Loading...

EM TUDO HAVIA BELEZA

Manuel Vilas  

5


Excerto

1

Oxalá fosse possível medir a dor humana com números claros e não com palavras incertas. Oxalá houvesse maneira de saber o quanto sofremos, e a dor tivesse matéria e medição. Todo o homem acaba, mais dia menos dia, por enfrentar a insignificância da sua passagem pelo mundo. Há seres humanos capazes de o suportar, eu jamais o suportarei.

Nunca o suportei.

Olhava para a cidade de Madrid, e a irrealidade das suas ruas e das suas casas e dos seus seres humanos enchia-me o corpo de chagas.

Fui um pobre diabo.

Não entendi a vida.

As conversas com outros seres humanos tornaram-se aborrecidas, lentas, nocivas.

Custava-me falar com os outros: via a inutilidade de todas as conversas humanas que existiram e existirão. Via o esquecimento das conversas quando estas ainda estavam presentes.

A queda antes da queda.

A vaidade das conversas, a vaidade daquele que fala, a vaidade daquele que responde. As vaidades postas de acordo, para que o mundo possa existir.

Foi então que voltei a pensar no meu pai. Porque pensei que as conversas que tivera com o meu pai eram a única coisa que valia a pena. Regressei a essas conversas, à espera de alcançar um momento de descanso no meio do desvanecimento geral de todas as coisas.

Achei que o meu cérebro estaria fossilizado, não seria capaz de resolver operações cerebrais simples. Somava as matrículas dos carros, e essas operações matemáticas precipitavam-me numa profunda tristeza. Cometia erros no momento de falar espanhol. Demorava a articular uma frase, ficava em silêncio, e o meu interlocutor olhava para mim com pena ou desdém, e era ele quem terminava a minha frase.

Gaguejava, e repetia mil vezes a mesma oração. Talvez houvesse beleza nessa disfemia emocional. Pedi contas ao meu pai. Não parava de pensar na vida do meu pai. Tentava encontrar na sua vida uma explicação para a minha. Tor-nei-me um ser aterrorizado e visionário.

Olhava-me ao espelho e via, não o meu envelhecimento, mas o envelhecimento do outro ser que já estivera neste mundo. Via o envelhecimento do meu pai. Conseguia assim recordá-lo perfeitamente, bastava olhar-me ao espelho e lá aparecia ele, como numa liturgia desconhecida, como numa cerimónia xamânica, como numa ordem teológica invertida.

Não havia nenhuma alegria nem nenhuma felicidade no reencontro com o meu pai no espelho, antes uma nova volta de porca na dor, mais um grau na descida, na hipotermia de dois cadáveres à conversa.

Vejo o que não foi feito para a visibilidade, vejo a morte em extensão e em fundamentação da matéria, vejo a insignificância global de todas as coisas. Estava a ler Teresa de Ávila, e a essa mulher aconteciam coisas parecidas com as que me acontecem. Ela chamava-as de uma maneira, eu de outra.

Pus-me a escrever, só escrevendo podia dar vazão a tantas mensagens obscuras que surgiam dos corpos humanos, das ruas, das cidades, da política, dos meios de comunicação, do que somos.

O grande fantasma do que somos: uma construção arredada da natureza. O grande fantasma tem sucesso: a humanidade está convencida da sua existência. É aí que começam os meus problemas.

Houve no ano 2015 uma tristeza que caminhou pelo planeta inteiro e entrou nas sociedades humanas como se fosse um vírus.

Fiz uma TAC ao cérebro. Consultei um neurologista. Era um homem corpulento, calvo, de unhas cuidadas, com uma gravata debaixo da bata branca. Fez-me uns exames. Disse-me que não havia nada de estranho na minha cabeça. Que estava tudo bem.

E comecei a escrever este livro.

Pensei que o estado da minha alma era uma vaga recordação de algo que aconteceu num lugar do Norte de Espanha chamado Ordesa, um lugar repleto de montanhas, e era uma recordação amarela, a cor amarela invadia o nome de Ordesa, e por trás de Ordesa desenhava-se a figura do meu pai num Verão de 1969.

Um estado mental que é um lugar: Ordesa. E também uma cor: o amarelo.

Tudo se fez amarelo. Quando as coisas e os seres humanos se tornam amarelos, significa que alcançaram a inconsistência, ou o rancor.

A dor é amarela, quero eu dizer.

Escrevo estas palavras a 9 de Maio de 2015. Há setenta anos, a Alemanha assinava a sua rendição incondicional. Num par de dias, as fotografias de Hitler seriam substituídas pelas fotografias de Estaline.

A História é também um corpo com remorsos. Tenho cinquenta e dois anos e sou a história de mim mesmo.

Os meus dois filhos entram em casa neste preciso momento, foram jogar pádel. Já faz um calor terrível. A insistência do calor, a sua vinda constante sobre os homens, sobre o planeta.

E o crescimento do calor sobre a humanidade. Não são apenas as alterações climáticas, é uma espécie de lembrete da História, uma espécie de vingança dos mitos antigos sobre os mitos novos. As alterações climáticas não são senão uma actualização do apocalipse. Agrada-nos o apocalipse. Trazemo-lo nos genes.

O apartamento em que vivo está sujo, cheio de pó. Tentei limpá-lo várias vezes, mas é impossível. Nunca soube limpar, e não porque me faltasse o interesse. Talvez haja em mim um qualquer resíduo genético que me aparenta com a aristocracia. Coisa que me parece bastante improvável.

Vivo na Avenida de Ranillas, numa cidade do Norte de Espanha cujo nome não recordo neste momento: aqui só há pó, calor e formigas. Há tempos, tive uma praga de formigas e matei-as com o aspirador: centenas de formigas aspiradas, senti-me um genocida legítimo. Olho para a frigideira que está na cozinha. A gordura pegada à frigideira. Tenho de a esfregar. Não sei o que darei de comer aos meus filhos. A banalidade da refeição. Da janela vê-se um templo católico, a receber impávido a luz do Sol, o seu fogo ateu. O fogo do Sol que Deus envia directamente sobre a Terra como se fosse uma bola negra, suja, miserável, como se fosse podridão, lixo. Não vêem o lixo do Sol?

Não há gente nas ruas. Onde eu vivo não há ruas, mas passeios vazios, cheios de terra e gafanhotos mortos. As pessoas foram de férias. Estão a aproveitar a água do mar nas praias. Os gafanhotos mortos também formaram famílias e tiveram feriados, dias de Natal e festas de aniversário. Somos todos pobre gente, metidos no túnel da existência. A existência é uma categoria moral. Existir obriga-nos a fazer, a fazer coisas, o que seja.

Se de algo me dei conta na vida foi que todos os homens e mulheres são uma única existência. Essa única existência terá um dia representação política e, nesse dia, daremos um passo em frente. Eu não o verei. Há tantas coisas que não verei e que estou a ver neste preciso momento.

Sempre vi coisas.

Sempre os mortos falaram comigo.

Vi tantas coisas, que o futuro acabou por falar comigo como se fôssemos vizinhos ou amigos até.

Estou a falar desses seres, dos fantasmas, dos mortos, dos meus pais mortos, do amor que senti por eles, desse amor que não se vai embora.

Ninguém sabe o que é o amor.

2

Depois do meu divórcio (acontecido há um ano, embora nunca se saiba muito bem o momento, pois não é uma data, mas um processo, embora oficialmente seja uma data; para efeitos judiciais talvez seja um dia concreto; em qualquer caso, haveria que ter em conta muitas datas significativas: a primeira vez em que se pensa nisso, a segunda vez, o amontoar das vezes, a próspera aquisição de factos repletos de desavenças e discussões e tristezas que vão sustentando o que se pensou, e por fim a saída de casa, e essa saída é porventura o que precipita a cascata de acontecimentos que acabam num taxativo acontecimento judicial, que parece o fim do ponto de vista legal; pois o ponto de vista legal é quase uma bússola no despenhadeiro, uma ciência, de vez em quando precisamos de uma ciência que confira racionalidade, um princípio de certeza), transformei-me no homem que tinha sido muitos anos antes, ou seja, tive de comprar uma esfregona e uma vassoura, e produtos de limpeza, muitos produtos de limpeza.

O porteiro do bloco de apartamentos estava à porta. Estivemos um bocadinho à conversa. Algo relacionado com um jogo de futebol. Eu também penso na vida das pessoas. O porteiro é de raça oriental, embora a sua nacionalidade seja equatoriana. Está há muito tempo em Espanha, não se lembra do Equador. Eu sei que, no fundo, inveja o meu apartamento. Por muito mal que nos corra a vida, há sempre alguém que nos inveja. É uma espécie de sarcasmo cósmico.

O meu filho ajudou-me a limpar a casa. Havia um monte de correspondência amontoada, cheia de pó. Pegava-se num envelope e notava-se aquela sensação sebenta que o pó deixa, quase ao ponto de ser terra, nas polpas dos dedos.

Havia desbotadas cartas de amor antigo, inocentes e ternas cartas de juventude, as cartas da mãe do meu filho e de quem foi minha mulher. Disse ao meu filho para pôr tudo na caixa de recordações. Também lá pusemos fotografias do meu pai e uma carteira da minha mãe. Uma espécie de cemitério da memória. Não quis, ou não pude, demorar o olhar diante desses objectos. Toquei neles com amor, e com dor.

Não sabes o que fazer a todas estas coisas, não é?, disse-me o meu filho.

Seja o primeiro a receber histórias como esta