. Era disso que ele precisava.

Escolheu uma das gravatas cinzentas mais finas de Jack e atou-a com um nó descuidado. Pôs uns óculos de leitura que ele tinha vergonha de usar à frente de outras pessoas e que escondia numa gaveta, quando recebiam visitas. Rectangulares, pretos, Dolce & Gabanna. Faye observou o resultado ao espelho. Parecia dez anos mais nova. Quase como fora, quando deixara Fjällbacka.

Não era esposa de ninguém. Não era mãe de ninguém. Estava perfeita.

Faye entrou sorrateiramente no quarto de Julienne, para ir buscar um dos seus cadernos e uma caneta com penas cor-de-rosa na ponta. Deteve-se ao ouvir Julienne murmurar no sono. Estaria a acordar? Não. Passados alguns segundos, ouviu-a respirar calmamente outra vez.

Foi até à cozinha para voltar a encher o copo de vinho, mas deteve-se e abriu uma gaveta com os copos de plástico de Julienne. Serviu o vinho tinto num grande copo da Hello Kitty, com tampa e palhinha de plástico incluída. Perfeito.

Quando a chave rodou no trinco da porta da rua, Faye estava sentada a folhear a revista The Economist, que Jack insistia em ter à vista. Ela era a única na família que realmente lia a publicação.

Jack pousou a mala de viagem no chão, descalçou os sapatos e enfiou as armações de madeira de cedro que eram necessárias para que os seus sapatos italianos de couro macio, cosidos à mão, mantivessem a sua forma perfeita. Faye manteve-se quieta. Ao contrário do seu habitual e discreto brilho labial da Lancôme, este batom cor-de-rosa colava-se aos lábios e tinha um cheiro ligeiramente sintético.

Jack abriu a porta do frigorífico cuidadosamente. Continuava sem a ter visto. Movia-se em silêncio, provavelmente convencido de que tanto ela como Julienne estariam a dormir.

Faye observou-o a partir do seu lugar na escuridão da sala de estar. Como um estranho a olhar através de uma janela, podia estudar o marido, sem ele saber que estava a ser observado. Noutros casos, Jack estava sempre tenso. Agora, quando pensava que ninguém o via, movia-se de maneira diferente. Relaxadamente, quase de forma descuidada. O corpo, normalmente tão altivo, estava ligeiramente descaído, não muito, mas o suficiente para que Faye, que o conhecia tão bem, conseguisse perceber a diferença. A sua cara estava mais suave, sem aquela ruga de preocupação constante que agora tinha tantas vezes, mesmo em contextos sociais que estavam tão intimamente ligados à sua carreira, às suas vidas, onde as gargalhadas e o tilintar de copos se podiam traduzir imediatamente em negócios de milhões no dia seguinte.

Faye recordava-se de como Jack fora em jovem, quando se haviam conhecido pela primeira vez. O olhar provocador, o riso alegre, as mãos que tinham de tocar nela constantemente, que nunca se cansavam dela.

A luz do interior do frigorífico iluminou-lhe o rosto, e Faye não conseguia tirar os olhos de Jack. Amava-o. Adorava as suas costas largas. Adorava as suas grandes mãos que agora seguravam no pacote de sumo e o levavam à boca. Daí a pouco estariam no corpo dela, dentro dela. Meu Deus, como ela o desejava.

Talvez o desejo tivesse feito que o seu corpo se movesse, pois, de repente, Jack virou a cara para a porta brilhante do forno e viu o reflexo de Faye. Sobressaltou-se e deu meia-volta. Continuava com o pacote de sumo na mão, a meio caminho da boca.

Pousou-o na ilha da cozinha.

—Estás acordada? — perguntou-lhe, surpreendido. A ruga entre as sobrancelhas bem arranjadas estava de volta.

Faye não respondeu, limitou-se a levantar-se e deu alguns passos na direcção dele. Os olhos de Jack percorriam todo o seu corpo. Havia muito tempo que não olhava para ela daquela maneira.

—Anda cá ­— disse Faye suavemente, com a voz doce.

Jack fechou a porta do frigorífico, e a cozinha ficou novamente às escuras. Contudo, as luzes da cidade, lá fora, iluminavam o espaço suficientemente para que se pudessem ver um ao outro. Jack contornou a ilha da cozinha, limpou a boca com as costas da mão e inclinou-se para a frente, para a beijar. Mas Faye virou a cara e empurrou-o para uma cadeira. Agora era ela quem decidia. Quando ele estendeu a mão para a sua saia, deu-lhe uma palmada, mas apenas para a colocar na dobra do joelho imediatamente a seguir. Levantou a saia até ele conseguir ver as cuecas de renda, na esperança de que as reconhecesse, na esperança de que ele visse que eram iguais. Às dela. A rapariga da escola. A inocente.

A mão de Jack continuou a subir, e Faye não conseguiu evitar deixar escapar um gemido. Em vez de fazer como no filme e de empurrar as cuecas para o lado, Jack rasgou-as. Faye gemeu novamente, mais alto desta vez, debruçou-se sobre a mesa, arqueou as costas enquanto ele desapertava as calças e, num só movimento, as despiu juntamente com os boxers. Jack agarrou-a pelo cabelo e empurrou-a contra o tampo da mesa. Inclinou-se sobre ela com todo o seu peso, mordiscou-lhe o pescoço com dentadas fortes, e Faye conseguiu sentir o cheiro do sumo de laranja misturado com o whiskey do voo. Jack afastou-lhe as pernas com as suas, em movimentos bruscos, pôs-se de pé atrás dela e penetrou-a.

Jack fodeu-a com força e agressividade, e, a cada penetração, o canto do tampo da mesa golpeava a barriga de Faye. Estava a magoá-la ligeiramente, mas a dor era uma libertação, fazia que esquecesse tudo o resto para poder concentrar-se apenas no prazer.

Ela era dele. O seu prazer era dele. O seu corpo era dele.

—Avisa-me quando te estiveres quase a vir — gemeu Faye, com a cara contra a superfície da mesa despida, onde o batom deixara manchas pegajosas.

—Agora — arfou Jack.

Faye colocou-se de joelhos à frente dele. Jack estava ofegante e empurrou o pénis para dentro da sua boca aberta. Agarrou-lhe a parte de trás da cabeça com as duas mãos e pressionou-a contra si. Faye lutou contra o reflexo de vómito, tentou não virar a cabeça. Apenas aceitar. Sempre apenas aceitar.

Faye visualizava a cena do filme pornográfico e, quando Jack se veio, apreciou ver a mesma expressão na sua cara que o professor fizera quando subjugara a jovem inocente.

—Bem-vindo a casa, amor — disse-lhe, com um sorriso forçado.

Foi uma das últimas vezes que tiveram relações sexuais enquanto casados.

Estocolmo, Verão de 2001

As primeiras semanas em Estocolmo haviam sido solitárias. Dois anos depois de acabar o liceu, deixei Fjällbacka para trás. Tanto a nível mental como fisicamente. Não conseguia afastar-me suficientemente depressa daquela pequena localidade claustrofóbica. Fazia-me sentir asfixiada, com as suas vielas pitorescas e os seus habitantes curiosos, cujos olhares nunca me deixavam em paz. Comigo levava quinze mil coroas e nota máxima a todas as disciplinas.

Preferira ter partido ainda mais cedo. No entanto, levara mais tempo a tratar de todas as coisas práticas do que esperara. Vender a casa, arrumar as coisas, manter à distância todos os fantasmas que se intrometiam.

As memórias eram tão dolorosas… Quando me passeava pela minha casa de infância, via-os a toda a hora, à minha frente: o Sebastian. A minha mãe. E não menos o meu pai. Não havia mais nada para mim em Fjällbacka. Apenas bisbilhotice. E morte.

Ninguém me apoiara naquela altura. Nem agora. Então, fiz a mala e apanhei o comboio para Estocolmo, sem olhar para trás.

E jurei que nunca mais regressaria.

Na estação central de Estocolmo, parei junto a um cesto de papéis, abri o telemóvel e deitei o cartão SIM para o lixo.

Agora nenhuma sombra do passado me poderia alcançar. Ninguém poderia ameaçar-me e perseguir-me.

Aluguei um quarto durante o Verão, num apartamento que ficava no mesmo edifício que o Fältöversten, o centro comercial horroroso a que os habitantes do bairro de Östermalm torcem o nariz, enquanto murmuram que «a culpa foi dos socialistas, não descansaram enquanto não estragaram o nosso belo Östermalm». Mas sobre essas coisas eu não sabia nada, nessa altura. Estava habituada à loja de conveniência Ica Hedemyrs de Tanumshede e achava que o Fältöversten era mesmo glamoroso.

Adorei Estocolmo desde o primeiro momento. Da janela do sétimo andar, olhava para as belas fachadas dos edifícios à volta, para os parques frondosos, os carros bonitos, e pensava que um dia iria viver numa daquelas casas imponentes do século XIX, com marido, três filhos perfeitos e um cão.

O meu marido ia ser artista. Ou escritor. Ou músico. O mais diferente possível do meu pai. Sofisticado, intelectual e civilizado. Ia cheirar bem e vestir-se com elegância. Seria uma pessoa um pouco difícil para os outros, mas nunca para mim, porque eu seria a única pessoa que o compreenderia.

Naquelas primeiras noites claras e longas, dava grandes passeios pelas ruas de Estocolmo. Via as cenas de pancada nos becos, quando as esplanadas fechavam. Ouvia os gritos, os choros, os risos. Carros de emergência que chiavam, a caminho de enfrentar perigos e salvar vidas. Observava com espanto as prostitutas no centro da cidade, com maquilhagem dos anos oitenta e botas altas, a pele cavernosa e os braços cheios de picadas de agulhas, que tentavam esconder por baixo de blusas de mangas compridas ou camisolas. Pedia-lhes cigarros e fantasiava sobre as vidas delas. A liberdade de já estar no fundo. Sem o risco de cair ainda mais profundamente na merda. Brincava com a ideia de eu própria me pôr ali, apenas para perceber o que isso implicava, quem eram os homens que compravam uns instantes de proximidade imunda, nos seus Volvos com cadeiras de criança no assento traseiro e fraldas extra e toalhetes no porta-luvas.

Foi durante este período que a vida começou de verdade. Tinha o passado preso como uma corrente à volta dos pés. Puxava-me para baixo, incomodava-me, restringia-me. Contudo, cada célula do meu corpo vibrava de curiosidade. Era eu contra o mundo. Longe de casa, numa cidade com a qual sonhara toda a vida. Não ansiara apenas por partir. Ansiara por chegar. Lentamente, transformei Estocolmo na minha cidade. Ela dava-me esperança de conseguir cicatrizar e esquecer.

No início de Julho, a minha senhoria, uma professora reformada, foi de viagem até Norrland para visitar os netos.

—Nada de visitas — disse autoritariamente, antes de fechar a porta.

—Nada de visitas — repeti, obedientemente.

Nessa noite, maquilhei-me e bebi o álcool dela. Gin e whiskey. Licor Kirsberry e Amarula. Sabia terrivelmente mal, mas não fazia diferença, era a intoxicação que eu queria alcançar, a embriaguez que prometia esquecimento e se espalhava como um calor pelo corpo.

Depois de beber até me sentir corajosa, vesti um vestido de algodão e fui a pé até à praça Stureplan. Depois de alguma hesitação, sentei-me numa esplanada que parecia agradável. Caras conhecidas que até então só tinha visto na televisão passavam por mim. A rir, embriagadas. Pelo álcool e pelo Verão.

Por volta da meia-noite, pus-me numa fila para uma dis­coteca do outro lado da rua. A atmosfera era de impaciência, e não tinha a certeza se ia conseguir entrar. Tentei imitar as outras pessoas. Comportar-me como elas, mesmo tendo mais tarde percebido que também deviam ser turistas. Tão perdidos quanto eu, mas com coragem fingida.

Ouvi gargalhadas atrás de mim. Dois rapazes da minha idade contornaram a fila e aproximaram-se dos seguranças. Um assentir de cabeças e apertos de mãos. Todos os olhares estavam postos neles, invejosos e fascinados. Horas de preparativos e risinhos, à volta de copos de rosé, para depois sentir o frio nas pernas atrás de uma corda. Quando podia ser assim tão simples. Se apenas se fosse alguém.

Ao contrário de mim, estes rapazes eram pessoas visíveis, respeitadas e que pertenciam ali. Eram Alguém. Ali, naquele momento, decidi que eu também ia ser alguém.

Nesse preciso momento, um dos rapazes virou-se e observou com curiosidade a massa de pessoas que acabavam de passar. Os nossos olhares cruzaram-se.

Eu desviei o olhar, comecei a remexer a mala, à procura de um cigarro. Não queria parecer estúpida, não queria parecer aquilo que era: a rapariga da província, na sua primeira saída à noite na capital. Embriagada de gin e Amarula roubados. Mas, no momento a seguir, ele estava à minha frente. Tinha o cabelo rapado, os olhos azuis e simpáticos. Orelhas ligeiramente proeminentes. Estava vestido com uma camisa bege e calças de ganga escuras.

—Como te chamas?

—Matilda — respondi-lhe.

O nome que eu detestava. O nome que pertencia a outra vida, a outra pessoa. Alguém que já não era eu. Alguém que eu deixara para trás, ao entrar no comboio para Estocolmo.

—Eu chamo-me Viktor. Estás aqui sozinha?

Não lhe respondi.

—Vai lá para a frente e fica ao pé do segurança — disse o Viktor.

—Não estou na lista — murmurei.

—Eu também não.

Um sorriso cintilante. Saí da fila. Recebi olhares ansiosos e invejosos das raparigas, com roupa demasiado curta, e dos rapazes, com demasiado gel no cabelo.

—Ela está comigo.

O monte de músculos que estava à porta levantou a corda e disse:

—Bem-vinda!

No meio da multidão, Viktor pegou na minha mão e levou-nos ainda mais para a escuridão. Sombras humanas, luzes tremeluzentes de várias cores, batimentos vibrantes de baixos, corpos entrelaçados, dança. Parámos ao fundo de um bar comprido, e o Viktor cumprimentou o barman.

—O que queres beber? — perguntou-me.

Com um sabor persistente e enjoativo a licor ainda na boca, respondi-lhe:

—Cerveja.

—Óptimo, gosto de raparigas que bebem cerveja. É classe.

—Classe?

—Sim. É fixe. Mesmo.

Passou-me uma Heineken. Levantou a garrafa dele num brinde. Eu sorri-lhe e bebi um gole.

—Quais são os teus sonhos na vida, Matilda?

—Ser alguém — respondi-lhe. Sem pensar duas vezes.

—Mas tu já és alguém, ou não?

—Outra pessoa.

—Não acho que haja alguma coisa de mal contigo.

O Viktor deu alguns passos de dança para o lado, abanou a cabeça ao ritmo da música.

—E tu, com que sonhas?

—Eu? Eu só quero tocar música.

—És músico?

Tive de me inclinar para a frente e de levantar a voz para me fazer ouvir.

—Sou DJ. Mas hoje estou de folga. Amanhã vou pôr som. E então vou estar ali em cima.

Segui o dedo dele. Num pequeno palco junto a uma das paredes, atrás de um gira-discos, estava o rapaz com quem o Viktor tinha vindo, a curtir ao som da música. Passado algum tempo, veio ter connosco. Apresentou-se como Axel, parecia simpático e inofensivo.

—Prazer em conhecer-te, Matilda — disse e esticou a mão.

Pensei em quão diferentes eram dos rapazes da minha região. Polidos. Eloquentes. O Axel pediu uma bebida e desapareceu. Eu e o Viktor brindámos outra vez. A minha cerveja estava quase no fim.

—Amanhã, antes da actuação, vamos fazer uma festa com alguns amigos. Não queres lá passar?

—Talvez — respondi-lhe e olhei para ele, pensativa. — Porque querias que entrasse aqui contigo?

Bebi ostensivamente o que restava da minha garrafa de cerveja. Tinha esperança de que ele pedisse mais. O que ele fez. Uma para mim e outra para ele. E depois respondeu à minha pergunta. Os seus olhos azuis brilhavam no escuro.

—Porque és querida. E parecias sozinha. Estás arrependida?

—Não, nada disso.

Tirou um pacote de Marlboro do bolso de trás das calças e ofereceu-me um cigarro. Eu não me importava nada que me oferecessem, assim os meus duravam mais tempo. Já não restava muito das quinze mil coroas que tinham sobrado da venda da casa, depois do empréstimo e de tudo o resto estar pago.

As nossas mãos tocaram-se quando ele acendeu o meu cigarro. A mão dele era grande e estava bronzeada. Senti falta do toque dele assim que desapareceu.

—Tens um olhar triste, sabes? — perguntou-me e deu uma passa profunda no cigarro.

—O que queres dizer com isso?

—Que parece haver uma tristeza dentro de ti. Acho bonito. As pessoas que estão sempre felizes aborrecem-me. Não fomos feitos para estarmos constantemente felizes, se fosse assim o mundo parava.

Não lhe respondi, fiquei na dúvida sobre se ele estava a gozar comigo ou não.

De repente, senti a cabeça às voltas do álcool. Decidi levar uma lembrança daquela noite, inclinei-me para a frente, pus a mão na nuca dele e puxei-o para mim. Um gesto que me deve ter feito parecer mais autoconfiante do que realmente estava. Os nossos lábios encontraram-se. Ele sabia a cerveja e a Marlboro e beijava bem. Suave mas intensamente.

—Vamos para minha casa? — perguntou-me.

Jack estava sentado à mesa da cozinha, com o seu robe azul-escuro, a ler o jornal Dagens Industri. Nem levantou o olhar quando Faye entrou na cozinha, mas ela já estava habituada a isso quando ele estava stressado. E, tendo em conta toda a responsabilidade que tinha no trabalho e todas as horas que passava no escritório, merecia ser deixado em paz nas manhãs de fim-de-semana.

O andar de quatrocentos metros quadrados, que era o resultado da junção de quatro apartamentos, parecia claustrofóbico quando Jack precisava de estar em paz. Faye ainda não sabia como se deveria comportar nesses dias.

No carro, no caminho de regresso de Lidingö, onde Julienne ficara a brincar com uma amiga do infantário, Faye imaginara como ela e Jack passariam a manhã juntos. Apenas os dois. Iam enfiar-se na cama, ver algum programa de televisão que podiam condenar em conjunto pela sua estupidez e vulgaridade. Queria que Jack lhe falasse sobre a sua semana. Dar um passeio por Djurgården de mãos dadas.

Conversar como tinham feito antigamente.

Faye arrumou os restos do seu pequeno-almoço e do de Julienne. Os flocos de cereais tinham amolecido no iogurte líquido. Detestava a sensação dos flocos molhados e do cheiro a azedo e teve de reprimir um vómito ao limpá-los com o pano.

Havia migalhas de pão espalhadas pela ilha da cozinha e, na borda, numa luta contra a lei da gravidade, uma sandes por acabar em equilíbrio precário. A única coisa que a mantinha ali era o facto de estar com o lado da manteiga para baixo.

—Podes pelo menos tentar arrumar as coisas, antes de saíres de casa? — perguntou Jack, sem tirar os olhos do jornal. — Ou agora até aos fins-de-semana vamos precisar de serviços de limpeza?

—Desculpa — Faye tentou engolir o nó que tinha na g­arganta e passou uma esponja ...