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EM TUDO HAVIA BELEZA

Manuel Vilas  

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Excerto

1

Oxalá fosse possível medir a dor humana com números claros e não com palavras incertas. Oxalá houvesse maneira de saber o quanto sofremos, e a dor tivesse matéria e medição. Todo o homem acaba, mais dia menos dia, por enfrentar a insignificância da sua passagem pelo mundo. Há seres humanos capazes de o suportar, eu jamais o suportarei.

Nunca o suportei.

Olhava para a cidade de Madrid, e a irrealidade das suas ruas e das suas casas e dos seus seres humanos enchia-me o corpo de chagas.

Fui um pobre diabo.

Não entendi a vida.

As conversas com outros seres humanos tornaram-se aborrecidas, lentas, nocivas.

Custava-me falar com os outros: via a inutilidade de todas as conversas humanas que existiram e existirão. Via o esquecimento das conversas quando estas ainda estavam presentes.

A queda antes da queda.

A vaidade das conversas, a vaidade daquele que fala, a vaidade daquele que responde. As vaidades postas de acordo, para que o mundo possa existir.

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Foi então que voltei a pensar no meu pai. Porque pensei que as conversas que tivera com o meu pai eram a única coisa que valia a pena. Regressei a essas conversas, à espera de alcançar um momento de descanso no meio do desvanecimento geral de todas as coisas.

Achei que o meu cérebro estaria fossilizado, não seria capaz de resolver operações cerebrais simples. Somava as matrículas dos carros, e essas operações matemáticas precipitavam-me numa profunda tristeza. Cometia erros no momento de falar espanhol. Demorava a articular uma frase, ficava em silêncio, e o meu interlocutor olhava para mim com pena ou desdém, e era ele quem terminava a minha frase.

Gaguejava, e repetia mil vezes a mesma oração. Talvez houvesse beleza nessa disfemia emocional. Pedi contas ao meu pai. Não parava de pensar na vida do meu pai. Tentava encontrar na sua vida uma explicação para a minha. Tor-nei-me um ser aterrorizado e visionário.

Olhava-me ao espelho e via, não o meu envelhecimento, mas o envelhecimento do outro ser que já estivera neste mundo. Via o envelhecimento do meu pai. Conseguia assim recordá-lo perfeitamente, bastava olhar-me ao espelho e lá aparecia ele, como numa liturgia desconhecida, como numa cerimónia xamânica, como numa ordem teológica invertida.

Não havia nenhuma alegria nem nenhuma felicidade no reencontro com o meu pai no espelho, antes uma nova volta de porca na dor, mais um grau na descida, na hipotermia de dois cadáveres à conversa.

Vejo o que não foi feito para a visibilidade, vejo a morte em extensão e em fundamentação da matéria, vejo a insignificância global de todas as coisas. Estava a ler Teresa de Ávila, e a essa mulher aconteciam coisas parecidas com as que me acontecem. Ela chamava-as de uma maneira, eu de outra.

Pus-me a escrever, só escrevendo podia dar vazão a tantas mensagens obscuras que surgiam dos corpos humanos, das ruas, das cidades, da política, dos meios de comunicação, do que somos.

O grande fantasma do que somos: uma construção arredada da natureza. O grande fantasma tem sucesso: a humanidade está convencida da sua existência. É aí que começam os meus problemas.

Houve no ano 2015 uma tristeza que caminhou pelo planeta inteiro e entrou nas sociedades humanas como se fosse um vírus.

Fiz uma TAC ao cérebro. Consultei um neurologista. Era um homem corpulento, calvo, de unhas cuidadas, com uma gravata debaixo da bata branca. Fez-me uns exames. Disse-me que não havia nada de estranho na minha cabeça. Que estava tudo bem.

E comecei a escrever este livro.

Pensei que o estado da minha alma era uma vaga recordação de algo que aconteceu num lugar do Norte de Espanha chamado Ordesa, um lugar repleto de montanhas, e era uma recordação amarela, a cor amarela invadia o nome de Ordesa, e por trás de Ordesa desenhava-se a figura do meu pai num Verão de 1969.

Um estado mental que é um lugar: Ordesa. E também uma cor: o amarelo.

Tudo se fez amarelo. Quando as coisas e os seres humanos se tornam amarelos, significa que alcançaram a inconsistência, ou o rancor.

A dor é amarela, quero eu dizer.

Escrevo estas palavras a 9 de Maio de 2015. Há setenta anos, a Alemanha assinava a sua rendição incondicional. Num par de dias, as fotografias de Hitler seriam substituídas pelas fotografias de Estaline.

A História é também um corpo com remorsos. Tenho cinquenta e dois anos e sou a história de mim mesmo.

Os meus dois filhos entram em casa neste preciso momento, foram jogar pádel. Já faz um calor terrível. A insistência do calor, a sua vinda constante sobre os homens, sobre o planeta.

E o crescimento do calor sobre a humanidade. Não são apenas as alterações climáticas, é uma espécie de lembrete da História, uma espécie de vingança dos mitos antigos sobre os mitos novos. As alterações climáticas não são senão uma actualização do apocalipse. Agrada-nos o apocalipse. Trazemo-lo nos genes.

O apartamento em que vivo está sujo, cheio de pó. Tentei limpá-lo várias vezes, mas é impossível. Nunca soube limpar, e não porque me faltasse o interesse. Talvez haja em mim um qualquer resíduo genético que me aparenta com a aristocracia. Coisa que me parece bastante improvável.

Vivo na Avenida de Ranillas, numa cidade do Norte de Espanha cujo nome não recordo neste momento: aqui só há pó, calor e formigas. Há tempos, tive uma praga de formigas e matei-as com o aspirador: centenas de formigas aspiradas, senti-me um genocida legítimo. Olho para a frigideira que está na cozinha. A gordura pegada à frigideira. Tenho de a esfregar. Não sei o que darei de comer aos meus filhos. A banalidade da refeição. Da janela vê-se um templo católico, a receber impávido a luz do Sol, o seu fogo ateu. O fogo do Sol que Deus envia directamente sobre a Terra como se fosse uma bola negra, suja, miserável, como se fosse podridão, lixo. Não vêem o lixo do Sol?

Não há gente nas ruas. Onde eu vivo não há ruas, mas passeios vazios, cheios de terra e gafanhotos mortos. As pessoas foram de férias. Estão a aproveitar a água do mar nas praias. Os gafanhotos mortos também formaram famílias e tiveram feriados, dias de Natal e festas de aniversário. Somos todos pobre gente, metidos no túnel da existência. A existência é uma categoria moral. Existir obriga-nos a fazer, a fazer coisas, o que seja.

Se de algo me dei conta na vida foi que todos os homens e mulheres são uma única existência. Essa única existência terá um dia representação política e, nesse dia, daremos um passo em frente. Eu não o verei. Há tantas coisas que não verei e que estou a ver neste preciso momento.

Sempre vi coisas.

Sempre os mortos falaram comigo.

Vi tantas coisas, que o futuro acabou por falar comigo como se fôssemos vizinhos ou amigos até.

Estou a falar desses seres, dos fantasmas, dos mortos, dos meus pais mortos, do amor que senti por eles, desse amor que não se vai embora.

Ninguém sabe o que é o amor.

2

Depois do meu divórcio (acontecido há um ano, embora nunca se saiba muito bem o momento, pois não é uma data, mas um processo, embora oficialmente seja uma data; para efeitos judiciais talvez seja um dia concreto; em qualquer caso, haveria que ter em conta muitas datas significativas: a primeira vez em que se pensa nisso, a segunda vez, o amontoar das vezes, a próspera aquisição de factos repletos de desavenças e discussões e tristezas que vão sustentando o que se pensou, e por fim a saída de casa, e essa saída é porventura o que precipita a cascata de acontecimentos que acabam num taxativo acontecimento judicial, que parece o fim do ponto de vista legal; pois o ponto de vista legal é quase uma bússola no despenhadeiro, uma ciência, de vez em quando precisamos de uma ciência que confira racionalidade, um princípio de certeza), transformei-me no homem que tinha sido muitos anos antes, ou seja, tive de comprar uma esfregona e uma vassoura, e produtos de limpeza, muitos produtos de limpeza.

O porteiro do bloco de apartamentos estava à porta. Estivemos um bocadinho à conversa. Algo relacionado com um jogo de futebol. Eu também penso na vida das pessoas. O porteiro é de raça oriental, embora a sua nacionalidade seja equatoriana. Está há muito tempo em Espanha, não se lembra do Equador. Eu sei que, no fundo, inveja o meu apartamento. Por muito mal que nos corra a vida, há sempre alguém que nos inveja. É uma espécie de sarcasmo cósmico.

O meu filho ajudou-me a limpar a casa. Havia um monte de correspondência amontoada, cheia de pó. Pegava-se num envelope e notava-se aquela sensação sebenta que o pó deixa, quase ao ponto de ser terra, nas polpas dos dedos.

Havia desbotadas cartas de amor antigo, inocentes e ternas cartas de juventude, as cartas da mãe do meu filho e de quem foi minha mulher. Disse ao meu filho para pôr tudo na caixa de recordações. Também lá pusemos fotografias do meu pai e uma carteira da minha mãe. Uma espécie de cemitério da memória. Não quis, ou não pude, demorar o olhar diante desses objectos. Toquei neles com amor, e com dor.

Não sabes o que fazer a todas estas coisas, não é?, disse-me o meu filho.

Há mais coisas assim; existem as facturas e os papéis que parecem importantes, como os seguros, e as cartas do banco, disse-lhe eu.

Os bancos arrasam-nos a caixa de correio com cartas deprimentes. Uma série de extractos bancários. As cartas do banco põem-me nervoso. Vêm dizer-nos o que somos. Impelem-nos à reflexão do nosso nulo sentido no mundo.

Pus-me a olhar para os extractos bancários.

Porque é que gostas de ter o ar-condicionado tão forte?, perguntou-me.

Tenho pânico do calor, o meu pai também tinha. Lembras-te do teu avô?

É uma pergunta incómoda, pois o meu filho acha que, com este género de perguntas, procuro algum tipo de vantagem, algum tipo de tratamento benévolo da sua parte.

O meu filho tem capacidade de resolução e de trabalho. Foi exaustivo a ajudar-me na limpeza do meu apartamento.

De repente, pareceu-me que o meu apartamento não valia o dinheiro que estou a pagar por ele. Imagino que tal certeza seja a prova de maturidade mais óbvia de uma inteligência humana sob o peso do capitalismo. Mas é graças ao capitalismo que tenho casa.

Pensei, como sempre, na ruína económica. A vida de um homem é, na sua essência, a tentativa de não cair na ruína económica. Tanto faz aquilo a que se dedica, o grande fracasso é esse. Se não sabemos dar de comer aos nossos filhos, não temos razão nenhuma para existir em sociedade.

Ninguém sabe se é possível viver sem ser socialmente. A estima dos outros acaba por ser a única cédula da nossa existência. A estima é uma moral, molda os valores e o julgamento que existe sobre nós, e a nossa posição no mundo emana desse julgamento. É uma luta entre o corpo, o nosso corpo, onde mora a vida, e o valor do nosso corpo para os outros. Se as pessoas nos cobiçarem, se cobiçarem a nossa presença, a coisa há-de correr-nos bem.

No entanto, a morte — essa sociopata louca — nivela todas as estimas sociais e morais através da corrupção da carne, que continua no activo. Fala-se muito da corrupção política e da corrupção moral, e muito pouco da corrup-ção de um corpo às mãos da morte: da inflamação, da explosão de gases nauseabundos e da transformação do cadáver em hediondez.

O meu pai falava muito pouco da sua mãe. Recordava apenas que cozinhava bem. A minha avó foi-se embora de Barbastro em finais dos anos sessenta e nunca mais voltou. Terá partido por volta de 1969. Foi-se embora com a filha.

Barbastro é a terra em que nasci e onde me criei. Quando nasci, tinha dez mil habitantes. Agora tem dezassete mil. À medida que o tempo vai passando, esta terra tem já a força de um destino cósmico e, ao mesmo tempo, privado.

A esse desejo de transformar o informe numa personagem com forma deram os antigos o nome de «alegoria». Pois o passado tem para quase todos os seres humanos a concretude de uma personagem de romance.

Recordo uma fotografia dos anos cinquenta do meu pai, na qual está dentro do seu Seat 600. Quase não dá para distinguir, mas é ele. É uma fotografia estranha, muito daquela época, com ruas como que recém-aparecidas. Ao fundo há um Renault Ondine e uma roda de mulheres; mulheres de costas, com as suas malas, mulheres que estarão já mortas ou serão idosas. Distingo a cabeça do meu pai dentro do Seat 600 com matrícula de Barcelona. Nunca aludiu a tal facto, ao facto de o seu primeiro Seat 600 ostentar matrícula de Barcelona. Não parece nem Verão nem Inverno. É possível que seja por finais de Setembro ou finais de Maio, algo que calculo pela roupa das mulheres.

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Pouco há a dizer acerca do desmoronamento de todas as coisas que foram. Há que assinalar o meu fascínio pessoal por aquele automóvel, por aquele Seat 600, que foi motivo de alegria para milhões de espanhóis, que foi motivo de esperança ateia e material, que foi motivo de fé no futuro das máquinas pessoais, que foi motivo de viagem, que foi motivo do conhecimento de outros lugares e outras cidades, que foi motivo para pensar nos labirintos da geografia e dos caminhos, que foi motivo para visitar rios e praias, que foi motivo para nos fecharmos dentro de um cubículo separado do mundo.

A matrícula é de Barcelona, e o número é um número perdido: 186.025. Algo restará dessa matrícula algures, e pensar isto é como ter fé.

Consciência de classes é o que nunca nos deve faltar. O meu pai fez o que pôde com Espanha: arranjou um trabalho, trabalhou, formou família e morreu.

E há poucas alternativas a estes factos.

A família é uma forma testada de felicidade. As pessoas que decidem permanecer solteiras, como se demonstra estatisticamente, morrem cedo. E ninguém quer morrer antes da hora. Pois morrer não tem graça nenhuma e é algo antigo. O desejo de morte é um anacronismo. E foi algo que descobrimos há pouco tempo. É uma descoberta última da cultura ocidental: é melhor não morrer.

Aconteça o que acontecer, não morras, sobretudo por uma coisa bem simples de entender: não é necessário. Não é necessário que uma pessoa morra. Antes julgava-se que sim, antes julgava-se que era necessário morrer.

Antes, a vida valia menos. Agora, vale mais. A geração de riquezas, a abundância material, faz com que os esfarrapados históricos (aqueles para quem há décadas tanto fazia estarem vivos como mortos) amem estar vivos.

A classe média espanhola dos anos cinquenta e sessenta transferiu aspirações mais sofisticadas para os seus descendentes.

Nem sequer sei em que ano morreu a minha avó. Talvez tenha sido em 1992 ou 1993, ou em 1999 ou em 2001, ou em 1996 ou em 2000, por aí. A minha tia telefonou com a notícia da morte da mãe do meu pai. O meu pai não falava com a irmã. Deixou uma mensagem no atendedor. Eu ouvi a mensagem. Era para dizer que, embora se dessem mal, partilhavam a mesma mãe. Isso mesmo: tinham a mesma mãe, o que era motivo de aproximação. Fiquei pensativo ao ouvir aquela mensagem, entrava sempre uma luz muito forte na casa dos meus pais que fazia com que os factos perdessem consistência, pois a luz é mais poderosa do que as acções humanas.

O meu pai sentou-se na sua poltrona. Uma poltrona de cor amarela. Não iria ao enterro, foi essa a sua decisão. Ela morrera numa cidade distante, a uns quinhentos quilómetros de Barbastro, a uns quinhentos quilómetros de onde naquele momento o meu pai recebia a notícia da morte da mãe. Abdicou de ir, simplesmente. Não lhe apetecia ir. Conduzir tanto. Nem passar horas metido num autocarro. E ter de procurar esse autocarro.

Tal facto gerou uma catadupa de outros factos. Não me interessa julgar o que aconteceu, antes narrá-lo ou di-zê-lo ou celebrá-lo. A moralidade dos factos é sempre uma construção da cultura. Já os factos, em si mesmos, são seguros. Os factos são natureza, a sua interpretação é política.

O meu pai não foi ao enterro da minha avó. Que relação tinha com a mãe? Não tinha relação nenhuma. Sim, claro, tiveram-na no princípio dos tempos, sei lá, por volta de 1935 ou de 1940, mas essa relação foi-se evaporando, desaparecendo. Acho que o meu pai devia ter ido ao enterro. Não pela sua mãe morta, mas por ele, e também por mim. Ao prescindir daquele enterro, estava a decidir prescindir também da vida em geral.

O supremo mistério é que o meu pai amava a mãe. A razão de não ter ido ao seu enterro alicerça-se no facto de o seu inconsciente rejeitar o corpo morto da mãe. E o seu eu consciente ser alimentado por uma preguiça invencível.

Misturam-se na minha cabeça mil histórias, relacionadas com a pobreza e com a forma como a pobreza acaba por nos envenenar com o sonho da riqueza. Ou como a pobreza engendra imobilismo, falta de vontade de nos enfiarmos num carro e fazermos quinhentos quilómetros.

O capitalismo veio abaixo em Espanha no ano 2008, ficámos perdidos, já não sabíamos a que aspirar. Com a chegada da recessão económica, teve início uma comédia política.

Quase tivemos inveja dos mortos.

O meu pai foi queimado num forno a gasóleo. Nunca manifestou nenhum desejo quanto ao que pretendia que fizéssemos com o seu cadáver. Limitámo-nos a livrar-nos do morto (o corpo jacente, aquilo que tinha sido e não sabíamos agora o que era), como toda a gente faz. Como hão-de fazer comigo. Quando alguém morre, a nossa obsessão é apagar o cadáver do mapa. Extinguir o corpo. Mas porquê tanta pressa? Por causa da corrupção da carne? Não, pois agora há frigoríficos extremamente avançados no depósito de cadáveres. Apavora-nos um cadáver. Apavora-nos o futuro, apavora-nos aquilo em que nos transformaremos. Aterroriza-nos a revisão dos laços que nos uniram àquele cadáver. Assustam-nos os dias passados ao lado do cadáver, as coisas que fizemos com aquele cadáver: ir à praia, comer com ele, viajar com ele, jantar com ele, até dormir com ele.

No final da vida das pessoas, o único problema real que se apresenta é o que fazer aos cadáveres. Em Espanha, há duas possibilidades: a inumação ou a incineração. São duas belas palavras que cravam as suas raízes no latim: transformar-se em terra ou em cinza.

A língua latina prestigia a nossa morte.

O meu pai foi incinerado a 19 de Dezembro do ano 2005. Arrependo-me agora, foi uma decisão porventura apressada. Por outro lado, o facto de o meu pai não ter ido ao enterro da sua mãe, isto é, da minha avó, teve a ver com a decisão de o cremarmos. O que será mais relevante, assinalar o meu parentesco e dizer «a minha avó» ou assinalar o do meu pai e dizer «a sua mãe»? Duvido sobre o ponto de vista a escolher. A minha avó ou a sua mãe, tudo reside nesta escolha. O meu pai não foi ao enterro da minha avó e isso teve a ver com o que fizemos ao cadáver do meu pai; teve a ver com termos decidido cremá-lo, incinerá-lo. Não tem a ver com o amor, mas com a catadupa dos factos. Factos que produzem outros factos: a catadupa da vida, água que passa o tempo todo a correr, enquanto enlouquecemos.

Também me dou conta neste instante de que aconteceram grandes coisas na minha vida e, no entanto, carrego um sofrimento profundo. A dor não é de todo um entrave à alegria, tal como eu entendo a dor, pois para mim está vinculada à intensificação da consciência. O sofrimento é uma consciência expandida que alcança todas as coisas que foram e serão. É uma espécie de amabilidade secreta com todas as coisas. Cortesia com tudo o que foi. E da amabilidade e da cortesia nasce sempre a elegância.

É uma forma de consciência geral. O sofrimento é uma mão estendida. É amabilidade para com os outros. Enquanto sorrimos, desfalecemos por dentro. Se escolhemos sorrir em vez de cairmos mortos a meio da rua é por elegância, por ternura, por cortesia, por amor aos outros, por respeito aos outros.

Nem sequer sei como estruturar o tempo, como o definir. Regresso a esta tarde de Maio de 2015 que vivo neste instante e vejo espalhados de forma caótica em cima da minha cama vários medicamentos. Há-os de todos os géneros: antibióticos, anti-histamínicos, ansiolíticos, antidepressivos.

E, ainda assim, celebro o facto de estar vivo e hei-de celebrá-lo sempre. Sobre a morte do meu pai vai caindo o tempo, e muitas vezes tenho já dificuldades em recordá-lo. No entanto, isso não me entristece. Que o meu pai caminhe para a dissolução total, dado que sou, a par do meu irmão, o único que o recorda, parece-me de uma enorme beleza.

A minha mãe morreu há um ano. Quando era viva, eu quis algumas vezes falar do meu pai, mas ela recusava a conversa. Com o meu irmão também não posso falar muito do meu pai. Não é uma recriminação, de todo. Percebo o desconforto e, de certa forma, o pudor. Porque falar de um morto, nalgumas tradições culturais, ou pelo menos na que me calhou, supõe um forte e áspero grau de despudor.

De maneira que fiquei sozinho com o meu pai. E sou eu a única pessoa neste mundo — ignoro se o meu irmão o fará — a lembrar-se dele diariamente. E a contemplar diariamente o seu desvanecimento, que acaba por se transformar em pureza. Não é que me lembre dele diariamente, é que ele está em mim de forma permanente, é que me retirei de mim mesmo, para lhe dar espaço.

É como se o meu pai não tivesse querido estar vivo para mim, quero dizer que não quis revelar-me a sua vida, o sentido da sua vida: nenhum pai quer ser um homem para o seu filho. Todo o meu passado se desmoronou quando a minha mãe fez o mesmo que o meu pai: morrer.

3

A minha mãe morreu enquanto dormia. Estava farta de se arrastar, pois não era capaz de andar. Nunca me inteirei ao certo de quais seriam as suas doenças concretas. A minha mãe era uma narradora caótica. Eu também o sou. Herdei da minha mãe o caos narrativo. Não o herdei de nenhuma tradição literária, nem clássica nem vanguardista. Uma degeneração mental provocada por uma degeneração política.

Na minha família nunca se narrou com precisão o que acontecia. Nasce daí a dificuldade que tenho em verbalizar as coisas que me acontecem. A minha mãe tinha uma multiplicidade de maleitas que se sobrepunham umas às outras e colidiam entre si nas suas narrações. Não havia como ordenar o que lhe sucedia. Eu acabava por decifrar o que lhe acontecia: queria introduzir nas suas narrações o desassossego pessoal e queria, para além disso, encontrar um sentido para os factos narrados; interpretava e, no final, tudo a conduzia ao silêncio; esquecia pormenores que contava passados vários dias, pormenores que julgava não a beneficiarem.

Manipulava os factos. Tinha medo dos factos. Tinha medo de que a realidade do que acontecia fosse contra os seus interesses. Mas também não atinava com saber quais eram os seus interesses, para lá do instinto.

A minha mãe omitia o que achava que não a favorecia. Foi algo que herdei nas minhas narrações. Não é mentir. É tão-só o medo de nos enganarmos, ou o medo de fazer asneira, o terror do julgamento atávico dos outros, por não termos feito o que se supõe que devêssemos fazer, segundo o incompreensível código da vida em sociedade. Não percebemos bem, nem a minha mãe nem eu, o que se supõe que uma pessoa deva fazer. Por outro lado, os médicos e os geriatras que a trataram também não conseguiram que as versões médicas triunfassem sobre as suas versões caóticas e errantes. A minha mãe encurralava a lógica da medicina, levava-a para o abismo. As perguntas que fazia aos médicos eram memoráveis. Uma vez, conseguiu que um médico lá acabasse por lhe confessar que, na realidade, não sabia que diferença havia entre uma gripe bacteriana e uma gripe viral. No seu caos moral e na sua ânsia de saúde, as observações intuitivas e visionárias da minha mãe revelavam-se mais interessantes do que as explicações dos médicos. Ela via o corpo humano como uma serpente hostil, e cruel. Acreditava na crueldade da circulação do sangue.

Era uma mulher-drama. O seu dramatismo era superior à paciência dos médicos. Os médicos não sabiam que fazer com ela. Os ossos de uma das suas pernas estavam péssimos. Andava com uma prótese, que infectou. Puseram-lha na mesma data em que fizeram o mesmo ao rei de Espanha, Juan Carlos I. Foi a televisão quem o disse. Fazíamos piadas com isso. Quando a prótese infectou, não foi possível extraí-la pois envolveria uma operação e a minha mãe também padecia de doenças cardiovasculares.

Os seus males eram enumerativos. Enumerava dores, algumas de uma originalidade imensa.

Ficou sozinha. Estava lá no seu apartamento, completamente sozinha, a enumerar males.

Também sofria de asma. E de ansiedade. Era um compêndio de todas as doenças jamais nomeadas. Transformara em doença não grave a sua própria consciência da vida. As suas doenças não eram mortais, eram pequenos suplícios quotidianos. Eram sofrimento, não mais do que isso.

Vivia num apartamento arrendado: cinquenta e quatro anos a viver num apartamento arrendado. Fumou muito na juventude. Terá fumado até fazer sessenta anos. Não sei ao certo quando deixou de fumar.

Posso tentar calcular de forma aproximada quando ela deixou de fumar. Terá sido por volta de 1995, algo assim. Ou seja, teria então uns sessenta e dois anos.

Fumava com modernidade, diferenciando-se ainda das mulheres mais velhas da sua época por fumar. Recordo a minha infância presidida por marcas de tabaco que me pareciam exuberantes e misteriosas.

Por exemplo, a marca de tabaco Kent, que sempre me seduziu, especialmente pela beleza do maço, de cor branca. A minha mãe fumava Winston e L&M. O meu pai fumava pouco, e fumava Lark.

Todos esses maços de tabaco que havia pelas mesas e mesinhas de minha casa estão associados à juventude dos meus pais. Havia então alegria em minha casa, pois os meus pais eram jovens e fumavam. Os pais jovens fumavam. E é incrível a precisão com que recordo essa alegria, uma alegria dos anos setenta, de princípios dos anos setenta: 1970, 1971, 1972, até 1973.

Eles fumavam e eu olhava para o fumo, e assim foram passando os anos.

Nem o meu pai nem a minha mãe alguma vez fumaram tabaco escuro.

Nunca fumaram Ducados, nada de tabaco escuro. Daí que eu tivesse desenvolvido uma mania por essa marca, pelo Ducados, que me parecia um tabaco sórdido, feio. Os meus pais não o fumavam. Associei o tabaco escuro à sujidade e à pobreza. Embora também tenha visto que havia gente rica que fumava Ducados, mas isso não me impediu de continuar a olhar para o tabaco escuro com desdém ou com medo. Mais com medo. O medo, pelo menos em personalidades como a minha, está associado ao espírito de sobrevivência. Quanto mais medo temos, mais sobrevivemos. Sempre tive medo. Mas, de certa forma, o medo não impediu que me metesse em sarilhos.

Noto agora uma brecha gigantesca. Julgo que, ao evocar as marcas de tabaco que os meus pais fumavam, estou a descobrir uma alegria inesperada nas suas vidas, nas vidas dos meus pais.

Quero dizer que acho que foram mais felizes do que eu. Embora no final se tivessem sentido decepcionados com a vida. Ou talvez decepcionados com a simples deterioração dos seus corpos.

Não foram pais normais. Tiveram a sua originalidade histórica. Ah, sim, já acredito nisso. Foram originais, pois faziam coisas estranhas, não eram como os outros. A razão da sua excentricidade ou de me ter calhado a mim, como filho, essa excentricidade parece-me um enigma amoroso. O meu pai nasceu em 1930. A minha mãe — é uma hipótese, pois mudava a sua data de nascimento —, em 1932. Acho que tinham uma diferença de dois anos, ou porventura três. Às vezes tinham seis, pois de vez em quando a minha mãe insistia que nascera em 1936, parecia-lhe uma data famosa, pois ouvira-a designada várias vezes sabe-se lá porquê.

Na realidade, nasceu em 1932.

4

A minha mãe provinha de uma família camponesa, tendo sido criada numa aldeia diminuta, perto de Barbastro. O meu avô paterno era comerciante, mas, após a guerra civil, foi acusado de ser vermelho, republicano, e condenado a dez anos de cadeia que não chegou a cumprir, devido ao seu estado de saúde. Passou seis anos numa cadeia de Salamanca. Não sei muito bem os pormenores, o meu pai referia por vezes uma história de amizade do meu avô com os milicianos. Ao que parece, tinha amigos na Frente Popular. Foi denunciado quando os nacionais entraram em Barbastro. O meu pai sabia quem o denunciara. Mas o tipo já morreu. O meu pai não herdou nenhum ódio. O que herdou foi silêncio. Não conheço muito bem a natureza desse silêncio; julgo que não seria um silêncio de natureza política, mas uma espécie de renúncia à palavra. Como se o meu avô não quisesse falar, e o mutismo parecesse bem ao meu pai.

Morrerei sem saber se o meu pai e o meu avô chegaram a falar. É possível que nunca tenham falado. Estavam envoltos numa preguiça adâmica. Morrerei sem saber se o meu pai alguma vez deu um beijo ao meu avô. Julgo que não, julgo que nunca se beijaram. Dar um beijo é vencer a preguiça. A preguiça dos meus antepassados é bonita. Não conheci nenhum dos meus avôs, nem o materno nem o paterno. Nem sequer há fotografias deles. Partiram do mundo antes de eu ter chegado ao mundo, e partiram sem deixar uma fotografia. Não deixaram um triste retrato. De maneira que não sei o que faço neste mundo. Nem a minha mãe falava do pai dela nem o meu pai do seu. O silêncio era uma forma de sedição. Ninguém merece ser nomeado e, dessa maneira, não deixaremos de falar desse ninguém quando esse ninguém morrer.

5

Os meus pais nunca iam à missa, como faziam os pais dos meus colegas de escola; era algo que me causava grande estranheza e me incomodava perante os meus amigos. Não sabiam quem era Deus. Não que fossem agnósticos ou ateus. Não eram nada. Não pensavam nisso. Nunca mencionaram religião em casa. E, agora que escrevo esta lembrança, fico fascinado. Era como se fossem extraterrestres. Nem sequer blasfemavam. Nunca nomeavam Deus. Viviam como se a religião católica não existisse, o que tem um mérito indizível na Espanha que lhes calhou em sorte. A religião, para os meus pais, foi algo invisível. Não existia. O seu mundo moral aconteceu sem o fetichismo do bem e do mal.

Naquela Espanha dos anos sessenta e setenta, teriam feito bem em ir à missa. Em Espanha, as coisas sempre correram muito bem a quem vai à missa.

6

Como a minha mãe fumava, também eu comecei a fumar. No final, o que fazíamos era fumar. A minha mãe introduziu-me no vício, não tinha consciência do que fazia. Confundia sempre a importância das coisas: atribuía relevância a coisas insignificantes, e não fazia caso das relevantes. Uma vida inteira a fumar, até nos dizerem que estávamos a apodrecer por dentro. Ela mandava-me ir comprar cigarros à tabacaria. Acabei por conhecer os estanqueiros de Barbastro.

Os mortos não fumam.

Certa vez descobri numa gaveta um cigarro Kent com uns trinta anos de idade. Estava escondido. Devia tê-lo metido numa urna.

Procuro um significado no facto de já nada restar. Toda a gente perde o pai e a mãe, é pura biologia. Só que eu contemplo também a dissolução do passado, e portanto a sua inexpressividade final. Vejo uma laceração do espaço e do tempo. O passado é a vida já entregue ao santo ofício da escuridão. O passado nunca se vai embora, pode sempre regressar. Volta, volta sempre. O passado contém alegria. O passado é um furacão. Tudo o é na vida das pessoas. O passado é amor também. Viver obcecado com o passado não nos deixa desfrutar do presente, mas desfrutar do presente sem que o peso do passado compareça com a sua desolação nesse presente não é um gozo, mas uma alienação. Não há alienação no passado.

7

Parecem vivos. Mas estão mortos.

Vem até mim o dia em que se conheceram. Uma tarde de sábado do mês de Abril de 1958. A tarde está viva. A presença dessa tarde esconde outra presença mais afastada.

A morte é real e é legal. É legal morrer. Haverá algum Estado que decrete a ilegalidade da morte? Dá-me tranquilidade que a morte esteja protegida pela legalidade das nossas leis; morrer não é um acto subversivo; até o suicídio deixou de ser subversivo.

Mas o que fazem eles ainda vivos, eles os dois, os meus pais, evadindo a legalidade da morte? A verdade é que não estão de todo mortos. Vejo-os com grande frequência. O meu pai costuma aparecer antes de me ir deitar, quando estou a escovar os dentes. Põe-se atrás de mim e olha para a marca do meu dentífrico, observa-a com curiosidade. Sei que quer perguntar pela marca, mas tal não lhe é permitido.

E não é uma questão de eu me lembrar deles, de viverem na minha memória. Tem a ver com a região onde estão e continuam a sofrer os espíritos. Tem a ver com a má morte e a boa vida.

Estão ali. E, de certa forma, são espíritos terríveis.

Quando os meus pais morreram, a minha memória tornou-se um fantasma iracundo, assustado e raivoso. Quando o nosso passado se apaga da face da Terra, apaga-se o universo, e tudo é indignidade. Não há nada mais indigno do que o cinzentismo da existência. Abolir o passado é abjecto. A morte dos nossos pais é abjecta. É uma declaração de guerra que a realidade nos faz.

Em criança (devido à minha personalidade em formação, ou à minha timidez), eu sofria por não saber encontrar um lugar entre os demais, entre os colegas de escola, pensava sempre no meu pai e na minha mãe, confiando que eles tivessem uma explicação para a minha invisibilidade social. Eles eram os meus protectores e quem guardava o segredo da razão da minha existência, que a mim me escapava.

Com a morte do meu pai, teve início o caos, pois já não estava neste mundo quem sabia quem eu era e podia em última instância responsabilizar-se pela minha presença e pela minha existência. Talvez esta seja uma das coisas mais originais da minha vida. A única razão segura e certa de estarmos neste mundo reside na vontade do nosso pai e da nossa mãe. Somos essa vontade. A vontade transferida para a carne.

Esse princípio biológico da vontade não tem carácter político. Daí que me interesse tanto, que me emocione tanto. Se não tem carácter político, significa que ronda os caminhos da verdade. A natureza é uma forma feroz da verdade. A política é a ordem acordada, certo, mas não é a verdade. A verdade é o nosso pai e a nossa mãe.

Foram eles que nos inventaram.

Vimos do sémen e do óvulo.

Sem o sémen e o óvulo, não há nada.

Que depois a nossa identidade e a nossa existência aconteçam sob uma ordem política não fere o princípio da vontade, que é anterior à ordem política; e é, para mais, um princípio necessário, ao passo que a ordem política pode estar muito certa e o que se queira, mas não é necessária.

8

Arrependi-me de ter escolhido a cremação. A minha mãe, o meu irmão e eu queríamos esquecer tudo. Livrar-nos do cadáver. Tremíamos de medo, e fingíamos controlar a situação, tentávamos rir-nos de alguns pormenores cómicos que nos protegiam do terror. Os túmulos foram inventados para que a memória dos vivos neles se refugiasse e porque os restos ósseos são importantes, embora nunca os vejamos: basta-nos pensar que existem. Mas os túmulos, em Espanha, são gavetas. O túmulo é nobre; as gavetas são deprimentes, caras e feias. Porque tudo é feio e caro para a classe média-baixa espanhola, mais baixa do que média. O hífen e o amontoamento, «classe média-baixa», foram uma invenção sinistra, e uma falsidade.

Éramos classe baixa; o que acontece é que o meu pai andava sempre muito elegante. Sabia estar à altura das coisas. Mas era pobre. Só que não parecia. Não parecia e, nisso, era um fugitivo do sistema socioeconómico da Espanha dos anos setenta e oitenta do século passado. Não podiam meter ninguém na prisão por isso, por ter estilo mesmo que fosse pobre. Não podiam meter ninguém na prisão por, sendo pobre, evadir a visibilidade da pobreza.

O meu pai foi um artista. Tinha estilo.

Antes de ser cremado, o cadáver do meu pai esteve exposto na casa mortuária durante umas horas. As pessoas vinham vê-lo. Quando a funerária monta o pequeno espectáculo da exibição da morte, esconde tudo, à excepção de um rosto maquilhado. Não vemos as mãos nem os pés nem os ombros do cadáver. Fecham os olhos com cola. Pensei se seria uma cola industrial, a que empregavam para selar lábio contra lábio. Imagine-se se a cola falha e, de repente, a boca do cadáver se abre. Apareceu um homem que eu conhecia. Não era amigo do meu pai, quando muito conhecido. O tipo apercebeu-se de que a sua presença era injustifica ...