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O DESAPARECIMENTO DE STEPHANIE MAILER

Joël Dicker  

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Excerto

Sobre os acontecimentos

de 30 de Julho de 1994

Apenas as pessoas que conhecem bem a região de Hamptons, no estado de Nova Iorque, tiveram conhecimento do que se passou a 30 de Julho de 1994, em Orphea, uma pequena cidade balnear para gente endinheirada.

Nessa noite, Orphea inaugurava o seu primeiro festival de teatro, e o evento, de alcance nacional, atraíra um público significativo. A ­partir do fim da tarde, os turistas e os habitantes locais começaram a concentrar-se na rua principal para assistir às numerosas festividades organizadas pela autarquia. Os bairros residenciais estavam vazios, com um aspecto de cidade-fantasma: nem transeuntes nos passeios, nem casais sob os alpendres, nem crianças a andarem de patins pela rua, ninguém nos jardins. Estava toda a gente na rua principal.

Por volta das oito da noite, no bairro totalmente deserto de Penfield, o único vestígio de vida era um automóvel que percorria lentamente as ruas abandonadas. Ao volante, um homem perscrutava os passeios, com laivos de pânico nos olhos. Nunca se sentira tão sozinho no mundo, sem ninguém que o pudesse ajudar. Já não sabia o que fazer. Procurava desesperadamente a mulher, que saíra para uma corrida e não voltara.

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Samuel e Meghan Padalin faziam parte dos raros habitantes que haviam decidido ficar em casa na primeira noite do festival. Não tinham conseguido entradas para a peça de abertura, porque a bilheteira fora tomada de assalto, e a ideia de participarem nas celebrações populares da rua principal e da marina não os atraía minimamente.

Ao fim do dia, Meghan partira à hora do costume, cerca das 18h30, para o seu jogging. À excepção de domingo, dia em que concedia ao corpo um pouco de descanso, efectuava o mesmo percurso todas as tardes da semana. Partia de sua casa e subia a rua Penfield até Penfield Crescent, que formava um semicírculo à volta de um pequeno parque. Ali, parava de correr e fazia uma série de exercícios na relva — sempre iguais —, regressando depois pelo mesmo caminho. Esta volta demorava exactamente três quartos de hora. Por vezes cinquenta minutos, se decidisse prolongar os exercícios. Mas nunca mais do que isso.

Às 19h30, Samuel Padalin estranhou que a mulher ainda não tivesse regressado a casa.

Às 19h45, começou a inquietar-se.

Às 20h00, pôs-se a andar de um lado para o outro na sala de estar.

Às 20h10, não aguentando mais, pegou finalmente no carro para percorrer as ruas do bairro. Pareceu-lhe que seguir o percurso habitual de Meghan seria a forma mais lógica de proceder. E foi o que fez.

Entrou na rua Penfield, subiu-a até Penfield Crescent, onde estacionou. Eram 20h20. Não havia vivalma. Parou um instante para observar o parque, mas também ali não viu ninguém. Foi ao ligar novamente o motor que se apercebeu de uma forma no passeio. Pensou que seria um monte de roupa, antes de perceber que se tratava de um corpo. Saiu disparado do carro, com o coração aos pulos: era a mulher.

À polícia, Samuel Paladin disse que julgara tratar-se de um desmaio, por causa do calor. Temera uma crise cardíaca. Mas, ao aproximar-se de Meghan, vira o sangue e o buraco na parte de trás do crânio.

Pusera-se a gritar, a pedir ajuda, não sabendo se devia ficar junto da mulher ou ir bater à porta das casas próximas, para que alguém chamasse os meios de socorro. Tinha a visão turva, as pernas bambas. Os gritos acabaram por alertar um morador numa rua paralela, que ligou para as emergências.

Alguns minutos mais tarde, a polícia isolava o bairro.

Foi um dos primeiros agentes a chegar que, ao estabelecer o perímetro de segurança, reparou na porta da casa do presidente da Câmara, junto à qual estava o corpo de Meghan. A porta entreaberta. Aproximou-se, intrigado. Constatou que fora arrombada. Pegou na arma, trepou de um salto os degraus da entrada e anunciou a sua presença. Não obteve qualquer resposta. Empurrou a porta com o pé e viu o cadáver de uma mulher estendido no corredor. Chamou imediatamente reforços, antes de avançar lentamente pela casa, de arma na mão. À direita, num pequeno salão, descobriu com horror o corpo de um rapaz. Depois, na cozinha, encontrou o presidente da Câmara, numa poça do seu próprio sangue.

A família inteira fora massacrada.

Primeira parte

Nos abismos

- 7

Desaparecimento de uma jornalista

SEGUNDA-FEIRA, 23 DE JUNHO – TERÇA-FEIRA, 1 DE JULHO, 2014

Jesse Rosenberg

Segunda-feira, 23 de Junho, 2014

33 dias antes da estreia do 21.º festival de teatro de Orphea

A primeira e última vez que vi Stephanie Mailer foi quando ela se intrometeu numa pequena festa organizada para assinalar a minha saída da polícia do estado de Nova Iorque.

Nesse dia, uma multidão de agentes de todas as brigadas reunira-se quando o sol estava a pique, diante de um estrado de madeira que só era montado em grandes ocasiões, no parque de estacionamento do centro regional da polícia. Eu mantinha-me de pé, lá em cima, junto ao major McKenna, meu superior hierárquico ao longo de toda a carreira, que me prestava agora a sua homenagem.

«Jesse Rosenberg é um capitão jovem, mas está visivelmente com pressa para sair daqui», disse o major, provocando risos na assembleia. «Nunca pensei que se fosse embora antes de mim. Parece-me que a vida está um bocado mal feita: toda a gente gostaria que eu me reformasse, mas continuo; e toda a gente gostaria que o Jesse ficasse, mas ele é que vai partir.»

Eu tinha 45 anos, e o meu estado de espírito, ao deixar a polícia, era sereno e feliz. Após 23 anos de serviço, decidira ficar com a pensão a que tinha direito, libertando-me para concretizar um projecto com que sonhava há muito tempo. Faltava-me apenas uma semana de trabalho, até 30 de Junho. Depois, abriria um novo capítulo da minha vida.

«Lembro-me bem do primeiro grande caso do Jesse», continuou o major. «Um quádruplo homicídio absolutamente terrível, que ele conseguiu resolver quando ninguém na brigada acreditava que isso fosse possível. Na altura, era ainda um jovem agente. Mas, a partir daquele momento, todos compreendemos de que massa era feito. Quem com ele privou sabe que se trata de um investigador excepcional. Creio até poder afirmar que foi o melhor que alguma vez tivemos. Baptizámo-lo capitão 100% por ter resolvido todos os casos em que participou, o que faz dele um investigador único. Polícia admirado pelos seus colegas, especialista em quem se pode confiar, instrutor da Academia durante longas temporadas. Sabes uma coisa, Jesse? Há 20 anos que todos te invejamos!»

Os risos voltaram à assembleia.

«Não chegámos a compreender muito bem em que consiste ao certo o novo projecto que te espera, mas desejamos-te toda a sorte para esse empreendimento. Fica a saber que nos farás falta. Farás falta à polícia, mas sobretudo farás falta às nossas mulheres, que passavam as quermesses da esquadra a devorar-te com os olhos.»

Uma torrente de aplausos coroou o discurso. O major deu-me umas pancadinhas nas costas, e eu desci do palco para saudar todos os que fizeram questão de estar presentes, antes que se precipitassem na direcção do buffet.

Quando estava momentaneamente só, fui abordado por uma mulher muito bela, na casa dos trinta, que não me lembrava de alguma vez ter visto.

— É então o famoso capitão 100%? — perguntou-me com um tom sedutor.

— Parece que sim — respondi, com um sorriso. — Já nos conhecemos?

— Não. Chamo-me Stephanie Mailer. Sou jornalista do Orphea Chronicle.

Cumprimentámo-nos com um aperto de mão. Foi então que Stephanie me disse:

— Ficaria incomodado se o tratasse por capitão 99%?

Ergui as sobrancelhas:

— Está a insinuar que afinal não resolvi uma das minhas investigações?

Sem dizer mais nada, tirou da mala a fotocópia de um recorte de imprensa do Orphea Chronicle, com data de 1 de Agosto de 1994, e passou-ma para as mãos:

QUÁDRUPLO HOMICÍDIO EM ORPHEA:

ASSASSINADOS O PRESIDENTE DA CÂMARA E A FAMÍLIA

No sábado à noite, o presidente da Câmara de Orphea, Joseph Gordon, a sua mulher e o filho, de dez anos, foram abatidos dentro de casa. A quarta vítima chama-se Meghan Padalin, de 32 anos. A mulher, que fazia jogging à hora do crime, terá sido certamente testemunha do que aconteceu. Foi baleada em plena rua, diante da residência do presidente da Câmara.

A ilustrar o artigo, havia uma foto em que eu aparecia junto ao meu companheiro nessa época, Derek Scott, os dois no local do crime.

— Onde pretende chegar com isto? — perguntei-lhe.

— Não resolveu este caso, capitão.

— Como assim?

— Em 1994, enganou-se quanto ao culpado do crime. Julguei que gostasse de o saber antes de deixar a polícia.

Pensei que se tratasse de uma brincadeira de mau gosto dos meus colegas, antes de perceber que Stephanie falava muito a sério.

— Fez a sua própria investigação? — interroguei-a.

— De certa maneira, capitão.

— De certa maneira? Vai ter de explicar-se melhor se quiser que acredite em si.

— Estou a dizer a verdade, capitão. Daqui a nada vou ter um encontro que me vai permitir, em princípio, obter uma prova irrefutável.

— Um encontro com quem?

— Capitão — disse-me ela com um tom divertido — não sou uma principiante. Este é o tipo de furo que um jornalista não corre o risco de perder. Prometo partilhar as minhas descobertas consigo no momento apropriado. Até lá, queria pedir-lhe um favor: uma autorização para aceder ao processo da polícia estadual.

— Chama a isso um favor? Eu chamo-lhe chantagem! — retorqui. — Comece por me mostrar a sua investigação, Stephanie. As alegações que faz são muito graves.

— Tenho consciência disso, capitão Rosenberg. E, justamente, não quero ver o meu trabalho ser engolido pela polícia estadual.

— Sou obrigado a recordar-lhe que tem o dever de partilhar com a polícia todas as informações sensíveis que tenha em sua posse. Está na lei. Em último caso, farei buscas no seu jornal.

Stephanie pareceu desiludida com a minha reacção.

— É uma pena, capitão 99%. Pensei que isto lhe pudesse interessar, mas já deve estar com a cabeça na reforma e nesse novo projecto de que o major falou no seu discurso. De que se trata? Reparar um barco velho?

— Não tem nada a ver com isso — respondi-lhe secamente.

Ela encolheu os ombros, dando a entender que se iria embora. Eu tinha a certeza de que era bluff, e efectivamente ela estacou, após alguns passos, virando-se para mim:

— A solução estava mesmo debaixo dos seus olhos, capitão Rosenberg. Acontece que não a viu.

Fiquei ao mesmo tempo perplexo e irritado.

— Não tenho a certeza de estar a perceber, Stephanie.

Ela levantou a mão e colocou-a à altura dos meus olhos.

— O que vê, capitão?

— A sua mão.

— Estava a mostrar-lhe os meus dedos — corrigiu ela.

— Mas o que eu vejo é a sua mão — respondi, sem compreender onde queria chegar.

— É precisamente esse o problema. Viu o que queria ver, e não aquilo que lhe mostravam. Foi isso que falhou há 20 anos.

Estas foram as suas últimas palavras. Depois partiu, deixando-me com o seu enigma, um cartão-de-visita e a fotocópia do artigo.

Durante o buffet, avisei Derek Scott, o meu antigo companheiro, que vegetava agora no seio da brigada administrativa, e logo que pude fui ter com ele para lhe mostrar o recorte de imprensa.

— Continuas com a mesma cara, Jesse — disse-me ele com um sorriso, ao analisar, divertido, aquela velha peça de arquivo. — O que queria essa miúda?

— É jornalista. Segundo ela, enganámo-nos em 1994. Diz que passámos ao lado do essencial na investigação e que não incriminámos a pessoa certa.

— O quê? — engasgou-se Derek. — Mas isso não faz sentido nenhum.

— Eu sei.

— Quais foram exactamente as palavras dela?

— Que a resposta se encontrava debaixo dos nossos olhos e que não fomos capazes de a ver.

Derek ficou apreensivo. Parecia perturbado, como eu, mas decidiu afastar essa ideia.

— Não acredito nisso nem um bocadinho — acabou por resmungar. — É só uma jornalista de segunda categoria que se quer promover à nossa custa.

— Talvez — respondi-lhe, meio abstraído. — Ou talvez não.

Varrendo com o olhar o parque de estacionamento, observei ­Stephanie a entrar no seu automóvel. Acenou-me e gritou: «Até depois, capitão Rosenberg.»

Mas não houve um «depois».

Porque aquele foi o dia do seu desaparecimento.

Derek Scott

Lembro-me bem do dia em que toda esta confusão teve início. Foi no sábado, 30 de Julho de 1994.

Nessa noite, eu e o Jesse estávamos de serviço. Tínhamos parado para jantar no Blue Lagoon, um restaurante da moda onde a Darla e a Natasha trabalhavam como empregadas de mesa.

Naquela época, o Jesse vivia com a Natasha há já alguns anos. A Darla era uma das suas melhores amigas. Queriam abrir um restaurante juntas e dedicavam grande parte do seu tempo a esse projecto: tinham encontrado um sítio e procuravam agora obter as licenças de trabalho. À noite e ao fim-de-semana, garantiam o serviço no Blue Lagoon, pondo de lado metade do que ganhavam para investir no seu futuro estabelecimento.

No Blue Lagoon, teriam preferido trabalhar na gerência do restaurante ou na cozinha, mas o proprietário dizia-lhes: «Com o vosso palminho de cara e o vosso bonito rabiosque, têm é de estar na sala. E não se queixem, porque ganham muito mais em gorjetas do que ganhariam na cozinha.» Neste último aspecto, não mentia: muitos clientes vinham ao Blue Lagoon unicamente para serem servidos por Darla e Natasha. Eram bonitas, simpáticas, sorridentes. Tinham tudo a seu favor. Não havia qualquer dúvida sobre o sucesso do futuro restaurante que montassem, e já toda a gente falava disso.

Darla era solteira. Depois de a conhecer, confesso que só conseguia pensar nela. Insistia muitas vezes com o Jesse para irmos ao Blue Lagoon quando a Natasha e a Darla lá estavam, para tomarmos café com elas. E, quando as raparigas se reuniam em casa do Jesse para trabalharem no seu projecto de restaurante, eu fazia-me convidado para tentar as minhas manobras de charme junto de Darla, que nem sempre resultavam lá muito bem.

Por volta das oito e meia, nessa famosa noite de 30 de Julho, estava eu a jantar com o Jesse no bar, enquanto conversávamos alegremente com a Natasha e a Darla, que andavam por ali. De repente, o meu bip e o do Jesse começaram a tocar em simultâneo. Olhámos um para o outro com ar de caso.

— Se os dois bips tocam ao mesmo tempo, é porque deve ser grave — disse a Natasha.

Apontou para a cabina telefónica do restaurante e para o aparelho que estava pousado no balcão. Jesse dirigiu-se para a cabina, enquanto eu optei pelo telefone mais próximo. Ambas foram chamadas breves.

— Há um alerta geral para um quádruplo homicídio — expliquei a Natasha e Darla, depois de desligar e enquanto me precipitava para a porta de saída.

Jesse vestia o casaco.

— Despacha-te lá com isso — repreendi-o. — A primeira unidade da brigada criminal a chegar é que toma conta da investigação.

Na altura, éramos novos e ambiciosos. E eis que surgia a oportunidade de fazermos juntos a nossa primeira investigação importante. Eu era um polícia mais experiente do que o Jesse e já chegara a sargento. Os superiores hierárquicos gostavam muito de mim. Toda a gente dizia que eu tinha uma carreira promissora pela frente.

Corremos rua acima até ao nosso veículo e entrámos à pressa, eu ao volante, o Jesse no lugar do pendura.

Arranquei a acelerar, e o Jesse pegou na lâmpada de luz giratória, prendendo-a, através da janela aberta, ao tejadilho do nosso automóvel descaracterizado, iluminando a noite com um brilho vermelho.

Foi assim que tudo começou.

Jesse Rosenberg

Quinta-feira, 26 de Junho, 2014

30 dias antes da estreia

Imaginei que a minha última semana enquanto polícia seria passada a deambular pelos corredores e a beber café com os colegas, em jeito de despedida. Mas, nos últimos três dias, enfiara-me de manhã à noite no meu gabinete, mergulhado no dossiê da investigação ao quádruplo homicídio de 1994, que recuperara dos arquivos. A visita de Stephanie Mailer perturbara-me. Não conseguia deixar de pensar naquele artigo de jornal e sobretudo na frase que me lançara: «A solução estava mesmo debaixo dos seus olhos. Acontece que não a viu.»

Mas parecia-me que tínhamos visto tudo o que havia para ver. Quanto mais virava e revirava o dossiê, mais convencido ia ficando de que se tratara de uma investigação sólida, das melhores que levei a cabo na minha carreira: não faltavam quaisquer elementos, as provas contra o homem apontado como sendo o assassino eram esmagadoras. ­Trabalhámos, eu e o Derek, com um rigor e uma minúcia implacáveis. Em todo o processo, não era capaz de encontrar uma só falha. Sendo assim, como poderíamos ter apontado o dedo ao homem errado?

Nessa tarde, nem de propósito, o Derek apareceu no meu gabinete.

— O que andas tu a magicar, Jesse? Está toda a gente à tua espera na cafetaria. Os colegas da administração fizeram-te um bolo.

— Já lá vou, Derek, tenho pena, mas a minha cabeça está noutro lado.

Ele olhou para os documentos amontoados na minha secretária, pegou num e indignou-se:

— Ah, nem pensar, não me digas que engoliste os disparates daquela jornalista!

— Derek, só quero ter a certeza de que…

Ele nem me deixou terminar a frase:

— Jesse, o dossiê era à prova de bala! Sabes isso tão bem quanto eu. Vá, deixa lá isso, está toda a gente à tua espera.

Fiz-lhe a vontade.

— Dá-me só um minuto, Derek. Já vou.

Ele suspirou e saiu do gabinete. Peguei no cartão-de-visita pousado à minha frente e liguei para Stephanie. O telemóvel estava desligado. Já tentara na véspera, sem sucesso. Ela também não me contactara desde o nosso encontro na segunda-feira, e eu decidira não insistir mais. Saberia sempre onde me encontrar. Acabei por dar razão ao Derek: nada permitia duvidar das conclusões do inquérito de 1994, e foi com a consciência tranquila que me juntei aos colegas na cafetaria.

No regresso ao meu gabinete, uma hora mais tarde, esperava-me um fax da polícia estadual de Riverdale, nos Hamptons, a anunciar o desaparecimento de uma mulher jovem: Stephanie Mailer, 32 anos, jornalista. Não dava sinais de vida desde segunda-feira.

O meu sangue gelou. Arranquei a página da máquina de fax e peguei no telefone para contactar a esquadra de Riverdale. Do outro lado, um agente explicou-me que os pais de Stephanie Mailer haviam aparecido ao início da tarde, inquietos com o silêncio da filha desde segunda-feira.

— Por que razão contactaram directamente a polícia estadual e não a polícia local? — perguntei.

— Começaram por fazer isso, mas pelos vistos a polícia local não os levou a sério. Da minha parte, achei que era melhor que a situação chegasse logo à brigada dos crimes maiores. Talvez não seja nada, mas preferi passar-vos já a informação.

— Fez muito bem. Eu trato do assunto.

A mãe de Stephanie, a quem telefonei de seguida, mostrou-se muito angustiada. A última interacção com a filha acontecera na manhã de segunda-feira. Desde essa altura, mais nada. O telemóvel estava desligado. Nenhuma das amigas de Stephanie conseguira falar com ela. Acabou por se deslocar ao apartamento da filha com a polícia local, mas não estava lá ninguém.

Fui imediatamente à procura de Derek no seu gabinete da brigada administrativa.

— Stephanie Mailer — disse-lhe —, a jornalista que esteve aqui na segunda-feira, desapareceu.

— Que história é essa, Jesse?

Estendi-lhe o comunicado de desaparecimento.

— Vê por ti mesmo. Temos de ir a Orphea. É preciso verificar o que se passa. Isto não pode ser uma coincidência.

Ele suspirou:

— Jesse, não ias sair da polícia?

— Só daqui a quatro dias. Até lá, ainda sou agente. Na segunda-feira, quando a vi, a Stephanie falou de um encontro com alguém que lhe ia trazer os elementos em falta no seu dossiê…

— Deixa esse assunto para um dos teus colegas — sugeriu-me ele.

— Fora de questão! Derek, esta rapariga garantiu-me que em 1994…

Não me deixou terminar a frase:

— Nós encerrámos essa investigação, Jesse! É passado! O que é que se passa contigo? Porque raio queres voltar a mergulhar nisso a todo o custo? Queres mesmo reviver tudo?

Lamentei o facto de não me apoiar.

— Então não queres vir comigo a Orphea?

— Não, Jesse. Lamento. Acho que estás a delirar. Mesmo.

Foi então sozinho que me dirigi a Orphea, vinte anos depois de lá ter posto os pés pela última vez. Ou seja, desde o quádruplo homicídio.

Em condições normais, a viagem durava uma hora, mas, para ganhar tempo, não fiz caso dos limites de velocidade, ligando a sirene e as luzes giratórias do meu veículo descaracterizado. Apanhei a auto-estrada 27 até à bifurcação para Riverhead, depois a 25 na direcção noroeste. A estrada, neste último troço, atravessava uma paisagem natural sumptuosa, entre florestas luxuriantes e lagoas cobertas de nenúfares. Cheguei rapidamente à estrada 17, longilínea e deserta, que nos levava até Orphea e na qual pude acelerar a fundo. Na berma, um enorme painel confirmou que chegara ao meu destino.

BEM-VINDO A ORPHEA, NOVA IORQUE

Festival nacional de teatro, 26 Julho–9 de Agosto

Eram cinco da tarde. Entrei na rua principal, verdejante e colorida. De um lado e do outro, restaurantes, esplanadas, lojas. Uma atmosfera distendida, um ambiente de férias. Com a aproximação das festividades do 4 de Julho, havia pendões com as cores da bandeira e estrelas a enfeitarem os candeeiros e cartazes que anunciavam um fogo-de-artifício para a noite do feriado. Ao longo da marina, junto aos canteiros de flores e aos arbustos bem aparados, muita gente passeava entre os stands que alugavam bicicletas ou propunham saídas de barco para observar as baleias. A cidade parecia decalcada do cenário de um filme.

A minha primeira paragem foi na esquadra da polícia local.

O chefe Ron Gulliver, que comandava a polícia de Orphea, recebeu-me no seu gabinete. Não foi preciso recordar-lhe que já nos havíamos encontrado há vinte anos: lembrava-se de mim.

— Não mudou nada — disse, ao apertar-me a mão.

Eu não podia dizer o mesmo do meu interlocutor. Envelhecera mal e ganhara peso. Embora já não fosse hora de almoço e ainda faltasse bastante para o jantar, estava a comer esparguete de um recipiente de plástico. Enquanto lhe explicava as razões da minha presença ali, engoliu aquela pratada com uma voracidade repugnante.

— Stephanie Mailer? — perguntou com espanto, de boca cheia. — Nós já tratámos desse assunto. Não se trata de um desaparecimento. Já o expliquei aos pais dela, que são verdadeiramente uns chatos muito insistentes. Saem pela porta e entram logo a seguir pela janela!

— Ou então são apenas pais muito preocupados com a filha. Não sabem dela há três dias e garantem que é muito estranho. Compreenderá que eu queira tratar disto com a diligência necessária.

— Stephanie Mailer tem 32 anos. Já pode fazer o que bem lhe apetecer, não? Acredite, se eu tivesse uns pais como os dela, também sentiria vontade de fugir, capitão Rosenberg. Acalme-se. Vai ver que se ausentou apenas durante algum tempo.

— Como pode ter tanta certeza?

— Foi o que me disse o patrão dela, o chefe-de-redacção do Orphea Chronicle. Stephanie enviou-lhe uma mensagem para o telemóvel na segunda-feira à noite.

— A noite do desaparecimento — sublinhei.

— Mas eu já lhe disse que ela não desapareceu! — enervou-se o chefe Gulliver.

A cada uma das suas exclamações, um fogo-de-artifício al pomodoro saía-lhe da boca. Recuei um passo para evitar que essas projecções caíssem na minha camisa imaculada. Gulliver, depois de engolir, retomou:

— O meu adjunto acompanhou os pais até ao apartamento dela. Abriram-no com a cópia da chave e fizeram uma inspecção: estava tudo em ordem. A mensagem recebida pelo chefe-de-redacção confirmou que não havia qualquer motivo para nos preocuparmos. A ­Stephanie não tem de prestar contas a ninguém. O que ela faz da sua vida não nos diz respeito. Quanto a nós, fizemos o que nos competia. Por isso, tenha a bondade de não me vir moer o juízo.

— Os pais estão mesmo preocupados — insisti. — Se estiver de acordo, gostaria de verificar por mim mesmo que está tudo bem.

— Se gosta de desperdiçar o seu tempo, capitão, esteja à vontade. Peço-lhe só que aguarde até que o meu adjunto, Jasper Montagne, regresse da patrulha. Foi ele que se ocupou deste assunto.

Quando o sargento-chefe Jasper Montagne chegou, encontrei-me diante de um gigantesco armário, com músculos salientes e um ar temível. Explicou-me que acompanhara os Mailer a casa de Stephanie. Tinham entrado no apartamento: ela não estava lá. Tirando isso, nada a assinalar. Nem um sinal de luta, nada de anormal. Montagne inspeccionara depois as ruas vizinhas à procura do automóvel de Stephanie, em vão. Levara o zelo ao ponto de telefonar para os hospitais e esquadras de polícia da região: nada. Stephanie Mailer ausentara-se simplesmente de sua casa.

Como eu queria dar uma vista de olhos ao apartamento de ­Stephanie, ofereceu-se para me acompanhar. Ela morava em Bendham Road, uma pequena rua calma, perto da rua principal, num prédio estreito, com três andares. Uma loja de ferragens ocupava o rés-do-chão, um inquilino alugava o apartamento único do primeiro andar, e o segundo estava por conta de Stephanie.

Premi várias vezes a campainha do seu apartamento. Tamborilei com os dedos, gritei, mas sem resposta: não estava ninguém em casa.

— Como vê, ela não está — disse-me Montagne.

Tentei a maçaneta da porta: estava fechada à chave.

— Podemos entrar? — perguntei.

— Tem a chave?

— Não.

— Eu também não. Foram os pais que abriram a porta, no outro dia.

— Então não podemos entrar?

— Não. Está fora de questão começar a arrombar portas sem motivo! Se quer ficar descansado, vá ao jornal local e fale com o chefe-de-redacção. Ele pode mostrar-lhe a mensagem que recebeu da Stephanie na segunda-feira à noite.

— E o vizinho do andar de baixo? — perguntei.

— Brad Meshaw? Interroguei-o ontem. Não viu nada, nem ouviu nada de especial. Não vale a pena bater-lhe à porta: é cozinheiro no Café Athéna, o restaurante da moda que fica no topo da rua principal. Deve lá estar agora.

Eu nunca me desviaria das minhas intenções por tão pouco. Desci um andar e toquei a campainha do tal Brad Melshaw. Em vão.

— Não lhe disse? — suspirou Montagne a descer as escadas, enquanto eu ainda ficava um instante no patamar, à espera que me abrissem a porta.

Quando desci por fim as escadas, Montagne já saíra do prédio. Chegado ao hall, aproveitei o facto de estar sozinho para inspeccionar a caixa de correio de Stephanie. Espreitando pela fenda, percebi que havia uma carta lá dentro e consegui apanhá-la com a ponta dos dedos. Dobrei-a em dois e guardei-a discretamente no bolso de trás das calças.

Depois da nossa passagem pelo prédio de Stephanie, Montagne levou-me às instalações do Orphea Chronicle, a dois passos da rua principal, para que pudesse falar com Michael Bird, o chefe-de-redacção.

O jornal fica num edifício de tijolos vermelhos. E, se o exterior tem bom aspecto, o interior, pelo contrário, está decrépito.

Michael Bird recebeu-nos no seu gabinete. Já vivia em Orphea no ano de 1994, mas não me lembrava de o ter conhecido nessa altura. Bird explicou-me que, por um conjunto de circunstâncias, tomara as rédeas do Orphea Chronicle três dias após o quádruplo homicídio e que por isso passara o essencial desse período mergulhado em papelada e não no terreno.

— Há quanto tempo começou Stephanie Mailer a trabalhar aqui? — perguntei.

— Nove meses, mais ou menos. Contratei-a em Setembro do ano passado.

— É boa jornalista?

— Muito boa. Melhorou o nível do jornal. É importante para nós porque se torna difícil ter sempre conteúdos de qualidade. Sabe, o jornal está numa situação financeira complicada: sobrevivemos porque as instalações são cedidas, a título de empréstimo, pela Câmara Municipal. As pessoas já não lêem jornais hoje em dia, os anunciantes já não se interessam. Dantes, éramos um jornal regional importante, lido e respeitado. Hoje, por que razão há-de alguém ler o Orphea Chronicle quando pode ter acesso ao New York Times na Internet? Para não falar dos que deixaram completamente de ler e se contentam com a informação que encontram no Facebook.

— Quando viu a Stephanie pela última vez?

— Na segunda-feira, de manhã. Na reunião semanal da redacção.

— E notou alguma coisa em particular? Algum comportamento fora do habitual?

— Não, nada de especial. Sei que os pais da Stephanie estão inquietos, mas, como lhes expliquei ontem, tal como expliquei ao chefe-adjunto Montagne, a Stephanie enviou-me uma mensagem na segunda à noite, já tarde, para me dizer que ia faltar.

Retirou o telemóvel do bolso e mostrou-me a mensagem em questão, recebida à meia-noite, de segunda para terça:

Tenho de sair de Orphea por algum um tempo. É uma coisa importante. Depois explico tudo.

— E não teve mais novidades depois desta mensagem? — perguntei.

— Não. Mas, francamente, isso não me preocupa. A Stephanie é uma jornalista muito independente. Avança ao seu ritmo nos artigos para o jornal. Não me intrometo demasiado no que faz.

— Ela está a trabalhar em quê, neste momento?

— No festival de teatro. Todos os anos, no fim de Julho, temos um festival de teatro importante em Orphea…

— Sim, sim, estou a par.

— Pois bem, a Stephanie estava com vontade de contar histórias do festival, visto de dentro. Vai escrever uma série de artigos com esse tema. Anda agora a entrevistar os voluntários que asseguram a continuidade do festival.

— Ela costuma «desaparecer» assim?

— Eu diria «ausentar-se» — precisou Michael Bird. — Sim, ausenta-se regularmente. Sabe, o trabalho de jornalista não se faz entre quatro paredes.

— A Stephanie falou-lhe de alguma investigação de envergadura que estivesse a preparar? A mim, disse-me que ia ter um encontro importante na segunda à noite…

Preferi ser vago, para não dar demasiados pormenores. Mas Michael Bird abanou a cabeça.

— Não, não me falou de nada desse tipo.

Ao sair da redacção, Montagne, que considerava não existirem razões para nos inquietarmos, convidou-me a abandonar a cidade.

— O chefe Gulliver deseja saber se vai regressar agora.

— Sim, acho que já dei a volta completa.

De regresso ao meu automóvel, abri o envelope que estava na caixa de correio de Stephanie. Era um extracto do cartão de crédito. Examinei-o com atenção.

Para além das despesas da sua vida corrente (gasolina, compras no supermercado, alguns levantamentos no multibanco, compras na livraria de Orphea), reparei em vários débitos de portagens na entrada de Manhattan: nos últimos tempos, Stephanie deslocara-se regularmente a Nova Iorque. Mas, sobretudo, comprara um bilhete de avião para Los Angeles: uma ida e vinda rápida, entre 10 e 13 de Junho. Algumas despesas em L. A. — nomeadamente um hotel — confirmavam que a viagem acontecera mesmo. Talvez tivesse um namorado na Califórnia. Para todos os efeitos, era uma mulher jovem, com uma vida muito activa. Não havia nada de surpreendente no facto de se ausentar. Compreendia perfeitamente a reacção da polícia local: nenhum elemento apoiava a tese do desaparecimento. Stephanie era maior de idade e livre de fazer o que bem lhe apetecesse, sem prestar contas a ninguém. À falta de elementos, eu próprio estava prestes a concluir esta investigação, quando um detalhe me deixou de pé atrás. Um elemento não batia certo: a redacção do Orphea Chronicle. A sua atmosfera não colava minimamente com a imagem mental que eu criara de Stephanie. É certo que não a conhecia bem, mas a atitude com que me interpelara três dias antes fazia que a imaginasse mais depressa num New York Times do que num jornal local de uma pequena cidade balnear dos Hamptons. Foi este detalhe que me levou a escavar um pouco mais e a visitar os pais dela, que viviam em Sag Harbor, a vinte minutos de viagem.

Eram 19 horas.

Ao mesmo tempo, na rua principal de Orphea, Anna Kanner estacionava diante do Café Athéna, onde iria jantar com Lauren, sua amiga de infância, e com o marido desta, Paul.

Lauren e Paul eram dos amigos que Anna via com mais frequência, desde que deixara Nova Iorque para se estabelecer em Orphea. Os pais de Paul possuíam uma casa de férias em Southampton, a umas quinze milhas dali, onde passavam regularmente longos fins-de-semana, deixando Manhattan logo na quinta-feira, para evitar o trânsito.

Quando se preparava para sair do automóvel, Anna viu Lauren e Paul, já instalados à mesa na esplanada do restaurante, e reparou que um homem os acompanhava. Compreendendo logo o que aquilo era, Anna telefonou à amiga.

— Preparaste-me um arranjinho, Lauren? — perguntou-lhe assim que ela atendeu a chamada.

Houve um momento de silêncio constrangido.

— Talvez sim — acabou por responder Lauren. — Como é que sabes?

— É o meu instinto — mentiu Anna. — Enfim, Lauren, porque me armaste uma armadilha destas?

A única crítica que Anna podia fazer à amiga era a de se intrometer na sua vida sentimental, tentando juntá-la a todo o custo com alguém.

— Vais adorar este — assegurou Lauren, depois de se afastar um pouco da mesa, para que o homem que os acompanhava não conseguisse ouvir a conversa. — Confia em mim, Anna.

— Sabes uma coisa, Lauren, na verdade esta noite não vai dar. Ainda estou no escritório e tenho imenso trabalho para fazer.

Anna divertiu-se a ver Lauren às voltas na esplanada, impaciente.

— Anna, nem penses que me vais deixar pendurada! Tens 33 anos, precisas de um homem! Há quanto tempo não dás uma queca, hã?

Este era o argumento que Lauren usava em último recurso. Mas Anna não estava mesmo com disposição para tolerar um encontro forçado.

— Lamento muito, Lauren. Para além do mais, estou de piquete…

— Oh, não comeces com a história do piquete! Nunca acontece nada nesta cidade. E também tens direito de te divertires um pouco!

Nesse momento, um automobilista buzinou, e Lauren ouviu o mesmo som na rua e através do telefone.

— Ah ah, minha amiga, estás tramada! — exclamou ela, precipitando-se para o passeio. — Onde estás?

Anna nem teve tempo de reagir.

— Já te vi! — gritou Lauren. — Se pensas que te vais safar, estás muito enganada. Já te apercebeste de que passas a maior parte das noites sozinha, como uma avó? Sabes uma coisa, pergunto-me se fizeste a escolha certa, quando te vieste enterrar aqui…

— Oh, não me lixes, Lauren! Parece que estou a ouvir o meu pai!

— Mas, se continuas assim, acabas mesmo sozinha, Anna!

Anna começou a rir às gargalhadas enquanto saía do carro. Se lhe dessem uma moeda por cada vez que lhe haviam dito aquilo, estaria agora a nadar numa piscina como a do Tio Patinhas. Era forçoso, no entanto, admitir que Lauren tinha alguma razão no seu diagnóstico: era uma mulher recentemente divorciada, sem filhos, e vivia sozinha em Orphea.

Para Lauren, a causa dos falhanços amorosos sucessivos de Anna era dupla: devia-se em parte à sua falta de boa vontade e em parte à sua profissão, que «metia medo aos homens». «Eu nunca lhes digo o que fazes na vida», explicara Lauren várias vezes, ao falar com Anna dos encontros que lhe preparava. «Acho que isso os intimida.»

Anna chegou à esplanada. O candidato daquele dia chamava-se Josh. Tinha aquele ar horrível dos homens demasiado seguros de si. Cumprimentou Anna, devorando-a com os olhos de um modo desagradável. A respiração revelava cansaço. Ela soube imediatamente que ainda não seria naquela noite que encontraria o príncipe encantado.

— Estamos preocupadíssimos, capitão Rosenberg — disseram-me em uníssono Trudy e Dennis Mailer, os pais de Stephanie, na sala da sua casa impecavelmente decorada, em Sag Harbor.

— Telefonei à Stephanie na manhã de segunda-feira — explicou Trudy. — Disse-me que estava numa reunião de redacção, no jornal, e que depois me ligaria. Nunca o chegou a fazer.

— A Stephanie liga sempre — assegurou Dennis.

Compreendi logo por que razão os Mailer irritaram a polícia. Para eles, tudo assumia uma dimensão dramática, mesmo o café que recusei ao chegar:

— Não gosta de café? — desesperou Trudy.

— Prefere talvez uma chávena de chá? — propôs logo Dennis.

Quando consegui finalmente captar a sua atenção, coloquei-lhes algumas questões preliminares. Stephanie tinha algum tipo de problemas? Não, responderam categóricos. Drogas? Nunca. Tinha noivo? Namorado? Ninguém de que eles tivessem conhecimento. Haveria algum motivo para que desaparecesse de circulação? Nenhum motivo.

Os Mailer asseguraram-me que a sua filha não lhes escondia fosse o que fosse. Mas descobri rapidamente que não era bem assim.

— Por que razão se deslocou a Stephanie a Los Angeles há duas semanas? — perguntei.

— A Los Angeles? — espantou-se a mãe. — Que está para aí a dizer?

— Há duas semanas, a Stephanie fez uma viagem de três dias pela Califórnia.

— Não soubemos nada disso — lamentou-se o pai. — E não parece nada dela, partir para Los Angeles sem nos avisar. Terá sido em serviço, para o jornal? Ela é sempre muito discreta quanto aos artigos em que está a trabalhar.

Eu duvidava que o Orphea Chronicle se pudesse dar ao luxo de enviar jornalistas em reportagem para o outro lado do país. E foi justamente a questão do seu emprego no jornal que me fez levantar mais umas quantas interrogações.

— Quando e como chegou a Stephanie a Orphea? — perguntei.

— Ela viveu em Nova Iorque nos últimos anos — explicou-me Trudy. — Estudou Literatura na Universidade de Notre-Dame. Desde pequena, desejava tornar-se escritora. Já publicou contos longos, dois dos quais na New Yorker. Depois dos estudos, trabalhou na New York Literary Review, mas foi despedida em Setembro.

— Por que motivo?

— Dificuldades económicas, foi o que disseram. As coisas encadearam-se rapidamente: arranjou emprego no Orphea Chronicle e ­decidiu voltar a viver na região. Parecia contente por se afastar de Manhattan e reencontrar um cenário mais calmo.

Houve um instante de hesitação. O pai de Stephanie disse-me então:

— Capitão Rosenberg, acredite que não gostamos de incomodar a polícia por nada. Nunca teríamos lançado o alerta se não estivéssemos convencidos, eu e a minha mulher, de que se passa qualquer coisa de estranho. A polícia de Orphea explicou-nos que não há qualquer elemento tangível que aponte para algo de errado. Mas, mesmo quando ia a Nova Iorque e voltava no mesmo dia, a Stephanie enviava-nos sempre uma mensagem ou ligava no regresso para dizer que tudo correra bem. Por que razão enviaria uma mensagem ao seu chefe-de-redacção e não aos pais? Se não queria que nos preocupássemos, também nos teria enviado uma mensagem.

— A propósito de Nova Iorque — aproveitei — porque vai ­Stephanie tão regularmente a Manhattan?

— Eu não disse que ela faz essa viagem com frequência — precisou o pai — era apenas um exemplo.

— Não, ela vai lá muito — disse eu. — Por vezes nos mesmos dias e às mesmas horas. Como se tivesse um encontro regular. Que vai ela fazer?

Os Mailer não pareciam saber do que lhes estava a falar. Trudy, compreendendo que não conseguira convencer-me da gravidade da situação, perguntou:

— Já foi ao apartamento dela, capitão Rosenberg?

— Não, gostaria de o ter feito, mas a porta estava fechada, e não tinha a chave.

— Quer ir lá dar uma vista de olhos agora? Talvez consiga descobrir qualquer coisa que nós não vimos.

Aceitei com o único objectivo de fechar este dossiê. Uma vista de olhos em casa de Stephanie acabaria por me convencer de que a polícia de Orphea tinha razão: não havia qualquer elemento que pudesse fazer pensar num desaparecimento preocupante. Stephanie podia ir a Los Angeles e a Nova Iorque sempre que quisesse. Quanto ao seu trabalho no Orphea Chronicle, podíamos perfeitamente considerar que, depois de ficar no desemprego, aproveitara uma oportunidade, enquanto esperava por um emprego melhor.

Eram 20 horas em ponto quando chegámos à entrada do prédio de Stephanie, em Bendham Road. Subimos os três até ao apartamento. Trudy Mailer entregou-me a chave para que abrisse a porta, mas, quando a girei na fechadura, senti uma resistência. A porta não estava fechada à chave. Senti uma poderosa descarga de adrenalina: estava alguém lá dentro. Seria Stephanie?

Pressionei a maçaneta devagar, e a porta ficou entreaberta. Fiz sinal aos Mailer para ficarem em silêncio. Empurrei levemente a porta, que se abriu sem ruído. Vi imediatamente a desordem espalhada pela sala: alguém viera procurar alguma coisa.

— Desçam — murmurei aos pais. — Voltem para o carro e esperem por mim.

Dennis Mailer fez que sim com a cabeça e levou a mulher consigo. Eu peguei na minha arma e dei alguns passos no apartamento. Estava tudo de pernas para o ar. Comecei por inspeccionar a sala: as estantes caídas, as almofadas do sofá esventradas. Chamaram-me a atenção diversos objectos espalhados pelo chão, e não reparei na silhueta ameaçadora que se aproximava por trás de mim, em silêncio. Ao virar-me para ir observar o estado das outras divisões, deparei com uma sombra que me aspergiu o rosto com um spray lacrimogéneo. Os olhos ardiam, não conseguia respirar. Dobrei-me para a frente, cego. Fui atingido por um golpe.

Pano negro, perdi os sentidos.

20 horas e cinco minutos no Café Athéna.

Diz-se que o Amor chega sempre sem aviso, mas já se tornara evidente que o Amor decidira ficar em casa essa noite, infligindo um jantar penoso a Anna. Havia uma hora que Josh falava sem parar. O seu monólogo era uma proeza. Já sem o ouvir, Anna divertia-se a contabilizar os eu e os me que lhe saíam da boca como pequenas baratas que a enojavam cada vez mais. Lauren, que já não sabia onde se meter, enchera o seu quinto copo de vinho branco, enquanto Anna se contentava com cocktails sem álcool.

Finalmente, sem dúvida cansado das suas próprias palavras, Josh pegou num copo de água e engoliu-o de um trago, o que o forçou a calar-se. Após esse bem-vindo instante de silêncio, virou-se para Anna e perguntou-lhe num tom empertigado: «E tu, Anna, o que fazes na vida? A Lauren não me quis dizer.» Nesse momento preciso, o telefone de Anna tocou. Ao ver o número que surgia no ecrã, compreendeu imediatamente que se tratava de uma urgência.

— Lamento imenso — desculpou-se —, mas tenho de atender esta chamada.

Levantou-se da mesa, afastou-se um pouco, mas voltou rapidamente, anunciando que, com muita pena sua, teria de se ir embora.

— Já? — lamentou Josh, visivelmente desiludido. — Nem sequer tivemos tempo para nos conhecermos.

— Eu fiquei a saber tudo de ti, foi… apaixonante.

Beijou Lauren e o marido, despediu-se de Josh com um gesto da mão que significava «Até nunca!» e abandonou rapidamente a esplanada. Deve ter caído no goto do pobre Josh, porque ele foi atrás dela, acompanhando-a enquanto ela seguia pelo passeio.

— Queres que te deixe em algum lado? — perguntou-lhe ele. ­— Tenho um…

— Mercedes descapotável — interrompeu ela. — Eu sei, já mo disseste duas vezes. Obrigado, mas eu estacionei aqui.

Anna abriu o porta-bagagens do seu automóvel, enquanto Josh continuava parado atrás dela.

— Eu depois peço o teu número à Lauren — disse ele. — Estou muitas vezes por perto, podemos beber um café.

— Muito bem — respondeu Anna, para que ele se fosse embora, ao mesmo tempo que abria um grande saco de lona guardado no porta-bagagens.

— Na verdade, não chegaste a dizer-me qual é a tua profissão.

Quando ele terminou a frase, Anna retirou do saco um colete à prova de balas e vestiu-o. Enquanto o ajustava ao corpo, viu Josh franzir os olhos e fixar a faixa reflectora na qual estava inscrita, em letras maiúsculas, a palavra:

POLÍCIA

— Sou a chefe-adjunta da polícia de Orphea — disse ela, enquanto tirava o coldre com a arma, colocando-o à cintura.

Josh olhava para ela, atordoado e incrédulo. Ela entrou no carro à paisana e arrancou em aceleração, fazendo brilhar, na noite que caía, os relâmpagos azuis e vermelhos das luzes giratórias, antes de ligar a sirene, chamando a atenção dos transeuntes.

Segundo a central, um agente da polícia estadual acabara de ser agredido num edifício das redondezas. Todas as patrulhas disponíveis, bem como o oficial de piquete, tinham sido chamadas a intervir.

Desceu a rua principal a toda a velocidade: os peões que atravessavam naquele momento voltaram para trás, para o refúgio do passeio, e, nos dois sentidos do trânsito, os automóveis encostaram-se de lado para a deixarem passar. Ela guiava pelo meio da estrada, o mais depressa que conseguia. Tinha a experiência dos alertas durante a hora de ponta, em Nova Iorque.

Ao chegar ao prédio, uma patrulha já estava no local. Na entrada, deu de caras com um dos colegas a descer as escadas, que lhe gritou:

— O suspeito fugiu pela porta das traseiras!

Anna atravessou o rés-do-chão até à saída de emergência, na parte de trás do edifício, que dava para uma ruela deserta. Reinava ali um estranho silêncio: manteve-se atenta, à escuta de um som qualquer, antes de retomar a corrida que a levou até um pequeno parque deserto. De novo, silêncio total.

Julgou ouvir um barulho no meio da vegetação: sacou da arma e entrou no parque. Nada. De repente, uma sombra passou a correr. Lançou-se atrás dela, mas rapidamente lhe perdeu o rasto. Acabou por se deter, desorientada e sem fôlego. Sentia o sangue a martelar-lhe nas têmporas. Escutou um ruído por detrás de uns arbustos: aproximou-se lentamente, com o coração a bater. Viu uma sombra, avançando com passos suaves. Esperou pelo momento propício e depois saltou-lhe ao caminho, apontando a arma ao suspeito e ordenando-lhe que ficasse quieto, onde estava. Era Montagne, que lhe apontava também a sua arma.

— Foda-se, Anna, és maluca? — gritou ele.

Anna suspirou e guardou a arma no coldre, enquanto se dobrava para recobrar o fôlego.

— Montagne, o que fazes aqui?

— Eu é que pergunto! Não estás de serviço esta noite!

Na qualidade de chefe-adjunto, Montagne era tecnicamente o seu superior hierárquico. Ela não era mais do que um segundo adjunto.

— Estou de piquete — explicou Anna. — A central ligou-me.

— E eu que estava quase a encurralá-lo! — indignou-se Montagne.

— Encurralá-lo? Cheguei antes de ti. Só havia uma patrulha à frente do prédio.

— Eu passei pela rua das traseiras. Devias ter dado a tua posição pela rádio. É o que os membros de uma equipa fazem. Comunicam as informações, não se armam em heróis.

— Estava sozinha, não tinha rádio.

— Mas tens no teu carro, não? És impossível, Anna! Desde o primeiro dia, só sabes chatear toda a gente!

Cuspiu para o chão e voltou para o prédio. Anna seguiu-o. Em Bendham Road, havia agora veículos de emergência por todo o lado.

— Anna! Montagne! — chamou o chefe Ron Gulliver, quando os viu chegar.

— Perdemo-lo, chefe — resmungou Montagne. — Estava quase a apanhá-lo, mas a Anna fez merda, como sempre.

— Vai-te foder, Montagne! — gritou ela.

— Vai-te foder tu, Anna! — ripostou ele. — Podes pôr-te a andar, este assunto é comigo!

— Não, é comigo! Cheguei antes de ti.

— Faz um favor a todos nós e desaparece!

Anna virou-se para Gulliver, olhando-o como testemunha do que se estava a passar.

— Chefe… importa-se de intervir?

Gulliver detestava conflitos.

— Tu não estás de serviço, Anna — disse ele com uma voz calma.

— Estou de piquete!

— Deixa o assunto para o Montagne — rematou Gulliver.

Montagne fez um sorriso de triunfo e dirigiu-se ao prédio, deixando Anna com Gulliver.

— Não é justo, chefe! E deixa que o Montagne fale comigo desta maneira?

Gulliver não queria ouvir mais nada.

— Por favor, Anna, não faças uma cena! — pediu-lhe com delicadeza. — Está toda a gente a olhar. Preciso de tudo menos disto agora.

Lançou à jovem mulher um olhar curioso e depois perguntou-lhe:

— Estavas num encontro?

— O que o leva a dizer isso?

— Puseste batom.

— Uso muitas vezes batom.

— Pois, mas é diferente. Estás com cara de quem estava a meio de um encontro. Porque não voltas para lá? Vemo-nos amanhã, na esquadra.

Gulliver dirigiu-se para o prédio, deixando-a completamente sozinha. Ouviu então uma voz que chamava por ela e virou a cabeça. Era Michael Bird, o chefe-de-redacção do Orphea Chronicle.

— Anna — perguntou-lhe ao chegar perto dela —, o que se passa aqui?

— Não tenho comentários a fazer — respondeu ela. — Não estou encarregada de nada.

— Pois estarás em breve — sorriu ele.

— Que queres dizer?

— Bem, estarás quando assumires a direcção da polícia da cidade! Era por isso que estavas a discutir com o chefe-adjunto Montagne?

— Não sei do que estás a falar, Michael.

— A sério? — respondeu ele, com um ar falsamente espantado. Toda a gente sabe que vais ser o próximo chefe da polícia.

Ela afastou-se sem responder e voltou para o automóvel. Despiu o colete à prova de balas, atirou-o para o banco de trás e arrancou. Podia ter regressado ao Café Athéna, mas não tinha vontade nenhuma. Entrou em casa e instalou-se no alpendre, com um copo e um cigarro, aproveitando a noite amena.

Anna Kanner

Cheguei a Orphea num sábado, 14 de Setembro de 2013.

De Nova Iorque, foram só duas horinhas de caminho, mas tinha a sensação de ter atravessado o globo. Dos arranha-céus de Manhattan tinha passado para esta pequena cidade tranquila, banhada por um sol ameno de fim do dia. Depois de subir a rua principal, atravessei o meu novo bairro para chegar à casa que havia alugado. Circulava devagar, observando os transeuntes, as crianças que se aglomeravam diante da carrinha dos gelados, os cidadãos conscienciosos que cuidavam dos canteiros. Reinava uma calma absoluta.

Cheguei por fim a casa. Abria-se à minha frente uma nova existência. Os únicos vestígios da minha antiga vida eram os móveis, que trouxera de Nova Iorque. Abri a porta, entrei no apartamento e acendi a luz da entrada, até então mergulhada na obscuridade. Para meu espanto, descobri que o chão estava atravancado de caixotes. Percorri o rés-do-chão em passo de corrida: os móveis estavam ainda por desembalar, nada havia sido montado, as minhas coisas estavam todas ao monte, em caixas empilhadas de qualquer maneira nas várias divisões.

Telefonei logo para a empresa de mudanças que contratara. Mas a pessoa que me respondeu foi seca: «Acho que deve haver aqui um equívoco, senhora Kanner. Tenho o seu formulário à minha frente e constato que certamente o preencheu mal. O serviço que pediu não incluía desembalar nem arrumar.» E desligou. Saí de casa para não ver aquele caos e sentei-me nos degraus do alpendre. Estava de rastos. Uma silhueta apareceu, com uma garrafa de cerveja em cada mão. Era o meu vizinho, Cody Illinois. Já o tinha encontrado em duas ocasiões: no momento em que visitara a casa e, depois de assinar o contrato, quando viera preparar a mudança.

— Gostava de lhe dar as boas-vindas, Anna.

— É simpático da sua parte — respondi, sem grande entusiasmo.

— Não me parece lá muito bem-disposta.

Encolhi os ombros. Passou-me uma cerveja e sentou-se ao meu lado. Expliquei-lhe as desventuras com a empresa de mudanças, ele propôs ajudar-me a desembalar as coisas, e alguns minutos depois estávamos a montar a cama no que devia ser o meu quarto. Perguntei-lhe então:

— O que devo fazer para me integrar aqui?

— Não tem de se preocupar com isso, Anna. As pessoas vão gostar de si. E pode sempre oferecer-se como voluntária no festival de teatro, no próximo Verão. É um acontecimento que une muito as pessoas.

Cody foi a primeira pessoa com quem me dei em Orphea. Era dono de uma livraria maravilhosa na rua principal, que se tornou rapidamente uma espécie de segunda casa para mim.

Naquela noite, depois de Cody partir e enquanto estava ocupada a desembalar os caixotes da roupa, recebi uma chamada do meu ex-marido.

— A sério, Anna? — disse-me ele assim que atendi. — Foste capaz de sair de Nova Iorque sem sequer me dizer adeus?

— Já te disse adeus há muito tempo, Mark.

— Ai! Isso magoa!

— Porque me telefonas?

— Tinha vontade de te falar.

— Mark, não tenho vontade de «falar». Não vou voltar para ti. Acabou.

Ele ignorou o que eu disse.

— Jantei com o teu pai esta noite. Foi formidável.

— Deixa o meu pai em paz, está bem?

— Tenho culpa de ele me adorar?

— Porque me fazes isto, Mark? Para te vingares?

— Estás de mau humor, Anna?

— Sim, estou de mau humor! Tenho os móveis em peças separadas, que não sei como montar, tenho por isso coisas melhores para fazer do que ficar a ouvir-te!

Arrependi-me logo destas palavras, porque ele aproveitou a oportunidade e ofereceu-se para vir em meu socorro.

— Precisas de ajuda? Já estou no carro, vou aí ter!

— Não, nem pensar!

— Chego em duas horas. Passaremos a noite a montar os teus móveis e a refazer o mundo… Como nos bons velhos tempos.

— Mark, estás proibido de vir.

Terminei a chamada e desliguei o telemóvel para ter um pouco de paz. Na manhã seguinte, uma surpresa desagradável: o Mark a bater-me à porta.

— O que fazes aqui? — perguntei com um tom agressivo, ao abrir.

Ele dirigiu-me um grande sorriso.

— Que acolhimento tão caloroso! Vim ajudar-te.

— Quem te deu a morada?

— A tua mãe.

— Oh, não pode ser, vou matá-la!

— Anna, ela sonha com a nossa reconciliação. Quer ter netinhos!

— Adeus, Mark.

Ele reteve a porta no momento em que me preparava para a fechar na sua cara.

— Espera, Anna: deixa-me ao menos ajudar-te.

Precisava demasiado de uma ajuda para recusar a oferta. E depois, a verdade é que ele estava ali. Ofereceu-me o espectáculo do homem perfeito: transportou os móveis, colocou os quadros na parede e instalou um candelabro.

— Vais viver aqui completamente sozinha? — acabou por me perguntar entre duas perfurações com a broca.

— Sim, Mark. É aqui que começa a minha nova vida.

A segunda-feira seguinte marcou o meu primeiro dia na esquadra. Eram oito da manhã quando me apresentei no balcão de atendimento, vestida à civil.

— É para apresentar uma queixa? — perguntou o agente, sem levantar o nariz do jornal.

— Não, respondi. Sou a vossa nova colega.

Ele pousou os olhos em mim, sorriu e depois gritou para dentro: «Ei malta, a rapariga chegou!» Vi aparecer um pelotão de agentes que me observavam como se eu fosse um animal raro. O chefe Gulliver avançou e estendeu-me uma mão amiga: «Bem-vinda, Anna.»

Fui calorosamente recebida. Cumprimentei um a um os meus novos colegas, trocámos algumas palavras, ofereceram-me café, fizeram-me muitas perguntas. Alguém disse alegremente em voz alta: «Malta, vou começar a acreditar no Pai Natal: um velho polícia murcho entra na reforma e é substituído por uma jovenzinha sublime.» Desataram todos a rir. Infelizmente, a atmosfera descontraída não ia durar muito.

Jesse Rosenberg

Sexta-feira, 27 de Junho, 2014

29 dias antes da estreia

Logo de manhãzinha, pus-me a caminho de Orphea.

Precisava de compreender o que acontecera na véspera, no apartamento de Stephanie. Para o chefe Gulliver, tratara-se de um simples assalto. Eu não acreditava nisso nem um bocadinho. Os colegas da polícia forense ficaram até de madrugada à procura de impressões digitais, mas não encontraram nada. Pela minha parte, a julgar pela violência do golpe, inclinava-me fortemente para a ideia de que o agressor fora um homem.

Era preciso encontrar Stephanie. Sentia que o tempo começava a escassear. Circulando agora pela estrada 17, acelerei na última recta antes de chegar à cidade, sem ter ligado as luzes giratórias nem a sirene.

Foi só quando passei pelo painel rodoviário que marcava o limite de Orphea que reparei na viatura descaracterizada da polícia que se escondia atrás dele. Começou imediatamente a perseguir-me. Encostei à berma e vi no meu retrovisor uma bela e jovem mulher fardada, saindo da viatura e caminhando na minha direcção. Estava prestes a conhecer a primeira pessoa que iria aceitar ajudar-me na resolução deste caso: Anna Kanner.

Vendo que ela se aproximava da janela aberta, mostrei-lhe o distintivo de polícia, sorrindo.

— Capitão Jesse Rosenberg — leu ela no meu cartão. — Uma urgência?

— Creio que a vi ontem brevemente na Bendham Road. Sou o polícia que levou uma cacetada.

— Chefe-adjunta Anna Kanner — apresentou-se a jovem mulher. — Como está a sua cabeça, capitão?

— A minha cabeça está óptima, obrigado. Mas confesso-lhe que estou perplexo com o que se passou no apartamento. O chefe Gulliver diz que se tratou de um assalto, mas não acredito. Pergunto-me se não me terei metido num caso complicado.

— O Gulliver é um idiota dos grandes — disse Anna. — Fale-me antes do seu caso, interessa-me.

Compreendi que Anna poderia ser uma aliada preciosa em Orphea. Descobriria depois que era, para além disso, uma agente excepcional. Propus-lhe então:

— Anna, se permites que te trate por tu, posso oferecer-te um café? Vou contar-te tudo.

Alguns minutos mais tarde, à mesa de um pequeno diner à beira da estrada, expliquei a Anna que tudo começou quando Stephanie Mailer veio ter comigo no início da semana, para me falar de uma investigação que estava a fazer sobre o quádruplo homicídio de Orphea, em 1994.

— O que é isso do quádruplo homicídio de 1994? — perguntou Anna.

— O presidente da Câmara de Orphea e a família foram assassinados — expliquei-lhe. — Assim como uma mulher que passava perto, a fazer jogging. Uma verdadeira carnificina. Foi na noite da inauguração do festival de teatro de Orphea. Acabou por ser a minha primeira grande investigação. Na época, eu e o meu companheiro de equipa, Derek Scott, resolvemos o caso. Mas eis que, na passada segunda-feira, Stephanie me veio dizer que nos tínhamos enganado: a investigação não estava fechada, e erráramos ao apontar o culpado. Depois disso, desapareceu, e o seu apartamento foi visitado ontem.

Anna parecia muito intrigada com o meu relato. Após o café, dirigimo-nos os dois ao apartamento de Stephanie, fechado e selado, do qual os pais me haviam deixado a chave.

As salas tinham sido completamente reviradas, a desordem era total. O único elemento concreto de que dispúnhamos era o facto de a porta do apartamento não ter sido forçada.

Disse-lhe:

— Segundo os Mailer, o único duplicado era o que estava na sua posse. Isso significa que a pessoa que se introduziu aqui tinha as chaves de Stephanie.

Como me referira antes à mensagem enviada por Stephanie a Michael Bird, o chefe-de-redacção do Orphea Chronicle, Anna interrogou-se:

— Se alguém ficou com as chaves de Stephanie, pode também estar na posse do telemóvel.

— Estás a sugerir que não foi ela a enviar a mensagem? Nesse caso, quem poderá ter sido?

— Alguém que queria ganhar tempo.

Retirei do bolso de trás das calças o envelope recuperado, na véspera, da caixa de correio e entreguei-o a Anna.

— É o extracto do cartão de crédito de Stephanie — expliquei. — Ela fez uma viagem a Los Angeles no princípio do mês, e falta ainda perceber em que consistiu. Pelo que pude averiguar, não voltou a andar de avião. Se de facto partiu de sua livre vontade, foi de automóvel. Emiti um alerta geral com a matrícula do seu carro: se estiver a cir­cular por uma estrada qualquer, os polícias da brigada de trânsito vão encontrá-la rapidamente.

— Tu não brincas em serviço — disse Anna, impressionada.

— Não há tempo a perder. Fiz igualmente um pedido de acesso aos seus registos de chamadas e movimentos bancários dos últimos meses. Espero recebê-los logo à noite.

Anna lançou um olhar rápido ao extracto.

— O cartão de crédito foi utilizado pela última vez na segunda-feira, às 21 horas e 55 minutos, no Kodiak Grill. É um restaurante que fica na rua principal. Devíamos ir lá. Pode ser que alguém tenha visto alguma coisa.

O Kodiak Grill ficava situado no topo da rua principal. O gerente, depois de consultar a planificação da semana, indicou-nos quem, de entre os funcionários presentes, estivera de serviço na segunda à noite. Uma das empregadas de mesa que interrogámos reconheceu Stephanie na fotografia que lhe apresentámos.

— Sim — disse-nos —, lembro-me dela. Esteve cá no início da semana. Uma rapariga bonita, sozinha.

— Há algum pormenor em particular que a distinga de tantos clientes que passam por aqui todos os dias?

— Não era a primeira vez que vinha. Costuma pedir sempre a mesma mesa. Diz que está à espera de alguém que depois nunca aparece.

— E na segunda-feira, o que se passou?

— Chegou por volta das seis da tarde, no início do serviço. E esperou. Acabou por pedir uma salada César e uma coca-cola e depois foi-se embora.

— Cerca das 22 horas, certo?

— É possível. Não me recordo da hora exacta, mas sei que ficou muito tempo. Pagou e partiu. É do que me consigo lembrar.

Ao sair do Kodiak Grill, reparámos que o edifício vizinho era uma agência bancária com multibanco.

— Deve ter certamente câmaras — disse Anna. — Talvez Stephanie tenha sido filmada na segunda-feira.

Alguns minutos mais tarde, estávamos no gabinete estreito de um segurança do banco, que nos mostrava o campo de visão das diferentes câmaras do edifício. Uma filmava o passeio e dava para ver a esplanada do Kodiak Grill. Passou os registos vídeo de segunda-feira a partir das 18 horas. Observando os transeuntes que desfilavam no ecrã, vi-a de repente.

— Pare! — gritei. — É ela, é a Stephanie.

O segurança parou a imagem.

— Agora, volte lentamente para trás — pedi-lhe.

No ecrã, Stephanie andava às arrecuas. O cigarro que mantinha entre os lábios voltava à forma original, e depois ela acendia-o com um isqueiro dourado, pegava-lhe com os dedos e colocava-o num maço de cigarros, logo guardado no saco. Continuava a recuar, alterando a sua trajectória sobre o passeio até chegar a um pequeno automóvel compacto azul, no qual entrava.

— É o automóvel dela — disse eu. — Um Mazda de três portas, azul. Vi-a entrar nele na segunda-feira, no parque de estacionamento do centro regional da polícia estadual.

Pedi ao segurança para voltar a passar a sequência no sentido correcto, e vimos Stephanie sair do carro, acender um cigarro, fumá-lo enquanto dava alguns passos, antes de se dirigir ao Kodiak Grill.

Avançámos depois a gravação até às 21 horas e 55 minutos, a hora a que Stephanie pagou o seu jantar com o cartão de crédito. Ao fim de dois minutos, vimo-la aparecer de novo, caminhando até ao carro em passo nervoso. No momento de entrar, tirou o telemóvel da mala. Alguém lhe ligava. Ela respondeu, a chamada foi breve. Aparentemente, não falava, ouvia apenas. Depois de desligar, sentou-se no habitáculo e ficou imóvel por um instante. Podíamos vê-la distintamente através do vidro do automóvel. Procurava um número nos seus contactos e depois ligou, mas interrompeu logo a chamada. Como se a comunicação não fosse possível. Esperou então cinco minutos, sentada ao volante. Parecia tensa. Depois, fez uma segunda chamada: desta vez conseguimos ver que falava. O diálogo durou uns vinte segundos. Finalmente, ligou o motor e desapareceu em direcção a norte.

— Eis aquela que é possivelmente a última imagem de Stephanie Mailer — murmurei.

Passámos metade da tarde a interrogar os amigos da Stephanie. A maioria vivia em Sag Harbor, de onde ela era originária.

Nenhum deles tivera notícias de Stephanie desde segunda-feira, e todos estavam preocupados. Tanto mais que os Mailer também lhes haviam ligado, o que só aumentara a sua inquietação. Tinham tentado entrar em contacto com ela, por telemóvel, por e-mail, através das redes sociais, batendo-lhe à porta, mas sem sucesso.

Destas conversas concluímos que Stephanie era uma jovem mulher que parecia absolutamente normal. Não se drogava, não bebia demais e entendia-se bem com toda a gente. Os amigos sabiam mais sobre a sua vida íntima do que os pais. Uma das amigas disse-nos que lhe conhecera um namorado recentemente:

— Sim, havia um tipo, um certo Sean que veio com ela numa saída. Era estranho.

— O que é que era estranho?

— A química entre eles. Alguma coisa não batia certo.

Outra disse-nos que Stephanie andava mergulhada no trabalho:

— Quase já não víamos a Stephanie nos últimos tempos. Dizia sempre que tinha muita coisa para fazer.

— E em que trabalhava ela?

— Não faço ideia.

Uma terceira falou-nos da ida a Los Angeles:

— Sim, ela fez uma viagem a Los Angeles há 15 dias, mas pediu-me para não falar nisso.

— Qual era o propósito da viagem?

— Não faço ideia.

O último dos amigos a falar com ela foi Timothy Volt. Viram-se no domingo à noite.

— Ela veio a minha casa — explicou-nos. — Eu estava sozinho, bebemos uns copos.

— Pareceu-lhe que ela estava nervosa, inquieta?

— Não.

— Que tipo de rapariga é a Stephanie?

— Uma rapariga impecável, ultra-brilhante, mas com um feitio difícil, e muito teimosa. Quando se agarra a uma ideia, nunca mais a larga.

— Ela mantinha-vos ao corrente daquilo em que estava a trabalhar?

— Um pouco. Dizia estar envolvida num grande projecto, mas sem entrar em detalhes.

— Que tipo de projecto?

— Um livro. Aliás, foi por isso que ela voltou para cá.

— Como assim?

— A Stephanie é muito ambiciosa. Sonha tornar-se uma escritora famosa e vai lá chegar. Colaborava com uma revista literária até Setembro… Não me estou a lembrar do nome…

— Sim, a New York Literary Review.

— Isso, é isso. Mas era apenas um biscate para pagar as contas. Quando foi despedida, quis voltar aos Hamptons para ter uma vida mais calma e poder escrever. Lembro-me que um dia me disse: «Se estou aqui, é para escrever um livro.» Acho que precisava de tempo e de tranquilidade. E, se não fosse por isso, porque haveria de aceitar um emprego como freelancer num jornal local? Oiçam o que vos digo, ela é muito ambiciosa. Aponta para a Lua. Se veio para Orphea, é porque tem uma razão forte. Talvez tivesse dificuldade em concentrar-se na agitação de Nova Iorque. Os escritores mudarem-se para o campo é coisa que acontece muito, não é?

— Onde é que ela escrevia?

— Em casa, imagino.

— No computador?

— Isso não sei. Porquê?

Ao sair da casa de Timothy Volt, Anna fez-me notar que não havia computador em casa de Stephanie.

— A menos que o visitante de ontem à noite o tenha levado

— disse eu.

Aproveitámos o facto de estarmos em Sag Harbor para visitar os pais de Stephanie. Nunca tinham ouvido falar do amiguinho chamado Sean, e a filha não deixara nenhum computador com eles. Por precaução, pedimos para espreitar o quarto de Stephanie. Não fora ocupado desde o fim do liceu e permanecia intacto: os pósteres nas paredes, os troféus de campeonatos desportivos, os peluches em cima da cama e os livros da escola.

— Já há anos que a Stephanie não dorme aqui — explicou-nos Trudy Mailer. — Depois do liceu, foi para a universidade, e ficou em Nova Iorque até ser despedida da New York Literary Review, em Setembro.

— Houve alguma razão precisa que tenha levado Stephanie a instalar-se em Orphea? — perguntei, sem desvendar o que Timothy Volt me confiara.

— Como lhe disse ontem, ela perdeu o emprego em Nova Iorque e tinha vontade de regressar aos Hamptons.

— Mas porquê Orphea? — insisti.

— Por ser a maior cidade da região, suponho.

Atrevi-me a perguntar:

— E em Nova Iorque, senhora Mailer, teria a Stephanie inimigos? Estava em conflito com alguém?

— Não, nada desse tipo.

— Ela vivia sozinha?

— Partilhava casa com uma rapariga que também era colaboradora na New York Literary Review. Alice Filmore. Cruzámo-nos com ela uma vez, quando fomos ajudar a Stephanie a trazer os seus poucos móveis, depois de se decidir a abandonar Nova Iorque. Era só meia dúzia de coisas, trouxemos tudo directamente para o apartamento de Orphea.

Não tendo encontrado nada na casa de Stephanie, nem na dos pais, decidimos regressar a Orphea e consultar o seu computador na redacção do Orphea Chronicle.

Eram cinco da tarde quando chegámos ao jornal. Foi Michael Bird que nos guiou pelas instalações. Apontou-nos a secretária de Stephanie, bem arrumada, sobre a qual estavam pousados um ecrã de computador, um teclado, uma caixa de lenços de papel, uma quantidade astronómica de esferográficas idênticas, metidas numa caneca de chá, um bloco de notas e alguns papéis avulsos. Consultei-os rapidamente sem encontrar nada de relevante, antes de perguntar:

— É possível que alguém tenha acedido a este computador nos últimos dias, enquanto ela esteve ausente?

Ao mesmo tempo que falava, carreguei no botão que supostamente ligaria a máquina.

— Não — respondeu Michael —, os computadores estão protegidos por uma palavra de código individual.

Como o computador não ligava, carreguei novamente no botão, sem deixar de interrogar Michael:

— Não há então qualquer possibilidade de alguém ter consultado o computador de Stephanie sem o seu conhecimento?

— Nem pensar — assegurou Michael. — Só a Stephanie tem a palavra-chave. Mais ninguém. Nem sequer o técnico informático. Aliás, não sei como vai consultar esse computador se não tem a palavra-chave.

— Temos especialistas que se encarregarão disso, não se preocupe. Mas agora só o queria pôr a funcionar.

Baixei-me e espreitei debaixo da secretária, para verificar se a torre do computador estava ligada à electricidade, mas não havia torre do computador. Não havia nada.

Levantei a cabeça e perguntei:

— Onde está o computador da Stephanie?

— Aí debaixo, não? — respondeu-me Michael.

— Não, não há nada!

Michael e Anna baixaram-se ao mesmo tempo para constatar que só restavam cabos pendurados no vazio. E Michael, meio atordoado, pôs-se a gritar:

— Alguém roubou o computador da Stephanie!

Às seis e meia da tarde, vários veículos da polícia de Orphea e da polícia estadual estavam estacionados desordenadamente em volta do edifício do Orphea Chronicle.

No interior, um membro da brigada científica confirmou-nos que ocorrera efectivamente um assalto com furto de material. Acompanhado por Michael e Anna, segui o técnico até um local na cave que servia de arrecadação e saída de emergência. Ao fundo da sala, uma porta dava para uma escada que descia para a rua. O vidro da janela estava partido, e havia espaço suficiente para meter a mão e ter acesso à maçaneta.

— Nunca vem a esta sala? — perguntei a Michael.

— Nunca. Ninguém vem à cave. Aqui só estão os arquivos, que nunca são consultados.

— E não há alarme ou câmaras de vigilância? — perguntou Anna.

— Não. Quem é que ia pagar isso? Acreditem, se houvesse dinheiro para gastar, ia logo para a reparação das canalizações.

— Tentámos encontrar pistas nas maçanetas — explicou o polícia da brigada científica —, mas há uma sobreposição de impressões digitais e impurezas de vários tipos. Ou seja, é tudo inconclusivo. Também não encontrámos nada em volta da secretária de Stephanie. A meu ver, ele entrou por esta porta, foi até lá acima e sacou o computador, antes de sair pelo mesmo caminho.

Regressámos à redacção.

— Michael — avancei eu —, acha que um dos vossos jornalistas poderia ter feito isto?

— Claro que não! — indignou-se Michael. — Como pode imaginar uma coisa dessas? Tenho absoluta confiança nos meus jornalistas.

— Então co ...